Crônica – Dia de Sol


A crônica abaixo é de autoria de Celso Leal e foi publicada no Jornal Notícias do Dia, versão do Vale do Rio Tijucas, em 7 de janeiro de 2010 (veja em .png).

Dia de Sol

Calor intenso. O rio descia ao mar. A capivara pastava no local de costume. Inacreditável a mansidão dela na margem contrária. As gaivotas voavam e pousavam no barco ancorado. A cidade se movimentava e o povo trabalhava. Poucos se importavam com as belezas naturais do lugar. Um homem se aproximou do cais. Desceu da bicicleta. Não havia ninguém. Ele fitou o rio. Muito quente. Nenhum vento. O homem passou a gesticular. Parecia dar de dedo no rio. Apontava e conversava. Eu nada ouvia. Apenas via o corpo fazendo trejeitos direcionados ao rio. Em certo momento ele batia no peito e agia como se lançasse algo no rio. Não sei se beijos ou o coração. Repentinamente a bicicleta caiu. Com fúria ele passou a chutar a magrela. Insatisfeito jogava0se com o peso do corpo sobre o veículo. Ato de fúria ou insanidade! Tudo muito rápido.

Ele pegou a bicicleta e a jogou no rio. Ela afundou e ele prosseguiu gesticulando e falando com o rio. Os carros passavam, o sol ardia, o homem fazia teatro e eu acompanhava. Fato real. Qual a intenção dele? Uma pessoa que deveria saber o que estava fazendo. Caso contrário teria se atirado ao rio. Perdera a bicicleta. Talvez pelo fato de ter ela interrompido a conveersa inicial entre ele e o rio. Ou dele com os peixes? Quem sabe a bicicleta tenha sido entregue como oferenda ao senhor das águas? Ou emprestada para os peixes transitarem sob as águas barrentas do rio poluído?

A capivara entrou na água. Mansamente. Eu decidi ir ao encontro do homem. Desci e encontrei quem havia chegado para falar comigo. Atendi e ao sair na rua não avistei o homem. Fui ao local em que ele deveria estar e nenhum sinal. Procurei ao redor. Olhei ao longe e nada de encontrá-lo. Tentei visualizar a bicicleta. Fiquei a pensar. Estaria eu enganado? Seria insolação? Quando mirei para a ponte reconheci quem estava no meio dela. Era ele! As cores da camisa e da calça não deixavam dúvidas. Pensei em segui-lo. De nada adiantaria. Ele continuou o caminho. Venceu a ponte, passou frente à entrada do Pernambuco e seguiu para Morretes. A vida contínua prossegue graças aos mistérios do cotidiano. Ainda bem…

Veja também:

Selva de aço – Crônica – leia a íntegra da crônica “Selvaço”, de Vinícius Leyser da Rosa.
Conto para o Dia dos Pais – leia aqui o conto “Não chore, papai”, de Sérgio Faraco.

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

3 Responses to Crônica – Dia de Sol

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  2. Pingback: Uma crônica acessível « Bicicleta na Rua

  3. Pingback: Crônica natalina – Fernanda Lago | Bicicleta na Rua

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