Artigo: Integração ciclística entre Balneário Camboriú e Camboriú


As cidades de Camboriú e Balneário Camboriú são marcadas pelo fenômeno da conurbação, entendido como a fusão de duas ou mais áreas urbanas, ou seja, onde os limites político-administrativos entre as cidades não são bem definidos, constituindo uma única mancha urbana.

A conurbação potencializa outro fenômeno urbano, conhecido como “cidade dormitório” – quando uma parte considerável da população residente em uma cidade realiza suas atividades cotidianas, principalmente o trabalho, em outra cidade. No processo de urbanização do Brasil, esse fenômeno foi reforçado pela especulação imobiliária, realidade esta que caracteriza Balneário Camboriú e que reflete diretamente na cidade vizinha.

Quando estes fenômenos ocorrem, cabe aos municípios membros constituírem políticas públicas que solucionem problemas comuns, como é o caso da mobilidade. A mobilidade urbana é um importante atributo da cidade, é o resultado da relação entre o movimento das pessoas e de bens e a facilidade de acesso à cidade. Ela deve assegurar as necessidades e os desejos das pessoas, quer de forma individual ou coletiva, quer de forma motorizada ou não-motorizada. Dessa forma, entendemos que no âmbito do planejamento urbano ambas as cidades devem ser tratadas como uma, na perspectiva de construir uma planejamento integrado.

O deslocamento da população das cidades de Camboriú e Balneário Camboriú dá-se tanto de forma motorizada quanto de forma não motorizada, sendo que esta última carece de atenção por parte do agente público. Devido à proximidade entre as cidades em questão, o uso da bicicleta como forma de deslocamento é comum, porém a infraestrutura existente é bastante precária. Um indicador desta deficiência é, segundo a ACBC, a pequena extensão das vias destinadas exclusivamente aos ciclistas. Balneário Camboriú possui 16.770 m (15,51 cm/habitante) e Camboriú menos ainda, apenas 2.410 m (3,87 cm/habitante). No que toca à questão da conurbação, é mais relevante ainda constatar que não existe uma ligação cicloviária contínua entre as duas cidades, tornando o deslocamento entre uma e outra uma ação perigosa.

Os benefícios do uso da bicicleta como meio transporte são inúmeros, tanto no âmbito coletivo quanto individual, sendo possível citar dentre eles: diminuição da poluição do ar; redução dos gastos públicos com construção e manutenção do sistema viário; redução dos congestionamentos e da perda de tempo no trânsito; ampliação do acesso aos espaços públicos; diminuição da quantidade de acidentes; promoção da saúde; favorecimento da autonomia individual de deslocamento; contribuição para a economia da renda familiar.

Além da bicicleta ser utilizada como meio de transporte, ela também é um recurso e uma prática de turismo. Em 2009 foi implantado nos municípios da foz do Rio Itajaí o Circuito de Cicloturismo Costa Verde & Mar. Passando pelo território de 11 cidades, inclusive Camboriú e Balneário Camboriú, é uma iniciativa do Citmar – Consórcio Intermunicipal de Turismo Costa Verde e Mar e da Amfri – Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, sendo atualmente administrado pela ACBC – Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú.

O cicloturismo é uma prática turística que usa a bicicleta não somente como um meio de transporte, mas como uma companheira de viagem e que permite o acesso a lugares que não são acessíveis aos demais meios de transporte. Está associada ao convívio ao ar livre, ao respeito ambiental e às paisagens naturais. Uma das condições para o êxito do cicloturismo é a segurança para seus usuários, o que só pode ser garantido com políticas públicas que ofereçam infraestrutura adequada, programas de educação para o trânsito e interferência fiscalizatória por parte dos agentes de trânsito.

A bicicleta também faz interface com o turismo de modo indireto, pela constatação de que grande parte dos trabalhadores de Camboriú e de Balneário Camboriú estão envolvidos com este ramo de atividade. Não obstante a importância do turismo para a economia local, a sua mão de obra em geral é precarizada, sazonal e com condições contratuais inseguras – em suma, a economia da renda familiar é uma questão importante para as famílias que trabalham com o turismo, ressaltando a importância da bicicleta, veículo amplamente reconhecido de baixo custo de aquisição, operação e manutenção.

Apesar de que uma das principais diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, Lei Federal 12.587/2012, seja priorizar os modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado, não é essa a realidade que se observa no tratamento das gestões públicas.

Sabemos que leis desacompanhadas de programas locais são insuficientes para mudar um modelo de cidade construído historicamente. Para mudar o paradigma de mobilidade urbana é preciso que as gestões públicas assumam medidas permanentes de incentivo ao uso da bicicleta nas cidades. Nesse sentido, o Seminário Intermunicipal Camboriú e Balneário Camboriú de Mobilidade Ciclística apresenta-se como um instrumento fundamental para a construção de políticas públicas voltadas a mobilidade ciclística, ao fomentar o debate entre os três importantes setores da sociedade: poder público, sociedade civil organizada e a academia.

Por Roberta Raquele André Geraldo Soares**

* Roberta Raquel é professora de Geografia e coordenadora de Extensão do Instituto Federal Catarinense – Campus Camboriú
** André Geraldo Soares é coordenador de Mobilidade da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú – ACBC.

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Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

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