Crônica natalina – Fernanda Lago


O texto abaixo foi originalmente publicado no periódico Diário Catarinense, versão impressa, na quinta-feira, 12 de dezembro de 2013, na página 3 do caderno Variedades. Pode ser lida também neste link.

cronica - Fernanda Lago DC 2013-12-12 Ops, e Natal

(Veja em PDF)

Contexto

Ops, é Natal

Fernanda Lago

Camila está de férias, suas primeiras férias de estudante universitária, aliás. Com a passagem comprada para Laguna, onde mora sua família, tirou dois dias de folga de tudo. No primeiro deles vai ao Centro ver o movimento desta época do ano que é sempre enfeitada de luzes e cores de Natal. Camila pretende fotografar tudo para guardar de lembrança e também mostrar aos amigos que ficaram pra lá, na cidade da Anita. Ela ainda vai aproveitar para dar uma olhada nos preços, pois pretende levar presentinhos aos parentes e amigos, mas como seu dinheiro é sempre contado, não se dá ao luxo de comprar por impulso. Comprará só depois de pesquisar. Menina séria e focada desde quando nasceu, está a crescer um pouco pão dura, é verdade, mais ainda depois que foi morar sem os pais em apê dividido com colegas no primeiro ano de faculdade. Camila, em sua definição própria, é apenas cautelosa.

E assim, prudente como de costume, segue rumo ao Centro. É fim do dia e graças ao horário de verão escurece mais tarde. Faz tempo bom, apesar do calor, e ela vai de bicicleta. Não é difícil, Camila mora em Santa Mônica – não na Califórnia e sim perto do shopping e, claro, da universidade. Na verdade nem tão perto assim, mas vai no plano da ciclovia pela Beira-Mar, até a Praça XV, onde está o lindo presépio fruto da insistência nas raízes do professor Cascaes. Ela leva uns 20 minutos para chegar ao destino. Nada mal e sem o estresse provocado pelos carros, na maioria dirigidos por motoristas solitários, distraídos e muito impacientes. Então, seria tudo lindo se justo hoje os empregados da única empresa pública responsável por limpar as ruas e recolher o lixo que a gente produz aos montes não estivessem em greve.

Arte: Marcelo Camacho.

Com exceção da Beira-Mar Norte, que é a melhor zona de disfarces da cidade, Camila foi obrigada a pedalar por muitos sacos e lixeiras abarrotadas de resto de comida e sabe Deus mais o quê. E quanto mais perto do comércio central, pior para o olfato e a visão. Além do cheiro horrível de podre vindo do lixo largado e em decomposição, processo que a temperatura alta faz acelerar, são centenas de sacos pretos, azuis, verdes, amarelos e brancos empilhados. Alguns rasgados por cachorros e espalhados pelo meio da rua, outros furados por ratos. Mais ratos – que estes são muito espertos e férteis e correm sorrateiros atrás da produção deixada pelos humanos, ou seja, rango garantido. Também se veem mais sacos pretos do que de outras cores, no entanto, o odor de todos é igualmente desagradável.

Ela diminui o ritmo das pedaladas espantada num misto de impotência e incredulidade. Mas de repente lembra dos seus objetivos: “foco, Camila. Mais um pouco e você chega ao destino!”, pensa ela ao mesmo tempo em que repara no vento, até então inexistente.

Entre sacos e luzes que começam a brilhar com a chegada da noite, Camila enfim está na praça. Sem local para guardar a bicicleta, caminha e empurra seu transporte com as mãos. Dá um certo trabalho fotografar e segurar a bike, mas com a câmera no celular, fica tudo mais fácil, não precisa nem pedir ajuda a desconhecidos para tirar uma foto sua com o presépio ao fundo.

Depois da praça, uma passada nas vitrines. Ainda está quente, mas o vento aumentou de intensidade e basta a moça dar alguns passos em direção às lojas do calçadão que começam os primeiros pingos. Logo, chuva forte. Camila olha pro céu e vê uma nuvem cinzenta sobre a sua e milhares de outras cabeças. Corre para o terminal de ônibus na esperança de voltar para o abrigo da sua casa, mas esquece que nesta cidade não existem ônibus preparados e disponíveis para compartilhar gente e suas alternativas. Muito menos local seguro para deixar sua única bicicleta. Camila, que não confia em cadeados e nem na humanidade (ainda mais depois do crack), volta na chuva e, desta vez, por bueiros entupidos que deixam a maré dos lixos ainda mais cheia. Ops, é Natal!

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Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

One Response to Crônica natalina – Fernanda Lago

  1. Egon Koerner disse:

    Legal o texto, apenas acho que a Camila ainda não consegue aproveitar tudo que a bici proporciona. Uma delas, das melhores, é o pedalar na chuva sem se importar com o se molhar.

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