(Conexão Sul 2011) Dia 3 – Balneário Piçarras – São Francisco do Sul


No dia anterior a maior dificuldade foi, nitidamente, o vento nordeste, de fato o mais comum no litoral catarinense, que tentou, em vão, barrar-nos ao longo de todo o trecho percorrido. Neste terceiro dia de viagem, a dificuldade maior foi outra, menos convencional, mas tão ou mais difícil de se enfrentar quanto àquela.

Acordei bem mais cansado que no primeiro dia. As barracas estavam deixando o ajardinado. As roupas lavadas no dia anterior não haviam secado com a alta umidade da madrugada – e isso incluía todas as minhas roupas para o pedalar! Vesti e bermuda molhada, besuntada na toda poderosa maisena e uma pomada. A camisa fria fez-me tremer. Ajustei minhas outras roupas no bagageiro para poder secá-las enquanto pedalasse.

O café-da-manhã comunal, a preparação das bikes, a pintura dos rostos com o vermelho urucum, as primeiras pedaladas pouco após às 9h. A tudo isso sucedeu a nossa despedida de Piçarras.

Entramos cedo em Barra Velha. Os transeuntes de Piçarras de Barra Velha foram muito calorosos com a gente. Muitos “bons dias” foram distribuídos e retribuídos e muitas buzinas de apoio nos acompanharam.

A via de entrada de Barra Velha foi uma continuação de Piçarras, o acostamento áspero fazia-nos freqüentemente seguir pela pista, quase vazia das ruas da cidade. As águas revoltas da praia nos acompanharam. Em pouco tempo, adentramos uma ciclofaixa, na verdade, mais um acostamento que virou pista para uso da bicicleta. A sinalização não nos permitiu perceber se ela era bidirecional ou não, embora tenha largura para tal. Areia era comum em vários trechos e vários ciclistas voltavam pelo outro lado da pista, no mesmo sentido do fluxo automotor. Pegamos a marginal da BR-101 antes de seguir pela praia rumo ao centro da cidade. Além do mar bravio, constantemente enfrentado pelos pescadores, uma calçada ampla era seguida por 3 faixas para veículos e uma calçada irregular. Jerivás davam um aspecto tropical à praia e permitiam-nos sentir mais calmos em meio às águas agitadas.

Uma interação com os pescadores ocorreu no centro da cidade, que registrou o maior congestionamento de sua história, segundo fontes “fidedignas”: cinco veículos. Após pedalarmos por uma rua fechada aos automóveis, paramos num sacolão/loja de frutas e verduras, onde nos abastecemos com bananas, bergamotas (como o pessoal daqui costuma chamar tanto uma variedade de mexerica quanto a todas as tangerinas do mercado), achocolatados, bebidas refrescantes. Uma futura bióloga campeã no judô aparecia na contracapa de um dos jornais. Que ela valorize bastante a minha futura profissão!

Do nada, sentíamos que estávamos próximos à novaiorquina Ilha de Manhattan com a aproximação da Estátua da Liberdade de uma loja de departamentos. Mas o Guimo tratou de mostrar-nos a realidade brasileira sendo rebocado por um trator, enquanto flores eram surrupiadas.

Voltamos à BR-101, onde fomos parados por policiais rodoviários por alguns de nós estarmos andando em fila dupla no acostamento. Recomendou-nos seguir apenas em fila indiana nas BRs e a tomarmos bastante cuidado. Numa ponte próxima, ajudou-nos com uma eficiente escolta. Por sinal, todas as demais pontes pelas quais passamos não haviam espaço destinado à circulação de ciclistas e pedestres. Lamentável para um Estado que se considera desenvolvido. Passamos sem problemas pelo pedágio. Descansamos – bem – pouco depois das 12h30, no Sinuelo, onde se encontra um Memorial do Descobrimento, com réplica de naus, galiformes, entre os quais um belo exemplar de macho de faisão dourado. Garrafas d’água enchidas, futebol com fruta jogado, embaixadinhas tentadas, era hora de prosseguir. Mal sabíamos que começava ali a pior parte. A estradinha de terra não dava sinais de imediato do que ela se tornaria: um areial!

Não foram poucas as bicicletas barradas no primeiro trecho de areia fina, que mais era um treinamento para o que viria mais tarde. Uma estrada recém-asfaltada e com pesado tráfego de caminhões, emoldurada por cultivo de Pinus deu-nos agilidade até o próximo trecho. Areia, terra, areia, lama, areia, rochas, areia…. Todos, em algum momento, tiveram seus deslocamentos interrompidos pelos caprichos da natureza. No começo, pasto, banhados e muitas espécies exóticas acompanhavam-nos, sendo, após vários e vários quilômetros, sendo substituídos por exemplares nativos da restinga, manguezal e mata atlântica catarinense, além de insumos alimentares. Recomenda-se fortemente esse caminho a quem quer treinar técnica de pedalada para esse tipo de terreno, que consistiu basicamente em aumentar a freqüência da pedalada e reduzir a força aplicada/relação entre as marchas. Isso permitiu um maior giro para lidar com as adversidades presentes a cada metro rodado.

Os animais bem no meio da estradinha foram um show à parte, como o cavalo branco a nos encarar ou a portentosa vaca Mansinha e fitar-nos descaradamente! Próximo ao final da estradinha, uma figueira gigante dava mostras do que deveria ser a floresta antes da devastação certamente promovida.

Dentre os causos, o Max e a Bruna pararam para conversar com um morador da região e seu cachorrinho, que até ofereceu comida e hospedagem naquela terra distante de tudo muita coisa.

Por incrível que pareça, mesmo com o teste de fogo imposto aos componentes da bike, não foi registrado um só pneu furado sequer! A Júlia Locatelli teve o parafuso no bagageiro dianteiro caído ainda antes do Sinuelo. A Maiana, já no final da areia teve a cestinha dianteira pendida com a soltura de uma porca. Entre ambos, o Marcelo, da Oceanografia, que pedalava de chinelos, teve a ajuda de uma chave allen para regular a magrela e evitar algo pior.

No encontro como o paralelepípedo, o reencontro de todos! Chuva de squezzee, roda de capoeira, a alimentação e a tomada de rumo.

Passamos por Araquari rapidamente.

A BR-280 continua ruim para o tráfego de ciclistas. Os acostamentos são, em média, ruins, com declividade, pouca manutenção, pontes que se estreitam, fluxo veloz e pesado. De bom, o trem, a ponte, os corpos d´água, os jerivás, as bananas, as flores em pleno outono.

Na última parada para reagrupar um carro para e dele saem duas pessoas em direção a nós. O vereador de São Francisco do Sul Vilson Coruja (PPS) foi um dos vários que notaram nossa presença na estrada e parou para gravar uma notinha para a TVBE (Televisão Brasil Esperança).

O perímetro urbano de São Chico reservou-nos também uma ciclofaixa. por (muitas) vezes estreita, por outras de bom tamanho. Ela é apenas unidirecional, seguida por um faixa de rolamento para cada sentido e um espaço para estacionamento de automóveis. Ela abrangia também um trecho de subida. Aí, ela precisa ser reformulada e alargada, devido aos movimentos de corpo que o ciclista faz comumente em aclives. Lombadas também cortam a ciclofaixa, tanto na descida quanto na subida (!). Há ciclistas que pedalam na ciclofaixa no contrafluxo e outros que usam a faixa de rolamento de veículos para seguir no sentido oposto ao da ciclofaixa.

No decorrer do dia, foram apenas um GU e uma barra de proteína ingeridos, refletindo a maior ingestão de bananas e bergamotas, além de 1,35mL de bebida refrescante Del Valle, 1L de água, 0,5L de água com SUUM e 0,5L de suco.

Hoje estamos hospedados na imensa casa do avô do Diogo e do Tomaz, uma construção antiga alemã que me lembra um chalé eclético (com a palavra, os arquitetos). No alto do terreno de 1ha, uma goiabeira fez a festa de quem queria descansar ou fazer as suas macaquices após o longo pedal. O descanso na relva, as brigas entre homens e mulheres (elas venceram!), a abertura da casa, o banho quente – o primeiro da viagem -, a janta feita na hora (macarrão com molho branco, berinjela, salada, ovo, lentilha), a sobremesa (creme de abacate) no chão da sala-cafofo, devorada em minutos por 21 colheres, a massagem em conjunto, a música provinda do violão, as vozes acompanhando-a, cicloleseira. A galera já está cansada e hoje espero não ser o último novamente a dormir.

Fabiano Faga Pacheco

São Francisco do Sul, terça-feira, 21 de junho de 2011, às 0h14min.

Anúncios

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

5 Responses to (Conexão Sul 2011) Dia 3 – Balneário Piçarras – São Francisco do Sul

  1. Fernando Cortez says:

    OI pessoal,que maravilhavoces curtiram,este passeio,que fizeram,com certeza foi otimo,pois eu estou longe,e mim sentir ai com voces,parabens isto ai. As vezes vou ali em Ouro preto,ou em Sete Lagoas cidades maravilhosas,pessoal acolhedor,a primeira patrimonio historico rica em beleza natural,muito boa,a outra tambem rica em beleza natural,pessoal acolhedor,pessoas finissimas,so voces vindo para ver.parabens a voces fiquem com Deus e otimas padaladas,Fernando Cortez Belo Hte MG>

  2. Bárbara P. says:

    Por onde andas Fabiano? Tudo bem? Já chegou em Sampa? Como foi a passagem pelas ilhas? Mande noticias, cicloabraços, Bá (da tribo pedalante Conexão sul).

  3. Panda says:

    É isso aê Fabiano!! Mande notícias sobre o resto da sua jornada!

  4. marcelo says:

    Eaeee fabiano, muito massa seus relatos, mas uma duvida que me intriga: qual o seu problema com os chinelos?! huaua

  5. jg says:

    sugiro uma postagem à parte sobre as ciclo-halucinações (como se escreve isso com esse novo acordo ortográfico?!).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: