Desprezo ao transporte ativo e ‘olá’ aos engarrafamentos

A reportagem abaixo foi originalmente publicada na edição impressa do periódico Diário Catarinense em 25 de janeiro de 2011 (pág.33). Você pode ler a matéria no site do DC aqui.

MOBILIDADE URBANA

Poucas pedaladas e menos caminhadas

Região Sul prefere usar o coletivo e o carro, segundo o estudo do Ipea

Utilizamos com menor frequência a bicicleta e caminhamos menos no dia a dia do que o restante do país. Por outro lado, o Sul é a segunda região que mais utiliza o transporte urbano e o carro como meio de transporte.

Mesmo utilizando menos o carro que os moradores do Sudeste, a percepção das pessoas é a de que enfrentamos um número maior de congestionamentos. Estes são alguns do resultados do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) Mobilidade Urbana divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A pesquisa ouviu 2.770 pessoas nas cinco regiões do país em suas residências para apurar o que os moradores acham sobre o assunto. A assessoria do instituto divulgou apenas dados regionais, sem disponibilizar informações específicas sobre Santa Catarina.

Na região Sul, 21,9% dos entrevistados afirmaram que enfrentam mais de um congestionamento por dia. O número está acima da média nacional (20,5%) e da região Sudeste (21,6%) e situa-se atrás apenas do Norte (26,2%). Somadas as outras variáveis, 55,9% dos moradores do Sul enfrentam pelo menos um congestionamento por semana.

Na outra ponta, um em cada quatro moradores do Sul (26,5%) afirmou nunca ter enfrentado um congestionamento na vida.

Os indicadores revelaram que o transporte preferido pelos moradores do Sul, com 46,3% das respostas, foi o público, seguido dos carros (31,7%) e motos (12,4%).

A região foi a que teve o menor índice de pessoas que utilizam a bicicleta para se locomover (2%), assim como o menor desempenho do país entre os que vão para os seus destinos a pé (7,6%).

A utilização dos transportes públicos, de bicicletas e de motos cai conforme aumenta o nível de escolaridade dos entrevistados. No mesmo sentido, o maior uso de automóveis é identificado entre as pessoas que concluíram ou começaram o ensino superior.

País vai mal no transporte coletivo para deficientes

A integração entre ônibus é utilizada no dia a dia por 42,6% dos entrevistados da região. Outros 33,7% não tem acesso a nenhum tipo de integração de meios de transporte.Na falta de conexões, ficamos atrás apenas da região Norte e bem acima da média nacional, de 26,3%.

O país, com a região Sul incluída, ainda vai muito mal na adaptação do transporte coletivo para os portadores de necessidades especiais.

Segundo os indicadores, 40,5% dos veículos nunca ou raramente estão adaptados para este público no Brasil. Na região Sul, o desempenho é um pouco pior que a média nacional: 41% dos entrevistados apontaram para este problema.

Se estamos mal em disponibilizar acessibilidade para os portadores de necessidades especiais no transporte público, lideramos o ranking do país na percepção sobre o respeito aos pedestres e ciclistas: 42,4% dos entrevistados afirmaram que eles sempre são respeitados no trânsito.

No Sudeste, região com o pior desempenho do país, este índice cai para 16,1%.

O transporte escolhido pelos moradores do Sul também é apontado como o mais seguro do país. Na região, 71,7% afirmaram que nunca foram assaltados e que desconhecem alguém que tenha sido ao utilizar o meio de transporte preferido. Na média do país, apenas 57,7% dos entrevistados deram este tipo de resposta.

O mesmo ocorre quando é medida a quantidade de acidentes no meio de transporte utilizado: 66,8% dos entrevistados na região disseram nunca terem se acidentado e que não conhecem pessoas que passaram por isto – a média no país é de 53,4%.

(veja em .pdf)

Alessandra Ogeda

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ASCOBIKE, Uma Visita ao Maior Bicicletário das Américas

Na ASCO

Minha primeira vez em Mauá, estação da CPTM, pergunto pela ASCOBIKE a um segurança. Ele: ‘Ascoquê?’

Sem entender como alguém não percebe que está diariamente a alguns metros de um bicicletário como aquele, o maior das Américas[1], segui buscando. E encontrei. Estava logo ali, à esquerda da saída.

O Adilson, diretor da ASCOBIKE, levou-me gentilmente a um passeio pelo estacionamento com direito a uma visitinha aos arredores físicos e históricos.

A essência da ASCOBIKE. Foto: Cicloturista Urbana.

A ASCO

ASCOBIKE é a Associação dos Condutores de Bicicletas de Mauá que administra um bicicletário anexo à Estação da CPTM de Mauá. Sem maiores ambições do que servir de suporte aos ciclistas Mauá, a ASCOBIKE é responsável pelo estacionamento diário de 1500 bicicletas associadas num espaço para até 2000 bicicletas, nas 24 horas de todos os dias. Além disso, oferece serviço de reparo, um ‘bici-brechó’, cafezinho, água, ar comprimido, banheiro, TV, e (ufa!) festinhas de confraternização que acontecem vez ou outra.

Cafezinho pra começar o dia e calibrador pra enfrentar a rua. Foto: Cicloturista Urbana.

O público é predominantemente masculino. Somente 3% são mulheres. Eles usam a bicicleta como alternativa ao ônibus − caro e ineficiente − e topam qualquer parada pra chegar pedalando à estação. Nem o estado inadequado em que se encontram algumas bicicletas − há umas sem freios, outras com a estrutura quebrada e por aí vai −, nem a chuva abalam a disposição do pessoal. No dia da minha visita havia chovido e o número de ganchos ocupados denunciava que água é obstáculo pra poucos. As bicicletas exibiam capas de chuva penduradas, saquinhos de roupa molhada ou fazendo as vezes de protetores de selim, entre outras soluções, confirmando a superioridade da bicicleta como solução de locomoção em Mauá.

Capa de chuva: água é obstáculo pra poucos ciclistas de Mauá. Foto: Cicloturista Urbana.

Funcionamento

Pra fazer uso do estacionamento, há duas opções: associar-se pagando uma mensalidade de R$10,00 ou pagar uma diária de R$1,00. Feita a escolha, faz-se um cadastro, bem simples; paga-se a taxa correspondente à escolha; o usuário segue para seu gancho, identificado com um número, e sai com um comprovante na mão.

Pra economizar espaço, as bicicletas são penduradas na vertical. Chega a assustar quem tem os braços fininhos como eu, mas o Adilson explica como é fácil pendurar e mostra a técnica do ‘selim da barriga’. Para os usuários que têm dificuldade em colocá-las nos ganchos − apesar de fácil, exige alguma X-força − são disponibilizadas algumas vagas na horizontal, o suficiente pra atender à demanda. Ou seja, todos podem ter seu lugar na ASCOBIKE.

Adilson mostra como pendurar as bicicletas utilizando a "técnica do selim de barriga". Foto: Cicloturista Urbana.

O Desafio continua

Por trás desse cenário há uma história de resistência de pessoas com visão viciada. Começou em 1999, quando o Adilson foi incumbido da missão de ‘tirar’ as bicicletas penduradas nas grades da estação. Se assim o fizesse, sem oferecer alternativa aos ciclistas, iria criar um problema pra eles. Propôs então um estacionamento para bicicletas junto da estação. Diante da recusa da CPTM em assumir a administração, o Adilson criou a associação, solicitando à Companhia somente um espaço residual da estação para o estacionamento.

Num país onde impera a ‘burrocracia’, é de se espantar que um sistema tão simples funcione. O segredo parece estar na ação conjunta das pessoas, atentas e afetuosas. O Adilson, por exemplo, tem olhos de águia e identifica as necessidades reais do usuário. Segundo ele, ali no estacionamento da ASCOBIKE não há nada que não seja realmente necessário. Por exemplo, um detalhe que chama a atenção lá é a quantidade de plaquinhas com mensagens despertando o senso de coletividade dos usuários, incentivando a limpeza e conservação do estacionamento. Ali é uma extensão da rua, o cuidado deve ser coletivo.

Porque a natureza da instituição é colaborativa desde sua origem, quem dá assistência ao público o faz porque quer assisti-lo e não por cumprir ordens. Por conseqüência, atenção intensa, e intimidade desenvolvida com o tempo permitem que deficiências, ineficiências, necessidades sejam identificadas e, assim, que o sistema seja aprimorado.

Bicicletário da ASCOBIKE. Foto: Cicloturista Urbana.

Ainda que funcione bem, a ASCOBIKE precisa ajustar algumas, poucas, coisinhas como melhorar sua relação espacial e operacional com a Estação e com o entorno. O desconhecimento do guarda que me atendeu e a indiferença dos que transitam pelo calçadão por onde se dá o acesso ao estacionamento são sinais daquelas deficiências.

O estacionamento está localizado na borda da estação e o acesso se volta para um calçadão comercial. Ou seja, a conexão estação-bicicletário ainda não é direta. É necessário dar a volta na estação pra se chegar ao estacionamento. Situado num calçadão de intenso fluxo de pedestres, poderá vir a gerar conflitos entre esses dois grupos. Além disso, por se localizar na borda da estação, a visualização por quem está na calçada é dificultada e o estacionamento é confundido com o comércio local. Os ajustes, portanto, extrapolam os limites do estacionamento. Estão no nível da administração pública também.

Facilitar o acesso dos usuários atuais e provocar o interesse dos que passam pelo local pode ampliar o número de usuários de bicicleta e a ASCOBIKE pode ser um meio de promoção desse incremento. Mas pra funcionar como tal, precisa de parceiros: a CPTM e a administração de Mauá.

Funcionando desde 2001, hoje o estacionamento da ASCOBIKE é um sucesso. Mesmo com pouca divulgação, atrai atenção de diversos curiosos e, ironia à parte, até da administração pública. Espero que essa condição seja suficiente para que, no futuro, seja dispensada pela CPTM de pagar IPTU, assim como acontece com o USEBIKE, em São Paulo.

Referência:

[1] Manual ASCOBIKE Abril 2009

Cicloturista Urbana

Veja mais fotos da visita à ASCOBIKE em http://picasaweb.google.com/cicloturistaurbana.

Saiba mais:

http://ascobike.org.br

(Vídeo) Ubatuba

O vídeo abaixo foi feito pela Prefeitura de Ubatuba há alguns anos atrás (provavelmente em 2007) e mostrava as dificuldades que os ciclistas enfrentavam e o que a prefeitura pretendia fazer para sanar esses problemas.

Via Blog Transporte Ativo.

(Vídeo) Em São Paulo, ex-terra da garoa

Vídeo maneiro feito pelo Alexandre Cruz e colaboradores num dos dias de maior índice pluviométrico na metrópole que não pode parar.

São Paulo amplia sua ciclofaixa de lazer

De 5km, a CicloFaixa São Paulo ganhará mais 10km  de pistas exclusivas para as bicicletas. A partir deste domingo, dia 23 de janeiro, a ciclofaixa da capital paulista ligará os Parques Ibirapuera, das Bicicletas e do Povo ao Parque Villa-Lobos. O horário de funcionamento está mantido e será apenas aos domingos e feriados, das 7h às 14h. O novo trecho cruza o rio Pinheiros em dois pontos, um pela Ponte Cidade Jardim e outro pela Ponte Cidade Universitária.

Veja também:

Campinas inaugurará ciclofaixa de lazer para os domingos e feriados

Campinas inaugurará ciclofaixa de lazer para os domingos e feriados

Neste domingo, a cidade paulista de Campinas inaugurará uma ciclofaixa de lazer. Com percurso total de 12km, a ciclofaixa funcionará aos domingos e feriados, das 7h às 13h. A cidade conta hoje com 14km de pistas cicláveis e copia iniciativa que teve absoluto sucesso em São Paulo. Na capital do Estado, a ciclofaixa que liga o Parque do Povo ao Parque Ibirapuera e Parque do Povo superou a estimativa de usuários da cidade, mostrando a grande demanda reprimida de ciclistas que existe na cidade.

A ciclofaixa de lazer que será recém-implantada é uma solução provisória, um paliativo para os problemas de sedentarismo e de trânsito que as metrópoles brasileiras e mesmo cidades de médio porte enfrentam. Aguarda-se que, no futuro, a vontade política em realmente sanar os problemas de mobilidade urbana das cidades invistam na implantação de facilidades aos usuários de transporte coletivo e em ciclofaixas e ciclovias permanentes aos cidadãos, para que estes possam utilizar de meios de transporte menos poluentes e contribuir para a real fluidez nos deslocamentos cotidianos.

Enquanto isso, torce-se para que começamos a vislumbrar o futuro.

Saiba mais:

Jus Brasil – Ciclofaixa Campinas – Cidadania em movimento entra em operação neste domingo

Ilha Comprida oferece aluguel de bicicletas para a família

Por Fabiano Faga Pacheco

Ilha Comprida é uma cidade relativamente nova. Fundada em 1992, o município de cerca de 10.000 habitantes localizado no sul do Estado de São Paulo é um dos poucos que oferecem as condições necessárias para ser considerado uma Estância Balneária. Situado completamente dentro da Área de Proteção Ambiental de Ilha Comprida, a cidade de mesmo nome necessita de um ordenamento especial para que possa, futuramente, se manter adequada às variações na sua fisionomia, proporcionada pelos ventos abundantes que a constroem e descontroem diariamente.

Durante o verão, a população de Ilha Comprida é multiplicada. Estima-se que 250.00 pessoas tenham passado as festas de Natal e Reveillon por lá. E foi nesse contexto que surgiram as mais variadas diversões à beira-mar! Dentre elas, existem  postos onde se pode locar bicicletas.

Aluguel de bicicletas e outras atividades de lazer estão presentes no verão de Ilha Comprida.

Aluguel de bicicletas e outras atividades de lazer estão presentes no verão de Ilha Comprida.

Durante o verão, funcionam de quatro a cinco estandes onde qualquer pessoa pode alugar em triciclo pessoal ou uma carrocela para a família. Até cinco veículos podem ser colocados um atrás do outro, permitindo que todos andem conjuntamente. Cada acento em triciclo ou bicicleta costuma custa R$ 5,00 por hora, e o valor para uma carrocela, onde podem ir até quatro pessoas, sendo duas crianças à frente, é de R$ 15,00.

Um dos modelos de triciclo para se locar em Ilha Comprida.

Carrocelas: diversão para toda a família.

A Ilha Bike é a mais antiga a oferecer o serviço em Ilha Comprida. É também a única empresa que trabalha com aluguel de bicicletas mesmo na baixa temporada. Neste verão e Carnaval, a empresa conta com 150 veículos, entre bicicletas, triciclos e carrocelas. Já a Dream Bike conta com cerca de 100 bicicletas para esse verão.

Os pedalantes podem pedalar por toda a extensão da praia e da Av. Beira-Mar, sempre seguindo as leis de trânsito e sem tumultuá-lo. A balbúrdia causada por alguns grupos de turistas, aliada a uma cultura carro-dominante, quase inviabilizou a continuidade do sistema de locação de bicicletas em Ilha Comprida.

Os ciclistas – até 5 – dividem o espaço da rua com os demais veículos.

O sistema não está regulamentado e funciona por meio de uma parceria entre a prefeitura e os fornecedores desse serviço, que se utilizam de áreas na praia para alugarem as bicicletas. Não há ciclovias na cidade. Em Ilha Comprida, os ciclistas pedalam nas ruas mesmo, compartilhando o espaço com os demais veículos. A ciclofaixa mais próxima fica na cidade vizinha de Iguape, na Rod. Pref. Casemiro Teixeira, pequenos espaços azuis com cerca de 70cm pintados nos dois lados da pista dupla (com uma faixa em cada sentido). Iguape é caminho obrigatório para se chegar a Ilha Comprida. O único acesso terrestre ocorre por uma ponte unindo as duas cidades. Antigamente, os automóveis e pedestres seguiam por uma barca, que acabou desativada após a construção da ponte.

Ciclofaixa em rodovia de Iguape.

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