(Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum


O artigo abaixo foram originalmente publicadas na edição impressa do periódico Diário Catarinense, em 29 de abril de 2011 (pág. 3 do caderno Variedades). Você pode lê-lo no site do DC aqui.

Diário Catarinense

CONTEXTO

Escutai os gringos

Escrevo e envio este texto na terça-feira à noite, depois do primeiro dia do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Na quarta, haveria outra rodada de palestras, encerrando o evento.

Alguns dos maiores pesquisadores mundiais do assunto estavam no Teatro Pedro Ivo, expondo suas ideias cosmopolitas para uma plateia de pouco mais de cem pessoas sem “nenhum vereador ou prefeito da Grande Florianópolis”, como notou, no Jornal do Almoço, o repórter Rafael Faraco.

As falas foram inspiradoras. Não pretendo resumir um conteúdo tão complexo. Quero apenas lembrar alguns pontos para arrancar disso uma reflexão.

O inglês Rodney Tolley dirige o projeto Walk21. Sua defesa do ato de caminhar, longe de ser ingênua, é uma lufada de bom senso. Andar, lembra, não se trata apenas da ida de “a” para “b”, mas da exploração do que há pelo caminho. Ignorada no último século, a caminhada como séria opção de mobilidade urbana vive um renascimento, merecendo conferências pelo planeta e programas especiais em cidades como Londres, Nova York, Copenhague, Barcelona. Não é o caso de criar andarilhos, mas de incentivar caminhadas em distâncias razoáveis para colocar mais pessoas nas ruas, gerando ambientes gregários, saudáveis e seguros. As cidades engajadas fazem um grande levantamento de informações úteis para os pedestres, proíbem os carros em algumas vias aos domingos e assim por diante.

O holandês Ton Daggers falou das famosamente bem-sucedidas experiências do seu país com as bicicletas – inclusive as elétricas, cada vez mais difundidas por lá e aliás já disponíveis por aqui. Na Holanda, terra de 18 milhões de bikes para 16 milhões de habitantes, há cada vez mais cyclo routes, as rodovias para as bicicletas, muitas vezes paralelas às autoestradas. Há dois anos dirigi rapidamente por Amsterdã e, diante de estacionamentos de R$ 350/dia e olhares nativos de desprezo, percebi o que é o carro para eles. A hierarquia se inverte: pedestres e ciclistas, felizmente, mandam no território.

O alemão Niklas Sieber explorou a questão dos transportes coletivos – custos, novidades, prós e contras, ótimas e péssimas experiências de mobilidade em cidades diversas. Um dos termos do momento sobre o assunto é “ transporte multimodal”, a articulação entre diversos meios de locomoção. Pela manhã, na palestra de abertura do Fórum o colombiano Gil Peñalosa deixou um frase ecoando pelo ambiente: “Cada cidade encontra uma razão para dizer que não vai mudar”. Alheio a desculpas assim, ele e seu irmão Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, revolucionaram o transporte por aquelas bandas.

Nisso voltamos aos nossos políticos. Pois é, eles não estavam no evento. Devem considerar as ideias dos estudiosos muito ripongas para a nossa realidade. Lamento que pensem assim, mas compreendo por que isso acontece. Que estímulo tem um prefeito para ser arrojado em termos de mobilidade urbana e por exemplo taxar a circulação de automóveis pelo centro, se o apedrejaríamos por isso? A cultura local não ajuda. No Brasil, o ônibus é visto como um veículo para estudantes e semifracassados em geral. Ignora-se que na Europa um chefe de grande empresa vá trabalhar de metrô ou bicicleta pública.

Fui ao Fórum de ônibus, mas até hoje deixei bem menos o carro na garagem do que podia. Sou um egoísta idiota – e aposto que, nesse quesito, a maioria dos leitores desse texto também é. Fica então o convite para admitirmos que hábitos de vida inteira possam ser justamente os mais errados. Vamos lá: www.walk21.com.

Thiago Momm

Saiba mais:

(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

4 Responses to (Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum

  1. Thiago, meu nome é Ricardo Vieira e sou vereador em Florianópolis, onde presido a Frente parlamentar pela Mobilidade.

    Estive participando do Fórum, bem como me reuni com a Viaciclo, com palestrantes do Fórum.

    Saibas que as questões levantadas por você são também minhas preocupações. É uma pena realmente que mais parlamentares e prefeitos não tenham ido, mas estou tentando fazer a minha parte.

    Abaixo o link da matéria no meu site sobre o Fórum:
    http://miud.in/nKp

    forte abraço!

  2. Milton Della Giustina says:

    Infelizmente quem tem “tinta na caneta” não faz pesquisas para decidir as melhores soluções, resolve por pressão ou impulso.
    E o pior, pressionados por um povinho provinciano e egoísta, sem conhecimento técnico, que esta dando tiro nos próprios pés. Infelizmente com dinheiro dos nossos impostos.
    Milton

  3. Pingback: (Mobilidade nas Cidades) Florianópolis será premiada por revitalização nos Ingleses « Bicicleta na Rua

  4. É SEMPRE A MESMA BALELA HÁ 10 ANOS!

    Pessoal. Participei de muitos seminários, fóruns e encontros afins nos últimos 10 anos (desde o Cidades Amigas da Bicicleta em 2001) e em nenhum deles continha a presença das autoridades máximas do Executivo (Governadores, Secretários e Prefeitos). São sempre os mesmos, nós cicloativistas e uns técnicos gatos pingados (como eu também) que não têm a caneta na mão. Afinal, de que adianta os técnicos e alguns diretores saírem empolgados se quem decide não participa destes eventos. E, ainda quando um ou outro chefe de executivo participa, é para compor a abertura do evento, compor a mesa, falar geralmente emendando para as obras rodoviárias e logo após desfazer a mesa, pois a agenda destes caras é apertada. Daí ficamos apenas nós assistindo as palestras, meros cumpridores de ordens do executivo, sonhando com aquele mundo fantástico, sem decidir nada. Desculpem o desabafo, mas muitos agora infelizmente perceberam na carne o que sinto há anos nestes seminários e fóruns afins. Mas, nem por isso deixarei de lutar, pois a luta é de frente, indo nas audiências públicas, entrando no ministério público e publicando nos jornais.

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