(VIII) Interplanetária – Policiais ignoram leis


Antes, gostaria de mostrar como foi a chegada à balança no km 28:

Pois bem, ficamos cerca de duas horas parados, ouvindo as maiores besteiras possíveis. Os policiais viviam a mudar seus discursos. Falaram que os organizadores deveriam ter comunicado a Ecovias do evento. Mas não era um evento organizado, eram apenas vários ciclistas deslocando-se para o litoral com o meio de transporte mais racional que existe! Enquanto ficávamos todos sem sombra ou água fresca, terminando com a pouca água envasada da balança de caminhões, e 4 pessoas passavam mal, o coronel Eliziário falava que era seu dever zelar pela vida das pessoas. Concordo! Enquanto motos e automóveis passavam acima da velocidade máxima permitida em frente aos nossos olhos, os policiais viravam a face, diziam os absurdos que bicicleta não podia circular em rodovias e esqueciam-se do óbvio em questão de segurança: quando quer se proteger efetivamente alguém, deve-se eliminar a ameaça e não o ameaçado. Em outras palavras: se os carros impingem perigo à vida das pessoas, que se providencie que estes não as ameacem mais, em vez de proibi-las de andar – ou pedalar – nas ruas. Mas, pela velocidade com que os condutores passavam à nossa frente, dá para se perceber a ignorante opção dos policiais.

Mila Molina.

Ciclistas divertem-se com uma bola de rúgbi. Foto: Mila Molina.

Ciclista Fabiano

A única fonte d’água potável da balança. Foto: Ciclista Fabiano

Silvio DM.

Estas eram praticamente os únicos locais sombreados para os 200 ciclistas aglomerados na balança. Foto: Silvio DM.

http://picasaweb.google.com/ciclista.fabiano/BicicletadaInterplanetRia0607122008#5278353693762547394

Fileira de bicicletas na balança da Imigrantes. Foto: Ciclista Fabiano.

Aproximadamente às 11h30, aqueles que ainda restavam (mais de 100) foram escoltados até o km 40,8 , no acesso à Interligação (Via de Acesso Imigrantes-Anchieta), após o McDonald’s.

Rodrigo Navarro.

Ciclistas deixam a balança da Imigrantes. Foto: Rodrigo Navarro.

Pouco à frente, havia uma placa R-12 (as temidas R-12!). A jornalista Renata Falzoni foi uma das que sugeriu que desmontássemos de nossas bicicletas e, como pedestres, prosseguíssemos. A polícia rodoviária, conhecedora da lei como só ela, declarou que quem passasse da placa com a bicicleta, a pé ou sobre o selim, seria preso. Era lei nova, recém-inventada. Uma versão do abuso de autoridade policial, o qual deixava de ser proibido.

Ciclista Fabiano.

Ciclistas são bloqueados no km 41 da Imigrantes. Foto: Ciclista Fabiano.

Como visto, a gente não poderia seguir de bicicleta. Para continuar com nossas magrelas, teríamos que voltar. Inclusive pela contramão no acostamento. Sim, era mais uma lei recém-inventada.

Vários voltaram para São Paulo ou seguiram para Santos embarcados em um dos ônibus da Expresso Brasileiro que foram chamados pelos ciclistas. A maioria pagou R$11,80, pôs a bike no bagageiro e ajeitou-se numa das poltronas do ônibus.

Ciclista Fabiano.

Ciclistas colocam as bicicletas no ônibus. Foto: Ciclista Fabiano.

Eu fiquei. Não tinha outra opção afinal. Teria que repousar na Praia Grande.

Às 14h40min, após conversas com políticos e administradores via celular, recebemos a notícia de que a Secretaria do Meio Ambiente havia nos liberado para poder descermos a Imigrantes de bicicleta.

Pouco mais de quatro horas depois, chegou a ordem da Secretaria dos Transportes para que os criminosos policiais que ainda nos impediam de descer nos escoltassem até Santos. Entretanto, o 2º tenente da PM Luís Antonio Caria Cajaíba avisou-nos que não iria cumprir a determinação de seus superiores. É, mais uma nova lei tinha acabado de surgir na mente dele, e ele a estava apenas cumprindo. Avisou pelo rádio de que não havia mais nenhum ciclista ali. Puxa, que legal, além de criminoso e mentiroso policial, ele estava a trabalho não fazendo nada de útil à sociedade que lhe fornece o soldo.

Mas ele tinha lá seus motivos. Semanas antes, ele havia trocado as seguintes mensagens com a cicloativista Márcia Regina de Andrade Prado (saudosa Márcia, quantas saudades de ti!):

“SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA SEGURANÇA PÚBLICA
POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO
São Bernardo do Campo, 07 de novembro de 2008.
MENSAGEM Nº 1BPRv-010/114/08
Do Comandante do 4º Pelotão da 1ª Companhia  do 1º Batalhão de Polícia Rodoviária
À Sra Marcia Regina de Andrade Prado
Assunto: Resposta a reclamação.

Em resposta à reclamação efetuada por Vossa Senhoria em 07 de agosoto de 2008 à Ouvidoria da Polícia, informamos que:

– o tráfego de bicicletas pela SP 160 (Rodovia dos Imigrantes) é permitido do seu início ao quilômetro 40,8 (início da descida da serra), pois a partir deste quilômetro há uma sinalização vertical de regulamentação R-12, proibindo o trânsito de ciclistas, restrição esta imposta pela Autoridade de trânsito competente, que no caso das rodovias estaduais em nosso estado é o Superintendente do Departamento de Estradas de Rodagem-DER.

– as normas de circulação obedecem o Código de Trânsito Brasileiro em seu artigo 58.

– caso o grupo de ciclistas do qual a senhora faz parte queira descer o trecho de serra terá que solicitar autorização para o Superintendente do Departamento de Estradas de Rodagem nos termos da Portaria SUP/DER-100-08/10/1998, portaria esta que está em harmonia com os artigos 67 e 95 da lei nº 9503 de 23 de setembro de 1997-CTB.


– ocorrendo qualquer abuso por parte de Policiais Militares do Estado de São Paulo em desacordo com a lei, solicito anotar data, horário, local, nome do policial e prefixo da viatura e de imediato nos fornecer tais informações para as medidas legais a serem adotadas.

LUIS ANTONIO CARIA CAJAÍBA
2º TENENTE PM COMANDANTE

Transmissão:
Sd PM 116175-0 Damasceno
Aux P/1 – 3º e 4º Pel

Obviamente, ele não poderia deixar que os ciclistas o humilhassem, obrigando-o, após 12h proibindo-os de descerem, a escoltá-los até Santos. Não, isso não era nem um pouco bom para o seu ego. Afinal, qual era a importância de cumprir seu dever para com os cidadãos se o seu ego estava sob ameaça?

Note-se também que é permitida a prática do ciclismo até o quilômetro 40,8. Por que, então, fomos barrados no km 28?

Por que, então, esse fiel cumpridor da lei que protege a vida alheia quase tirou a minha? (mais aqui)

É, fiquei surpreso ao voltar para casa e, ao olhar os vídeos, notar que foi esse mesmo criminoso policial que estava na viatura que quase me atropelara.

Pois bem, já havia mais de quatro horas que saíra a liberação para que pudéssemos ir à praia. Nesse meio tempo, vários ciclistas já haviam voltado. Apesar de vários policiais terem afirmado que quem retornasse a São Paulo teria uma viatura escoltando-o, vários pequenos grupos retornaram desacompanhados. Alguns voltaram pela Estrada de Itaquaquecetuba, como o Alexandre Loschiavo, passando pela represa de Guarapiranga. Outros tantos foram até o McDonald’s e logo depois retornaram para onde estávamos.

Ciclista Fabiano.

Ciclistas resistem até quase às 19h na Imigrantes. Foto: Ciclista Fabiano.

Resolvemos recuar um pouco; nós, 17 sobreviventes, fomos pela Interligação. Mal havíamos saído e havia uma viatura no retorno à Imigrantes (a gente seguiria reto). Eles implicaram alguns minutos conosco. Deu tempo para as viaturas que de longe nos seguiriam sem sabermos surgirem atrás de nós.

Escoltaram-nos, então, 3 viaturas. Uma em especial, a de número R-01190 (placa EAZ 8035), era péssima!

O vídeo foi feito após eles simplesmente deixarem alguns ciclistas sem proteção num trecho de ponte sem acostamento. Sobre o resto dessa escolta, dê uma olhada aqui.

O fato foi que nos deixaram no começo do trecho urbano do bairro Riacho Grande, em São Bernardo do Campo.

Leonardo Américo Cuevas Neira.

Ciclistas pedalam até Riacho Grande. Foto: Leonardo Américo Cuevas Neira.

Saiba mais sobre a Bicicletada Interplanetária:

Cobertura completa do “Bicicleta na Rua”

(I) Interplanetária – O período precedente
(II) Interplanetária – Rodas a girar rumo ao litoral
(III) Interplanetária – As primeiras infrações da PMR e os bloqueios
(IV) Quantos ciclistas tinham, afinal?
(V) Interplanetária – Perseguição policial
(VI) Interplanetária – Ciclistas são impedidos de pedalarem até o litoral
(VII) Interplanetária – Policiais cumprem horas extras para bloquear descida de ciclistas ao litoral
(VIII) Interplanetária – Policiais ignoram leis
(IX) Interplanetária – Polícia Rodoviária gasta mais de R$16 500,00 impedindo ciclistas de irem ao litoral
(X) Interplanetária – Bares amigo e não amigo dos ciclistas
(XI) Interplanetária – Os primeiros a chegarem a Santos
(XII) Interplanetária – Bloqueio dos Caminhos do Mar
(XIII) Interplanetária – A Estrada da Xiboca
(XIV) Interplanetária – “Pequenos” problemas técnicos: o pneu vegano e a Estrada de Manutenção
(XV) Interplanetária – Santos, enfim!
(XVI) Interplanetária – Faltam bicicletários no Litoral Plaza Shopping
(XVII) Interplanetária – O retorno a São Paulo

Veja também

Bicicletada Interplanetária 2008

Relatos:

Aninha
CicloBR (chegou a Santos)
Ecologia Urbana
Eu vou voando…
MTV Pública
Nicolas Lechopier (em francês) (chegou a Santos)
Sampa Bike Tour {Parte 1} {Parte 2}
TAS Cidade
Vá de Bike!
XpK

Fotos:

Bruno Gola
Ciclista Fabiano (chegou a Santos)
CicloBR (chegou a Santos)
Ecologia Urbana
Limão
Macaco Véio (chegou a Santos)
Mila Molina
Rodrigo Navarro (chegou a Santos)
silviobikersp
XpK

Vídeos:

Brudut
ederson araujo
Ecologia Urbana {1} {2} [3} {4} {5} {6} {7}
Fabiano Faga Pacheco {1} {2} {3} {4} {5} {6} {7} {8} {9} {10} {11} {12} {13} {14} {15} {16} {17} {18} {19} {20} {21} {22} {23} {24} {25} {26} {27} {28} {29} {30} {31} {32} {33} {34} (chegou a Santos)
Guilherme Sanches
jlpinha {1} {2} {3} {4}
Limão
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Renata Falzoni – ESPN
Mathias (chegou a Santos)
TASCidade
Tinho {1} {2} {3} {4} {5} {6} {7} {8} {9} {10} {11} {12} {13} {14} {15} {16} {17} {18} {19} {20} {21} {22} {23} {24} {25}
TV Record

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

2 Responses to (VIII) Interplanetária – Policiais ignoram leis

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