ASCOBIKE, Uma Visita ao Maior Bicicletário das Américas


Na ASCO

Minha primeira vez em Mauá, estação da CPTM, pergunto pela ASCOBIKE a um segurança. Ele: ‘Ascoquê?’

Sem entender como alguém não percebe que está diariamente a alguns metros de um bicicletário como aquele, o maior das Américas[1], segui buscando. E encontrei. Estava logo ali, à esquerda da saída.

O Adilson, diretor da ASCOBIKE, levou-me gentilmente a um passeio pelo estacionamento com direito a uma visitinha aos arredores físicos e históricos.

A essência da ASCOBIKE. Foto: Cicloturista Urbana.

A ASCO

ASCOBIKE é a Associação dos Condutores de Bicicletas de Mauá que administra um bicicletário anexo à Estação da CPTM de Mauá. Sem maiores ambições do que servir de suporte aos ciclistas Mauá, a ASCOBIKE é responsável pelo estacionamento diário de 1500 bicicletas associadas num espaço para até 2000 bicicletas, nas 24 horas de todos os dias. Além disso, oferece serviço de reparo, um ‘bici-brechó’, cafezinho, água, ar comprimido, banheiro, TV, e (ufa!) festinhas de confraternização que acontecem vez ou outra.

Cafezinho pra começar o dia e calibrador pra enfrentar a rua. Foto: Cicloturista Urbana.

O público é predominantemente masculino. Somente 3% são mulheres. Eles usam a bicicleta como alternativa ao ônibus − caro e ineficiente − e topam qualquer parada pra chegar pedalando à estação. Nem o estado inadequado em que se encontram algumas bicicletas − há umas sem freios, outras com a estrutura quebrada e por aí vai −, nem a chuva abalam a disposição do pessoal. No dia da minha visita havia chovido e o número de ganchos ocupados denunciava que água é obstáculo pra poucos. As bicicletas exibiam capas de chuva penduradas, saquinhos de roupa molhada ou fazendo as vezes de protetores de selim, entre outras soluções, confirmando a superioridade da bicicleta como solução de locomoção em Mauá.

Capa de chuva: água é obstáculo pra poucos ciclistas de Mauá. Foto: Cicloturista Urbana.

Funcionamento

Pra fazer uso do estacionamento, há duas opções: associar-se pagando uma mensalidade de R$10,00 ou pagar uma diária de R$1,00. Feita a escolha, faz-se um cadastro, bem simples; paga-se a taxa correspondente à escolha; o usuário segue para seu gancho, identificado com um número, e sai com um comprovante na mão.

Pra economizar espaço, as bicicletas são penduradas na vertical. Chega a assustar quem tem os braços fininhos como eu, mas o Adilson explica como é fácil pendurar e mostra a técnica do ‘selim da barriga’. Para os usuários que têm dificuldade em colocá-las nos ganchos − apesar de fácil, exige alguma X-força − são disponibilizadas algumas vagas na horizontal, o suficiente pra atender à demanda. Ou seja, todos podem ter seu lugar na ASCOBIKE.

Adilson mostra como pendurar as bicicletas utilizando a "técnica do selim de barriga". Foto: Cicloturista Urbana.

O Desafio continua

Por trás desse cenário há uma história de resistência de pessoas com visão viciada. Começou em 1999, quando o Adilson foi incumbido da missão de ‘tirar’ as bicicletas penduradas nas grades da estação. Se assim o fizesse, sem oferecer alternativa aos ciclistas, iria criar um problema pra eles. Propôs então um estacionamento para bicicletas junto da estação. Diante da recusa da CPTM em assumir a administração, o Adilson criou a associação, solicitando à Companhia somente um espaço residual da estação para o estacionamento.

Num país onde impera a ‘burrocracia’, é de se espantar que um sistema tão simples funcione. O segredo parece estar na ação conjunta das pessoas, atentas e afetuosas. O Adilson, por exemplo, tem olhos de águia e identifica as necessidades reais do usuário. Segundo ele, ali no estacionamento da ASCOBIKE não há nada que não seja realmente necessário. Por exemplo, um detalhe que chama a atenção lá é a quantidade de plaquinhas com mensagens despertando o senso de coletividade dos usuários, incentivando a limpeza e conservação do estacionamento. Ali é uma extensão da rua, o cuidado deve ser coletivo.

Porque a natureza da instituição é colaborativa desde sua origem, quem dá assistência ao público o faz porque quer assisti-lo e não por cumprir ordens. Por conseqüência, atenção intensa, e intimidade desenvolvida com o tempo permitem que deficiências, ineficiências, necessidades sejam identificadas e, assim, que o sistema seja aprimorado.

Bicicletário da ASCOBIKE. Foto: Cicloturista Urbana.

Ainda que funcione bem, a ASCOBIKE precisa ajustar algumas, poucas, coisinhas como melhorar sua relação espacial e operacional com a Estação e com o entorno. O desconhecimento do guarda que me atendeu e a indiferença dos que transitam pelo calçadão por onde se dá o acesso ao estacionamento são sinais daquelas deficiências.

O estacionamento está localizado na borda da estação e o acesso se volta para um calçadão comercial. Ou seja, a conexão estação-bicicletário ainda não é direta. É necessário dar a volta na estação pra se chegar ao estacionamento. Situado num calçadão de intenso fluxo de pedestres, poderá vir a gerar conflitos entre esses dois grupos. Além disso, por se localizar na borda da estação, a visualização por quem está na calçada é dificultada e o estacionamento é confundido com o comércio local. Os ajustes, portanto, extrapolam os limites do estacionamento. Estão no nível da administração pública também.

Facilitar o acesso dos usuários atuais e provocar o interesse dos que passam pelo local pode ampliar o número de usuários de bicicleta e a ASCOBIKE pode ser um meio de promoção desse incremento. Mas pra funcionar como tal, precisa de parceiros: a CPTM e a administração de Mauá.

Funcionando desde 2001, hoje o estacionamento da ASCOBIKE é um sucesso. Mesmo com pouca divulgação, atrai atenção de diversos curiosos e, ironia à parte, até da administração pública. Espero que essa condição seja suficiente para que, no futuro, seja dispensada pela CPTM de pagar IPTU, assim como acontece com o USEBIKE, em São Paulo.

Referência:

[1] Manual ASCOBIKE Abril 2009

Cicloturista Urbana

Veja mais fotos da visita à ASCOBIKE em http://picasaweb.google.com/cicloturistaurbana.

Saiba mais:

http://ascobike.org.br

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

2 Responses to ASCOBIKE, Uma Visita ao Maior Bicicletário das Américas

  1. Pingback: Tweets that mention ASCOBIKE, Uma Visita ao Maior Bicicletário das Américas « Bicicleta na Rua -- Topsy.com

  2. Li a matéria na revista “Infraestrutura Urbana” – janeiro 2013 – “BICICLETÁRIO MODAL” mencionando o projeto para a estação ferroviária José Bonifácio e gostaríamos de parabenizá-los pelo trabalho.
    O ICZ – Instituto de Metais não Ferrosos – faz um trabalho de divulgação da Galvanização por Imersão a Quente, processo mais eficiente de proteção do ferro e aço contra a corrosão, através de palestras gratuitas em entidades de ensino. Temos alguns slides que mostram “Bikestation” com sistemas semelhantes ao proposto para a estação ferroviária José Bonifácio, onde as canaletas e todas as demais estruturas metálicas são galvanizadas. Conquistamos com isso, além do aumento de vida útil das estruturas, a sustentabilidade do produto e a segurança para os usuários.
    Aqui no Brasil nos deparamos hoje com várias aplicações com aços galvanizados por imersão a quente, como pórticos de sustentação em ferrovias, postes de iluminação, defensas metálicas (guard rail), grades de proteção, guarda corpos, pórticos de sinalização e seria bastante interessante que esta tendência dos bicicletários também se beneficiasse deste processo.
    Gostaríamos muito de fazer uma apresentação para sua empresa a respeito, lembrando-o que fazemos gratuitamente, como trabalho institucional em prol do meio ambiente.

    Atenciosamente,

    Eng° Paulo Silva Sobrinho
    Coordenador Técnico
    ICZ – Instituto de Metais Não Ferrosos
    Fone/Fax: (55-11) 3214-1311
    paulo.sobrinho@icz.org.br
    http://www.icz.org.br
    http://www.portaldagalvanizacao.com.br

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