Massas Críticas catarinenses

Março chegou com um alvoroço carnavalesco. Sem pudor, mas temendo por sua vida, os ciclistas pedalaram pelados, mostrando as fragilidades de seus corpos às pessoas e pedindo proteção. As autoridades olharam e viram passar. E só.

Atitudes de omissão como essas é que alimentam a permanências das Massas Críticas em Santa Catarina. A depender das autoridades muitas delas ainda vão ocorrer em território barriga-verde.

Nota: prefeito da Capital, Cesar Souza Júnior (PSD) anunciou um Plano de Metas para 2014, que engloba a construção de 20km de ciclovias e ampliação das ciclofaixas de lazer na cidade. Só faltou contar que não realocou recursos para isso. No ano de 2013, as metas eram mais ousadas: 30km até o final do ano. Cerca de 10% disso foi construído, no bairro da Tapera. Pouco mais de 8km estão em fases de projetos na Caieira da Barra do Sul e José Mendes e o trecho da R. Ver. Osni Ortiga teve sua fase 2 lançada, sem a conclusão do aterro na Lagoa da Conceição da fase 1.

Com essa meta de 20km, a prefeitura praticamente detona o Termo de Compromisso com os Ciclistas, firmado às vésperas das Eleições de 2012. O acordado com os cidadãos era a conclusão de 40km de pistas cicláveis decentes até o final de junho de 2014. Os méritos dessa desconquista são compartilhados também com o superintendente do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, arquiteto Dalmo Vieira Filho.

Enquanto isso, perdemos ciclistas no Estado, com destaque para o garoto João Vitor, atropelado por um motorista bêbado no Travessão do Rio Vermelho, numa via em que os habitantes pedem ciclovia desde 2009.

Blumenau

Blumenau 2014-03-28Arte: Yasna Muñoz Catalán

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Brusque

Brusque 2014-03-28

Florianópolis

Florianopolis 2014-03=28

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Anotações do Fórum Mundial da Bicicleta 2014

Após vários pedidos de compartilhamento de informação derivado de nossas anotações das palestras do Fórum Mundial da Bicicleta, cuja terceira edição ocorreu em fevereiro deste ano em Curitiba, digitalizamos as anotações do nosso editor para quem quiser relembrar, saber sobre apresentações que não pôde estar presente ou simplesmente ter um gostinho de como foi um dos melhores encontros do ciclismo urbano e cicloativismo que aconteceu em território brasileiro.

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(Veja em PDF)

Poesia – Bicicleta Fantasma

“Esta poesia é dedicada a todos os ciclistas mortos por atropelamento nesse país e, em especial, ao nosso companheiro ciclístico Egon Koerner Júnior, que falecei atropelado por um motorista bêbado quando participava de uma prova de superação – Audax na cidade de Curitiba.” 

BICICLETA FANTASMA

Cabisbaixa às margens da estrada, subjugada, punida, ignorada, batida pelo tempo.
Sou bicicleta fantasma, minha morte faz te lembrar
Que hoje sou bicicleta sem alma; muitas outras eu tento salvar.
Dividida, atônita, aturdida, pressa ao teu passado; sofro só de vê-los passar sem um corpo a me pedalar.
Sou bicicleta branca, fantasma, sabe lá o nome que querem me dar,
Sou calada, amordaçada, indefesa e não posso falar.

Sou bicicleta sem alma, minha morte faz te lembrar
Ninguém sabe agora és morta.
Nem disso eu posso falar.
Amordaçam minhas rodas, não posso gritar.
Entre amarras e presilhas, meu corpo minhas rodas estão livres mas não posso tu levar.
Sou bicicleta morta, o significado de estar morta só eu posso lhes mostrar.

Sou uma velha, desprezada, reciclada, remontada sabe lá, o nome que querem me dar,
Mas sou bicicleta morta e da morte te fazer lembrar.
Sou menina, sou menino, não importa! Sou simplesmente bicicleta morta.

Fui roubada, ultrajada para outro me usar, mas sou bicicleta morta e pro meu lugar devo voltar.
Vejo amigos, vejo estranhos, vejo a vida me rondar.
Vejo as lágrimas da amada que se curva a chorar.
Vejo luas, tempestades, vejo o inverno passar.
Vejo flores de saudades, lembranças a me acalentar.
Represento vida e morte daqueles que vejo passar.

Sou bicicleta morta, e morta estou,
Sou bicicleta branca, e branca estou,
Sou fantasma sem alma, sabe lá o nome que ainda terei
Fantasma sem alma; morta está… e branca me tornei.
Tu que me fizeste fantasma, branca sem alma, de ti sempre lembrarei.

Nicolau Marques Júnior
[Florianópolis, 2014]

Pedalada Pelada mostra que Florianópolis ainda está longe de atender às demandas dos ciclistas

Florianopolis 2014-03-08 WNBR v0

A terceira edição florianópolitana do World Naked Bike Ride, ou Passeio Ciclístico Mundial Sem Roupa, conhecido no Brasil como Pedalada Pelada ou Peladada, deverá acontecer na tarde deste sábado, 8 de março. A concentração para pintura dos corpos começará às 15h, na pista de skate da Trindade, em frente ao Shopping Iguatemi, com saída para pedalar às 19h.

A capital catarinense não será a única cidade brasileira a ter a sua edição no WNBR. Ainda hoje, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre irão se juntar a outras 30 cidades do mundo nas comemorações e provocações da data do WNBR para o Hemisfério Sul. São Paulo deve realizar a sua sétima edição no sábado que vem, dia 15.

Muito distante de fazer uma apologia ao sexo, o lema da Pedalada Pelada é “as bare as you dare” ou “tão nu quanto você ousar”. A nudez é a representação da fragilidade do corpo humano e passa uma mensagem clara: o ciclista é um componente bastante frágil no trânsito. Desmunido de air bags ou uma carroça metálica ao seu redor, o pedalante conta com muito pouco para se defender num país no qual, anualmente, mais de 50.000 pessoas morrem devido a “acidentes” nas ruas e rodovias.

A repetição dos mesmos motes, ano trás ano, parece pouco ter mudado (ainda) na vida do ciclista cotidiano em Florianópolis, demonstrando a inação e omissão também do poder público. Isso é relevante quando se relembra que este evento tem a proposta difusa de conscientização dos demais componentes do trânsito.

Se o respeito por parte dos motoristas parece estar aumentando ao longo dos últimos anos, parece ter sido mais obra dos próprios ciclistas e suas ações de rua do que de uma campanha de conscientização propriamente feita pelos órgãos do poder executivo. São os ciclistas que estão à frente também das campanhas com motoristas das empresas de ônibus. Tomaram a frente num vácuo inaceitável deixado pelos gestores após uma morte de ciclista por um coletivo e o surgimento de diversos relatos correlatos.

Em pleno Dia Internacional da Mulher, o que os ciclistas querem é uma pauta comum com o movimento feminista: fugir da opressão e se mostrarem como iguais. Neste caso, mostrarem o tamanho da desigualdade que se apresenta nas ruas, mas também o tamanho da desigualdade na hora dos gestores priorizarem obras. Avenida das Rendeiras, SC-401, SC-403, SC-405, Av. Paulo Fontes, R. Padre Rohr, Elevado do Rio Tavares, Elevado de Capoeiras, Elevado do Rita Maria, Elevado do Trevo da Seta e até mesmo a ciclovia da R. Ver. Osni Ortiga: todas são obras, conclusas, em andamento ou em projeto, na qual o ciclista e o pedalar foram desconsiderados em seus deslocamentos. Isso inclui até mesmo esta última, ciclovia da Lagoa da Conceição, cujo material impossibilitará a circulação adequada de patins, skates e patinentes e ainda, segundo informações de arquitetos apresentadas durante o Fórum Mundial da Bicicleta, prejudicar o coração do ciclista que por ela trafegar! Até uma obra de beleza cênica e voltada para o ciclista não foi pensada para a circulação sobre bicicleta.

Assim, deverão existir muitas outras edições da Pedalada Pelada para que os ciclistas possam fazer no WNBR um evento mais festivo e menos reivindicativo.

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