O perfil dos deslocamentos em Joinville

A reportagem abaixo foi originalmente publicada na edição impressa do jornal A Notícia em 14 de julho de 2010 (pág. 4). Você pode ver as matérias no site do periódico nos links: {1} {2} {3} {4} {5} {6}.

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Como e para onde Joinville se movimenta

MOBILIDADE URBANA

Depois do carro, joinvilense vai a pé e de bike

Pesquisa apresentada ontem pelo Ippuj mostra como os joinvilenses se deslocam pela cidade todos os dias.

Do Paranaguamirim, na zona Sul, ao Iririú, na zona Norte, a famosa “zica” e o bom e velho tênis têm sido grandes aliados dos joinvilenses quando eles precisam se locomover pela cidade. É assim, a pé ou de bicicleta, que 34,24% da população têm se movimentado com frequência, número muito próximo dos 34,55% que ainda usam automóvel.

O dado integra a pesquisa de Origem-Destino, apresentada pela primeira vez, ontem, pelo Instituto de Planejamento Urbano de Joinville (Ippuj). O documento retrata, de uma forma ampla, os hábitos de ir e vir dos joinvilenses. Além de destacar como a população se locomove, as estatísticas reforçam realidades que já eram captadas de alguma forma pelos técnicos do instituto.

É o caso, por exemplo, dos microdeslocamentos – ou os deslocamentos dentro dos bairros. A pesquisa apontou que o Centro foi o destino de apenas 9,01% das pessoas que se locomoveram no dia anterior à coleta de dados. Isso significa que grande parte dos joinvilenses não ultrapassa as fronteiras da própria região com tanta frequência.

“Temos, nessa estatística, as crianças que vão para a escola perto de casa, a dona de casa que vai na padaria e o empregado que trabalha perto de onde mora”, aponta o diretor executivo do Ippuj, Vladimir Constante. Segundo ele, essa realidade já era prevista e foi se consolidando ao longo dos anos. Isso porque, de acordo com o arquiteto, o planejamento da cidade partiu para a diversificação do uso dos espaços. “Pelo zoneamento em vigor hoje, temos uma cidade que não é centralizada. Não existe mais o residencial e o comercial, de forma separada”, aponta Constante.

Pesquisa apontou que o Centro foi o destino de apenas 9,01% das pessoas que se locomoveram no dia anterior à coleta de dados. Foto: Fabrizio Motta.

E é justamente por conta dos pequenos centros desenvolvidos ao redor dos bairros que os meios de transporte não motorizados assumem um papel cada vez mais importante no cotidiano da cidade. Pelo menos é nisso que acreditam os técnicos do Ippuj. De acordo com o diretor, as curtas distâncias percorridas pelo joinvilense favorecem esse tipo de locomoção, apontando novas necessidades nos planos para a infraestrutura da cidade.

“É uma forma, também, de resgatarmos uma dívida com esses 34,24% de pessoas que andam a pé ou de bicicleta. Eu não oferecia infraestrutura para esse tipo de deslocamento até um tempo atrás. Agora, temos um dado concreto de que é preciso, também, pensar nessas pessoas”, diz Constante.

De zica…

Alexsandro da Cruz, morador do Paranaguamirim, sai todos os dias em direção ao Costa e Silva (cerca de 16 quilômetros), onde trabalha. Quando volta, sempre aproveita o comércio do “Panágua”. Ele resolve tudo perto do lugar onde mora: padaria, loja, supermercado, farmácia e a lotérica facilitam a vida da família.

Para ir de um ponto a outro, a bicicleta é sua grande aliada. “Gasto cinco minutos para vir da minha casa até a casa lotérica. É muito rápido e é bem mais prático do que vir a pé”, diz. Apesar dos benefícios, ele reconhece que falta segurança “Não tem ciclovia da minha casa até aqui (rua Monsenhor Gercino). Seria bom que tivesse.”

…ou a pé

A dona de casa Teresa Maria dos Passos conhece bem a rua Monsenhor Gercino, na zona Sul da cidade, onde estão concentrados os principais pontos de comércio e serviço do Paranaguamirim.

Como mora muito perto dali, cinco minutos de caminhada são suficientes para conseguir fazer compras ou pagar as contas da casa. “Só vou para o Centro quando preciso pagar contas. Daí, vamos de carro”, conta.

Adepta da caminhada, ela já se acostomou com o problema crônico da falta de infraestrutura nas calçadas. “Tem trechos aqui (rua Monsenhor Gercino) que são mais difíceis, mas ainda assim acho melhor andar a pé”.

Mudar a infraestrutura é um grande desafio

A pesquisa apresentada ontem pode modificar, a curto prazo, os planos previstos para as diferentes regiões da cidade. Prever pavimentação nas ruas, por exemplo, e ignorar que elas precisam de calçadas e ciclovias, seria contrariar o que diz a pesquisa.

“Muita gente anda a pé e essa é a grande necessidade. Querem um viaduto que pode custar milhões, mas esse mesmo recurso pode ser aplicado em quilômetros de ciclovia e de calçadas”, diz o gerente Marcel Virmond Vieira.

Transitar pela cidade em horário de pico é uma boa forma de ver o problema. Na rua Prefeito Wittich Freitag, perto do binário do Iririú, os carros e pedestres andam com relativo conforto, mas essa tranquilidade não é compartilhada pelos ciclistas.

Pedro Marcelo que o diga. Ele mora no Iririú e anda de bicicleta por todo o bairro. Já passou por muito sufoco. “É sempre muito apertado. Prefiro andar de bicicleta. A pé tem lugar que não dá. E, de ônibus, pode demorar muito”.

De bicicleta, Pedro Marcelo divide o espaço nas ruas do Iririú com caminhões, carros e motocicletas.

De bicicleta, Pedro Marcelo divide o espaço nas ruas do Iririú com caminhões, carros e motocicletas.

Mais humanização no trânsito dos bairros

Para o gerente de mobilidade do Ippuj, Marcel Virmond Vieira, os dados sobre como o joinvilense se locomove apontam para uma necessidade urgente: priorizar o homem em relação ao carro. Somado, o número de pessoas que se locomovem a pé (23,11%) ou de bicicleta (11,3%) é praticamente igual ao de motoristas que circulam de automóvel (34,55%).

“Esse dado vem ao encontro da nossa visão de que é preciso olhar para a cidade de uma forma mais humana. As pessoas reclamam do trânsito, dos problemas de congestionamento, mas esquecem que também faltam passeios e ciclovias para o pedestre e o ciclista”, destaca Marcel.

Segundo ele, as informações sobre a micromobilidade também despertaram a atenção dos técnicos e revelam um número acima do esperado. “Em muitos casos, os deslocamentos nos pequenos centrinhos nos bairros passam os 50%. Precisamos fazer uma espécie de revisão das metas de infraestrutura”, argumenta.

(veja em .pdf)

Amanda Miranda

Saiba mais:

Joinville, a cidade das bicicletas, está sem ciclovias – Outrora conhecida como “cidade das bicicletas”, o município catarinense ainda possui poucas infraestruturas adequadas aos ciclistas urbanos.

Veja também:

Joinville fechará avenida para atividades de lazer – A avenida à beira-rio de Joinville é contemplada com o Projeto Joinville em Movimento e é fechada aos domingos para atividades lúdicas.

Charge – É só não usar como um selvagem!

A charge acima foi publicada no Diário Catarinense, na edição de 20 de julho de 2010. A autoria dela é de Iotti.

Ela pode ser vista também através deste link.

Veja também:

Charge – Na Ressacada, só de bicicleta
Charge – Não chegue antes na escola, filho!
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