Ciclofaixa na SC-401: Deinfra diz que está dentro das normas. Ciclistas protestam.

9 fevereiro 2012

Desde a semana anterior à inauguração da duplicação da rodovia SC-401, trecho entre o trevo de Jurerê e Canasvieiras, tenho ouvido constantes reclamações de todo tipo de ciclista e cidadão possível quanto à ciclofaixa.

Moradores da região contam que fizeram o recuo dos terrenos e esperavam uma obra decente, tal qual uma ciclovia. Ciclistas esportistas, em especial atletas que competem no triatlo, reclamam da impossibilidade de ultrapassagem segura e do perigo constante que é tocarem os tachões que dividem a ciclofaixa do acostamento.

Ciclistas cotidianos, por sua vez, reclamam da falta de critérios. Para as pistas, foram mantidas a distância de 3,5m para cada faixa de rolamento. O acostamento, diminuto, ficou com 1,5m e a ciclofaixa unidirecional, com outros 1,5m.

Os problemas, apontados pelos próprios ciclistas estão nas pontes e no elevado próximo à comunidade de Vargem Pequena, além do próprio tipo de via ciclística. As recomendações para vias cujas velocidades sejam superiores a 50km/h é a construção de ciclovia, segregada espacialmente por uma barreira física da pista de rolamento de veículos automotores. O tratamento dado também no elevado foi considerado pífio e completamente inadequado.

É interessante que nos últimos três anos, Florianópolis sediu três grandes eventos sobre mobilidade, com profissionais renomados mundialmente: Semana Internacional da Bicicleta (2009), Fórum Internacional sobre Mobilidade nas Cidades (2010) e Fórum das Américas sobre Mobilidade nas Cidades (2011). Em nenhum deles houve a presença de profissionais do DEINFRA. Daí resulta o desconhecimento técnico desse órgão em lidar com a mobilidade urbana como um todo, de forma integrada.

Guillermo Peñalosa, da 8-80 Cities, afirmou que devemos pensar a cidade para todas as pessoas, sejam elas de 8 ou até de 80 anos. Se você deixar o seu filho ou o seu pai sair à rua, com o modal possível a eles, sem se preocupar com a questão da violência no trânsito, então você terá uma cidade acessível. Deve-se planejar a cidade dessa maneira, afinal!

Infelizmente, não é esse o caso da ciclofaixa da SC-401. Não dá para se considerar seguro um trecho como aquele. No Brasil mesmo, temos o exemplo de Praia Grande, que modificou a forma de as bicicletas transitarem em ambas as marginais da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega (SP-55), tornando muito mais seguro e eficiente tanto a mobilidade por bicicleta quanto pelo automóvel.

Nas oficinas técnicas da Semana Internacional da Bicicleta, o renomado arquiteto brasileiro Antonio Carlos de Mattos Miranda propôs uma solução à Via Expressa (BR-282) para o tráfego de ciclistas, com ciclovia abaixo do nível das pistas, de forma a evitar que ciclistas sejam atingidos por qualquer saída de pista de um ébrio motorista.

Recentemente, o presidente do Departamento Estadual de Infraestrutura (DEINFRA), Paulo Roberto Meller, afirmou que a ciclofaixa da SC-401 estava dentro das normas. Hoje, disse ainda que se alguém falar que estava fora da norma, que lhe provasse e afirmou ainda haver um grupo criando polêmica sobre a rodovia.

De fato, há um grupo criando uma polêmica: o grupo dos que viram uma via ciclística mal projetada, o grupo dos arquitetos e engenheiros que pensam a cidade como um todo, o grupo dos especialistas estrangeiros, não entendendo como, após tantas horas dedicadas a passar instruções num país terceiromundista, vêm uma obra ser finalizada da maneira como foi e, por fim, o grupo dos ciclistas que se viram PREJUDICADOS por uma ciclofaixa que não atende aos verdadeiros fins da mobilidade urbana por bicicleta.

Visando a ilustrar toda essa situação, os florianopolitanos não puderam deixar de se manifestar sobre a irônica situação em que se depararam:

Por hora, sem uma percepção detalhada de toda a obra, mas com o projeto executivo em mãos, o Bicicleta na Rua aponta já o primeiro erro do projeto, elaborado pela empresa SOTEPA – Sociedade Técnica de Estudos, Projetos e Assessoria. A pista é tratada nominalmente como ciclovia, mesmo sendo oficialmente uma ciclofaixa. A diferença entre ambos encontra-se em leis tanto federais, quanto estaduais e municipais. Mais uma prova de que os ciclistas foram relegados a escanteio. Mais uma vez.

Atualizado em 13 de fevereiro de 2012, às 23h45.

Saiba mais:

SC-401, a Rodovia da Morte para ciclistas – reportagem do Jornal Notícias do Dia revela a preocupação com a circulação de bicicleta na rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina.
Notas sobre a reunião pelo fim da impunidade no trânsito – Sociedade civil, mobilizada, divulga novas informações sobre o acidente.
(Vídeo) Acidente na SC-401 no RBS Notícias – Conteúdo da RBS TV SC.
Acorda Floripa! – Depoimento do triatleta André Puhlmann, que estava pedalando próximo ao local do acidente.
Vídeo e mais comentários sobre a entrevista acerca dos ciclistas atropelados na SC-401 – Conteúdo comentado do Jornal do Almoço.
Comentários e impressões sobre a entrevista sobre o acidente com ciclistas no Jornal do Almoço – Primeira parte dos comentários sobre o vídeo do Jornal do Almoço.
Mais um ciclista morre na SC-401  – Divulgação do último acidente no Jornal Notícias do Dia.
Motorista embriagado que matou ciclista no Jurerê vai a júri popular – Moacir Pereira divulga o andamento do processo do triatleta Rodrigo Machado Lucianetti.
Dois exemplos de por que devem ser feitas ciclovias em vez de ciclofaixas nas rodovias – Desrespeito às normas técnicas de segurança no trânsito põem em risco a vida de usuários da bicicleta.
A mobilidade na Ilha – Editorial do Diário Catarinense fala sobre a rodovia e a mobilidade.
SC-401 oferece ainda mais riscos aos ciclistas neste verão – A liberação consentida da Polícia Militar Rodoviária para automóveis usarem o acostamento coloca em risco a vida de ciclistas.
Ciclistas mortos na Grande Florianópolis após a vigência da Lei Seca – Relação, infelizmente já desatualizada, dos ciclistas que morreram atropelados na região.
A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados - Conteúdo do Bicicleta na Rua já previa, em 2009, que mais acidentes como os deste fim-de-semana aconteceriam se não houvesse um redirecionamento dos investimentos e das prioridades.

Veja também:

Charge – Pedalando com segurança na SC-401



(Mobilidade nas Cidades) Florianópolis será premiada por revitalização nos Ingleses

13 maio 2011
A matéria abaixo foi publicada originalmente pela Prefeitura Municipal de Florianópolis, em 27 de abril de 2011, neste link.

Prefeitura recebe prêmio na Alemanha

Premiação – ações de transporte alternativo – acontece no 5º Congresso Mundial de Mobilidade Urbana em Stuttgart, na Alemanha, em julho.

Florianópolis foi uma das cidades escolhidas pelo programa Cities For Mobility para receber premiação no 5º Congresso Mundial de Mobilidade Urbana, que acontece de três a cinco de Julho em Stuttgart, na Alemanha.

O relações pública da cidade que vai sediar o evento,  Patrick Daude, esteve hoje no gabinete do vice-prefeito e secretário dos Transportes, Mobilidades e Terminais, João Batista Nunes, anunciando a premiação.

O vice-prefeito (à esquerda) e o alemão Patrick Daude. Foto: Mauro Vaz.

O prêmio confere ações de transporte alternativo desenvolvido pela prefeitura no balneário de Ingleses e que foi apresentado em Stuttgart, em 2009, na 3ª Conferência Mundial.

O cotidiano do balneário, com crianças usando a bicicleta para ir à aula,  mulheres ao salão de beleza, jovens  pedalando até  praia com a prancha de surf ao lado da bike reproduzido em VT empolgou  especialistas do mundo inteiro reunidos na conferência.

O vice-prefeito ficou satisfeito com a notícia e garantiu a presença da delegação da Prefeitura de Florianópolis, em julho, Stuttgart, durante o congresso mundial da mobilidade.

Após o encontro com o vice-prefeito, Patrick seguiu para o Teatro Pedro Ivo, onde está acontecendo o Fórum de Mobilidade Urbana.

No aniversário da cidade, prefeito Dário Berger (à direita) e secretário de governo, Gean Loureiro (ao centro), participaram de passeio ciclistico. Foto: Mauro Vaz.

Saiba mais:

(Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum

(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012


(Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum

11 maio 2011

O artigo abaixo foram originalmente publicadas na edição impressa do periódico Diário Catarinense, em 29 de abril de 2011 (pág. 3 do caderno Variedades). Você pode lê-lo no site do DC aqui.

Diário Catarinense

CONTEXTO

Escutai os gringos

Escrevo e envio este texto na terça-feira à noite, depois do primeiro dia do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Na quarta, haveria outra rodada de palestras, encerrando o evento.

Alguns dos maiores pesquisadores mundiais do assunto estavam no Teatro Pedro Ivo, expondo suas ideias cosmopolitas para uma plateia de pouco mais de cem pessoas sem “nenhum vereador ou prefeito da Grande Florianópolis”, como notou, no Jornal do Almoço, o repórter Rafael Faraco.

As falas foram inspiradoras. Não pretendo resumir um conteúdo tão complexo. Quero apenas lembrar alguns pontos para arrancar disso uma reflexão.

O inglês Rodney Tolley dirige o projeto Walk21. Sua defesa do ato de caminhar, longe de ser ingênua, é uma lufada de bom senso. Andar, lembra, não se trata apenas da ida de “a” para “b”, mas da exploração do que há pelo caminho. Ignorada no último século, a caminhada como séria opção de mobilidade urbana vive um renascimento, merecendo conferências pelo planeta e programas especiais em cidades como Londres, Nova York, Copenhague, Barcelona. Não é o caso de criar andarilhos, mas de incentivar caminhadas em distâncias razoáveis para colocar mais pessoas nas ruas, gerando ambientes gregários, saudáveis e seguros. As cidades engajadas fazem um grande levantamento de informações úteis para os pedestres, proíbem os carros em algumas vias aos domingos e assim por diante.

O holandês Ton Daggers falou das famosamente bem-sucedidas experiências do seu país com as bicicletas – inclusive as elétricas, cada vez mais difundidas por lá e aliás já disponíveis por aqui. Na Holanda, terra de 18 milhões de bikes para 16 milhões de habitantes, há cada vez mais cyclo routes, as rodovias para as bicicletas, muitas vezes paralelas às autoestradas. Há dois anos dirigi rapidamente por Amsterdã e, diante de estacionamentos de R$ 350/dia e olhares nativos de desprezo, percebi o que é o carro para eles. A hierarquia se inverte: pedestres e ciclistas, felizmente, mandam no território.

O alemão Niklas Sieber explorou a questão dos transportes coletivos – custos, novidades, prós e contras, ótimas e péssimas experiências de mobilidade em cidades diversas. Um dos termos do momento sobre o assunto é “ transporte multimodal”, a articulação entre diversos meios de locomoção. Pela manhã, na palestra de abertura do Fórum o colombiano Gil Peñalosa deixou um frase ecoando pelo ambiente: “Cada cidade encontra uma razão para dizer que não vai mudar”. Alheio a desculpas assim, ele e seu irmão Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, revolucionaram o transporte por aquelas bandas.

Nisso voltamos aos nossos políticos. Pois é, eles não estavam no evento. Devem considerar as ideias dos estudiosos muito ripongas para a nossa realidade. Lamento que pensem assim, mas compreendo por que isso acontece. Que estímulo tem um prefeito para ser arrojado em termos de mobilidade urbana e por exemplo taxar a circulação de automóveis pelo centro, se o apedrejaríamos por isso? A cultura local não ajuda. No Brasil, o ônibus é visto como um veículo para estudantes e semifracassados em geral. Ignora-se que na Europa um chefe de grande empresa vá trabalhar de metrô ou bicicleta pública.

Fui ao Fórum de ônibus, mas até hoje deixei bem menos o carro na garagem do que podia. Sou um egoísta idiota – e aposto que, nesse quesito, a maioria dos leitores desse texto também é. Fica então o convite para admitirmos que hábitos de vida inteira possam ser justamente os mais errados. Vamos lá: www.walk21.com.

Thiago Momm

Saiba mais:

(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012


(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

2 maio 2011

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no Jornal Notícias do Dia, edição de Florianópolis, em 26 de abril de 2011 (pág. 4). Alguns pequenos equívocos foram corrigidos no próprio texto. Você pode também ler a matéria original na íntegra em .pdf: {pág. 4}  {contracapa}.

Opção para o trânsito

Especialistas do país e do mundo estarão em Florianópolis hoje e amanhã participando do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Os espaços públicos da Capital estão voltados para os carros. Autoridade alemã diz que não há infraestrutura para priorizar as bicicletas.

Duas Rodas. Alemão Patrick Daude representa Stuttgart
e mantém contato com Florianópolis.

Mobilidade Urbana

Transporte entra em debate

Evento sobre trânsito nas cidades inicia hoje, na Capital

Florianópolis – Transporte público  por meio de ciclovias é um dos temas do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana realizado em Florianópolis nesta terça e quarta-feira. A Capital recebe diferentes especialistas nacionais e internacionais no assunto. Um deles é Patrick Daude, coordenador do Cities For Mobility, maior entidade privada do planeta que trata sobre mobilidade urbana e sediada em Stuttgart, na Alemanha.

Daude também integra a equipe de política da prefeitura e câmara daquela cidade. Como representante do prefeito de Stuttgart, ele faz uma espécie de intercâmbio com a Prefeitura da Capital há cinco anos e já percebeu os principais problemas da cidade. “Há vontade em mudar, mas é um caminho difícil. Percebemos o predomínio do espaço público para carros. No entanto, falta estrutura para optar pela bicicleta. E não basta infraestrutura, é preciso educação especialmente para demonstrar respeito ao ciclista”, lembra.

Prioridade. Para Patrick Daude, o uso de bicicletas deveria ser incentivado. Foto: Lucas Sampaio/Arquivo/ND.

Para o alemão, o transporte público por meio de ônibus também precisa de melhorias. “Os terminais são bons e os ônibus são atémodernos. Mas falta integração tarifária em toda a região”, diz. Outro problema é a falta de informações dentro dos terminais e nos pontos de ônibus. “Para onde vai? Qual linha? Poderia haver um mapa mostrando todo o percurso. Vejo que os telões ficam com até um minuto de publicidade. Imagine você chegar atrasado, querendo pegar um ônibus e ter que esperar até um minuto para ver qual é a próxima linha”, alerta.

Quanto às opções de acesso à Ilha, Daude diz que “se for para criar outro espaço, que se dê prioridade ao transporte público.”

Prefeitura da Capital prevê investimento
em “bicicletas públicas”

A prefeitura de Florianópolis planeja marcar o aniversário da cidade de 2011 2012 com a inauguração do sistema de transporte por bicicletas públicas, uma espécie de aluguel de bicicletas de baixa tarifa para complementar o sistema de transporte público feito por ônibus. O convite para o estudo do modelo foi feito pela empresa Icnita Emovity, de Barcelona.

De acordo com a diretora de Planejamento do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), Vera Lúcia Gonçalves da Silva, a empresa espanhola estudou modelos de bicicletas públicas no mundo todo e apresentou uma proposta ao município. “Os testes seriam feitos em dois eixos principais, a avenida Beira-mar Norte ligando à UFSC, e a avenida Hercílio Luz, no Centro”, diz.

Maiara Gonçalves


(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

27 abril 2011

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no Jornal Notícias do Dia, edição de Florianópolis, em 25 de abril de 2011 (pág. 7). Você pode também ler a matéria em .pdf aqui.

Mobilidade urbana

Oportunidade para aprender

Fórum vai reunir especialistas de países que já solucionaram o problema

Florianópolis – Cerca de mil pessoas devem participar do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, que será realizado em Florianópolis amanhã e quarta-feira, com a presença de especialistas de países como Alemanha, Holanda e Inglaterra. Apesar de sediar o evento, a Capital catarinense terá mais a aprender que a ensinar, segundo avaliação da coordenadora do CicloBrasil, grupo da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) que pesquisa o assunto, Giselle Xavier.

Pata Giselle, que vai liderar o painel “A questão da Mobilidade Urbana nas Cidades Catarinenses”, quem trabalha na área terá a chance de conhecer soluções adotadas em outros lugares e discutir como adaptá-las à realidade local. A Dinamarca, que tem municípios mais montanhosos que Florianópolis, é uma referência. “Lá, além de o transporte público ser eficientíssimo, a bicicleta é usada em larga escala. Nos pontos mais íngremes, há até espécies de elevadores para ajudar os ciclistas”, conta.

Essa qualidade superior da mobilidade urbana em nações mais desenvolvidas é explicada pela história. “Na Holanda, houve uma saturação do trânsito nos anos 70. Hoje, as pessoas se locomovem basicamente com bicicletas e meios de transporte públicos. Mas isso porque aprenderam que eles são mais rápidos”, diz Giselle. No Brasil, e especificamente na Ilha, o aprendizado está ocorrendo agora.

Mudança tem que partir da população, diz especialista

Em Florianópolis, o ponto inicial para a melhoria da mobilidade urbana é fazer mais gente utilizar transporte público e bicicleta, afirma a especialista da Udesc. Mas, ao contrário do que normalmente se diz, Giselle acredita que esse processo deve começar pela população, e não pelo poder público”. O governo responde às pressões dos cidadãos”, explica.

Para que isso aconteça, ela sugere um desafio: “As classes mais altas precisam andar de ônibus, como fazem quando viajam para o exterior”, argumenta. Giselle calcula que, se dois em cada dez homens de classe média-alta passassem a usar o transporte público, o sistema melhoraria em duas semanas. “Essas pessoas têm mais voz, são as formadoras de opinião.”

Paliativo. Por enquanto, a solução para quem precisa enfrentar as constantes filas que se formam na região é a paciência. Foto: Marcelo Bittencourt/ND.

Mas os governantes não ficam isentos de responsabilidade nessa discussão. “Eles precisam entender que é necessário investir com planejamento. Aqui, se faz uma ciclovia aqui e outra ali, sem ligação entre elas. Depois, se pergunta por que a sociedade não usa”, observa.

Anita Martins


Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012

26 abril 2011

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no endereço eletrônico do Jornal Notícias do Dia, edição de Florianópolis, em 26 de abril de 2011. Você também pode também ler a matéria no site do ND aqui.

Prefeitura de Florianópolis planeja implantar
sistema de bicicletas públicas em 2012

Proposta será estudada e aprimorada pela Pró-Bici, comissão criada na Capital para discutir a mobilidade urbana com o uso da bicicleta.

A mobilidade urbana poderá ter um motivo a mais para comemorar o próximo aniversário da Capital, em 23 de março de 2012. A Prefeitura de Florianópolis planeja inaugurar na data o sistema de transporte por bicicletas públicas, uma espécie de aluguel de bicicletas a uma baixa tarifa para percorrer determinados percursos. O convite para o estudo do modelo foi feito pela empresa Icnita Emovity, de Barcelona, em visita recente à Capital.

De acordo com a diretora de Planejamento do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), Vera Lúcia Gonçalves da Silva, membro da Pró-Bici (Comissão Municipal de Mobilidade Urbana por Bicicleta), a empresa espanhola estudou modelos de bicicletas públicas no mundo todo e apresentou uma proposta ao município. “Os testes seriam feitos em dois eixos principais, a avenida Beira-mar Norte ligando à UFSC, e a avenida Hercílio Luz, no Centro”, explica, lembrando que a ideia ainda será discutida e aprimorada pelos membros da Pró-Bici.

Normalmente, nos sistemas de bicicletas públicas o usuário paga um valor e retira a bicicleta de uma estação. Após percorrer o trecho desejado, devolve a bicicleta em outra estação, com a opção de concluir o trajeto a pé ou de ônibus. Neste último caso, preferencialmente com integração da tarifa já paga pelo uso da bicicleta. Outra proposta é criar bicicletários que funcionariam como estacionamentos. Quem tem bicicleta e deseja ir ao trabalho ou à escola, poderia guardá-la nestes espaços mediante pagamento de taxas.

Para o diretor-executivo da 8-80 Cities, entidade canadense que promove o uso de transportes alternativos, Guillermo Peñalosa, é preciso promover um projeto completo. “Não adianta bicicleta pública sem uma rede de ciclovias interligadas pela cidade. Várias tentativas no mundo que não pensaram na interligação foram um fracasso”, ressalta.

Patrick Daude, coordenador do Cities For Mobility: “Há vontade em mudar, mas é um caminho difícil." Foto: Divulgação/ND.

Para alemão, é preciso melhorar sistema de transporte

Transporte público por meio de ciclovias é um dos temas do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana realizado em Florianópolis nesta terça e quarta-feira. A Capital recebeu diferentes especialistas nacionais e internacionais no assunto. Um deles é Patrick Daude, coordenador do Cities For Mobility, maior entidade privada do planeta que trata sobre mobilidade urbana e é sediada em Stuttgart, na Alemanha.

Daude também integra a equipe de política da prefeitura e câmara daquela cidade. Como representante do prefeito de Stuttgart, faz uma espécie de intercâmbio com a Prefeitura da Capital há cinco anos e já percebeu os principais problemas da cidade. “Há vontade em mudar, mas é um caminho difícil. Percebemos o predomínio do espaço público para carros. No entanto, falta estrutura para optar pela bicicleta. E não basta infraestrutura, é preciso educação especialmente para demonstrar respeito ao ciclista”, lembra.

Para o alemão, o transporte público por meio de ônibus também precisa de melhorias. “Os terminais são bons e os ônibus são até modernos. Mas falta integração tarifária em toda a região”, diz. Outro problema é a falta de informações dentro dos terminais e nos pontos de ônibus. “Para onde vai? Qual linha? Poderia haver um mapa mostrando todo o percurso. Vejo que os telões ficam com até um minuto de publicidade. Imagine você chegar atrasado, querendo pegar um ônibus e ter que esperar até um minuto para ver qual é a próxima linha?”, alerta.

Sobre uma das principais polêmicas da Capital, um túnel ou uma ponte como quarta ligação entre Ilha e Continente, Daude afirma não ter preferência. “Não tenho dados técnicos para avaliar um túnel ou uma ponte. No entanto, se for para criar outro espaço, que se dê prioridade ao transporte público”, observa.

Serviço

O quê: Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana
Quando: 26 e 27/4, das 9h às 18h
Onde: Teatro Governador Pedro Ivo Campos, na SC-401
Quanto: de R$ 592,50 a R$ 790
Como se inscrever: pelo site www.mobilidadenascidades.com.br, pelo e-mail inscricoes@shopconsult.com.br no local do evento

Palestras

Confira temas da programação:

- “Soluções para a Mobilidade Urbana”, com o canadense Guillermo Peñalosa
- “Transporte Público: Além do BRT – Veículos leves sobre trilhos (VLT) ou metrô?”, com o colombiano Carlos Felipe Pardo e o alemão Niklas Sieber
- “Andar de Bicicleta e Andar a Pé: uma nova perspectiva para as sociedades dependentes de carros”, com o holandês Ton Daggers, o inglês Rodney Tolley e o alemão Claus Köhnlein
- “O carro nas cidades”, com o colombiano Klaus Banse e o brasileiro Lincoln Paiva
- “A Copa do Mundo de 2014 – Organização de sucesso e benefícios de longa duração para as Cidades”, o alemão Patrick Daude e a brasileira Carla Pereira
- “A questão da Mobilidade Urbana nas Cidades Catarinenses”, com Giselle Xavier
- “Bicicleta – da recreação à cidadania”, com o canadense Guillermo Peñalosa

Maiara Gonçalves

Saiba mais:

Serttel aborda a iniciativa das bicicletas públicas – Ângelo Leite fala sobre o SAMBA – Sistema Alternativo de Mobilidade por Bicicleta de Aluguel durante o Bicicultura 2010.


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