A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados


Estava vendo meus e-mails quando recebi a notícia: um ciclista morrera atropelado na SC-401. Mais um guerreiro sobre duas rodas tinha-se ido. Na região da Grande Florianópolis, era o segundo ciclista morto após ser atropelado apenas este ano (o outro caso ocorreu em Biguaçu). Na capital catarinense, foi o terceiro caso desde agosto do ano passado, quando Rodrigo Machado Lucianetti morreu atropelado por um garoto bêbado.

O novo acidente já apresentava sinais de que aconteceria um dia. As duas bicicletas-fantasmas instaladas em Florianópolis situam-se a poucos quilômetros dali. Em ambas fatalidades, os ciclistas haviam sido atropelados quando pedalavam pelo acostamento (e por motoristas embriagados).

Neste último sábado, foi encontrado morto à beira da rodovia SC-401, no ingrato horário de 4h da madrugada, cheio de lesões pelo corpo, o garoto Thiago Batista. Vinte e dois anos era a sua idade, praticamente a mesma que a minha. Presume-se que ele era ciclista porque uma bicicleta e um capacete foram encontrados próximo ao seu corpo. Li o absurdo de que não se tinha certeza de que ele fora atropelado. Supondo-se que a bicicleta seja dele, informação fácil de se obter com os familiares, não restam dúvidas de que ele foi assassinado por alguém que se acovardou em prestar os primeiros socorros (primeiros socorros esses que poderiam lhe ter salvo a vida). Ou pior, por alguém que nem percebeu que tirou uma vida humana. Segundo uma das matérias, foi encontrada ainda outra pessoa, cujo estado de saúde era grave.

Pois bem, esse acidente, bem como vários outros que ainda virão são, de uma certa forma, previsíveis. Os habitantes da região sabem que, mais dia ou menos dia, terão procrastinado o retorno ao lar devido a algum acidente. Na SC-401, as placas que mostram 80km/h parecem querer indicar a velocidade mínima com que dirige na via.

A rodovia não é (ou raramente é) fiscalizada. Em dezenas de quilômetros, não existe um radar, lombada eletrônica ou outro equipamento para aferir a velocidade dos veículos. Também carece, como as demais rodovias estaduais da ilha, de maior patrulhamento para inibir atentados à vida. Quem se ferra com a frouxa fiscalização e com a falta de respeito dos motoristas, aliada à precária infraestrutura, são os pedestres e os ciclistas!

Calçada ao longo da SC-401 é praticamente inexistente, mesmo nos trechos urbanos. O acostamento desaparece em vários trechos (incluindo aqueles mais críticos, como próximo à UCAD). Mesmo nos  locais onde há acostamento, por vezes ele apresenta largura que não fornece segurança ao ciclista; outras vezes, o ciclista pedala sobre areia, terra, rochas e lama que o invadem.

Nosso governador já esteve diversas vezes nas cidades européias. Alemanha, Holanda, Suíça, em todos esses países há um enorme esforço em se promover o deslocamento por bicicleta, inclusive em detrimento ao automóvel. Afinal, carro é sinônimo de crise enquanto a bicicleta é um investimento no futuro (apenas para lembrar: ela melhora a saúde, não polui o ar, é um bom exercício aeróbico e desafoga o trânsito).

Posicionar-se a favor do uso da bicicleta segue a tendência mundial de posicionar-se a favor da qualidade de vida dos cidadãos. Investimentos na estrutura cicloviária e campanhas de conscientização e respeito no trânsito (voltadas principalmente aos motoristas) são necessários para que a SC-401 não se torne uma rodovia das mortes. Para tanto, vontade política é um bom começo.

Veja mais:

Bicicletas-fantasmas em Florianópolis para o mundo saber

Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamentos e o caso de Jurerê

Localização das bicicletas-fantasmas da Grande Florianópolis

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

25 Responses to A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados

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  2. Mario Amaya says:

    Digam-me: o que falta para um grupo de pessoas envolvidas pegar em picaretas e cavar por conta própria uma valeta no ponto de alta velocidade da estrada?

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