Gabriel


Gabriel era um sujeito comum, tanto quanto eu e você. Dava aulas de Química no Instituto Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Gostava de pedalar pela cidade. Tinha uma esposa, irmãos, filhos e amigos. Gabriel era um sujeito comum. Era. Na última segunda-feira, 5 de outubro, Gabriel faleceu, fazendo uma das coisas das quais mais gostava: andar de bicicleta.

Mol, como era chamado por seus alunos, tinha uma química incrível. Sobre duas rodas, formava uma ligação – não covalente – que o fazia brilhar. E a luz de sua lanterna piscava nos seus pedais por Florianópolis.

Zeloso, participara ativamente do dia mais importante para o cicloativismo nacional e internacional. Vinte e dois de Setembro, o Dia Mundial Sem Carro, contou com sua presença e com a de sua bicicleta no Pedal Unificado. Dia… sem… carro. Parece impossível para alguns imaginar essa utopia que era a regra há século atrás, quando as pessoas ainda paravam para conversar nas ruas. Uma invenção tecnológica que pode salvar vidas – e também tirá-las.

No dia 5, estava marcado mais um passeio do Pedal do Della, do qual Gabriel era freqüentador. O rumo: Santo Antônio de Lisboa. Mas naquela noite, o seu desejo era outro. Em vez do norte, foi ao sul, em direção ao Campeche. Quase todo o trajeto de sua residência, no Saco dos Limões, até a praia é feito em ciclovias. Ciclovias unidas por pontos de teletransporte, como tem sido hábito dos governos municipal e estadual, que não têm absolutamente nenhum cruzamento entre ciclovias distintas corretamente executado. NENHUM.

Quando já retornava para sua casa, Gabriel teve que sair da ciclovia. A segurança despediu-se de Gabriel e seguiu o rumo do centro pela ciclovia enquanto ele dela saía para encontrar a sua família. O horário era 21h40.

O reencontro familiar não aconteceu. Não foi possível de ser realizado em vida. Na pista sentido sul da Via Expressa Sul uma colisão atingiu em cheio, não possibilitando a menor reação. Quase exatos sete anos depois de Esaú, outro grupo de ciclistas da Grande Florianópolis também perdia um de seus membros devido a uma motocicleta.

Na manhã do sábado 11, as cantorias da Igreja Presbiteriana Betânia, em frente à sua casa, aquietavam as almas de quem por ele sofria. Nos céus, Esaú aguardava a chegada do novo companheiro de pedaladas celestiais.

Nesta terça-feira 13, a décima bicicleta-fantasma surgirá na paisagem de Florianópolis.

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Gabriel Seroa da MotaGabriel Serôa da Mota
∗ 25/07/1954   † 05/10/2015

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

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  1. Pingback: Massas Críticas catarinenses – outubro de 2015 | Bicicleta na Rua

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