Entrevista com Carme Miralles-Guasch


Na passagem da professora Dra. Maria Carme Miralles-Guasch por Florianópolis, na qual ela ministrará a disciplina condensada “Mobilidade Urbana Sustentável”, pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a repórter Carolina Dantas, do Diário Catarinense, lançou questões para a pesquisadora, cujas respostas você confere a seguir.

"Perder tempo entre os lugares é perder dinheiro". Autoridade mundial em transporte, a espanhola Carme Miralles defende uma rede integrada para Florianópolis com alternativas por mar e por terra. Foto: Alvarélio Kurossu.

“Perder tempo entre os lugares é perder dinheiro”

“Se eu pudesse criar uma nova categoria para a mobilidade brasileira, eu criaria. Tem coisas que só vemos aqui”. Esta foi a primeira consideração da doutora em Geografia, diretora do Instituto de Estudos Regionais e Metropolitanos de Barcelona (IERMB), especialista em transporte urbano e professora na Universidade Autônoma de Barcelona, Carme Miralles-Guasch após desembarcar ontem em Florianópolis. Ela veio da Espanha a convite da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autoridade quando o assunto é transporte em grandes cidades, ela publicou 30 artigos sobre mobilidade urbana nos últimos cinco anos e estuda o tema desde 1996. Segundo ela, a integração e o investimento em diversos meios de transporte são o que desafoga o trânsito nos conglomerados.

Diário Catarinense – O metrô seria a melhor saída para Florianópolis?

Carme Miralles – Não sei se Florianópolis precisaria ter um metrô. Aqui seria muito difícil porque é uma ilha com duas lagoas, e quase sempre o terreno não suporta. É necessário pesquisar melhor. É muito difícil. Caso os terrenos suportem, o investimento é alto, mas retorna com o tempo. É necessário estudar melhor a cidade para falar sobre isso.

DC – Mesmo com muitos morros, as ciclovias continuam sendo uma hipótese?

Carme – Os morros não estão em todas as partes da cidade. O importante é que as ciclovias estejam numa rede, não em uma linha que começa e termina logo depois, e uma parte qualquer. É importante ter uma conexão entre as linhas, para levar a algum lugar com segurança.

DC – Existe uma nova solução de mobilidade não vista no Brasil?

Carme – Não há soluções. Há melhorias. O espaço urbano é um espaço muito complicado e ainda surgem problemas novos, e temos que aprender a resolvê-los para fugir do caos. A solução não existe. A pergunta é: como podemos melhorar a mobilidade do espaço urbano? A melhor solução é entender que o transporte é um sistema único, que todos os tipos devem trabalhar em rede. As pessoas devem utilizar diferentes tipos de transporte e ter condições para isso: podem ser motoristas de carros e pedestres ao mesmo tempo. As pessoas podem andar em bicicleta e automóvel ao mesmo tempo. Não é um em frente do outro, não é investir em ciclovias sem contraste e integração com as estradas. A palavra é integração.

Doutora em Geografia diz que se pudesse criaria uma nova categoria para a mobilidade brasileira. Foto: Alvarélio Kurossu.

DC – O fluxo de pessoas em Florianópolis e Barcelona aumenta durante o verão. Como deve ser o planejamento do transporte urbano para esta época?

Carme – A dimensão da oferta do transporte nunca em nenhum lugar é feita para a demanda ao seu máximo. Imagina que você quer abrir um restaurante e que sábado à noite tem muita gente para comer. O que você fará? Colocará mesas e garçons para o fim de semana e ficar com o ambiente vazio o resto da semana? Não fará isso, não é mesmo? Se o sábado tem mais demanda, as pessoas terão de esperar um pouco mais durante este tempo. A oferta nunca é mensurada para o máximo de demanda, mas para o valor médio. Isso significa que alguns meses do ano a demanda seja maior ou menor, é normal. O que não pode é mensurar o valor mínimo de demanda, porque não há como se adequar nos momentos máximos.

DC – E como utilizar o transporte marítimo em Florianópolis?

Carme – Uma das possibilidades é utilizar o mar como infraestrutura, fazer um bom sistema entre as partes do continente e com o mar, sempre conectado em rede com ônibus e qualquer meio de transporte. Ouso falar que a solução aqui em Florianópolis é utilizar o mar, como no Rio de Janeiro e Niterói. Seria ótimo entre o continente e a ilha, por exemplo. Pode-se ter pontes, mas a solução por aqui é conectar-se por barcas.

DC – Qual é a principal consequência para a cidade que deixa a população com tempo perdido enquanto se transporta?

Carme – Tempo é dinheiro. Todo aquele tempo que passamos entre os espaços não utilizamos para nada mais: nem para aprender espanhol, nem para estudar, nem para ler livros. O sistema perde produção e fica parado. Não é só o tempo individual, é o tempo coletivo. Uma cidade que a população perde muito tempo entre os lugares é uma cidade que perde dinheiro. Ultrapassa as classes sociais: rico ou pobre, você continuará parado.

Carolina Dantas

Fonte: Diário Catarinense, edição virtual, em 19 de agosto de 2013, às 19h21, e edição impressa, em 20 de agosto (pág. 24). Veja em PDF ou clique nas miniaturas para ampliá-las.

DC 2013-08-20 capaDC 2013-08-20 p.24

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

2 Responses to Entrevista com Carme Miralles-Guasch

  1. Maria Jos Silva says:

    Existe seguro para bike?Me informe pf.

    • Algumas empresas realizam esse tipo de seguro. Além disso, vários locais e várias cidades têm legislação na qual o estabelecimento é obrigado a segurar a bicicleta estacionada dentro de suas instalações.

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