(Conexão Sul 2011) Dia 3 – Balneário Piçarras – São Francisco do Sul

No dia anterior a maior dificuldade foi, nitidamente, o vento nordeste, de fato o mais comum no litoral catarinense, que tentou, em vão, barrar-nos ao longo de todo o trecho percorrido. Neste terceiro dia de viagem, a dificuldade maior foi outra, menos convencional, mas tão ou mais difícil de se enfrentar quanto àquela.

Acordei bem mais cansado que no primeiro dia. As barracas estavam deixando o ajardinado. As roupas lavadas no dia anterior não haviam secado com a alta umidade da madrugada – e isso incluía todas as minhas roupas para o pedalar! Vesti e bermuda molhada, besuntada na toda poderosa maisena e uma pomada. A camisa fria fez-me tremer. Ajustei minhas outras roupas no bagageiro para poder secá-las enquanto pedalasse.

O café-da-manhã comunal, a preparação das bikes, a pintura dos rostos com o vermelho urucum, as primeiras pedaladas pouco após às 9h. A tudo isso sucedeu a nossa despedida de Piçarras.

Entramos cedo em Barra Velha. Os transeuntes de Piçarras de Barra Velha foram muito calorosos com a gente. Muitos “bons dias” foram distribuídos e retribuídos e muitas buzinas de apoio nos acompanharam.

A via de entrada de Barra Velha foi uma continuação de Piçarras, o acostamento áspero fazia-nos freqüentemente seguir pela pista, quase vazia das ruas da cidade. As águas revoltas da praia nos acompanharam. Em pouco tempo, adentramos uma ciclofaixa, na verdade, mais um acostamento que virou pista para uso da bicicleta. A sinalização não nos permitiu perceber se ela era bidirecional ou não, embora tenha largura para tal. Areia era comum em vários trechos e vários ciclistas voltavam pelo outro lado da pista, no mesmo sentido do fluxo automotor. Pegamos a marginal da BR-101 antes de seguir pela praia rumo ao centro da cidade. Além do mar bravio, constantemente enfrentado pelos pescadores, uma calçada ampla era seguida por 3 faixas para veículos e uma calçada irregular. Jerivás davam um aspecto tropical à praia e permitiam-nos sentir mais calmos em meio às águas agitadas.

Uma interação com os pescadores ocorreu no centro da cidade, que registrou o maior congestionamento de sua história, segundo fontes “fidedignas”: cinco veículos. Após pedalarmos por uma rua fechada aos automóveis, paramos num sacolão/loja de frutas e verduras, onde nos abastecemos com bananas, bergamotas (como o pessoal daqui costuma chamar tanto uma variedade de mexerica quanto a todas as tangerinas do mercado), achocolatados, bebidas refrescantes. Uma futura bióloga campeã no judô aparecia na contracapa de um dos jornais. Que ela valorize bastante a minha futura profissão!

Do nada, sentíamos que estávamos próximos à novaiorquina Ilha de Manhattan com a aproximação da Estátua da Liberdade de uma loja de departamentos. Mas o Guimo tratou de mostrar-nos a realidade brasileira sendo rebocado por um trator, enquanto flores eram surrupiadas.

Voltamos à BR-101, onde fomos parados por policiais rodoviários por alguns de nós estarmos andando em fila dupla no acostamento. Recomendou-nos seguir apenas em fila indiana nas BRs e a tomarmos bastante cuidado. Numa ponte próxima, ajudou-nos com uma eficiente escolta. Por sinal, todas as demais pontes pelas quais passamos não haviam espaço destinado à circulação de ciclistas e pedestres. Lamentável para um Estado que se considera desenvolvido. Passamos sem problemas pelo pedágio. Descansamos – bem – pouco depois das 12h30, no Sinuelo, onde se encontra um Memorial do Descobrimento, com réplica de naus, galiformes, entre os quais um belo exemplar de macho de faisão dourado. Garrafas d’água enchidas, futebol com fruta jogado, embaixadinhas tentadas, era hora de prosseguir. Mal sabíamos que começava ali a pior parte. A estradinha de terra não dava sinais de imediato do que ela se tornaria: um areial!

Não foram poucas as bicicletas barradas no primeiro trecho de areia fina, que mais era um treinamento para o que viria mais tarde. Uma estrada recém-asfaltada e com pesado tráfego de caminhões, emoldurada por cultivo de Pinus deu-nos agilidade até o próximo trecho. Areia, terra, areia, lama, areia, rochas, areia…. Todos, em algum momento, tiveram seus deslocamentos interrompidos pelos caprichos da natureza. No começo, pasto, banhados e muitas espécies exóticas acompanhavam-nos, sendo, após vários e vários quilômetros, sendo substituídos por exemplares nativos da restinga, manguezal e mata atlântica catarinense, além de insumos alimentares. Recomenda-se fortemente esse caminho a quem quer treinar técnica de pedalada para esse tipo de terreno, que consistiu basicamente em aumentar a freqüência da pedalada e reduzir a força aplicada/relação entre as marchas. Isso permitiu um maior giro para lidar com as adversidades presentes a cada metro rodado.

Os animais bem no meio da estradinha foram um show à parte, como o cavalo branco a nos encarar ou a portentosa vaca Mansinha e fitar-nos descaradamente! Próximo ao final da estradinha, uma figueira gigante dava mostras do que deveria ser a floresta antes da devastação certamente promovida.

Dentre os causos, o Max e a Bruna pararam para conversar com um morador da região e seu cachorrinho, que até ofereceu comida e hospedagem naquela terra distante de tudo muita coisa.

Por incrível que pareça, mesmo com o teste de fogo imposto aos componentes da bike, não foi registrado um só pneu furado sequer! A Júlia Locatelli teve o parafuso no bagageiro dianteiro caído ainda antes do Sinuelo. A Maiana, já no final da areia teve a cestinha dianteira pendida com a soltura de uma porca. Entre ambos, o Marcelo, da Oceanografia, que pedalava de chinelos, teve a ajuda de uma chave allen para regular a magrela e evitar algo pior.

No encontro como o paralelepípedo, o reencontro de todos! Chuva de squezzee, roda de capoeira, a alimentação e a tomada de rumo.

Passamos por Araquari rapidamente.

A BR-280 continua ruim para o tráfego de ciclistas. Os acostamentos são, em média, ruins, com declividade, pouca manutenção, pontes que se estreitam, fluxo veloz e pesado. De bom, o trem, a ponte, os corpos d´água, os jerivás, as bananas, as flores em pleno outono.

Na última parada para reagrupar um carro para e dele saem duas pessoas em direção a nós. O vereador de São Francisco do Sul Vilson Coruja (PPS) foi um dos vários que notaram nossa presença na estrada e parou para gravar uma notinha para a TVBE (Televisão Brasil Esperança).

O perímetro urbano de São Chico reservou-nos também uma ciclofaixa. por (muitas) vezes estreita, por outras de bom tamanho. Ela é apenas unidirecional, seguida por um faixa de rolamento para cada sentido e um espaço para estacionamento de automóveis. Ela abrangia também um trecho de subida. Aí, ela precisa ser reformulada e alargada, devido aos movimentos de corpo que o ciclista faz comumente em aclives. Lombadas também cortam a ciclofaixa, tanto na descida quanto na subida (!). Há ciclistas que pedalam na ciclofaixa no contrafluxo e outros que usam a faixa de rolamento de veículos para seguir no sentido oposto ao da ciclofaixa.

No decorrer do dia, foram apenas um GU e uma barra de proteína ingeridos, refletindo a maior ingestão de bananas e bergamotas, além de 1,35mL de bebida refrescante Del Valle, 1L de água, 0,5L de água com SUUM e 0,5L de suco.

Hoje estamos hospedados na imensa casa do avô do Diogo e do Tomaz, uma construção antiga alemã que me lembra um chalé eclético (com a palavra, os arquitetos). No alto do terreno de 1ha, uma goiabeira fez a festa de quem queria descansar ou fazer as suas macaquices após o longo pedal. O descanso na relva, as brigas entre homens e mulheres (elas venceram!), a abertura da casa, o banho quente – o primeiro da viagem -, a janta feita na hora (macarrão com molho branco, berinjela, salada, ovo, lentilha), a sobremesa (creme de abacate) no chão da sala-cafofo, devorada em minutos por 21 colheres, a massagem em conjunto, a música provinda do violão, as vozes acompanhando-a, cicloleseira. A galera já está cansada e hoje espero não ser o último novamente a dormir.

Fabiano Faga Pacheco

São Francisco do Sul, terça-feira, 21 de junho de 2011, às 0h14min.

(Conexão Sul 2011) Dia 2 – Porto Belo – Balneário Piçarras

Ao abrir minha barraca imediatamente após escrever sobre o dia de ontem, percebi que a névoa espairecera, sinalizando o dia bom que recém-iniciava. Eu dormira na barraca do Max da Roberta (estudante de Geografia), que, solitária, virara depósito de bugigangas da galera.

Acordei com alguém me chamando para poder pegar algo que deixara lá dentro. Rumores de que eu havia chegado surgiam. Saí da barraca e veio a primeira descoberta do dia: o rio ao lado do qual acampáramos era uma lagoa! A Ana Carol e o André Costa, da loja/site/blogue Pedarilhos, também estavam lá. A Ana, em 2009, venceu o Desafio Intermodal de Florianópolis, conduzindo a sua bicicleta feminina com cestinha, e seu trabalho de conclusão de curso em Moda envolveu a “Adequação do vestuário para o ciclista urbano”. Eles aproveitaram o sábado livre para passearem com o grupo.

O café comunal envolvia café esquentado na hora num fogareiro, pão, queijo e tomate. Eu, em especial, fui tomar um misto de café pingado com cafés curtos no mesmo posto do dia anterior. Utilizei-me também do banheiro para passar um creme-protetor-suavizante-hidratante-redutor-de-atrito nas partes baixas. O mercado principal do Trevo do Perequê somente abria às 9h. Retornei ao acampamento, onde me aprontei para a saída. Vesti meu uniforme brasileiro recém-ganho de meus pais. Para a minha surpresa, pude perceber que eu seria o único na viagem a vestir as camisetas de ciclistas. O grupo anda mais de boa quanto à roupa e até mesmo os bagageiros são, de certa forma, improvisados. O Marcelo, colega da Oceanografia para quem já cheguei inclusive a dar monitoria há alguns anos, passou o dia a pedalar de chinelos! E ainda tirava sarro da gente, pobres escravos dos tênis!

O grupo total era composto por 23 pessoas. Além do casal Ana e André, e do Marcelo, havia ainda mais um rapaz e duas garotas da Geografia e o restante, da Biologia. Eram 10 guris e 13 garotas compartilhando a experiência única dessa aventura.

No posto, enchemos os pneus da bike e despedimo-nos do casal. Eu ainda passei no mercado para assegurar parte do lanche antes de sair. Pouco depois das 9h, dirigiamo-nos para Itapema.

            Se no dia anterior ninguém chegou a ter problemas com a bike, hoje foi um pouco diferente. O pneu da Júlia Silveira (Conchinha) foi murchando aos poucos durante a noite. Não muito longe do Trevo do Perequê, foi a vez da futura geógrafa Bruna ver sua bicicleta avariada. Grande parte do grupo parou para acudi-la, mas quem seguia muito à frente não chegou a saber a tempo do ocorrido. Nessa parada, tivemos o primeiro trio de flautistas do dia, com o Max, Guilherme (Guimo, da Geografia) e Tomaz sendo acompanhados pelo Panda, tocando sua…. bomba de encher pneus! O urucum que vários passaram no corpo e no rosto pela manhã dava um tom mais ritualístico às perguntas e respostas toadas em meio a cantigas nacionais.

Como ocorreu em boa parte do caminho, atravessamos uma ponte e lá começava outra cidade, agora Itapema. Observamos a Meia Praia, e o Max, a Conchinha e o Diogo não hesitaram em mergulhar.

Na principal rua do município, havia uma ciclofaixa. Interessante notar como as cidades priorizam seus cidadãos de maneiras diferentes. Sabiamente, a ciclofaixa situa-se entre a calçada e as vagas de estacionamento do comércio, impedindo o avanço dos automóveis sobre a ciclofaixa, mesmo para simples traslados. Vários cruzamentos são sinalizados indicando claramente a preferência do ciclista. As vagas permitem tanto a parada de automóveis quanto de motos e veículos de serviço (como ambulâncias), tudo bem demarcado. Em alguns trechos da praia também há passeio compartilhado com pedestres e automóveis (estes mais raros). A cidade parece estar evoluindo nas questões de mobilidade, mas pode ainda melhorar mais. O pavimento da ciclofaixa está bem mais deteriorado do que o das faixas para automóveis, com desníveis importantes. Outra coisa legal de Itapema é a presença de ciclofaixas bidirecionais em trechos de fluxo automotor único e chega a ser, também, curiosa a presença de um cruzamento com semáforos para ciclistas e, em outro tempo, uma sinaleira para pedestres. É interessante também o final da ciclofaixa, sendo o tráfego do ciclista misturado ao automotor quase que naturalmente.

Os bicicletários que vi em Meia Praia não são bons, embora seu design dê uma sensação de terem estilo. Esses modelos foram atualmente rejeitados numa das reuniões do Pró-Bici, com bons argumentos contrários. De lá, pegamos uma estrada em direção a Balneário Camboriú. Passamos por umas praias cheias de surfistas, ainda em Itapema e eu ainda agora custo a acreditar que, para eles, naquela condição, o mar não estava revolto. Vários morrinhos tiveram que ser vencidos antes da entrada do Balneário mais movimentado do Estado. Passamos de bike por um túnel (algo que, por sinal, a Ecovias não deixa fazer) e evitamos a Interpraias, fugindo do acesso à Praia das Laranjeiras (mais um morrinho….). O interessante nessa parte do caminho foram as placas, com publicidades de uma cueca comestível sabor chocolate para matar o desejo delas, além de um restaurante tirolês que jurava servir um autêntico café da manhã alemão (ok, Tirol é um estado alemão austríaco). Uma parada para reagrupar e melhorar o ânimo fez-se necessária antes de adentrar a Avenida Atlântica, a beira-mar do balneário. Antes, a idéia era fazer uma parada maior na cidade e a tática acabou mudando (ao meu ver equivocadamente) para tentar se chegar o mais longe e depois comer bem. Simplesmente passamos pelo charmoso balneário, mal prestando atenção em sua praia, sua gente. A brisa marinha retirou uma parte do cansaço e fez todos seguirem mais animados. Mas… apenas com o café-da-manhã! Isso já havia feito uma diferença na entrada de Balneário Camboriú e, com o mais severo morro do dia, a fadiga e a fome começaram a se agravar. A subida desse morro gerou uma rápida descida que culminou numa estrada em obras, com muita poeira sendo soerguida o tempo todo. Em Itajaí, foi gostoso pedalar à beira do Rio Itajaí-Açu, junto a muitos parques e áreas verdes. Foi também a realização do singelo sonho da Cândice, que sempre quis conhecer o porto da cidade, por sinal um dos mais movimentados de Santa Catarina.

No centro de Itajaí, ocorriam provas de bike cross e a idéia de comer no Mercado Público da cidade naufragou com o cedo fechamento deste no domingo. Pagamos R$ 1,30 para cruzar o rio no ferry-boat. Após o traslado estávamos em plena ciclofaixa no município de  Navegantes. O perfil dessa ciclofaixa é parecido com vários trechos de Itapema, sem, entretanto, conseguir ser tão bom quanto o daquela cidade. A ciclofaixa é grudada na calçada, entre esta e um espaço de estacionamentos. Toda a extensão da rua que liga o ferry-boat ao mar tem mão única. Entretanto, a ciclofaixa, bidirecional, não apresenta as medidas mínimas para 1 (uma) bicicleta. Nem mesmo o bom senso a consideraria de tal maneira. É muito estreita! Essa disposição costuma refletir hierarquização e desigualdade na cidade, em que o ciclista, em grande número, é simplesmente retirado da rua e jogado à estreita ciclofaixa, enquanto as três pistas para automóveis ficam subutilizadas.  A chamada de atenção por policiais na cidade, embora por vezes necessária, aumentou-me essa percepção. Muitos ciclistas usam a rua na contramão para se dirigirem ao ferry-boat. Pode não ser o mais seguro, mas, na cabeça deles, é o que faz mais sentido.

Pode-se dizer que almoçamos aí. Numa padaria, deliciamo-nos com os mais diversos gostos e sabores. Eu aproveitei para encher as minhas garrafas de água. O ritmo da pedalada melhorou muito depois da alimentação.

A restinga da praia de Navegantes parece bem cuidada. Uma estrada reta, plana e contínua fez-nos seguir ao norte. Vários carros buzinaram para gente, dando-nos apoio e estima para ir em frente. Como nota triste, um deles quase fez um grupo que ficou à frente – por sinal, onde eu estava – de pinos de boliche, ultrapassando sem a menor consciência dois veículos. A estrada tem apenas duas pistas e nenhum acostamento, de tal modo que somos obrigados a enfrentar o ainda árduo compartilhamento de vias. Algumas pessoas trilham seu próprio caminho em meio ao mato cerrado ao redor. Chegando no bairro de Gravatá, um acostamento de lajotas não nos foi acolhedor. Paramos para reunir o pessoal próximo a um posto de guarda-vidas, onde o Tomaz resolveu subir de maneira pouco conveniente. Mas a “inconveniência” atingiu limiares muito mais baixos, como na foto abaixo (DSC07975, a ser colocada ainda, aguardem). A praia imprópria parecia espelhar a ocupação próxima de alguns hotéis e/ou residências, ajudando-nos a refletir por que Santa Catarina têm níveis de saneamento básico tão inexpressivos quando levamos em conta a sua qualidade de vida. Interessante foi também uma placa oficial constando o nome do município (NaveGATES). Nessa parada, foram hilárias as cenas de alongamento dos ciclistas! A água, revolta, não estava convidativa.

Chegamos a Penha, todo pedalando bem próximos. Em vários trechos há ciclofaixa, uma linha demarcada meio avermelhada no asfalto. Às vezes, ela vira acostamento ou estacionamento de lojas antes de voltar oficialmente a ser ciclofaixa. Muito buraco, desníveis, bueiros dão o tom. A temperatura do cair da tarde e do ambiente com mais árvores próximas fica amena, ao contrário do tensionante mormaço das rodovias do Sol à pino. Passamos pelo parque temático Beto Carrero World. Mesmo sendo um referencial arquitetônico em meio à monotonia semiurbana, teve gente que não reparou em sua existência. A ciclofaixa continua a incomodar e toda hora temos que sair dela para nos desviar dos obstáculos da pavimentação. O tratamento próximo aos pontos de ônibus, em que uma ciclovia passa por trás da cabine, foi adequada, embora um poste – e bem atrás de um ponto de ônibus – tenha dado as caras, quase nos causando um acidente.

Um escultura estranha deu-nos o adeus da cidade, a poucos metros de onde uma ponte se encarregaria de transportar-nos até Balneário Piçarras. Andamos um pouco e, às 16h30 exatamente, estávamos defronte à casa do Fábio, um amigo de alguns dos viajantes que cedeu o terreno da casa para armarmos as barracas e as duchas para nos banharmos.

Enquanto uma parte já montava a barraca e tomava banho coletivo na ducha externa de águas frias, 14 deles foram à praia, distante duas quadras (ou uma quadra e uma restinga), eu incluso. Entrei na água gelada e logo começou a bater cãibra. Alonguei-me um pouco antes de retornar. A praia dissipativa, de tombo, estava bravia, possibilitando inúmeros jacarés num turbilhão de marolas. De tão fria a água do mar nem me foi tão difícil banhar-me na ducha.

Todos limpos, fizemos uma roda de massagens, tendo os participantes recebidos dezenas de dedos, apalpos, pegadas, pressões, numa relaxante terapia grupal que rendeu diversas risadas.

Pedimos 6 pizzas grandes (e ganhamos mais uma doce), totalizando mais de 7 pedaços para cada um, engolidos por todos com certa dificuldade, ao custo de 10 reais por cabeça. O Panda, a namorada e a Cândice optaram por preparar o jantar, com um saboroso miojo regado de salada.

Recarreguei o notebook, a bateria da câmera fotográfica e o celular. O que mais faz falta por aqui onde estamos é um banheiro. Imediatamente antes de escrever este texto, baixei e ajustei minhas fotos de ontem e de hoje, e com o Max e a Bruna fiquei conversando fitando o mar.

Ao longo do dia, além dos 200mL de café no posto, bebi cerca de 2,5L de água, além de um gatorade, 450mL de caldo de cana e uns 300mL de suco de uva, ambos últimos em Navegantes, hidratando-me mais que no dia anterior. Comi, além das pizzas, quatro pães com queijo, uma barra de cereal, duas de proteína e dois géis de carboidrato (GU) e um SUUM junto com água. Espero amanhã conseguir me alimentar melhor, com frutas e saladas. Por enquanto, meu organismo está dando conta, mas estamos apenas no começo da viagem e prevenir é realmente melhor do que remediar.

Agora já todos dormem, a despeito de barulhos estranhos vindos de uma ou outra barraca, enquanto eu aqui, ao relento, tremo de frio. Já passou um pouquinho de meu horário de recarregar as energias.

Fabiano Faga Pacheco

Balneário Piçarras, segunda-feira, 20 de junho de 2011, às 1h57min.

(Conexão Sul 2011) Dia 1 – Florianópolis – Porto Belo

Desculpem-me por não atualizar o site tanto quanto surgem os acontecimentos relacionados à bicicleta, O Pró-Bici, o qual hoje secretario, as atividades acadêmicas e as pesquisas para a minha monografia não me permitem atualizá-lo com tanta freqüência quanto gostaria.

Entre sábado, 18 de junho, e quarta-feira, dia 22, estará acontecendo a versão 2011 do Projeto Conexão Sul. Este projeto, não oficializado pela universidade, está sendo tocado por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos e Educação Ambiental (GEABio). Entre os objetivos, sem dúvida está a divulgação da bicicleta como meio de deslocamentos, tanto de curta quanto de longa distância.

Entre esses dias, refletindo o movimento de intenso uso da bicicleta entre os estudantes, estará acontecendo a cicloviagem entre Florianópolis e Ilha do Mel (PR), na qual, na quinta-feira, terá início o Encontro Regional de Estudantes da Biologia da Região Sul – EREB-Sul.

Minha vontade de participar desse projeto era grande, mas os desafios também eram enormes. Fora TCC e Pró-Bici, um outro problema me afetava há meses. Eu tivera um acidente feio durante o Audax Floripa 200km deste ano, realizado em 23 de março. Mesmo com dor, pedalei os demais 185km que me distanciavam da chegada. Mas a queda não ficou barata: depois de um mês, descobriu-se que ganhei, com ela, um tipo de hérnia de disco! Ao saber da cicloviagem, meu desafio pessoal estava lançado! Dá-lhe fisioterapia para minorar a dor.

Após passar grande parte das duas semanas anteriores estudando, consegui finalizar as atividades a tempo para poder participar dessa pedalada. As dores praticamente terminado nesse meio tempo também (mais de dois meses após o acidente) e obtive, às vésperas, os equipamentos de bicicleta que me deixaram confiantes em poder realizar a pedalada sem maiores preocupações. Bagageiro decente, um novo capacete (uma vez que o outro teve que ficar indisponibilizado quando protegeu-me a cuca na queda) e alforges! Sim, antes eu utilizava malas e mochilas para o traslado de minhas coisas.

Arrumei praticamente tudo na véspera, separei a roupa que esperava usar (e troquei antes de sair de casa, devido ao tempo bom), só ficando as coisas de geladeira para serem guardadas. O horário combinado de saída era às 7h30, entretanto eu teria que fazer algumas atividades no comércio, as quais só faria após às 8h. Esperava encontrá-los pouco após sair para pedalar, mas não foi isso o que aconteceu…

Fui dormir mais ou menos às 5h30, resolvendo as últimas questões de minha ausência e arrumando as coisas. Bom, demorei 20min para fazer o que faria pela manhã e algumas horas para acordar. Às 14h apenas  saí de casa e segui ao encontro da galera, que entre às 8h e 9h já haviam de partido.

Despedi-me de minhas vizinhas e saí. Bem no começo de meu caminho, ainda na Ilha de Santa Catarina, uma surpresa: Um grupo de pouco menos de 10 pessoas terminava uma prova de caminhada. Eles estavam há 8 dias dando a volta à ilha, cansados, mas preparando-se para finalizarem festejando.

No Balneário do Estreito, um guri numa bike grande para o seu tamanho puxou conversa comigo (-Maneira a sua bike!). Olhando a barraca que levava, disse-me que sempre quisera acampar, mas nunca tivera oportunidade. Minha mãe, quando criança, acampou por todo o litoral brasileiro com os pais e os irmãos, enquanto eu só fui acampar pela primeira vez aos 17 anos, embora a vontade imensa. Meu avô recentemente se desfez de vários de seus equipamentos de escotismo. Eu também, ao saber que alguém é bandeirante ou escoteiro, converso com um misto de inveja e fascinação. Acho também uma pena a pouca adesão  – relativamente – ao  contato com a natureza e às suas maravilhas.

Evitei quase todos os trechos mais perigosos, desviando por algumas das poucas ruas paralelas existentes nas cidades catarinenses. Usei a ainda não inaugurada Beira-Mar do Estreito (Avenida Poeta Zininho). Foi emocionante ver a população utilizando-se daquele espaço ainda livre de automóveis. Um parque poderia ser melhor opção do que mais 3 pistas para o tráfego supostamente fluir melhor à Ilha da falta de mobilidade.

Evitei trechos da PC3 (Av. Leoberto Leal, em São José) seguindo pela R. Heriberto Hulse, de mesmo nome do estádio do Leão do Sul, o Criciúma.

Pouco antes das 15h30 já estava no Prado, em Biguaçu, quando o Arthur Fleury (vulgo Panda) falou-me que eu estava em bom ritmo, que uma galera já havia chegado em Tijucas e que se pensava em seguir rumo a Itapema. Há dois caminhos para se alcançar Tijucas. Um é pela BR-101, com os carros agora andando a 110km/h como velocidade mínima, como de praxe no Estado vice-líder em mortes por imprudências no trânsito. O outro é pela chamada estrada do Café. Falei com o Max Levy, o mesmo que foi para o Chile em janeiro do ano passado, antes de sair de Floripa e ele me aconselhou fortemente a ir por esse caminho.

Em Biguaçu, fui por dentro de Três Riachos, e logo me deparei com paisagens mistas de pasto e vegetação. Muita pecuária e pasto inutilizado. O caminho dá cinco quilômetros mais longo, mas a sensação térmica é bem diferente. É mais frio que pelo asfalto da BR-101, mais seguro e mais agradável, embora os carros não forneçam tanto vácuo, um dos motivos que ouvi em defesa da rodovia federal. Em Três Riachos, a pista dá voltas e o asfalto e a movimentação de automóveis não deixam as ruas calmas. A vegetação e o verde dos morros chamam a atenção. Virei em direção a Sorocaba. O asfalto terminou e começou o chão batido. O sinal do celular apagou-se. Ao contrário do asfalto, a sensação térmica era amena e agradável. Desbarrancamentos podiam ser observados em alguns trechos do caminho. Muitas espécies exóticas, como Pinus e eucaliptos davam os contornos gerais da vegetação. Em um dos sítios do lugar, um casal de pavão chamou-me a atenção. Um pássaro negro e um anu branco também percebi quando de dia. Sem contar as garças, patos e gansos.

Antes de Sorocaba virei em Estiva. Mesmo chão batido, mas quase sem morros. às 17h30, mais ou menos, avistei a BR ao longe. Cheguei a ela e….. não havia como cruzá-la com uma bike pesada. Havia muretas em toda a extensão. De lá, optei por voltar à Estrada do Café em vez de seguir pela BR. Hoje acho que não foi uma boa escolha. [Obs.: agora observando pelo mapa, navegando pela internet, vejo que essa volta por Estiva, recomendado por moradores foi o meu erro, deveria ter adentrado Sorocaba].

O Sol havia se recém-posto.

Cheguei no povoado de Estiva e, já de noite, um dos caras de lá passou-me uma informação incorreta que aumentou em alguns quilômetros meu caminho e meu cansaço. Durante todo o percurso, eu mal parei, ao contrário de meus amigos, que aproveitaram para banhar-se em rio! Bebi 1,4L de água e 0,5L de gatorade antes de encontrar meus colegas, além de mais 0,8L de Powerade, água e SUUM. Alimentei-me basicamente de pãezinhos, carboidrato em gel (GU e VO2) e barras de proteína. Queria parar pouco para tentar encontrá-los. A fase noturna de minha viagem solo não permitiu isso.

Entre Estiva, Areias de Cima, Areias de Baixo, Sorocaba do Sul e Timbé, o frio, a falta de iluminação, o cansaço, as irregularidades do chão batido, as variações de relevo imperceptíveis a longa distância foram, sem dúvida, os maiores desafios e o que me ajudou a seguir mais devagar. Se de dia eu podia observar e me programar para a próxima pedalada – e fechar os olhos com a passagem de veículos que levantavam poeira -, de noite a luz dos carros e dos postes rarefeitos eram a minha chance de acelerar. Quase todas chances, por sinal, vans.

Se a noite era inimiga da velocidade, era amigo do contemplar do céu. A Lua somente apareceu bem mais tarde e permitiu que as estrelas pudessem mostrar todo o seu esplendor no céu limpo longe da civilização. Uma cena curiosa foi a sensação falsa da movimentação de um avião vista de uma subida de morro, parecendo fazer movimentos erráticos e a pousar no mato, tal qual um disco voador. Um dos morros na Estiva cansou-me bastante e tive que empurrar a bike por uns metros tanto acima quanto para baixo, pois não conseguia ter noção exata da declividade do morro. Já no plano, minha velocidade era consideravelmente maior que nas mais íngremes descidas.

Em Areias, poderia ter cortado caminho cruzando um morro em direção a Timbé, mas optei por seguir pelo plano via Sorocaba. Essa escolha pareceu-me mais acertada pelas circunstâncias. Cruzar Timbé foi um sacrifício. O chão batido é muito irregular e a falta de iluminação não permite controlar a velocidade e a direção. Minha salvação aí foi um motorista que, por alguns quilômetros ao final do trecho, iluminou-me o caminho e me permitiu fazê-lo e bom tempo.

Margeei o Rio Tijucas e cruzei a Ponte Bulcão Viana, uma construção de metal que impressiona. Tijucas pareceu-me uma cidade muito simpática, com praças, construções em estilo açoriano, neoclássico e eclético que chamam a atenção na composição da paisagem. Quase todas as ruas são de paralelepípedo ou de lajota, o que, se por um lado dificulta os automóveis de andarem muito rápido, também prejudica o deslocamento do ciclista. O retorno à civilização, às 20h30 mais ou menos, significou o retorno do sinal do celular. Panda ligou-me, avisando de que levantaram acampamento em Porto Belo.

Eu já não estava muito distante. Cruzei a R. Santa Catarina, a BR-101 por baixo e, pela rua R. Euclides Peixoto, no bairro Santa Luzia (a Estrada Geral do bairro), deparei-me com trechos com paralelepípedo, terra (muito) batida e asfalto. Às 21h48 saí de Tijucas, tranqüilo e segui por Porto Belo. numa estrada de terra e pedras. Entrei no loteamento em que meus colegas acamparam, usei o celular, mas não consegui falar com eles. Não encontrei a saída e segui rumo ao ponto de encontro, o qual vejo daqui de onde estou. Num posto, comprei uns biscoitos e tentei usar o celular. Interessante como a mudança de código de área de 48 para 47 confunde as chamadas. Peço desculpas se você que lê, por ventura, acabou recebendo telefonemas meus na alta noite.

O Max conseguiu me ligar e, poucos minutos depois, no mesmo acampamento num loteamento do Programa Minha Casa, Minha Vida em que parei para olhar as barracas estava eu. Estou agora na barraca do Max de Roberta (estudante de Geografia), onde foram colocadas as coisas da galera, aumentando o conforto nas demais barracas. As bicicletas estão do outro lado, viradas a um rio que corre a poucos metros daqui. Isso explica não ter conseguido vê-las a primeira vez que passei. Apenas o Max me viu hoje. Uma névoa marinha deixa o ar mais denso, a umidade maior e a temperatura mais baixa. As bicicletas e os demais colegas as Biologia descansam/dormem bem. Vou fazer o mesmo.

Fabiano Faga Pacheco

Porto Belo, domingo, 19 de junho de 2011, às 1h49min.

[Obs.:  para os próximos dias estão agendados os relatos dos dois dias seguintes. Os demais, só quando voltar a ter acesso à internet]

Charge – Passeio a dois!?

A charge acima foi publicada no site Gi & Kim, do Marcos Noel,  em 17 de novembro de 2010.

Ela pode ser vista também através deste link.

[Nota do editor: essa charge lembrou-me o passeio ciclístico do Pedala Parkinson, em que eu guiei uma tandem – o nome dessas bicicletas de dois lugares – com um estudante de Educação Física no selim de trás. Fazia tempo em que não ficava tão suado ao pedalar!]

Veja também:

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