Um Sonho Estranho


Esta segunda-feira tive um sonho estranho. Nele eu havia caído duas vezes da minha bicicleta em plena Avenida Paulista. Eu me dirigia do Paraíso à Bela Vista/Jardins. Curiosamente, em vez de pedalar minha companheira dos últimos quatro anos, eu estava sobre uma bicicleta branca. Mas não era qualquer bicicleta branca: era uma bicicleta igual àquela que simboliza a Márcia Prado. Era uma bicicleta-fantasma, uma ghost bike.

Eu seguia pela rua, pelo mesmo caminho que costumo fazer. Estava na “ciclofaixa” e, próximo ao Shopping Paulista, encontrei mais três ou quatro amigos meus, todos em suas bicicletas, e seguimos juntos em direção à Av. Consolação. Como é normal no trânsito paulistano, começamos a ir mais rápido que os carros e, aproveitando o fato de a bicicleta ser dos poucos veículos que podem transitar entre os carros – nem moto poderia, de acordo com o CTB – fomos ultrapassando os automóveis. Em determinado momento, com os carros atrás da gente parados num semáforo, meus amigos foram entre a primeira e a segunda faixas, passando os demais veículos. Eu, como me encontrava um pouco mais à esquerda na ciclofaixa, não conseguiria fazer a manobra e, para prosseguirm fui para a terceira pista, atrás de um caminhão.

Minha intenção era seguir para a quarta pista, que se encontrava livre. Já me dirigia a ela quando um outro caminhão surgiu repentinamente e, acelerando na quarta pista, passou por mim e pelo caminhão à minha frente. Eu, que ouvira o caminhão se aproximar, havia me mantido na terceira pista, rente à quarta. Para variar, os caminhões tiveram que reduzir a velocidade poucos metros à frente. Juntando a minha posição na via, o vácuo do caminhão que me passara à esquerda e a redução da velocidade daquele à minha frente, fui meio que puxado para entre os caminhões. Mas entre eles seria perigosa a minha passagem. Acabei por me agarrar em algum lugar do caminhão que estivera à minha frente. Assim, poderia, quiçá, ter maior segurança para seguir sem me esbarrar no caminhão da quarta pista. Segurei-me no caminhão, aproximando-me dele – e afastando-me do outro. Algum farol deve ter aberto mais à frente e o caminhão começou a ganhar velocidade. Eu, que parara de acelerar para não ficar em situação perigosa em meio aos bólidos, fui puxado à frente. Tentei voltar a pedalar, mas já não acompanhava o caminhão. Desvencilhei-me dele, mas sem ainda ter recuperado o controle sobre a minha bicicleta. Acabou que meu quadril posicionou-se atrás do selim. Minha mão que soltara o caminhão ainda não se fixara no guidão. Com a mudança do centro de massa e a ajuda da outra mão, a bicicleta empinou e eu caí de costas na terceira faixa da Avenida Paulista. O carros prosseguiram sem se dar conta do acontecido.

 Numa dessas reviravoltas só possíveis no mundo dos sonhos e em seriados de televisão, na imagem seguinte da minha mente eu estava pedalando na quarta faixa da Av. Paulista logo atrás daquele segundo caminhão. Atrás de mim, um carro de coloração clara, quase alvo, sem insulfilme (com insulfilme você não consegue ver quem está dirigindo), foi para cima de mim e acertou minha roda traseira. Pronto, foi-se a bicicleta. Eu, que novamente estivera com o quadril para trás do selim, acabei caindo sentado sobre o capô do automóvel. Para quê? O motorista enfureceu-se e passou a ziguezaguear o carro para me tirar de lá. Eu me agarrei às janelas entreabertas do veículo. Em cenas só possíveis nos confins de nossa imaginação, ora segurava-me com o corpo tombado sobre o capô e o vidro do motorista, ora estava inteiramente apoiado na capota (“teto”) do veículo. As pessoas viam-me na rua e, entre a dúvida, o espanto e o pranto, desesperavam-se por mim mais do que eu mesmo.

Vi meus amigos olhando a cena enquanto o carro passava por eles. Gritei algumas vezes para eles pegarem a minha bicicleta. Pouco antes do prédio da Gazeta, não sei bem como, desci do carro. Eu devia ter me machucado: sentia dores nos joelhos e nas costas. No canteiro central e em parte da última faixa do outro lado da pista, uns ciclistas e curiosos traziam-me os restos da minha bicicleta, sob os olhares dos transeuntes, ainda incrédulos com as cenas que haviam acabado de se passar. O guidão e o garfo dianteiros haviam sido partidos, “dessoldados” do resto do quadro. Várias peças, entre porcas, parafusos e partes de plástico, ferro e alumínio estavam espalhadas pelo chão. Um pneu – curiosamente o dianteiro, encontrava-se murcho.

Atravessei a rua e fui às portas do colégio situado no prédio da Gazeta. No meu sonho, parte da escadaria havia dado lugar a belos canteiros de plantas. Encontrei lá – e juro não ter reconhecido de imediato – um antigo coordenador. Estava já saindo quando vi chegar, de bicicleta, o meu irmão. Ele a prendeu num paraciclo dentro do colégio, falou um pouco comigo e foi assistir às aulas. Eu peguei minha magrela em pedaços e entrei no metrô.

Acordei sobressaltado. Falei com meu avô, que me disse poder se tratar de uma premonição. Em dúvida, questionei-lhe se valia a pena avisar a alguns dos dezenas de ciclistas que conheço que pedalam todos os dias pela região da Av. Paulista. Seguro, meu avô falou-me que não era necessário avisá-los; se algo fosse acontecer, aconteceria comigo. Menos mal! Além de eu já não agüentar mais presenciar novas bicicletas-fantasmas, ao menos em meu sonho eu saíra bem vivo. Com dificuldade, voltei a dormir algumas horas após deitar.

 Provavelmente, algumas passagens do sonho foram baseadas em acontecimentos reais da minha vida. O carro a ziguezaguear, bem como o caminhão a passar com tudo pelo meu lado, lembra muito esta história aqui da Bicicletada Interplanetária. A situação da minha bicicleta era parecida com a qual ela se encontrava após a aventura na Estrada da Xiboca, cuja foto é mostrada nesta outra postagem. Quanto a me segurar no caminhão, isto nunca me aconteceu com nenhum veículo, bem como nunca caí de bicicleta de nenhuma das maneiras sonhadas. Uma vez um carro atingiu minha roda traseira quando eu estava sobre uma motocicleta. O local dos fatos parece ser uma referência clara ao que aconteceu com a Márcia.

 É meio estranho pegar-me num sonho assim. No dia em que a Márcia Regina de Andrade Prado foi morta, eu tinha ido de bicicleta assistir a uma peça de teatro. A bike descansou no bicicletário da Sé enquanto eu assistia a “O Cortiço”. Terminada a apresentação, os céus começaram a chorar a morte da Márcia.

Acabei pegando o metrô para voltar para casa, retirando a roda dianteira para poder entrar com a bicicleta no horário de pico. Cheguei em casa e chequei meus e-mails. Recebi a última mensagem que a Márcia enviara para a lista de discussão da Bicicletada São Paulo. Confesso que ainda não a li. Ao fazer uma revisão de e-mails sobre a Bicicletada Interplanetária, encontrei vários dela: a permissão de descida pela Imigrantes pela Artesp, a resposta do criminoso policial Caria, clippings, opiniões sobre reportagens. Mas mais triste que isso é constatar que não temos mais o prazer de ler seus novos comentários. Nas duas últimas semanas que se passaram, não tivemos o prazer de receber nenhuma mensagem dela. Ficou um vazio em meio à centena de e-mails diários.

Quanto a vê-la, eu a vejo várias vezes por semana. Não fisicamente, já que seu corpo ajudará a formar os futuros médicos deste país (e estes terão muito trabalho se prosseguirem os acidentes de trânsito e continuarem aumentando os índices de doenças cardiovasculares, respiratórias e de fertilidade devido ao uso indiscriminado do automóvel). Lembro-me dela – e de seu exemplo – toda vez que passo pela Paulista. Vejo que quase todos os ciclistas que passam pela bicicleta-fantasma pedem proteção a ela.

Para mim, é difícil aceitar que uma amiga cicloativista tenha morrido ao pedalar. Mais duro ainda é aceitar que isso pode acontecer com qualquer um de nós.

E chega a ser inacreditável que, há apenas uma quinzena atrás, ela estava com a gente, sinalizando a Manutenção, que deve virar roteiro (ainda mais) cicloturístico, pedalando pela Imigrantes fechada para automóveis para que as bicicletas pudessem descer.

Querida Márcia, saiba que seu legado não será esquecido. Foi muito bom ter compartilhado idéias e momentos contigo!

Márcia em sua primeira cicloviagem, em direção a Sorocaba.

Márcia em sua primeira cicloviagem, em direção a Sorocaba. Foto: Mário Canna Pires.

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

2 Responses to Um Sonho Estranho

  1. Fernando disse:

    Fabiano
    Primeiro: nunca desista de seus sonhos e ideiais, pois um ser humano fica mais humano quando pratica o seu coraçao.
    Segundo : pedalar em Sampa é uma coisa que as pessoas motorizadas desconhecem, assim como desconhecem o ciclista e seus ideiais. Lute para serem reconhecidos.
    Terceiro : todos os que nesta vida acrescentam algo mais em nós serão lembrados na mente e no coraçao.
    Quarto : Voces devem continuar lutando para que as estradas tenham seus espaço reservado, nem que sejam as estradas de manutençao que devem ser um paraiso para ciclistas e aqueles que sabem o valor da Natureza

  2. Márcio Campos disse:

    Oi Fabiano, não sou de acreditar em premonições em sonhos, o motivo é simples, já sonhei várias vezes com coisas horríveis que não se realizaram, assim como coisas terríveis que vivi não foram antes sonhadas.

    Para mim é uma massaroca de imagens, sensações e acontecimentos que estão no inconsciente e afloram na liberdade do sono, quando há um disparo aleatório do conteúdo guardado formando um “filminho” com ou sem muito nexo. Aliás, sonho que ao acordar parecem absurdos é coisa comum. Tenho pra mim que sonhar é uam forma do cérebro reorganizar a memória, como se fosse tirado o conteúdo de vários arquivos para colocar em outros, de sob outro critério, sei lá, então coisas impossíveis se misturam nesse rearranjo.

    Mas, ainda que não seja premonição, considerar um sonho como o que teve como um momento de reflexão é já alterar de alguma forma a realidade, mudar o futuro, tomando mais cuidado, ficando mais esperto nas ruas.

    Abraço, e que Deus esteja conosco nesse objetivo difícil que é mudar a mente de toda uma cidade.

    Márcio Campos

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