Um ano e nada mudou


Um ano após o atropelamento de dois ciclistas na SC-401, no qual faleceu o estudante de Medicina Emílio Delfino Carvalho de Souza, muito pouca coisa se modificou de fato em Florianópolis para permitir maior segurança aos ciclistas que transitam na principal rodovia estadual catarinense.

Apesar do endurecimento da Lei Seca, por parte do governo federal, e da maior fiscalização da Polícia Militar Rodoviária, ambas atitudes dignas de eloqüentes elogios, o tráfego de bicicletas nas rodovias que cortam o território urbano catarinense ainda não teve a atenção que merece.

Apenas no ano passado, três ciclistas morreram na SC-401, número superior a qualquer outro desde a vigência da Lei Seca, no segundo semestre de 2008. Durante o ano de 2012, a SC-401 chegou a ficar mais de 100 dias sem acidentes fatais, fato pelo qual a morte de ciclistas se torna ainda mais preocupante.

Uma dessas mortes, inclusive, ocorreu em local onde os técnicos do Departamento de Infraestrutura (DEINFRA) acataram a instalação de uma ciclofaixa. Projetada desde 1991, a ciclovia da SC-401 até hoje não saiu do papel em nenhum de seus 19,6km.

E nem parece ter havido articulação para sair.

Fala-se apenas na implantação de ciclovias quando algum trecho de rodovia está para ser duplicado ou implantado. Sem as obras para carros, as obras para bicicletas não saem. Em Florianópolis, é o caso da Transavaiana e da SC-403. Mas igualmente não é o caso do acesso ao ParqTec Alfa, Tecnópolis.

Nenhum ciclista até hoje obteve acesso aos projetos de pistas cicláveis na Transavaiana nem da SC-403. E os temores se justificam: basta olhar a ineficiência técnica da ciclofaixa da SC-401. E o aumento dos acidentes com ciclistas e pedestres na SC-405, no Rio Tavares. Nenhum acesso, nenhuma conversa, sequer passou por consulta da Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis (ViaCiclo) ou mesmo pela coordenação de projetos cicloviários da prefeitura de Florianópolis.

Temem os ciclistas que virem a trafegar por essas rodovias, inseridas dentro da urbe.

A promessa que não saiu

Além da não-discussão de ciclovias decentes na SC-401, há que se salientar o não-cumprimento de uma das promessas feitas pelo então superintendente do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) e braço direito do então prefeito municipal, Dário Elias Berger (PMDB). Em uma entrevista ao Jornal do Almoço por conta do ocorrido, por sinal bastante criticada, o gestor máximo do órgão de planejamento anunciou o investimento do município de R$4 milhões de reais na construção de ciclovias na cidade para o ano de 2012. Conforme demonstrado aqui no blogue, esse investimento referia-se à requalificação do espaço público das ruas Bocaiúva e Almirante Lamego.

Sabem quantos desses R$ 4 milhões foram empenhados? Zero. Absolutamente nada. O projeto de requalificação sequer teve seu projeto executivo feito e as ciclofaixas que surgiram nos últimos meses nada tiveram a ver com a construção de ciclovias, mas sim com a repavimentação pré-eleição que botou asfalto em diversas ruas das cidades.

Outras obras cicloviárias nem chegaram a ter um começo, como o caso da ciclovia da R. Ver. Osni Ortiga, na Lagoa da Conceição, ou tiveram apenas um tímido início, como a da Rod. João Gualberto Soares, iniciada após 6 seis anos no Rio Vermelho.

É com extrema infelicidade que se constata que algumas figuras públicas queriam apenas aparecer perante à tragédia anunciada que custou a vida de um jovem universitário, ciclista, morador de Santa Catarina.

Saiba mais:

Mais de duzentas pessoas comparecem à homenagem a ciclista morto na SC-401, neste sábado – Cobertura do Bicicleta na Rua sobre a bicicleta-fantasma na SC-401 em homenagem a Emílio Delfino Carvalho de Souza.
“Os ferimentos do meu filho não foram leves”, diz mãe de ciclista atingido na SC-401 – Desabafo da mãe de Nicolas Paolo Zanella, ciclista atropelado na SC-401.
Florianópolis terá duas Bicicletadas neste fim de semana – Divulgação oficial da Mobilização por mais segurança e menos mortes na Ilha de Santa Catarina.
SC-401, a Rodovia da Morte para ciclistas – Reportagem do Jornal Notícias do Dia revela a preocupação com a circulação de bicicleta na rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina.
Notas sobre a reunião pelo fim da impunidade no trânsito – Sociedade civil, mobilizada, divulga novas informações sobre o acidente.
A mobilidade na Ilha – Editorial do Diário Catarinense fala sobre a rodovia e a mobilidade.
SC-401 oferece ainda mais riscos aos ciclistas neste verão – A liberação consentida da Polícia Militar Rodoviária para automóveis usarem o acostamento coloca em risco a vida de ciclistas.
A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados – Conteúdo do Bicicleta na Rua já previa, em 2009, que mais acidentes na SC-401 aconteceriam se não houvesse um redirecionamento dos investimentos e das prioridades.

Veja também:

Charge – Pedalando com segurança na SC-401

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

3 Responses to Um ano e nada mudou

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