(Conexão Sul 2011) Dia 1 – Florianópolis – Porto Belo


Desculpem-me por não atualizar o site tanto quanto surgem os acontecimentos relacionados à bicicleta, O Pró-Bici, o qual hoje secretario, as atividades acadêmicas e as pesquisas para a minha monografia não me permitem atualizá-lo com tanta freqüência quanto gostaria.

Entre sábado, 18 de junho, e quarta-feira, dia 22, estará acontecendo a versão 2011 do Projeto Conexão Sul. Este projeto, não oficializado pela universidade, está sendo tocado por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos e Educação Ambiental (GEABio). Entre os objetivos, sem dúvida está a divulgação da bicicleta como meio de deslocamentos, tanto de curta quanto de longa distância.

Entre esses dias, refletindo o movimento de intenso uso da bicicleta entre os estudantes, estará acontecendo a cicloviagem entre Florianópolis e Ilha do Mel (PR), na qual, na quinta-feira, terá início o Encontro Regional de Estudantes da Biologia da Região Sul – EREB-Sul.

Minha vontade de participar desse projeto era grande, mas os desafios também eram enormes. Fora TCC e Pró-Bici, um outro problema me afetava há meses. Eu tivera um acidente feio durante o Audax Floripa 200km deste ano, realizado em 23 de março. Mesmo com dor, pedalei os demais 185km que me distanciavam da chegada. Mas a queda não ficou barata: depois de um mês, descobriu-se que ganhei, com ela, um tipo de hérnia de disco! Ao saber da cicloviagem, meu desafio pessoal estava lançado! Dá-lhe fisioterapia para minorar a dor.

Após passar grande parte das duas semanas anteriores estudando, consegui finalizar as atividades a tempo para poder participar dessa pedalada. As dores praticamente terminado nesse meio tempo também (mais de dois meses após o acidente) e obtive, às vésperas, os equipamentos de bicicleta que me deixaram confiantes em poder realizar a pedalada sem maiores preocupações. Bagageiro decente, um novo capacete (uma vez que o outro teve que ficar indisponibilizado quando protegeu-me a cuca na queda) e alforges! Sim, antes eu utilizava malas e mochilas para o traslado de minhas coisas.

Arrumei praticamente tudo na véspera, separei a roupa que esperava usar (e troquei antes de sair de casa, devido ao tempo bom), só ficando as coisas de geladeira para serem guardadas. O horário combinado de saída era às 7h30, entretanto eu teria que fazer algumas atividades no comércio, as quais só faria após às 8h. Esperava encontrá-los pouco após sair para pedalar, mas não foi isso o que aconteceu…

Fui dormir mais ou menos às 5h30, resolvendo as últimas questões de minha ausência e arrumando as coisas. Bom, demorei 20min para fazer o que faria pela manhã e algumas horas para acordar. Às 14h apenas  saí de casa e segui ao encontro da galera, que entre às 8h e 9h já haviam de partido.

Despedi-me de minhas vizinhas e saí. Bem no começo de meu caminho, ainda na Ilha de Santa Catarina, uma surpresa: Um grupo de pouco menos de 10 pessoas terminava uma prova de caminhada. Eles estavam há 8 dias dando a volta à ilha, cansados, mas preparando-se para finalizarem festejando.

No Balneário do Estreito, um guri numa bike grande para o seu tamanho puxou conversa comigo (-Maneira a sua bike!). Olhando a barraca que levava, disse-me que sempre quisera acampar, mas nunca tivera oportunidade. Minha mãe, quando criança, acampou por todo o litoral brasileiro com os pais e os irmãos, enquanto eu só fui acampar pela primeira vez aos 17 anos, embora a vontade imensa. Meu avô recentemente se desfez de vários de seus equipamentos de escotismo. Eu também, ao saber que alguém é bandeirante ou escoteiro, converso com um misto de inveja e fascinação. Acho também uma pena a pouca adesão  – relativamente – ao  contato com a natureza e às suas maravilhas.

Evitei quase todos os trechos mais perigosos, desviando por algumas das poucas ruas paralelas existentes nas cidades catarinenses. Usei a ainda não inaugurada Beira-Mar do Estreito (Avenida Poeta Zininho). Foi emocionante ver a população utilizando-se daquele espaço ainda livre de automóveis. Um parque poderia ser melhor opção do que mais 3 pistas para o tráfego supostamente fluir melhor à Ilha da falta de mobilidade.

Evitei trechos da PC3 (Av. Leoberto Leal, em São José) seguindo pela R. Heriberto Hulse, de mesmo nome do estádio do Leão do Sul, o Criciúma.

Pouco antes das 15h30 já estava no Prado, em Biguaçu, quando o Arthur Fleury (vulgo Panda) falou-me que eu estava em bom ritmo, que uma galera já havia chegado em Tijucas e que se pensava em seguir rumo a Itapema. Há dois caminhos para se alcançar Tijucas. Um é pela BR-101, com os carros agora andando a 110km/h como velocidade mínima, como de praxe no Estado vice-líder em mortes por imprudências no trânsito. O outro é pela chamada estrada do Café. Falei com o Max Levy, o mesmo que foi para o Chile em janeiro do ano passado, antes de sair de Floripa e ele me aconselhou fortemente a ir por esse caminho.

Em Biguaçu, fui por dentro de Três Riachos, e logo me deparei com paisagens mistas de pasto e vegetação. Muita pecuária e pasto inutilizado. O caminho dá cinco quilômetros mais longo, mas a sensação térmica é bem diferente. É mais frio que pelo asfalto da BR-101, mais seguro e mais agradável, embora os carros não forneçam tanto vácuo, um dos motivos que ouvi em defesa da rodovia federal. Em Três Riachos, a pista dá voltas e o asfalto e a movimentação de automóveis não deixam as ruas calmas. A vegetação e o verde dos morros chamam a atenção. Virei em direção a Sorocaba. O asfalto terminou e começou o chão batido. O sinal do celular apagou-se. Ao contrário do asfalto, a sensação térmica era amena e agradável. Desbarrancamentos podiam ser observados em alguns trechos do caminho. Muitas espécies exóticas, como Pinus e eucaliptos davam os contornos gerais da vegetação. Em um dos sítios do lugar, um casal de pavão chamou-me a atenção. Um pássaro negro e um anu branco também percebi quando de dia. Sem contar as garças, patos e gansos.

Antes de Sorocaba virei em Estiva. Mesmo chão batido, mas quase sem morros. às 17h30, mais ou menos, avistei a BR ao longe. Cheguei a ela e….. não havia como cruzá-la com uma bike pesada. Havia muretas em toda a extensão. De lá, optei por voltar à Estrada do Café em vez de seguir pela BR. Hoje acho que não foi uma boa escolha. [Obs.: agora observando pelo mapa, navegando pela internet, vejo que essa volta por Estiva, recomendado por moradores foi o meu erro, deveria ter adentrado Sorocaba].

O Sol havia se recém-posto.

Cheguei no povoado de Estiva e, já de noite, um dos caras de lá passou-me uma informação incorreta que aumentou em alguns quilômetros meu caminho e meu cansaço. Durante todo o percurso, eu mal parei, ao contrário de meus amigos, que aproveitaram para banhar-se em rio! Bebi 1,4L de água e 0,5L de gatorade antes de encontrar meus colegas, além de mais 0,8L de Powerade, água e SUUM. Alimentei-me basicamente de pãezinhos, carboidrato em gel (GU e VO2) e barras de proteína. Queria parar pouco para tentar encontrá-los. A fase noturna de minha viagem solo não permitiu isso.

Entre Estiva, Areias de Cima, Areias de Baixo, Sorocaba do Sul e Timbé, o frio, a falta de iluminação, o cansaço, as irregularidades do chão batido, as variações de relevo imperceptíveis a longa distância foram, sem dúvida, os maiores desafios e o que me ajudou a seguir mais devagar. Se de dia eu podia observar e me programar para a próxima pedalada – e fechar os olhos com a passagem de veículos que levantavam poeira -, de noite a luz dos carros e dos postes rarefeitos eram a minha chance de acelerar. Quase todas chances, por sinal, vans.

Se a noite era inimiga da velocidade, era amigo do contemplar do céu. A Lua somente apareceu bem mais tarde e permitiu que as estrelas pudessem mostrar todo o seu esplendor no céu limpo longe da civilização. Uma cena curiosa foi a sensação falsa da movimentação de um avião vista de uma subida de morro, parecendo fazer movimentos erráticos e a pousar no mato, tal qual um disco voador. Um dos morros na Estiva cansou-me bastante e tive que empurrar a bike por uns metros tanto acima quanto para baixo, pois não conseguia ter noção exata da declividade do morro. Já no plano, minha velocidade era consideravelmente maior que nas mais íngremes descidas.

Em Areias, poderia ter cortado caminho cruzando um morro em direção a Timbé, mas optei por seguir pelo plano via Sorocaba. Essa escolha pareceu-me mais acertada pelas circunstâncias. Cruzar Timbé foi um sacrifício. O chão batido é muito irregular e a falta de iluminação não permite controlar a velocidade e a direção. Minha salvação aí foi um motorista que, por alguns quilômetros ao final do trecho, iluminou-me o caminho e me permitiu fazê-lo e bom tempo.

Margeei o Rio Tijucas e cruzei a Ponte Bulcão Viana, uma construção de metal que impressiona. Tijucas pareceu-me uma cidade muito simpática, com praças, construções em estilo açoriano, neoclássico e eclético que chamam a atenção na composição da paisagem. Quase todas as ruas são de paralelepípedo ou de lajota, o que, se por um lado dificulta os automóveis de andarem muito rápido, também prejudica o deslocamento do ciclista. O retorno à civilização, às 20h30 mais ou menos, significou o retorno do sinal do celular. Panda ligou-me, avisando de que levantaram acampamento em Porto Belo.

Eu já não estava muito distante. Cruzei a R. Santa Catarina, a BR-101 por baixo e, pela rua R. Euclides Peixoto, no bairro Santa Luzia (a Estrada Geral do bairro), deparei-me com trechos com paralelepípedo, terra (muito) batida e asfalto. Às 21h48 saí de Tijucas, tranqüilo e segui por Porto Belo. numa estrada de terra e pedras. Entrei no loteamento em que meus colegas acamparam, usei o celular, mas não consegui falar com eles. Não encontrei a saída e segui rumo ao ponto de encontro, o qual vejo daqui de onde estou. Num posto, comprei uns biscoitos e tentei usar o celular. Interessante como a mudança de código de área de 48 para 47 confunde as chamadas. Peço desculpas se você que lê, por ventura, acabou recebendo telefonemas meus na alta noite.

O Max conseguiu me ligar e, poucos minutos depois, no mesmo acampamento num loteamento do Programa Minha Casa, Minha Vida em que parei para olhar as barracas estava eu. Estou agora na barraca do Max de Roberta (estudante de Geografia), onde foram colocadas as coisas da galera, aumentando o conforto nas demais barracas. As bicicletas estão do outro lado, viradas a um rio que corre a poucos metros daqui. Isso explica não ter conseguido vê-las a primeira vez que passei. Apenas o Max me viu hoje. Uma névoa marinha deixa o ar mais denso, a umidade maior e a temperatura mais baixa. As bicicletas e os demais colegas as Biologia descansam/dormem bem. Vou fazer o mesmo.

Fabiano Faga Pacheco

Porto Belo, domingo, 19 de junho de 2011, às 1h49min.

[Obs.:  para os próximos dias estão agendados os relatos dos dois dias seguintes. Os demais, só quando voltar a ter acesso à internet]

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

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