Cow Parade Cycle Tour – Percurso Centro-Leste


Não posso dizer que foi um bom dia, mas não foi também de todo ruim.

Após passar um dia descansando do primeiro percurso do Cow Parade Cycle Tour, voltei às ruas no sábado, 06 de fevereiro, na intenção de continuar a ver as esculturas de vacas expostas em diversos lugares de São Paulo. Minha intenção era, no dia seguinte, fazer o percurso Sul, o mais difícil ao meu ver.

O percurso centro-leste era fácil e eu não precisaria ficar mais que 7km distante de casa. Envolvia três trechos mais tensos, passando por avenidas e todo o resto do percurso  era composto por ruas calmas ou onde há forte inserção de ciclistas.

Saí de casa tarde, por volta das 9h30 e segui em direção ao Shopping Anália Franco. Passei a R. da Mooca, segui pela R. Acre e R. Água Rasa antes de adentrar a Av. Reg. Feijó. Esta última avenida não é o sonho de todo ciclista, apesar de eu ter visto outras duas pessoas em bicicleta passando por lá. Fiquei contente pelo fato de o shopping dispor de bicicletário, com 15 vagas. O paraciclo utilizado não é o mais indicado, a magrela fica presa apenas por uma roda e divide um espaço cercado com motos. Mas há segurança tomando conta de ambos os tipos de veículos e o lugar é coberto.

Bicicletário no Shopping Anália Franco.

Perguntei à uma funcionária do estabelecimento onde havia uma vaca. Disse-me que não fazia a menor idéia e que seria melhor eu perguntar pra um segurança ou recepcionista. Falei-lhe que era provável até que eu encontrasse o bovino primeiro. Dito e feito: a 50m dela havia uma vaca!

Pujança – esse era o seu nome – mostrava a Av. Paulista com alguns de seus símbolos, como o Parque Trianon e o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Mostrava, curiosamente, uma imagem de Santos Dumont e uma do 14-Bis a sobrevoar os ceús paulistanos. As árvores do parque dão um colorido especial ao cinza predominante na paisagem. Um detalhe que reparei é que os veículos que trafegavam pela imagem tinham sentido único (a avenida real é bidirecional), querendo fugir aos olhos de quem os observava. Outro detalhe é um destaque da marca do banco patrocinador em meio à obra, do lado mais verde da pintura.

A Av. Paulista e o 14-Bis cabem na vaca Pujança.

De lá segui por ruas relativamente calmas do Tatuapé até a estação de metrô de mesmo nome. Em diversas ruas, como a R. Itapura, fui mais rápido que diversos automóveis. O trânsito na região da Mooca e Tatuapé ainda não está saturado, mas as perspectivas da região não são boas. A Mooca tem recebido diversos empreendimentos imobiliários que atraem novos moradores e aumenta o fluxo de automóveis nas ruas do bairro e locais adjacentes. O asfalto da região, que sempre foi bem preservado está em péssimo estado. O asfaltamento de ruas que antes eram de paralelepípedo impermeabilizou áreas do solo que hoje sofrem com inundações. A piora no trânsito do bairro ficou notável durante o último ano.

Fui pela R. Tijuco Preto até a R. Tuiuti e desci da bicicleta para percorrer, na contramão do fluxo dos carros, dois quarteirões. Acabei por encontrar a obra da Cow Parade dentro da estação de metrô, após as catracas. Falei com os funcionários, deixei minha bicicleta perto deles e tirei as fotos. Que Vaca, Brother! mostrava o animal de pontacabeça, decorado com motivos de surfe, onda e mar. Eu posso dizer que me diverti ao tirar as fotos – e também às pessoas que passavam. Ainda não entendi o porquê de a vaca estar de pontacabeça. Minha imaginação pueril me faz acreditar que ela tomou um caixote ao surfar…

A vaca e o ciclista brincam de pega-tartaruga, brincadeira do tempo do onça.

Pouco tempo depois, aconteceu o acidente.

Peguei a R. Tuiuti até a R. Padre Adelino para entrar na Radial Leste (Av. Alcântara Machado) ao lado da Subprefeitura da Mooca. Pensava em parar em casa para almoçar antes de continuar, mas resolvi seguir adiante. Poucos metros depois de entrar na Radial, a pochete que levava em minha cintura se abriu e prendeu em meio à minha roda traseira. Resultado: uma queda bem quando aquele semáforo não sincronizado tinha acabado de abrir. A mulher que dirigia o carro na pista em que eu estava reduziu a velocidade, esperou eu me levantar e à bike e perguntou se eu estava bem e se necessitava de ajuda. Falei que estava tudo bem e liberei-a a seguir seu caminho enquanto me arrumava e verificava as avarias. Meu freio dianteiro estava pouco confiável, minha buzina tinha caído, uma parte do meu pedal esquerdo (o lado em que caí) quebrara-se. Eu estava bem, não havia sangue, apenas uma dor forte no abdômen (onde depois se formou uma marca roxa, e depoir negra) e uma dificuldade muito grande em movimentar a perna esquerda. Um homem das ruas apareceu e tirou a minha pochete da roda traseira com uma certa facilidade. Ele me falou que fora ciclista em Minas Gerais. Depois, o papo ficou meio estranho e sem pé nem cabeça. Ele me chamou para ir perto de onde ele se alojava (?), eu insisti para seguiria ao meu caminho. Dei R$0,80 em moedas que haviam na pochete para ele e segui ao centro.

Fui pedalando devagar até a Praça da Sé. Como a pochete se abriu novamente ainda na Radial, eu a coloquei entre o pescoço e o braço. Na Sé, telefonei para minha família falando que sofrera um acidente, mas que estava bem e iria continuar a tentar fotografar as vacas. Depois, parei uns minutos para vislumbrar o espetáculo que acontecia em celebração antecipada ao ano novo chinês (entramos no ano do tigre).

Enquanto o ciclista procurava pelas vacas, os chineses imitavam um dragão para comemorar o ano do tigre.

Deixei minha bicicleta presa numa árvore próxima aos policiais militares e desci, mancando, a escada rolante que levava ao Metrô Sé. A Vaca de Presépio estava lá, felizmente antes das catracas. Ela tem uma tonalidade geral azulada, com inúmeros pontos brancos que lembram a Estrela de Belém. O abdômen dela é recortado e, dentro dele, há um presépio com a cena bíblica de Jesus na manjedoura feita com materias reciclados. De todas as obras vistas até então, esta foi a única que se utilizava de materias comuns para se fazer arte. Destaque para a lata de leite condensado que se transformou em uma vaquinha (hmmm, uma vaquinha dentro de outra vaca…). Foi aí também que encontrei o André e sua família, que leram as postagens anteriores e me identificaram. Ele, sua esposa e filho foram os primeiros a verem todas as obras da Cow Parade e ganharam uma sandália do evento como prêmio.

Detalhe do presépio na Praça da Sé.

Da Sé segui para a Av. Brigadeiro Luís Antônio, onde, logo no começo, antes de enfrentar a subida temida dos corredores da São Silvestre, encontrei a Vaca de Sampa. Esta obra me deixou a pensar. Metade dela é um branco com contornos de desenhos em preto. As extremidade são vermelhas. A primeira parte, além de me lembrar o cinza predominante na cidade, têm retratados uma caveira, que me traz à cabeça a enorme quantidade de pessoas mortas no trânsito, mas também me faz alusão à Revolução Constitucionalista de 1932, além de uma antena e televisão, que me mostraria a influência da mídia sobre nossas vidas, para o bem ou para o mal, para o ódio e a paixão, sentidos ambíguos que o paulistano têm por sua cidade natal. O vermelho, acredito eu, seria uma referência ao coração, mas a primeira coisa que me veio à cabeça foi o sangue das vítimas de trânsito. Sinistro!

Vaca de Sampa aprende que São Paulo terá que se acostumar às bicicletas.

Voltei a Av. Brigadeiro Luís Antônio, virei a R. Jaceguai e passei que R. Major Diogo, R. Santo Antonio e R. Martinho Prado antes de chegar à R. Avanhandava. Eu mal podia acreditar em meus olhos. Eu já conhecia aquela rua por descrição. Um dia, o Milton Della Giustina, presidente da ONG ViaCiclo, me falou que havia uma rua em São Paulo onde um cara, que, com esperteza e visão de futuro, conseguira ampliar seu negócio de restaurantes e comprara todos os demais na mesma rua. Posteriormente, elaborou um projeto de acessibilidade, deixando a rua na altura do meio-fio, facilitando a circulação de pedestres e cadeirantes, e com dinheiro do próprio bolso, acertou com a prefeitura a implantação desse projeto. Eu pensava que esse lugar ficasse na Vila Madalena, recanto boêmio paulistano, mas não. Conversando com os funcionários do restaurante, tive certeza de que era ali mesmo.

Rua arborizada onde os pedestres têm a clara preferência.

Essa rua contrastava enormemente com as ruas ao redor. Limpa, arborizada, agradável, faixas de pedestre no mesmo nível da calçada. Para melhorar, a minha sugestão é apenas instalar os pisos de direção para quem apresenta alguma deficiência visual.

Havia duas vacas lá, muito bem trabalhadas e que simplesmente se harmonizavam muito bem com o ambiente: Joséphine au Trambone e Stéphania en Provence. A primeira mostrava o bovino sentado em uma mala com adesivos de vários países. Ela usava jóias e adornos de aparência indiana e tocava um trombone vermelho.

Joséphine au Trambone se mistura muito bem ao seu ambiente.

A outra obra mostra o bovino carregando diversos itens campesinos, como flores, cabaça, vinho, frutos. Tudo isso em cestas de vime dispostas em ambos os lados do animal.

Nem parece que essa vaca circula pela cidade. (está bem, ok, ela é imóvel…)

Peguei a R. Martins Fontes e subi a R. Martinho Prado, encontrando-me com uma seqüência de placas horrível que proibia a passagem de pedestres, ciclistas, caminhões e ônibus. Contornei a Praça Franklin Roosevelt, onde vi inúmeros ciclistas na contramão, assim como eu estava. Por fim, estava à minha frente o acesso à Av. Amaral Gurgel.

Cruzei a R. da Consolação, que também tem semáforos dessincronizados aos pedestres, obrigando-me a parar no canteiro central. Mais dois rapazes ficaram esperando lá comigo. Foi inevitável ouvir o que eles falavam. Referiam-se à suas vidas sexuais, mas não havia nenhuma mulher na jogada. Apenas homens e homens que se vestiam como mulheres.

Segui em frente e encontrei a Passa a Mão Nela, toda convidativa ao toque. Pinturas infantis lembravam uma profusão de mãos a recobrir a vaca toda, chamando muita atenção das crianças. Lá encontrei Margareth, que me perguntou se eu era amigo do Willian Cruz, do + Vá de bike! +, em cujo casamento estive a pedalar. Apesar dela ser veterana de Bicicletadas, parece que ainda não havíamos nos encontrado.

As crianças adoravam passar a mão na vaquinha Passa a Mão Nela.

As próximas duas vacas tinham inspiração nos The Beatles. Yellow Cow-Marine, baseado em “Yellow Submarine” (a propósito, uma das músicas das quais menos gosto dos The Beatles, mas que se salva por ser trilha sonora de desenho animado) mostrava um submarino amarelo navegando pelo mar. Não gostei da localização dessa escultura, uma vez que um dos lados não era possível ser apreciado (apesar de ser idêntico ao outro, como em diversas das vacas).

Repare nas algas gigantes em ambos os lados do submarino amarelo.

Na rua paralela, estava Cow in Sky with Diamonds, com artes que me fizeram recordar cenas do filme “Across the Universe”, contado através de músicas dos The Beatles. Há inúmeras referências ao céu, com discos voadores, astronautas, a Terra a girar. Mas não dá para não ter a impressão de se estar no meio do filme ou de lembrar a versão popular sobre a origem da música “Lucy in the Sky with Diamonds”, que faria uma apologia à droga alucinógena LSD. Obviamente, a versão oficial é outra. Há vários elementos jogados na obra numa aparente confusão, o que não é ruim, se for essa a intenção do artista, o que acredito que seja. Outro ponto que merece destaque é a localização da escultura, uma vez que, para tirar uma foto com ela no lado com a placa informativa, o fotógrafo tem que ir para a rua.

Uma profusão de cores e elementos se misturam em Cow in the Sky with Diamonds.

Cruzei a rua e lá encontrei a Cowfeína, que faz menção ao principal produto de exportação brasileiro no início do século passado. Vale falar que, no mapa oficial, as localizações desta obra e da anterior estão imprecisas. Um automóvel estacionou bem ao lado da escultura, impedindo uma boa visualização dela. Além da xícara mostrando a bebida aquecida, um colar de ramos de cafeeiro envolvia o pescoço da vaca, que estava pontuada de grãos de café.

Cowfeína homenageia o principal produto de exportação brasileiro do começo do século XIX. Café chegava de trem até o Porto de Santos.

Segui pela Av. Duque de Caxias, Av. Rio Branco, R. Antônio de Godoy, Av. Cásper Líbero e, finalmente, Av. Senador Queirós na contramão.

Imaginava eu que a próxima escultura fosse estar no Mercado Municipal. E parece que estava até vários dias atrás. Lá, reencontrei o André e sua família e escutei algumas pessoas com câmera fotográfica à mão a indagar sobre as esculturas da Cow Parade. Mas acontece que não havia nada lá. O André até subiu na passarela do mercado para ter uma visão panorâmica, mas nada. Eu aproveitei para almoçar uma salada de frutas. Depois, pedi informações no Terminal Parque Dom Pedro II e descobri que havia um lugar ali do lado chamado Terminal Mercado. Subi as passarelas amarelas em espiral que dão no terminal, depois desci uma rampa para guardar minha bicicleta no bicicletário. Havia dezenas de lugares para de se deixar a bicicleta em paraciclos do tipo ‘U’ invertido, os mais recomendados. Mancando, subi de elevador.

Bicicletário adequado no Terminal Mercado.

A escultura estava após a catraca e novamente pedir para entrar apenas para fotografar. Para mim, muitos mistérios rondam esta vaca. Não sei o que significa, por exemplo, o número 77 estampado nela nem por que ela é majoritariamente vermelha.

“É vermelho, mano! Vermelho! Olha só! Igual eu!”

Segui a Av. do Estado pela contramão na calçada até a ponte da Av. Mercúrio, onde me direcionei ao lado certo da primeira via. Nesse primeiro caminho, comecei com a calçada larga, poucas pessoas a se abrigar lá perto, até a calçada ficar quase intransitável com cerca de 50cm de largura. Passei ao lado do Rio Tamanduateí, bem poluído, mas com odor tolerável. Pena que esse marco dos primórdios da história paulistana não esteja preservado. É mais um rio morto a cruzar a selva de pedra.

Tamanduateí, o “rio de muitas voltas”, perde a vida continuamente no centro de São Paulo.

Na Av. do Estado, começou a chover. Parei um pouco no Museu dos Transportes Gaetano Ferolla, onde planejava fazer a parte cultural do dia. Como me machucara e reduzira a minha velocidade, não aproveitaria muita coisa (era 16h50), então peguei apenas algumas informações. A chuva começava a apertar e eu estava a 1km da próxima vaquinha (e há 3km de casa). Eu conhecia a região e sabia que ali era local de inundação. Segui rápido entre os carros até o Metrô e Terminal Tietê. Felizmente, estava tudo congestionado e eu não tive nenhum problema ao cruzar o Vd. Cruzeiro do Sul.

Lá estava a Cow Sambista, toda adornada com motivos carnavalescos. Fi-la de porta-bandeira sem flâmula e, mestre-sala, cai na folia! Finalizara o dia com todas as obras previstas fotografadas!

Ciclista cai com a vaca na folia após completar o percurso do dia.

Na volta, evitei a chuva e fui de metrô.

Veja mais fotos do percurso centro-leste da Cow Parade.

Fabiano Faga Pacheco

Links atualizados em 30 de novembro de 2012, às 17h43.

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

One Response to Cow Parade Cycle Tour – Percurso Centro-Leste

  1. cris campana disse:

    adorei seu percurso,mas…teria ficado meis legal se passasse no shopping morumbi para ver que com muita paz e amor prevalece….a wooooodstock, ou srta Wood para os intimos. rs
    quando estiar até lá, clique-a ela adora
    e eu fico super feliz quando vejo minha “cria”” rsrs
    bjs
    Cristina Campana

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