Momentos singelos marcaram homenagem a Lylyan


Texto: Fabiano Faga Pacheco. Fotos: Marina Lisboa Empinotti.

A implantação da bicicleta-fantasma, como convencionou-se chamar em português as ghost bikes, na rótula da Trindade, na entrada do campus da Universidade Federal de Santa Catarina, foi marcada por diversos simbologismos e significados.

A dor da perda de uma amizade estava estampada nos rostos de dezenas de colegas da estudante de Oceanografia Lylyan Karlinski Gomes, que faleceu na última segunda-feira, 1º de julho, após ter sido abalroada por um ônibus. Lamentos, os olhos vermelhos de tanto chorar, a lástima por esvair-se assim, sem mais nem menos, a vida de uma amiga.

As mais de 350 pessoas que estiveram presentes na manhã desta quinta-feira tinham seus motivos para estarem lá. Algumas não aguentavam mais as “finas corretivas” que cotidianamente motoristas lhes infligiam. Quase todas se colocavam na mesma situação em que Lylyan se encontrava no momento da colisão. Uma ida à faculdade, algo tão banal, deveria se tornar algo perigoso? E por quê, numa cidade tão aprazível quanto Florianópolis, é tão difícil a convivência pacífica nas ruas?

A bicicleta branca não representava apenas Lylyan. Embora fosse um marco de sua morte, era também um marco de sua vida, de sua existência. A ghost bike representa isso: uma vida – que foi vivida e foi perdida! Mas ela não é apenas o símbolo do falecimento da ciclista. É um monumento da situação desarmônica das ruas, que descamba para a violência no trânsito. Ciclistas e pedestres são apenas o ente mais frágil dessa difícil relação de convivência entre os componentes da mobilidade urbana.

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O centro da rotatória foi o lugar escolhido para a alva escultura. Às 8h20, o fatídico horário, começou a marcha. O pedalar e o caminhar se fizeram emudecidos em torno daquele espaço circular. Cartazes e faixas demonstravam o desprezo pela ausência de ação do poder público – que até agora sequer se manifestou oficialmente – e o prezar pela vontade de viver. E pela vontade de que Lylyan também pudesse estar lá com eles, fisicamente, vivamente.

Uma longa escada foi o suficiente para que o símbolo do descaso com a situação dos cidadãos começasse a ser erigida e ficasse ao alcance dos olhos de todos. Uma foto de Lylyan emoldurou o poste.

O deitaço, unido aos 4 minutos de silêncio, foi certamente um dos mais lindos flash mobs que já aconteceu em Florianópolis. Os ciclistas ao chão, o silêncio compassível dos automóveis ao redor da rótula, as lágrimas de lembranças molhando o asfalto e as flores na estrela negra (estrella negra) contrastavam com o retrato sorridente de Lylyan.

O dar-se as mãos ficou pequeno para o tamanho do cruzamento de cinco vias. Tal qual o “coração gigante”, os ciclistas e estudantes abraçaram-se ante o fúnebre local, em sinal de respeito, e aplaudiram a garota bem-humorada da foto, esperando, quiçá, que ela abençoe a todos e os livre dos males da tensa convivência no trânsito.

A marcha seguiu caminhando e pedalando para o seio do antro acadêmico. Na reitoria, os gritos não ouvidos na rótula ecoaram. “Ei, Reitoria, cadê a ciclovia!”, bradavam. O chefe de gabinete Carlos Antonio Oliveira Vieira desceu para falar com os manifestantes. Sobre as ciclovias dentro do campus, alertou que deve receber o projeto em um mês e, então, levar ao conhecimento da comunidade acadêmica para melhorias e aprovação. Os ciclistas também devem lotar a audiência pública de 13 de agosto, na Câmara de Vereadores, para cobrar por novas ciclovias. Já na garagem da empresa Insular, dona do ônibus envolvido no falecimento, os mecânicos postaram-se em posição de confronto com ciclistas e ninguém na empresa atualmente atende a demanda de reclamações. Sugeriram fazê-las na empresa-mãe, a Transporte Coletivo Estrela, que opera linhas na região do continental de Florianópolis.

Ao fim das contas, o protesto terminou com muitas incertezas quanto ao posicionamento do poder público.

Ainda assim, para quem se fez lá presente, a manifestação teve um conjunto de significações todo especial.

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