Comentários e impressões sobre a entrevista sobre o acidente com ciclistas no Jornal do Almoço


Estou agora ouvindo entrevistas no Jornal do Almoço (RBS TV SC Florianópolis), com o superintendente do IPUF, engenheiro José Carlos Rauen (PMDB), e com Leandro Andrade, da superintendência da Polícia Militar Rodoviária Federal. Foi um show de horrores e de desaprendizado, o que me leva a escrever aqui com a maior rapidez possível.

Demonstrou, infelizmente, o descaso desses órgãos perante os ciclistas.

Rauen falou que, no mês que vem, estará aberto o edital de qualificação para as bicicletas públicas de Florianópolis e que o perímetro urbano da cidade tem cerca de 20km de ciclovias. Em 2010, a zona urbana da cidade possuía cerca de 40km de ciclovias e PERDEU duas delas, a da Rod. Baldicero Filomeno (sim, está no zoneamento do perímetro urbano) e a da Cachoeira do Bom Jesus. A primeira foi paga e não seguiu o projeto executivo. Ou seja, fizeram como queriam e não como os técnicos e a comunidade almejava. A segunda não foi repintada até hoje depois da instalação dos canos que servirão ao saneamento básico da região.

É também, no mínimo, curioso falar sobre o aluguel de bicicletas públicas da cidade. Saibam que estava nas mãos dele, para simples encaminhamento, o edital de pré-qualificação das empresas. Ficou com ele, para encaminhamento (=uma assinatura), do dia 15 de dezembro até o final de janeiro. Isso pq a elaboração completa desse edital deveria durar apenas 15 dias!!! E só ele atrasou 45 dias! Apenas ele e ninguém mais. Desde a primeira semana de janeiro, o Bicicleta na Rua tentou falar com Rauen, sem sucesso. Agora, sem o aval – desnecessário, diga-se – dele, o edital vai ser publicado pela Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico Sustentável.

Leandro, por sua vez, cometeu erros grotescos pelo desconhecimento da lei pela qual deve zelar. Afirmou que, numa rodovia, o ciclista deve trafegar pelo acostamento, de preferência no sentido contrário ao do fluxo de automóveis. O ciclista NÃO deve trafegar pela contramão, isso NÃO evita acidentes e, pelo contrário, aumenta a gravidade e a morbidade de qualquer sinistro de trânsito. Foi uma atitude de deseducação muito grande esse comentário dele! Por sinal não foi a primeira, visto que ano passado o mesmo comentário obrigou uma retificação do periódico Diário Catarinense sobre o tema. NÃO andem pela contramão! Atentem pelas suas vidas!

Para piorar, o superintendente do IPUF eximiu os motoristas e os planejadores urbanos de culpa, ao falar que o ciclista também tem que se cuidar. Afinal, quem manda ser um guerreiro sustentável numa cidade em que o ciclista não tem vez!

Decepcionante!

Veja também:

Por que não pedalar na contramão? – Dicas preciosas do parceiro Vá de Bike!

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

21 Responses to Comentários e impressões sobre a entrevista sobre o acidente com ciclistas no Jornal do Almoço

  1. Gui disse:

    Vergonha! Parabéns pela análise e divulgação!

  2. Vou dizer uma coisa: Não sei qual a qualificação profissional desse Leandro, mas no minímo ele rodou em física no colégio…..Infelizmente estamos largados na mão de gente sem conhecimento técnico do que fala.
    As faculdades estão cheias de gente qualificada para dar soluções aplicáveis, porque não as escutam? Pq o poder publico tem que ficar na mão de alpinistas políticos?
    É uma vergonha……

  3. Leandro disse:

    Lamentável, qualquer curso de direção o que se ensina é que pedestres e ciclistas possuem a preferência, INDEPENDENTE da via que o mesmo está.

    O trecho não possuía acostamento. O ciclista faria o quê? Se teletransportar? É o que se espera, visto que no “transporte coletivo” de Florianópolis não se pode entrar com bicicleta, caso o mesmo quisesse atravessar o trecho sem acostamento…

    Ridículo, a PMRV ao invés de ficar com seus policiais preocupados em multar deveria colocá-los para zelar pela segurança dos pedestres e ciclistas.

    Esta rodovia SC-401 NUNCA passou um ano sequer sem um acidente fatal. O “recorde” é de 270 dias.

    E o pior é saber que NADA será feito para mudar esse quadro.

  4. Peters disse:

    Na verdade, a bicicleta pode circular em qualquer sentido no acostamento, assim como o pedestre.

    O requisito de a bicicleta circular no mesmo sentido dos demais veículos se dá quando inexiste o acostamento (ou ciclovia ou ciclofaixa), e precisar circular nos bordos da pista, como autorizado pelo artigo 58 do CTB. Já o pedestre deve seguir pelos bordos no sentido contrário ao dos veículos (artigo 68, §§ 2º e 3º).

    Como nossas vias repentinamente tem seus acostamentos eliminados, então pode ser preferível seguir sempre no mesmo sentido.

    Mas, rigorosamente, não há sentido determinado a ser obedecido na circulação de bicicleta pelo acostamento.

    • Deonildo disse:

      Caro Peters, leia novamente o artigo 58 do CTB, pois está bem claro que o ciclista deve respeitar o sentido da via. Apenas pode o ciclista rodar no sentido contrário da via quando há a ciclofaixa. Quando há a necessidade de rodar pelo acostamento, o sentido da via deve ser deve ser mantido. veja artigo abaixo.

      Art. 58.

      Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação
      de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou
      acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da
      pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a
      via, com preferência sobre os veículos automotores.
      Parágrafo único. A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a
      via poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo
      dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.

      • Olá, Deonildo e Peters!
        A interpretação de ambos do mesmo artigo não está incorreta.
        O fato decorre de se considerar o trecho final da redação (a saber “no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via”) como oração subordinada adjetiva restritiva ou explicativa. É… as aulinhas de português nos fazem relembrar isso para se entender essa aparente dualidade.
        De fato, relendo o CTB, o Peters está certo: “Mas, rigorosamente, não há sentido determinado a ser obedecido na circulação de bicicleta pelo acostamento.” [grifo meu]
        Cito rigorosamente devido à redação desse parágrafo. Na prática, a bicicleta porta-se como veículo e não faz o menor sentido, nem pelo CTB nem pelos princípios que o regem, o ciclista utilizar o acostamento na contramão, exceto em casos nos quais isso está explicitado, seja por autoridade de trânsito (casos especiais), seja por sinalização vertical e/ou horizontal. Entretanto, a deficiência na execução do planejamento urbano, faz com que, em determinadas situações, não faça sentido um ciclista não transitar na contramão (por ex., ter que atravessar, sem proteção, pistas de alta velocidade, ou ir até “ali”).
        Eu especificamente discordo da interpretação que o Peters deu a este artigo e, sobre este tema, considero sua validade da seguinte maneira (para ser didático): “A circulação de bicicletas deverá ocorrer […] no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via.”

        Felizmente, há diversos outros motivos pelos quais se deve evitar andar pela contramão numa rodovia. E talvez o principal deles se refira à própria educação no trânsito.

      • Peters disse:

        Caro Leonildo,

        Leia atentamente o artigo 58 do CTB.

        Vou alterar um pouco a ordem, sem alterar o sentido:
        Quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, a circulação da bicicleta deverá ocorrer nos bordos da pista, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via…

        Leia depois o conceito de acostamento constante do Anexo I:

        ACOSTAMENTO – parte da via […] destinada […] à circulação de pedestres e bicicletas, quando não houver local apropriado para esse fim.

        ACOSTAMENTO – parte da via diferenciada da pista de rolamento destinada à parada ou estacionamento de veículos, em caso de emergência, […].

        Portanto, não há sentido pré-determinado para a circulação de bicicleta no acostamento.

        Isso tem uma razão de ser. A lei é feita para todos, Precisa atender toda uma população rural usuária da bicicleta. Não faz sentido obrigá-los a fazer duas travessias em seus deslocamentos. Eles podem seguir pelo acostamento no sentido contrário ao dos veículos motorizados na pista de rolamento, porque o ACOSTAMENTO NÃO É ZONA DE CIRCULAÇÃO DE CARROS, serve-lhes de parada de emergência e de acesso a lotes lindeiros, caso em que são obrigados a circular com velocidade reduzida, conforme determinam os artigos pertinentes.

        O CTB em muitos momento é um quebra-cabeças de lógica, aplicada por engenheiros.

      • Só para contribuir com a confusão jurídica, – que no caso em questão nem faz sentido, visto que o acidente não engloba trecho em que há deslocamentos de bicicleta pelo acostamento na contramão, simplesmente porque não faz sentido – o acostamento é um via para circulação de bicicletas, em geral de vias rurais, mesmo em perímetro urbano, sendo o acostamento parte da via seguiria o fluxo dela, pois é ela! Então é uma via rural onde a bicicleta poderia circular? E se for assim, no mesmo sentido, então, já que é parte da via? E qual seria o sentido de deslocamento da bicicleta numa ciclovia, ciclofaixa ou num acostamento? Na ciclovia e ciclofaixa, praticamente sempre, há sinalização indicando o sentido do fluxo, mas como isso ocorreria num acostamento?
        Viu como são sutilezas que não desmerecem o CTB, mas, pelo contrário, permitem aperfeiçoá-lo e melhor regulamentá-lo!
        Para quem o conhece, sabe que há outras nuances relacionado circulação de bicicletas que permitem divergentes explanações. Um exemplo clássico refere-se ao termo “bordos” da pista. A bicicleta deve circular pelo lado direito ou pelo esquerdo ou por ambos, desde que seja no bordo? Mas um veículo mais leve não deve ir pela direita? E nas curvas? Peraê, um veículo mais rápido deve circular pela esquerda, então quando tá congestionado eu deveria seguir por lá mesmo, não é?
        Para se pensar!😉

  5. Audálio Jr disse:

    Também assisti a entrevista e fiquei indignado. Valeu Fabiano por expor várias das minhas indignações!

    Culpar os ciclistas por serem atropelados por um assassino que confessou ter bebido “pouco?” no início da noite, passou a madrugada em claro e tomou um energético para ficar desperto ao dirigir e atropelar dois ciclistas matando um deles! Será q se eles estivessem com colete e bicicletas cheia de luzes o assassino não teria dormido no volante?

    Outra, pior ainda, foi do militar (Leandro Andrade) que aconselhou os ciclistas a trafegarem na contramão pelo acostamento. Será que ele desconhece totalmente o Código de Trânsito Brasileiro?

    Enquanto Floripa considerar estas “rodovias urbanas” como estaduais, para se eximir de cuidar da manutenção e de fazer melhorias nas mesmas, deixando a cargo do governo estadual, continuaremos tendo estas mortes e a prefeitura culpando o estado por deixar de fazer o q é obrigação da dela.

    Lastimável saber que este dois, autoridades importantes no assunto, falem tantas besteiras.

    E vamos pedalando!

  6. Solon disse:

    No ano passado, quando minha mulher foi renovar a carteira, o instrutor da auto escola (um guarda municipal) disse à turma que em estradas com velocidade inferior a 40 km/h, o ciclista deveria trafegar pela contra-mão. Vai entender?

    • hahaha

      Nossa, Solon, isso é algo que, definitivamente, não tá no CTB!!!

      (só pra deixar registrado pra quem não entendeu que vc falou com tom irônico, rs)

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