(Conexão Sul 2011) Dia 4 – São Francisco do Sul – Itapoá


Durmimos bem dentro do casarão do avô do Diogo. Lá fora, as roupas não secaram. Minha toalha, que eu não chegara a lavar, parecia ter passado a noite toda em banho-maria, tão úmida estava desde a ducha fria de Balneário Piçarras.

O café da manhã envolveu pães, queijo, granola, geléia, doce de leite, uma fruta cítrica colhida na colina verde por detrás do casarão cujo nome ainda não me recordo, além de suco, leite e café. Foi uma refeição básica, mas suficiente. Retiramos as bikes, que durmiram todas na garagem. Fizemos uma roda para alongamento e a Júlia Silveira puxou a saudação ao Sol. Saímos tarde, pouco depois das 10h.

Roda de alongamento em São Francisco do Sul.

 Percorremos o caminho contrário até o final do perímetro urbano do município. A ciclofaixa unidirecional, como escrevi ontem, mostrou-se estreita e mal  sinalizada. A maioria dos ciclistas foi por ela, barrando quem vinha no fluxo correto. Eu me aventurei a andar na via pelo lado certo, dividindo emoções com os automóveis. Considero importante melhorar a sinalização da ciclovia e aumentar a largura dela nas subidas. Viramos à direita numa estrada de terra e depois à direita novamente para pegar a balsa que leva ao bairro Vila da Glória. Nesse caminho, um grupo de crianças gritava: “Vai ganhar! Vai ganhar!” para quem passava. Quando eu passei uniformizado e gritei: Quem vai ganhar é o Brasil”, pude ouvir, já distante algumas poucas dezenas de metros elas mudarem o coro para: “Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!”.

Mais um dia começa! Ciclistas pedalam pela ciclofaixa em São Francisco do Sul.

Ciclofaixa em São Francisco do Sul gera conflitos entre ciclistas no trânsito.

Estrada de terra leva à balsa à Vila da Glória.

A balsa custa RS 3,20 para as bicicletas. Pouco após a saída pudemos observar um golfinho na Baía da Babitonga. Alimentamo-nos mais um pouco. Juntamo-nos para aquecer-nos. Pintamo-nos com urucum. Eu fiz tentei fazer uma bicicleta numa panturrilha e um símbolo da Biologia na outra. Vários desenhos ficaram bem massa!

Vista da Baía da Babitonga.

Pintura: os dedos moldam o urucum em nossos corpos.

A estrada geral do bairro Vila da Glória tinha trechos de rochas, terra, cascalho e areia. Foi nela em que meu alforge “só caiu”! Foi a segunda vez que isso aconteceu em cinco dias. Os percursos de areia mostraram que o treinamento do dia anterior surtira efeito, embora isso não tenha impedido ninguém de deixar de se atolar na areia. Repetindo: “menos força, mais freqüência”.

A paisagem da estrada geral da Vila da Glória combina com o cicloturismo.

Paramos no centrinho de Vila da Glória para mais uma parada, desta vez numa padaria. Comprei achocolatado, enfim, e um suco, além de pães e queijo. Também usei o cartão para obter dinheiro nas mãos, já que estava praticamente duro. A escultura “A Árvore da Vida” relembrou rituais druidas antigos e fascinou a Júlia Silveira. Como que por mágica, quem nós encontramos por lá? Dois colegas nossos da Biologia: o Japa, hoje botânico que conheci no ENEB-2006em Porto Alegre, creio, e a Anelise Nuremberg, que muito já havia me falado sobre as belezas quase naturais recém-devastadas de Itapoá.

Igreja em Vila da Glória.

Estátua da Árvore da Vida relembra rituais druidas.

Vila da Glória parece um lugar bem calmo, em que vários barcos apoiados sobre a areia transmitiam-me uma tranqüilidade enorme. Após essa parada, começamos a enfrentar de vez a areia contínua. Entre tantas paradas obrigatórias a nós infligidas, foi bom podermos parar e reagrupar todo o grupo. Optou-se por pegar o asfalto ainda em implantação na estrada que liga ao complexo portuário.

Os desafios em se pedalar na areia não impediram os ciclistas de prosseguir viagem.

Entre brita, pedras soltas e asfalto acudi por socorro. Suspeitava-se que o meu pneu havia furado. Meu pneu é 1.5 e liso, o pior de todos os daqui para piso cheio de obstáculos. O Guimo rapidamente virou a minha bike e começamos a retirar a roda traseira. Após tirada a câmara, fui enchê-la e não constatei nenhum furo. Provavelmente devia estar murcha, mas terei que verificar isso certinho nos próximos dias. Em 10 minutos, minha roda traseira estava com câmara nova. Pode-se dizer que essa foi a troca do pneu não furado!

Rodovia em construção em Itapoá aumentou a especulação imobiliária e rasgou a Mata Atlântica, inclusive trechos com vegetação primária.

A troca do pneu não furado.

Não se constatou maiores problemas mecânicos do que este ao longo de todo o dia. Também não choveu na região de Joinville. Demos muita sorte duplamente!

Passamos por Jaguaruna rapidamente e não tenho nada de especial para poder relatar de lá.

O Porto de Itapoá parece que será enorme mesmo e vários guindastes muito grandes cruzaram a nossa vista. Exceto por um trecho curto de terra, as estradas que Itapoá pelas quais seguimos eram todas ou asfaltadas ou de paralelepípedo. As estradas novas não têm, de maneira geral, bons acostamentos. Prevejo, a médio prazo, que elas se tornem perigosíssimas ao ciclismo mantendo-se as atuais condições. O acostamento, no mínimo é necessário, quando não uma ciclovia, se considerarmos que, das cidades que percorremos até agora, ficou-me clara a sensação de que é em Itapoá onde, relativamente, vi mais ciclistas. As lojas de bicicletas são abundantes. As magrelas podem ser vistas tranqüilamente em cada quarteirão da cidade! A beira-mar não me parece estar respeitando a distância mínima da praia. Ainda assim, os equipamentos de ginástica e exercícios estão bem dispostos, há trechos com iluminação, uma restinga é mantida e ainda outros equipamentos de lazer, como quadras de grama e pista de skate, estão lá. Há espaço para uma ciclovia entre a calçada e a pista de rolamento. As calçadas do outro lado da rua precisam ser melhoradas e unificadas.

Futuramente, pode se acreditar que os ciclistas terão que fazer malabarismos para pedalarem pela estrada sem acostamento.

Instalação portuária de Itapoá em construção.

O perigo em se pedalar nas novas estradas pode ser facilmente solucionado. Basta a observação.

Nessa cidade cheia de bicicletas, até a propaganda de um banco trazia ciclistas como chamativo para a venda de seguro de vida!

Ficamos em Barra do Saí, bairro ao norte de Itapoá. Um ciclista de Curitiba, Marcel, que aproveitava a semana de folga para visitar a mãe, que escolheu a cidade para curtir a aposentadoria, encontrou para gente, após uma confusão de campings e Joões (era para ele ir num camping do João e foi em outro, também do João; deu tudo certo, mas ele só soube que o nosso camping não era o que ele queria nos levar depois), um lugar para se deitar, com banheiros e chuveiro quente! O camping na verdade é um gramado de futebol e quadra de vôlei de areia. O mantenedor deixou-se armar barracas lá. Além disso, há

O campo no qual acampamos.

Armei a barraca e fomos a Cecília, o Panda e eu para uma lan hause. Lá eu publiquei e agendei as postagens dos primeiros dias de viagem, baixei uma parte das fotos para o Multiply e conversei com minha mãe pelo Skype. Deixei o notebook lá carregando e fui comer num bar próximo. Muita cicloalucinação, cicloleseira (mais potente que a provocada por ervas aromáticas, disseram-me) fizeram a Cecília soltar refrigerante pelo nariz. Quantas bobagens ditas numa mesa! Parte da galera ficou jogando sinuca. X-eggs vegs depois, retornei à lan hause, pegando umas gotas isoladas de chuva e muito frio! Perdi a visita que fez ao grupo o Andrézinho, que entrou comigo na faculdade e agora trabalha com monitoramento de fauna na cidade.

Em uma lan hause, atualizando este blogue.

Fiquei lá até 23h10, saí, retornei porque esquecera o carregador da câmera fotográfica e dirigi-me ao camping. Todos já estavam deitados. Fui tomar banho, mas, não sei por quê, a água não esquentava. Fui ao outro banheiro unisex, ao lado, e nada! Ou melhor, havia uma perereca se equilibrando em meio aos fios do chuveiro!

Havia uma perereca no banheiro!

Acabei passando uma água fria no corpo, insuficiente – descobri depois – para retirar toda a tinta do urucum. O chão do banheiro está todo enlameado. Não há energia elétrica por lá para ligar a luz sequer. Iluminei-o com minha lanterna da bicicleta. Acho que dei azar.

Agora estou em minha barraca. Os cães daqui ladram forte. Latiram quando cheguei ao campo da lan hause, vindo com minha bicicleta. Amanhã a previsão é acordar cedo e dormir no Pontal de Paranapanema. Já temos combinado também de às 7h30 a padaria deixar pronta um café-da-manhã para nós. Espero que minha toalha seque desta vez.

Hoje bebi 1,9L de água, 450mL de suco, 450mL de bebida refrescante Del Valle e um pouco de café. Estou sem estoque de isotônicos. Além de pães, queijos, bolachas salgadas, bananas, e amendoins, foi só um SUUM, 1 barra de proteína, 1 de cereal light e 1,5 sachê de GU.

Pedalamos cerca de 80km no primeiro dia, 60km do segundo,70 kmno terceiro e 50km hoje. Começou imediatamente agora a chover.

Fabiano Faga Pacheco

Itapoá, quarta-feira, 22 de junho de 2011, às 2h12.

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

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