Massas Críticas catarinenses – julho de 2015

Julho finda trazendo consigo o frio que teimou em não aparecer no inverno. Mas acalentou sensações mistas de esperança e desconfiança no coração dos ciclistas.

O Floribike prolonga mais um pouco seu fardo de ser o sistema de compartilhamento de bicicletas mais enrolado do mundo. Já são 8 anos do projeto à sua não execução. Mas não deve sê-lo por muito mais tempo. O adiamento, desta vez, foi pouco: para 25 de agosto é a abertura dos envelopes das empresas concorrentes!

Mas as mentiras continuam a permear a administração municipal de Florianópolis.

Neste mês anunciaram, neste mês anunciaram… que foi feita ciclovia na Rua Dante da Pata, nos Ingleses.
Na realidade, na realidade… mesmo com espaço, só há linha branca nas laterais, onde carros ficam a estacionar.

Neste mês anunciaram, neste mês anunciaram… que ciclovia na Rua Padre Rorh, em Santo Antônio de Lisboa há.
Mas omitiram, mas omitiram… que ciclofaixa não é ciclovia e que a Secretaria de Obras optou por um projeto pior e mais caro. Ao contrário da lei, pior para ciclistas e pior para pedestres.

Neste mês anunciaram, neste mês anunciaram… que na revitalização da Av. Ivo Silveira haveria travessia elevada nas ortogonais à via, para facilitar ciclistas, pedestres e cadeirantes.
Mas mentiram, mas mentiram… porque isso lá não haverá!
E omitiram, e omitiram… que vão criar problemas de desenho urbano para poder com asfalto gastar.
(e danem-se pedestres e ciclistas, porque, embora a avenida vá ficar melhor do que hoje, poderia ser ainda mais!)

Neste mês anunciaram, neste mês anunciaram… projetos para a revitalização das avenidas Jorge Lacerda e Waldemar Vieira. E, neles, ciclovia há.
Mas, como era de se esperar,
aos perfis viários analisar,
facilmente se há de notar
que muito se poderia melhorar.

Com as vias daquela largura
aos carros alta velocidade.
E aos ciclistas a amargura
de pista ciclável de tal finura
que se pensa que a mobilidade
é destituída de acessibilidade.

Um projeto melhor se poderia vislumbrar
se com duas rodas ou sola de pé
in loco se observasse
E na cidade reparasse.
Da mobilidade o foco no tripé
daria às ruas um novo olhar, um novo andar.

Ciclistas, pedestres, o coletivo
Será que ainda é difícil pensar nisso?

O lado bom é que ainda há esperança. E elas surgiram num vulto que não se omite. Melhorias à frente frente ao que já existe. Ciclovias recuperadas antes que tardias. E projetos de lei que visam a facilitar a vida do oprimido que não se cansa de pedalar.

Confira abaixo quando e onde os oprimidos catarinenses vão se unir para força adquirir.

Blumenau

Saída às 20h em frente à Prefeitura, na Praça Victor Konder.

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Brusque

Brusque 2015-07-31

Florianópolis

Concentração na pista de skate da Trindade. Saída às 20h.

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Joinville

Joinville 2015
Manifesto de Joinville

Na última terça feira (20), um jornalista alegou em sua coluna que Joinville tem “excesso de ciclovias”.

Nos próximos dez dias estará acontecendo o Festival de Dança em Joinville, um evento que rendeu apelido de “cidade da dança” ao município. Outros apelidos surgiram na história de Joinville, “cidade da bicicleta”, por exemplo, puro marketing usado para vender a cidade com “ar europeizado”, mas sabemos que nada disso corresponde com a realidade. 

Sabemos da precária infraestrutura de Joinville, não só para ciclistas, mas para pedestres, cadeirantes, deficientes visuais e para quem utiliza o transporte coletivo.

O Massa Crítica de Joinville acontece toda última sexta-feira do mês, é um evento que reuni ciclistas de toda a cidade, para promover a cultura do uso da bike, bem como, chamar a atenção para os problemas da mobilidade urbana, especialmente, a infraestrutura cicloviária. 

Pensando nisso, o Massa Crítica deste mês fará uma homenagem à “cidade da dança” e da “bicicleta”, com o número “A dança da bicicleta”.

Participe! Pegue sua zica e venha pedalar por uma cidade melhor!

A “cidade da bicicleta”, nunca foi a “cidade dos ciclistas”!

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Nous sommes Charlie Hebdo

Nós temos opções perante a diferença.

Podemos dialogar com ela.

Podemos integrar as opiniões contrárias.

Podemos buscar um consenso.

Podemos, em casos inconciliáveis, respeitar a existência da diferença.

E respeitar a existência do outro.

O que se viu na França nesta quinta-feira, 7 de janeiro, foi uma das mais cruéis demonstrações de ódio que pode ocorrer.

Foi uma exemplificação do desejo pela não existência do outro.

Como se o outro não pudesse existir, com suas opiniões divergentes.

As sátiras de Charlie Hebdo não poupavam nada. Valores ocidentais, cristãos, islâmicos. Nada.

Mas era ela uma publicação que manifestava idéias de uma minoria, assim como este blogue quando surgiu.

Particularmente, não acredito em limites para o humor.

Uma piada pode ter graça ou não tê-la.

Os cartuns de Charlie tinham muita graça para uns e muito pouca graça para outros.

Mas Charlie, com sua arma-caneta, não tirava o direito dos outros em existir.

O atentado de hoje não teve graça alguma – ao menos, para ninguém que preze pela existência da vida alheia, com sua variedade de formas, crenças e pensamentos.

Os tiros de hoje não tiveram graça.

Pensando bem, talvez haja sim um limite para o humor: que ele não tire a preciosidade da vida.

Visto sob esta ótica, o humor de Charlie Hebdo era superior ao não-humor das balas na carne humana que hoje atravessaram os ares de sua redação;

O atentado não é suficiente para calar a voz de quem diferente pensa.

Pode amedrontar, mas não emudecer.

O efeito, provavelmente, será ainda o contrário do esperado: mais canetas cortarão o ar em desenhos repletos de opiniões.

A mera caneta de Charlie é mais poderosa do que as armas que lhe tentaram calar.

Porque, metaforicamente, nesta quinta-feira, todos somos Charlie Hedbo.

charlie hebdo

Saiba mais no Le Monde:

Attentat contre « Charlie Hebdo » : Charb, Cabu, Wolinski et les autres, assassinés dans leur rédaction

Bicicletada Floripa comemora 12 anos!

O dia 31 de outubro é o Dia das Bruxas. No Brasil, virou oficialmente o Dia do Saci, como uma forma de homenagear o folclore nacional. Mas, na Ilha de Santa Catarina, a Ilha da Magia, em Florianópolis, as bruxas nunca deixaram de estar presentes no imaginário popular.

Florianopolis 2014-10-31 FloripaComo tem acontecido nos últimos 7 anos, a temática da Massa Crítica da capital catarinense envolve a imaginação no livre fantasiar. As belas bruxas de Franklin Cascaes serão evocadas na luta contra os Boitatás que insistem em apavorar os ciclistas. O desfile bruxólico está previsto para acontecer a partir das 19h, no ventre da Bruxa que conforma a Ilha de Santa Catarina, mais precisamente na pista de skate da Trindade, em frente ao shopping Iguatemi. A pedalada de uivos comemorativos está prevista para sair às 20h, em destino a ser definido pelos presentes, num ritmo leve para que os mais frágeis seres místicos consigam acompanhar.

O duelo dos ciclistas nestes 12 anos de história da Bicicletada Floripa não tem sido fácil. Forças ocultas e poderosas querem que, assim como em Itaguaçu, os ciclistas transformem-se em pedras, imobilizados. Um efeito que até os não pedalantes sentem no dia a dia: a imobilidade urbana atinge quem tenta se deslocar das mais diversas maneiras. Mas essas forças ocultas tem sido mais implacáveis com ciclistas e pedestres mesmo.

Ao comparar Florianópolis com São Paulo, cuja Bicicletada completou 12 anos em julho, percebemos o potencial perdido com a caça aos magos sobre duas rodas. A Ilha da Magia, em 2002, era uma das cidades com maior malha cicloviária do país. Embora com pouca quilometragem absoluta, destacava-se também pela qualidade de suas ciclovias. Doze anos depois, Floripa adotou uma tática falha: praticamente só construiu ciclovias nas reformas de vias, quando seu prefeito ou governador tinha a vontade de cumprir a lei. Com isso, os ciclistas tiveram que aumentar seu portfólio de truques: o teletransporte fez-se necessário para cruzar ciclovias que mudam de lado na via, sem razão alguma, o desvio de postes passou a ser algo quase instintivo.

Já a São Paulo dos últimos meses adotou uma postura mais folclórica, cansada de ver-se com sacis sem membros. E tem dado certo. A postura de implantar ciclovia mesmo antes da reforma da via garantiu de forma imediata a segurança do usuário da bicicleta. Em vários lugares de São Paulo, o ciclista não precisa mais ter superpoderes para transitar sem que Boitatá o atente.

Já em Florianópolis e em Santa Catarina, a omissão de pessoas como os prefeitos Dário Berger (PMDB) e Cesar Souza Júnior (PSD) e os governadores Luís Henrique da Silveira (PMDB) e Raimundo Colombo (PSD) provocou mortes evitáveis. Foram bruxos superpoderosos imobilizados para sempre que pereceram. Não viraram pedras como na paisagem cênica de Itaguaçu. Foram tornados pó.

Mas o que Boitatá  não sabe é que quanto piores as obras feitas e quanto mais criminosas forem as omissões, mais sobrevida ganha a Massa Crítica! Se a existência desta é uma busca por direitos – em especial, o direito à vida -, mais vezes os mágicos pedalantes irão às ruas chamar a atenção para as forças ocultas e poderosas que dificultam o seu existir.

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Veja também:

6 Anos? Lá vou eu!

Artigo: Prefeitura de São Paulo e a relação do poder público com os ciclistas

Como foi citado em uma troca de mensagem a relação da Prefeitura de São Paulo com os ciclistas é importante fazer um esclarecimento sobre a história dos ciclistas em São Paulo:

A bicicleta é oficializada pela Prefeitura do Município de São Paulo pela primeira vez em um órgão específico no administração, a pedido de Werner Zulauf, Secretário de Verde e Meio Ambiente, que designa Gunter Bantel como coordenador do “Projeto Ciclista”.

Trabalhavam com ele Luís Fernando Calandriello e Ana Maria Hoffmann, e outras pessoas que, me perdoem, não me lembro quem. Ouvia-se que Maluf não se preocupava (?!?) com bicicleta. O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno. As portas da SVMA sempre estiveram abertas. fizeram alguma pouca coisa e não andou mais por que a CET e Secretaria dos Transportes não permitiram.

Prefeitura com Celso Pitta: igual ao tempo Maluf: O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno. As portas da SVMA sempre estiveram abertas. Foi realizado muito pouco, a bicicleta continuou na mídia, mas não andou mais por que a CET e Secretaria dos Transportes não permitiram.

Prefeitura com Martha Suplicy (e Tatto Secretário): A pauta foi outra e praticamente nada se fez pela bicicleta. Quase esquecem da bicicleta no Plano Diretor, mesmo com Sérgio Luís Bianco, PT de carteirinha no bolso e uma das assinaturas do Programa de Governo de Marta, tentando abrir portas. O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno.

Prefeitura com José Serra: Já nos primeiros dias é instituído o grupo interinstitucional para trabalhar o projeto conhecido como GEF / Banco Mundial, que pretendia colocar projetos piloto de bicicleta como modo de transporte e instrumento ambiental em locais de demanda já existente e população de baixa renda. Foi a primeira vez na história que várias secretarias, órgãos e sociedade civil sentavam a mesa para trabalhar pela bicicleta. SVMA, Secretaria de Transportes, Secretaria de Obras, Gabinete da Prefeitura de São Paulo, SP Trans, CET, CPTM, Metrô; mais ANTP, ONG Bike Brasil, ITDP, Escola de Bicicleta, Sérgio Luís Bianco, e quem mais quisesse participar das reuniões. Casa aberta. Foi um maravilhoso trabalho que não teve bom termino por conta de problemas burocráticos daqui, Brasil. Tivemos apresentações de consultores internacionais e outros eventos. Fora isto devesse reconhecer o trabalho de Walter Feldman e Eduardo Jorge, (além da Stela Goldenstein, gabinete), que empurram o que puderam a bicicleta. Não andou por conta da CET, ainda restritiva às bicicletas e aos problemas dos pedestres. Faço questão de dizer que dentro da CET a bicicleta teve muitos inimigos, mais ainda os desconfiados, e “amigos” que não foram assim tão amigos da bicicleta; e funcionários que não estavam ligados diretamente a questão da bicicleta, que por razões internas não puderam mostrar a cara (e ainda não podem) e foram realmente amigos da bicicleta. Outro ponto: A CET é quem tem a responsabilidade legal sobre o trânsito e é de lá que deve sair a assinatura de responsabilidade técnica sobre qualquer projeto (lei federal).

O número de ciclistas atuantes nesta época cresceu, mas ainda era muito pequeno.

Prefeitura com Kassab: enquanto o Secretariado (dois anos) foi o do Serra, que havia sido eleito Governador, a coisa foi relativamente bem. Quando o Kassab realmente assumiu a questão da bicicleta acabou restrita a Ciclo Faixa de Domingo. CET continuou emperrada.

Surge a Bicicletada** e começa aparecer uma garotada nova nas reuniões, mas a recepção na prefeitura de Kassab não é a mesma. Ele só mantém a bicicleta na pauta por que o marketing político assim diz.

A Secretaria de Transportes Metropolitanos (secretário Portella), do Governo do Estado, Serra, começou a fazer os bicicletários da CPTM, uns poucos do Metrô, e as ciclovias da Radial Leste e do rio Pinheiros.

Prefeitura atual, Haddad: os grupos de ciclistas estão muito maiores, organizados e maduros, o que facilita muito. A questão da bicicleta está muito mais encaminhada do que antes dentro das secretarias da própria Prefeitura. A CET, como um todo, aceita com mais facilidade a questão da bicicleta. A sociedade está mais preparada para a bicicleta. Tem muito mais ciclista circulando nas ruas em dias de semana. Enfim, a coisa está muito mais fácil de acontecer.

E o diálogo, em tempos de eleição, sempre é regado a cafezinho passado na hora. Lembrando que o Estado de São Paulo é bem interessante – eleitoralmente. Vamos ver depois.

São muito poucos os que realmente gostam da bicicleta. A maioria sabe que a bicicleta está na moda e que vale uma aposta política nela. Tem gente que a pouquíssimo tempo disse NÃO para os ciclistas e agora está pedalando. Tem gente que historicamente sacaneou com pedestres, pessoas com deficiência, ciclistas e outros alternativos,… e agora vai pedalar, diz que gosta de ciclista, bicicleta? OPS?!
Minha preocupação está no ser inocente útil. Muitos de vocês vão de boa fé e entusiasmo, sem levar em consideração o passado. Posso dizer que o passado não mente. O tempo diz tudo a todos.

Arturo Alcorta*

* Arturo Alcorta é ex-presidente da União de Ciclistas do Brasil e mantém o site Escola de Bicicleta

** N.E.: A Bicicletada surgiu em São Paulo em 2002. No artigo, o autor se refere à participação de ciclistas da Massa Crítica nas reuniões com o poder público.

Artigo: “Ciclovia e Mobilidade Urbana”, por Luiz Henrique da Silveira

Artigo divulgado em 11 de novembro de 2013. Veja também em PDF.

Ciclovia e Mobilidade Urbana

Em setembro de 1978, uma multidão jamais vista em Joinville, aglomerou-se para assistir à inauguração da Ponte do Trabalhador. Construí-la foi o maior compromisso que assumi, durante a campanha eleitoral de 1976.

Ao comparecer em massa, o povo joinvilense demonstrou compreender a importância daquela obra, que fez a união da Zona Leste (Boa Vista, Iririú, Aventureiro) e a Zona Sul (Guanabara, Fátima, Itaum), reduzindo consideravelmente a distância entre esses bairros e criando a primeira linha direta de ônibus entre eles.

Junto com a Ponte, esses bairros ganharam 14 quilômetros de ciclovia, que, embora pioneira em Santa Catarina, ainda é a única via para ciclistas, com essa extensão.

O enfrentamento da questão da mobilidade nas cidades sempre foi uma preocupação que tive quando ocupei cargos executivos, mesmo antes do crescimento colossal da frota de veículos na última década, que acabou fazendo com que o problema passasse a ser um dos que mais atormenta gestores públicos brasileiros.

Assim como Joinville foi a primeira cidade a contar com ciclovia, também foi a primeira a ter terminais de integração (que chamamos de Estações da Cidadania), com a tarifa única para passagem de ônibus. Até 1996, pagavam-se, no mínimo, duas passagens, no deslocamento de um bairro ao outro.

Com a construção daqueles terminais, a instituição da bilhetagem eletrônica e da passagem única, a vida dos trabalhadores de nossa cidade com certeza melhorou. Mas, a mobilidade urbana conquistada aquela época é anulada hoje pela fantástica multiplicação do número de veículos, o que impõe aos governantes decisões criativas, como a que propôs o Senador Randolfe Rodrigues, incluindo no Sistema Nacional de Mobilidade Urbana, as “bicicletas públicas de uso compartilhado”.

Fui o relator desse projeto, aprovado na última semana na Comissão de Constituição e Justiça, atribuindo aos municípios a disponibilização de bicicletas públicas de uso compartilhado.

Esta é uma realidade que já existe em muitas cidades. Cito duas, que são exemplos de uso desse sistema: Paris e Copenhagen.

Na Dinamarca, aliás, 70% das pessoas locomovem-se de bicicleta. Até mesmo Ministros de Estado vão de casa ao trabalho, pedalando.

No Brasil, é preciso mudar a cultura do automóvel. É preciso acabar com o dito idiossincrático de que “ônibus é coisa de pobre”. E incorporar o uso da bicicleta nos hábitos dos cidadãos. Pedalar, além de economizar energia, contribuindo para a qualidade do meio ambiente, é um dos exercícios mais saudáveis.

Os congestionamentos do sistema viário têm levado milhões de brasileiros a perderem preciosas horas de suas vidas no interior de veículos motorizados, que se locomovem a velocidades lentíssimas, emitindo milhares de partículas de CO2 à atmosfera.

Contra esse verdadeiro caos urbano, caracterizado por irritantes filas quilométricas, é preciso deixar o carro em casa; optando pela bicicleta, ou, pelo menos, pelo ônibus.

Por Luiz Henrique da Silveira*

* Luiz Henrique da Silveira é senador da República

Saiba mais:

Projeto do Senado incentiva implantação de bicicletas públicas

Artigo: Integração ciclística entre Balneário Camboriú e Camboriú

As cidades de Camboriú e Balneário Camboriú são marcadas pelo fenômeno da conurbação, entendido como a fusão de duas ou mais áreas urbanas, ou seja, onde os limites político-administrativos entre as cidades não são bem definidos, constituindo uma única mancha urbana.

A conurbação potencializa outro fenômeno urbano, conhecido como “cidade dormitório” – quando uma parte considerável da população residente em uma cidade realiza suas atividades cotidianas, principalmente o trabalho, em outra cidade. No processo de urbanização do Brasil, esse fenômeno foi reforçado pela especulação imobiliária, realidade esta que caracteriza Balneário Camboriú e que reflete diretamente na cidade vizinha.

Quando estes fenômenos ocorrem, cabe aos municípios membros constituírem políticas públicas que solucionem problemas comuns, como é o caso da mobilidade. A mobilidade urbana é um importante atributo da cidade, é o resultado da relação entre o movimento das pessoas e de bens e a facilidade de acesso à cidade. Ela deve assegurar as necessidades e os desejos das pessoas, quer de forma individual ou coletiva, quer de forma motorizada ou não-motorizada. Dessa forma, entendemos que no âmbito do planejamento urbano ambas as cidades devem ser tratadas como uma, na perspectiva de construir uma planejamento integrado.

O deslocamento da população das cidades de Camboriú e Balneário Camboriú dá-se tanto de forma motorizada quanto de forma não motorizada, sendo que esta última carece de atenção por parte do agente público. Devido à proximidade entre as cidades em questão, o uso da bicicleta como forma de deslocamento é comum, porém a infraestrutura existente é bastante precária. Um indicador desta deficiência é, segundo a ACBC, a pequena extensão das vias destinadas exclusivamente aos ciclistas. Balneário Camboriú possui 16.770 m (15,51 cm/habitante) e Camboriú menos ainda, apenas 2.410 m (3,87 cm/habitante). No que toca à questão da conurbação, é mais relevante ainda constatar que não existe uma ligação cicloviária contínua entre as duas cidades, tornando o deslocamento entre uma e outra uma ação perigosa.

Os benefícios do uso da bicicleta como meio transporte são inúmeros, tanto no âmbito coletivo quanto individual, sendo possível citar dentre eles: diminuição da poluição do ar; redução dos gastos públicos com construção e manutenção do sistema viário; redução dos congestionamentos e da perda de tempo no trânsito; ampliação do acesso aos espaços públicos; diminuição da quantidade de acidentes; promoção da saúde; favorecimento da autonomia individual de deslocamento; contribuição para a economia da renda familiar.

Além da bicicleta ser utilizada como meio de transporte, ela também é um recurso e uma prática de turismo. Em 2009 foi implantado nos municípios da foz do Rio Itajaí o Circuito de Cicloturismo Costa Verde & Mar. Passando pelo território de 11 cidades, inclusive Camboriú e Balneário Camboriú, é uma iniciativa do Citmar – Consórcio Intermunicipal de Turismo Costa Verde e Mar e da Amfri – Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, sendo atualmente administrado pela ACBC – Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú.

O cicloturismo é uma prática turística que usa a bicicleta não somente como um meio de transporte, mas como uma companheira de viagem e que permite o acesso a lugares que não são acessíveis aos demais meios de transporte. Está associada ao convívio ao ar livre, ao respeito ambiental e às paisagens naturais. Uma das condições para o êxito do cicloturismo é a segurança para seus usuários, o que só pode ser garantido com políticas públicas que ofereçam infraestrutura adequada, programas de educação para o trânsito e interferência fiscalizatória por parte dos agentes de trânsito.

A bicicleta também faz interface com o turismo de modo indireto, pela constatação de que grande parte dos trabalhadores de Camboriú e de Balneário Camboriú estão envolvidos com este ramo de atividade. Não obstante a importância do turismo para a economia local, a sua mão de obra em geral é precarizada, sazonal e com condições contratuais inseguras – em suma, a economia da renda familiar é uma questão importante para as famílias que trabalham com o turismo, ressaltando a importância da bicicleta, veículo amplamente reconhecido de baixo custo de aquisição, operação e manutenção.

Apesar de que uma das principais diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, Lei Federal 12.587/2012, seja priorizar os modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado, não é essa a realidade que se observa no tratamento das gestões públicas.

Sabemos que leis desacompanhadas de programas locais são insuficientes para mudar um modelo de cidade construído historicamente. Para mudar o paradigma de mobilidade urbana é preciso que as gestões públicas assumam medidas permanentes de incentivo ao uso da bicicleta nas cidades. Nesse sentido, o Seminário Intermunicipal Camboriú e Balneário Camboriú de Mobilidade Ciclística apresenta-se como um instrumento fundamental para a construção de políticas públicas voltadas a mobilidade ciclística, ao fomentar o debate entre os três importantes setores da sociedade: poder público, sociedade civil organizada e a academia.

Por Roberta Raquele André Geraldo Soares**

* Roberta Raquel é professora de Geografia e coordenadora de Extensão do Instituto Federal Catarinense – Campus Camboriú
** André Geraldo Soares é coordenador de Mobilidade da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú – ACBC.

Saiba mais:

Seminário de Mobilidade Ciclística agitará Camboriú e Balneário

Programação do Seminário de Mobilidade Ciclística de Camboriú e Balneário

Livro “Brasil Não Motorizado” será lançado em Santa Catarina

A mobilidade e as cidades: as lições de Bogotá

DC 2013-09-28 As licoes de Bogota(Veja em PDF)

Veja o artigo completo enviado para o Fronteiras do Pensamento, do qual participará o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa. A Versão reduzida foi publicada no caderno Cultura do periódico Diário Catarinense em 28 de setembro de 2013.

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No Dia Nacional do Ciclista, usuários de Santa Catarina ainda têm pouco a comemorar

Dia Nacional do Ciclista

Neste último ano, muita coisa se falou sobre bicicleta em Santa Catarina. As ações que começaram em período eleitoral deram origem a compromissos com os ciclistas, assumidos em Joinville e em Florianópolis.

Mas em termos estaduais, muito pouca coisa avançou de fato.

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Contexto político na época das primeiras Bicicletadas no Brasil

Nas recentes discussões para tornar mais atuante a União de Ciclistas do Brasil (UCB), Thiago Benicchio, que durante anos movimentou o site Apocalipse Motorizado, referência magnânima do cicloativismo brasileiro, compartilhou um artigo escrito por Felipe Côrrea para o Passa Palavra, no qual ele realiza uma análise crítica sobre a articulação de um movimento que pretendia ser a nova esquerda, mostrando as contradições de uma manifestação com traços internacionais, marcada sobretudo pelas conduções contra o capitalismo, perante os traços característicos das diversas comunidades.

Entretanto, é interessante encontrar em “Balanço crítico acerca da Ação Global dos Povos no Brasil”, artigo escrito em 6 partes, a referência a um movimento que até hoje ocupa as ruas de dezenas de cidades pelo Brasil e que teve um amplo crescimento após o auge da Ação Global dos Povos (AGP).

Confira abaixo alguns trechos selecionados e que podem contribuir para um melhor entendimento do início do movimento cicloativista brasileiro, em especial a Massa Crítica/Bicicletada [grifos e itálicos nossos]:

A Ação Global dos Povos (AGP) nasceu no início de 1998 e constituía uma “rede global de movimentos sociais de base originalmente criada para combater o livre comércio”. Não era uma “organização formal, mas uma rede de comunicação e coordenação de lutas em escala global baseada apenas em princípios comuns”.

Dentre seus princípios, pode-se destacar os seguintes: “1. A AGP é um instrumento de coordenação. Ela não é uma organização. Os seus principais objetivos são: (i) Inspirar o maior número possível de pessoas, movimentos e organizações a agir contra a dominação das empresas através da desobediência civil não-violenta e de ações construtivas voltadas para os povos. (ii) Oferecer um instrumento para coordenação e apoio mútuo a nível mundial para aqueles que resistem ao domínio das empresas e ao paradigma de desenvolvimento capitalista. (iii) Dar maior projeção internacional às lutas contra a liberalização econômica e o capitalismo mundial. 2. A filosofia organizacional da AGP é baseada na descentralização e na autonomia. Por isso, estruturas centrais são mínimas. 3. A AGP não possui membros. 4. […] Nenhuma organização ou pessoa representa a AGP, nem a AGP representa qualquer organização ou pessoa.” [Manifesto da Ação Global dos Povos]

[…]

No Brasil, a idéia da AGP chegou depois das manifestações de 1999 [o J18, durante reunião do G7 em Colônia, na Alemanha, e o N30, durante encontro da Organização Mundial do Comércio em Seatle, nos Estados Unidos], organizando-se pela primeira vez no estado de São Paulo em 2000, primeiro na Baixada Santista e na capital, no Primeiro de Maio, que poderia ser considerado como um ensaio do que seria o S26 (26/09/2000), marco da consolidação do movimento em solo brasileiro [em setembro, mais de 100 cidades do mundo protestaram contra os encontros do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Praga, na República Tcheca].

[…]

O ano de 2002 foi marcado pela realização do 1º Carnaval Revolução, em Belo Horizonte, em fevereiro, e pelos protestos contra o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Fortaleza, durante o mês de março, com 5 mil pessoas nas ruas e com desdobramentos em São Paulo e Belo Horizonte. Um ano depois do A20, 2 mil manifestantes protestam novamente em São Paulo, entregando uma carta gigante, endereçada ao ministro da Fazenda, no Banco Central, com o dizer “ALCA nem fodendo” e assistindo a um documentário sobre o ato do ano anterior. Nesse contexto, realiza-se em São Paulo, no mês de agosto, a primeira Bicicletada, reunindo “ciclo-ativistas”. Ao final do ano, em 31 de outubro, 2 mil pessoas protestam em São Paulo contra a ALCA com um tour pelo centro da cidade e, no dia seguinte, 500 pessoas ocupam a Praça da República numa festa de rua contra a ALCA. Com o aniversário de um ano da revolta argentina de 2001 realiza-se, em São Paulo, como forma de solidariedade, teatro de rua, panfletagem e 15 ativistas ocupam o Consulado da Argentina, realizando um “panelaço” — ocorrem também protestos em Salvador.

Em fevereiro de 2003, 30 cidades brasileiras mobilizam-se contra a iminente Guerra do Iraque; em março, acontece o 2º Carnaval Revolução, em Belo Horizonte; em 7 de maio, ativistas ligados aos meios de comunicação ocupam a ANATEL em cinco capitais, pregando contra o fechamento de rádios livres. O ano também é marcado, entre os fins de agosto e início de setembro, por protestos de estudantes em Salvador contra o aumento no preço dos transportes, por uma mobilização contra a ALCA e por um encontro de rádios livres em Campinas, durante o mês de novembro.

[…]

No entanto, na construção do movimento havia um problema. As demandas culturais e identitárias deixavam pouco espaço para as questões políticas. O perfil dos “ativistas” — jovens, na maioria dos setores médios da sociedade, ligados à contracultura, muitos vegetarianos, estudantes de universidades públicas, escolas particulares alternativas etc. — facilitava a criação dessa cultura militante e de uma identidade coletiva que se refletiam em um determinado estilo de vida. Os assuntos de interesse, no que ia para além da política, aproximavam os ativistas, a idade, a classe de origem, o local de estudo, tudo isso naturalmente criava um perfil do movimento no país

[…]

Outro fator que se evidenciou em detrimento do político, priorizando o individual, foi a substituição do conteúdo pela forma. Prática bastante evidente hoje em dia, persuadiu parte significativa dos ativistas do movimento que, utilizando a máxima do “fazer da sua vida algo próximo de seus ideais” — um princípio bastante razoável, é verdade — passavam no campo pessoal à forma do “politicamente correto”, na mesma medida em que se afastavam do conteúdo político. Explico.

É uma característica relativamente comum incorporar elementos do âmbito pessoal, em vez de levá-los para fora, para o campo da mudança social. Exemplos disso são infindáveis, mas só para exemplificar, posso citar: passar a chamar os negros de afro-americanos e acreditar que o problema do racismo está resolvido; utilizar linguagem inclusiva e pensar que o problema de gênero está solucionado; consumir alimentos sem agrotóxicos e acreditar que o problema do agronegócio está resolvido etc. É fato que, também inconscientemente — nunca ouvi ninguém falar “vou priorizar o individual em detrimento do político” ou defender essa posição abertamente –, isso “simplesmente aconteceu”, tornou-se verdade prática sem uma reflexão teórica que lhe desse sustentação. Puxados por aquilo que na realidade é mais simples, ou seja, uma mudança no comportamento individual, os ativistas afastavam-se das atividades no campo social, evidentemente mais complexas, visto que elas implicavam conviver com o diferente, discutir, ter argumentos, persuadir — em suma, tudo o que implica a luta.

Durante o crescimento da AGP no Brasil evidenciaram-se diversos fatos nesse sentido. A cultura do “politicamente correto” era promovida, incentivando-se, ainda que tacitamente: utilizar linguagem inclusiva, ler somente mídia alternativa, ser vegetariano ou vegano, andar de bicicleta, optar pela vida coletiva (morar com amigos etc.), ter relacionamento aberto e/ou bissexual, não consumir produtos de grandes marcas ou de marcas que produziam em sweatshops, utilizar software livre, evitar os debates mais acirrados na forma etc. O ativista tinha de ser uma pessoa quase perfeita, sem todos os vícios da sociedade presente e buscar não se “contaminar” com tudo de errado que nela havia — fato que não deixava de herdar da contracultura certo costume de um vigiar o comportamento do outro. Apesar disso, nossa geração realizou poucas lutas contra a opressão de gênero, a grande imprensa, os matadouros, a discriminação sexual, a exploração dos trabalhadores da indústria automobilística, das corporações e dos sweatshops etc. Há diversos exemplos, mas quero insistir num ponto central: com o passar do tempo, o comportamento individual foi substituindo a política coletiva e a mudança do indivíduo passou constantemente a sobrepor a luta — a busca pelo modelo do “ativista perfeito e coerente” afastava-os da realidade e complicava ainda mais a interação com pessoas “normais”, diferentes portanto.

[…]

A teoria nos dá elementos importantes em termos históricos e conjunturais. Ela pode servir também para se conceber objetivos e caminhos a seguir, os quais, certamente, são mais estimulados por uma noção ideológica que teórica. A prática, por outro lado, verifica na realidade se as hipóteses formuladas pela teoria possuem lastro real e oferecem ótimas experiências para que se renove e se aprimore a teoria.

Portanto, uma nova esquerda não pode abrir mão de teoria e prática. As quais, por meio de uma interação dialética, fortalecem-se mutuamente, fazendo com que haja um aprimoramento mútuo. Com boa teoria se aprimora a prática e com boa prática se aprimora a teoria. Ambas devem caminhar juntas, num esforço de desenvolvimento e melhoria permanente.

Se por um lado há uma “urgência das ruas”, é inegável que grande parte das teorias da velha esquerda precisam ser renovadas. Teremos de “podar os velhos ramos”. Há uma urgência das ruas, mas também há urgências fora delas. E devemos reconhecer a “insuficiência das ruas”, quando essa prática não vem ancorada em um processo mais amplo de acúmulo real de forças e de um aprimoramento teórico, capazes de impulsionar amplamente as lutas e as transformações sociais.

Não se pode pregar a prática em detrimento da teoria ou vice-versa. Ambas devem usufruir da dialética entre uma e outra para um acúmulo de forças no sentido de modificar a realidade.

Alguns temas tratados nesta série de artigos, escritos entre julho e setembro de 2011, certamente permanecem atuais e devem servir para as manifestações de 2013 também refletirem sobre seu papel, suas ações e suas metodologias no contexto de hoje.

Interessante apenas notar que, a despeito haver certos resquícios da AGP na Massa Crítica de hoje, a exemplo de listas de e-mails na plataforma libertária (não no sentido liberal usado atualmente) RiseUp, a decisão feita de maneira horizontal, o coletivo sem líderes e não representando ninguém, algumas de suas contradições também se manifestaram, notadamente em São Paulo, em que ações agressivas individuais, sem serem coibidas pelos demais, para não ferir a arbitrariedade em um movimento sem lideranças, tomaram caminhos contrários aos ideais coletivos anteriormente propagados.

Em Florianópolis, local da segunda mais antiga Bicicletada do Brasil, contudo, as Massas Críticas vieram já ao encontro de uma estrutura cicloativista que já havia passado de sua fase embrionária, adquirindo características da AGP apenas após a retomada da Bicicletada Floripa, a partir de abril de 2008, com a importação do modelo que estava dando certo em São Paulo à época.

Desta forma, é importante os ciclistas de Florianópolis fazerem leituras críticas das potencialidades e limitações de suas ações, enxergando o que pode dar certo e não se utilizando de instrumentos que lhes façam desviar de seus focos, empreendendo esforços para o amplo diálogo entre os seus diversos atores de forma que a teoria e a prática caminhem juntas e em níveis saudáveis.

Opinião: Com a suspensão do Floribike, Florianópolis perde credibilidade

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A recente suspensão do processo licitatório do Floribike, anunciada na última sexta-feira, 21 de junho, sem maiores esclarecimentos, arranha a imagem de Florianópolis. Consultores internacionais consideravam a forma como foi conduzida a licitação para as bicicletas coletivas de Florianópolis, um dos melhores exemplos da América Latina.

O processo licitatório do Floribike, desde o seu início, em 2011, envolveu os técnicos da prefeitura e ciclistas representativos de diversos extratos da sociedade. Da definição dos pontos de aluguel de bicicleta até as características mínimas do sistema, tudo foi tratado junto aos técnicos, às claras da sociedade, conforme mostram as reportagens que foram publicadas aqui mesmo no Bicicleta na Rua.

A suspensão, sem a divulgação clara ou sequer oficial das razões que levaram a este ato e sem contar com os demais agentes envolvidos na licitação, dá margens a diversas interpretações e põem à prova a capacidade dos agentes públicos envolvidos, de forma a rapidamente agirem e viabilizarem as bicicletas coletivas na capital catarinense.

Se, por um lado, processos licitatórios ou de concessão em outras cidades brasileiras envolveram freqüentemente dúvidas quanto à sua idoneidade e uma participação popular baixíssima, por outro a morosidade acima da média perceptível no Floribike já chegou até a afastar empresas com credibilidade internacional que pretendiam investir na cidade.

Não se pode ignorar que a capacidade de Florianópolis em lidar com os seus habitantes e com as suas demandas está à prova. Esperam os seus moradores que as dificuldades sejam rapidamente sanadas. E esperam os potenciais ciclousuários que o sistema de bicicletas públicas, que poderia estar funcionando em março de 2012, não tarde a aparecer pelas ruas catarinenses.

Saiba mais:

(Vídeo) Projeto prevê aluguel de bicicletas para moradores de Florianópolis
Bicicleta pública para criar a cultura na cidade
Confira o edital de concorrência do Floribike
Diversos grupos de ciclistas prestigiaram o lançamento do Floribike
Diversos secretários compareceram à assinatura do edital do Floribike
Idealizadora do sistema de bicicletas coletivas de Florianópolis é homenageada
(Vídeo) Florianópolis lança edital das bicicletas públicas
Prefeito de Florianópolis diz que as novas obras contemplarão ciclistas
(Vídeo) Discurso de Cesar Souza Júnior no lançamento do Floribike
Confira o edital de concorrência do Floribike
Bicicleta pública para criar a cultura na cidade

Especial Floribike – Bicicleta na Rua

(I) Especial Floribike: Edital de concorrência será lançado no aniversário da cidade
(II) Especial Floribike: São Paulo e Rio de Janeiro foram pioneiros
(III) Especial Floribike: Projeto de bicicletas coletivas vem de 2009
(IV) Especial Floribike: Conheça as concorrentes – Compartibike
(V) Especial Floribike: Conheça as concorrentes – Movement Barcelona
(VI) Especial Floribike: Conheça as concorrentes – Serttel
(VII) Especial Floribike: As empresas que ficaram pelo caminho
(VIII) Especial Floribike: A opção por Nova York
(IX) Especial Floribike: Compartilhamento universitário
(X) Especial Floribike: Iniciativa do interior do Paraná é premiada
(XI) Especial Floribike: Bicicletas coletivas que salvam vidas
(XII) Especial Floribike: Como funcionará em Florianópolis

Veja também:

Floribike: encaminhamento do edital homenageou os 10 anos da Bicicletada em Florianópolis
Apenas duas empresas são habilitadas a concorrer ao sistema de bicicletas públicas de Florianópolis
Aberto edital de pré-qualificação do sistema de bicicletas públicas de Florianópolis
Aluguel de bicicletas de Florianópolis é tema de Podcast
Embora pronto, edital das bicicletas públicas de Florianópolis não será lançado em 2011
Ata da Audiência Pública do Sistema de Bicicletas Públicas de Florianópolis (Floribike)
Florianópolis dá primeiro passo para implantação de bicicletas coletivas
Audiência pública debaterá aluguel de bicicletas em Florianópolis
Aluguel de bicicletas de Florianópolis deve ficar pronto em novembro de 2012
Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012

Artigo: Anonymous afirma que não é contra os partidos

anonymous fuel br 2013-06-20

Sobre a situação atual da Anonymous e o Brasil
– Uma reflexão crítica da FUEL-BR –

Saudações, irmãos e irmãs!

Este texto é um pouco extenso, mas é essencial para que todos compreendam o que acontece atualmente em nosso país e porque precisamos do apoio de vocês.

Infelizmente, ao contrário do que propõe nosso ideal, “unidos como um e divididos por zero” tem sido uma realidade apenas em discurso. Muitos grupos estão fragmentados, muitas células ainda parecem competir por atenção do público ou para ter o maior número de curtidas. Isso não é apenas triste, isso é incoerente.

Quando decidimos compor a FUEL, foi numa perspectiva de aprofundar as pessoas na Ideia Anonymous e praticar um enfrentamento político e econômico que fuja do senso comum. Não acreditamos em quaisquer propostas rasas de “Fora Dilma” ou “Fora Alckmin”. Primeiro, porque o grande problema é o sistema corporativo por trás das figuras dos governantes. Você tira um, entra outro. E continua o jogo, a despeito de nossos esforços. E segundo, talvez mais importante, porque isso tem aberto margem para que muitos grupos peguem carona por trás de nossas máscaras em busca de interesses particulares.

Anonymous é apartidária. Isso não significa que somos contra os partidos, nem que devemos praticar medidas opressoras e ditatoriais como vaiar grupos e quebrar bandeiras, como tem ocorrido no país. Essa medida é injusta, e até ingrata. O Brasil pode estar acordando agora enquanto país, mas esses grupos já estavam em luta muito antes. Alguns deles, talvez, tenham sido indispensáveis no processo de construção da mobilização que vemos hoje.

Apartidário significa que não pertencemos a nenhum desses grupos, mas devemos estar unidos nesse momento, por um objetivo comum, que é reformar ou revolucionar toda a política desse país. Pensem, por favor, para além do raciocínio ingênuo. Não é por não levantar bandeiras que outros grupos não estão ali. É preciso ter foco, ou nosso discurso se torna vazio e reacionário, completamente oposto a toda a mobilização que vivemos.

Leia mais sobre o Brasil nas Ruas

Algumas mídias Anonymous eventualmente veiculam conteúdos machistas, racistas, homofóbicos e até mesmo fascistas. Isso é inadmissível. Essas pessoas não compreenderam a Ideia e não são nossos irmãos, pois aquele que se coloca ao lado do opressor não pode estar ao lado do oprimido.

É chegado o tempo de escolher de que lado estamos. Se estamos do lado do povo, estamos juntos. Independente de etnia, de sexo, de crença, de orientação política, de gênero ou orientação sexual ou qualquer caraterística individual que seja. Porque é essa diversidade que compõe o povo.

Mas aquele que oprime um irmão não está com o povo. Aquele que busca reconhecimento pessoal dentro desse tipo de situação não é Anonymous.

Nosso comprometimento não é com crescimento a todo custo. Se você é um opressor, você não é Anonymous. Pedimos que olhe no espelho e antes de lutar contra a injustiça que você sofre, mude de postura quanto à injustiça que você pratica. E só assim estaremos juntos de fato. Só assim seremos um.

Convidamos para o diálogo todos aqueles que nesse momento coordenam projetos Anonymous ou se colocam a organizar manifestações, para podermos dialogar e buscar consensos.

O trabalho da FUEL não é o de direcionar, tampouco liderar ninguém. Todas as mensagens que recebemos perguntado “e agora, contra o que iremos lutar?” são respondidas com a mesma pergunta. Nossa proposta é a de formação livre. O povo está nas ruas, mas precisa entender sua política.

Aos poucos, publicaremos conteúdos sobre política, sobre o governo, sobre economia, sobre consumo, sobre cidadania. Esperamos que todos ajudem a compartilhar essas informações e se dediquem mais a estudar. Cyberativismo não se faz compartilhando qualquer coisa e enchendo tudo de hashtags. Cyberativismo inclui dominar o assunto pelo qual se luta. E se você não quer ser massa de manobra da mídia, não seja massa de manobra de ninguém, porque líderes em potencial, querendo manipular pessoas, estão em todas as esferas, e isso inclui, infelizmente, a Anonymous.

Iniciamos um trabalho de autovigilância da Anonymous, primeiramente pela União, como diz nosso nome. Em segundo lugar, pela emancipação, para que todos formem a própria opinião e sejam seus próprios líderes. E por fim pela liberdade, que será nossa conquista final, a partir da qual nascerá uma nova sociedade.

Por isso estamos incomodando. Por isso fomos atacados e nosso grupo está fora do ar. Por isso algumas pessoas com “grandes” páginas estão iniciando um processo de mentiras. Pedimos paciência a todos enquanto nos organizamos fora do Facebook. Esse espaço é excelente para divulgações, mas horrível para organização. E convidamos a todos para esse processo de amadurecimento, porque estamos sendo vigiados e podemos sair do ar a qualquer momento. E se dependermos do Facebook, nossa mobilização será fraca e vulnerável, mais do que já é.

Aqueles que estão conosco, por favor, ajudem a compartilhar. Em breve, novas notas.

Publicamos para quem não tem preguiça de ler e se informar. Parabéns se você chegou até aqui. Pessoas que querem informação rápida e rasa estão na contramão da revolução que vivemos.

Curtam nossa página e mantenham-se próximos, os que concordarem com essa perspectiva. Faremos versões para comunicação com Anonymous e outros movimentos sociais no exterior em breve. E em poucos dias começaremos a compor nossa biblioteca digital livre.

União, Emancipação e Libertação!
Nós somos Anonymous.
Nós somos FUEL.

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Se quiser ler o Manifesto FUEL-BR:
http://migre.me/f4wQE
Se quiser saber mais sobre a Anonymous:
http://migre.me/f4slb
Fan page AnonFUEL:
https://www.facebook.com/AnonymousFUEL

Artigo: Diferentes visões das manifestações no Brasil e Convocação por um Novo Brasil Plural e Internacionalista

O Brasil está passando por um grande desafio de dimensão nunca vista antes, a respeito disso, quero dar minha visão a respeito dos acontecimentos, interpretando as diferentes visões principais atuantes e como todas têm suas positividades e limitações, sendo o desafio maior o diálogo com as outras visões e a busca por soluções integradas que possam mudar o país para muito melhor (se isso não ocorrer, a tendência é que com a estagnação política, econômica e social piore cada vez mais):

OBS: Esse texto é fruto do aspecto urgente da situação, portanto não há tempo para revisões maiores, nem há abertura para se ter medo de se expor. Se eu não considerasse que poderia trazer vários elementos ricos para reflexão e ação não teria perdido meu tempo fazendo. Não tenho necessidade de ter meu nome citado como autor e dou liberdade para que o texto seja compartilhado com o maior número de pessoas possível.

Esse texto não é para gente BURRA (aproveitando o meme), não no sentido puramente instrucional, mas mais profundo; não servirá para quem não deseja mudanças e não tenta compreender o que está acontecendo de maneira mais ampla. Muito menos para pessoas que não aceitam outros pontos de vista que sejam dissonantes dos seus.

Notem que tentei mostrar as visões de acordo com suas respectivas formas de linguagem e tentando criticá-las através de suas principais motivações (espero ter conseguido de forma razoável). Também admito que posso errar em vários pontos ou que as possibilidades possam ser diferentes das apontadas pois tenho apenas o meu ponto de vista, que sempre será limitado pelas minhas vivências, mas espero adicionar mais elementos à discussão e estimular muitas pessoas a pensarem em novas formas de pensar na questão e em formas de agir em relação a isso.

Você pode ler esse texto de diversas maneiras, de forma a economizar seu precioso tempo sem ler o que já sabe e/ou se informar apenas de acordo com o que for mais relevante no momento. Aqui coloco as possibilidades de que tipo de leitor você é no momento e que direcionamentos você pode fazer:

A – Você é de esquerda e não quer que ocorra um neofacismo. Vocês são essenciais para uma mudança positiva, mas talvez sejam os que precisam ler todos os tópicos para poderem realizar ações estratégicas mais efetivas. Dêem especial atenção às visões pós-modernas e às críticas à esquerda.

Guia numérico dos trechos: 2, 3, 4, 5, 6, 9, 10, 11, 12, 14, 15, 16, 17, 18.

B – Você é de direita e não quer que ocorra um neocomunismo ou neofacismo. Considero que vocês são a maior parte das pessoas no Brasil atual, tendo grande potencial para mudanças positivas, assim como para negativas. Alguns tópicos são essencialmente importantes, como sua relação com a visão pós-moderna, a visão da esquerda e da direita mais conservadora.

Guia numérico dos trechos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 13, 14, 16, 17, 18.

C – Você não se identifica com nenhum dos lados e acredita que a modernidade está em crise e está ocorrendo uma grande mudança que caracteriza os tempos pós-modernos. Vocês podem estar certos nessa visão otimista, mas viram apenas a luz no fim do túnel, o problema é que para não nos asfixiarmos dentro desse túnel precisaremos andar bastante! Sugiro que leiam a visão da esquerda, as relações dos pós-modernos com as outras visões e as críticas aos pós-modernos, para assim poderem tomar ações a respeito das manifestações. As recompensas das mudanças não cairão do céu, pois essas dependem de ações pessoais e coletivas para ocorrerem!

Guia numérico dos trechos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 14, 16, 17, 18.

D – Você não tem idéias políticas teóricas bem formadas, mas acredita em grandes mudanças no país, sendo possível uma transformação do sistema atual. Se você tem real intento em ajudar nesse momento histórico e urgente do país, terá que ler todo o texto e mesmo que não entenda todos os conceitos, tente pegar a idéia geral.

E – Você quer ter uma compreensão maior de toda a minha visão dessa questão (talvez tenha escolhido por uma das letras anteriores e então decidiu se aprofundar e adquirir mais elementos para reflexão e ação). Leia tudo e tente se informar mais sobre os temas colocados, consultando as referências e conhecendo os livros que citei.

F – Você se considera conservador e considera que ditaduras podem funcionar. Nesse caso, pense numa característica SUA que poderia vir a ser reprimida ou não aceita em uma ditadura… você poderia vir a ser preso, morto, talvez perder amigos ou familiares. Uma ditadura pode ocorrer sobre novas roupagens e com novos tipos de repressões, nunca se pode duvidar que você possa ter uma característica que pode ser considerada inaceitável por uma ditadura futura… coloque-se no lugar de outras pessoas também, você deveria lembrar que é apenas mais um indivíduo da espécie humana, todos os outros são iguais a você e seus irmãos nesse quesito. Você está dentro de um mundo com vários outros seres vivos (humanos ou não) que dependem de você e os quais você também depende. Leia os trechos 3 e 9.

1 – A visão atual da maioria da esquerda: A esquerda em geral acredita que os movimentos devem manter o foco nas tarifas, no passe livre e talvez no transporte público como um todo, uma vez que os movimentos começaram a partir das reinvindicações em São Paulo, organizadas através do MPL – Movimento Passe Livre. A importância do foco em uma única pauta está relacionada à necessidade de ganhos reais, trazendo sucesso para as manifestações. Múltiplas pautas nas manifestações poderiam levar a uma diluição das manifestações e perda total de efetividade dessas, uma vez que nenhum objetivo seria focado o suficiente para ser realizado. Muitas reivindicações da mesma forma têm sido genéricas demais para que se visualize um objetivo a ser conseguido através da manifestação. A Esquerda também tem expressado a todos o perigo do nacionalismo vinculado ao antipartidarismo nos movimentos, que aliados à possibilidade de um golpe de estado no país, possivelmente com impeachment da Dilma e ascensão de partidos de direita e conservadores, poderá ocorrer uma espécie de neofascismo no país. Essa análise de conjuntura pode ser considerada muito alarmista, mas a meu ver pode estar bastante próxima da realidade, mesmo que a um prazo muito maior que o considerado. Se o país se mantiver em estagnação, cada vez mais serão pensadas medidas extremas com visões conservadoras para conter a liberdade dos habitantes e manter o controle em prol das superelites.

2 – O perigo de um neofascismo: Algumas providências atuais corroboram a tese de um possível golpe de estado, como a PEC 33, que une o legislativo ao executivo, a aprovação das manifestações pelas mídias de massa(um aspecto muito curioso que merece maior atenção), introduzindo ideais de nacionalismo ao movimento. O apartidarismo poderia ter se originado do aspecto inicial das manifestações, já que o MPL é apartidário, mas o aspecto das manifestações tomou um caráter antipartidário, que é contra os partidos, o que seria congruente com governos ditatoriais. Porém boa parte do crescimento do movimento foi com a indignação contra a repressão violenta de policiais nas manifestações, portanto é contraditório que muitos apoiem os militares e suas repressões anteriores. Hoje, porém, podemos perceber que meios de reprimir muito mais sutis existem (e sempre existiram), através de idéias, leis, valores… ditaduras podem continuar existindo com força grandiosa, mesmo que com novas roupagens e meios de ação. Além disso, contextos hostis que incitem o medo nas pessoas facilitam a aceitação de repressões; para muitos a situação atual do Brasil tem se tornado bastante hostil.

3 – A visão e ações da direita conservadora: A direita mais conservadora provavelmente é a que tem incitado o nacionalismo extremo, criou as propostas da PEC 33 e a 37, tem articulado retrocessos nos direitos humanos, nas relações com o meio ambiente e em outras áreas, mas se poderia também esperar que uma esquerda conservadora poderia fazer o mesmo. Esses retrocessos podem ajudar a propiciar o ambiente hostil que incita o medo e facilita a aceitação de ideologias repressivas. Nesse ponto, não se pode duvidar que os setores mais conservadores tenham simpatia por ditaduras. Boa parte dessa direita são as superelites do país, incluindo políticos. Apesar da posição conservadora, essa não corresponde à sua visão real, pois possuem ampla visão a respeito das outras visões e podem ser capazes de manipular diferentes grupos do país; seu objetivo é manter a exploração e domínio mental aos níveis maiores possíveis, se aproveitando disso para manter seu senso de superioridade e desejo de poder. Pode-se então considerar que a direita conservadora de classe baixa, média e mesmo alta, é em grande parte dominada por essas superelites e funciona como marionete para atender aos interesses dessa em troca de migalhas (em relação à real quantia econômica pertencente a essas superelites). Eles se sentem superiores assim como seus chefes, mas não são por eles assim considerados, podendo ser substituídos a qualquer momento.

4 – A visão atual da direita moderna: A direita moderna também pode ter motivações relacionadas tanto ao impeachment da Dilma quanto à expulsão de vários deputados e senadores. Ela tem incentivado o nacionalismo pois ele foi muitas vezes importante para a competição econômica global. Como o país está atravancado em vários aspectos estruturais, o que tem trazido uma perda de competitividade perante os países desenvolvidos e outros BRIC’s (sendo que a China está se tornando uma superpotência), se evoca por mudanças na forma de se gerir a política. Essa ala também não simpatiza com a ditadura (nesse caso muitas vezes interpretado como a possibilidade de um neocomunismo), pois acredita na conquista da democracia como um dos maiores marcos da humanidade, que facilita também o livre-mercado e a liberdade de consumo, mas condições desconhecidas e hostis podem vir a transformar integrantes da direita moderna em direita conservadora, pelo medo de conservar o que seria essencial para a nação manter seu desenvolvimento.

5 – A visão atual dos pós-modernos: Os pós-modernos ou pós-críticos (que se recusam a se denominarem por direita ou esquerda) estão mais otimistas em perceber o fortalecimento de manifestações através da internet, trazendo às ruas visões das mais variadas possíveis; diferentes tribos em catarse, nas ruas em relativa harmonia e reivindicando por mudanças. Muitos deles consideram que as mídias hoje possuem opiniões mais diversificadas e a internet, que é a mídia com maior potencial de desmassificação de opiniões, poderá trazer mudanças na política, nos direitos humanos e em todos os setores da sociedade. Portanto, os movimentos possuem uma diversidade de pautas que podem todas serem atingidas desde que sejam harmônicas entre si. O apartidarismo seria importante como forma de negar a forma arcaica de se fazer política, principalmente no caso dos partidos eleitorais, pois são meios de massificar opiniões e subjugá-las a visões estáticas. Os partidos ainda têm o problema de seguirem interesses econômicos, políticos e sociais próprios, visando o bem do partido muitas vezes em detrimento do bem da comunidade, cidade, região, estado, país, mundo…

6 – Relação entre direita moderna e pós-modernos: Nesse sentido a direita moderna tem concordado e possivelmente todos deveriam concordar, mas a direita muitas vezes fortalece esse discurso para poder evitar que o movimento, que surgiu a partir de organizações de esquerda, tenha propagandas dos partidos de esquerda. Assim, podemos perceber uma relação de interposição entre a visão da direita moderna e dos pós-modernos, assim como a visão pós-moderna possui elementos de convergência com o pensamento da esquerda. O problema é que a esquerda não tem conseguido distinguir a visão pós-moderna da visão da direita, juntando as duas em uma só e prejudicando sua análise de conjuntura das manifestações, o que traz um pessimismo grande demais e perigoso para um possível sucesso dela própria.

7 – Críticas ao otimismo pós-moderno: As visões otimistas dos pós-modernos, por sua vez, deixam de perceber as relações de poder existentes na política atual, ou dão menor importância a esses dois poderes originários da visão moderna e que são ainda existentes no país e no mundo com grande vivacidade, podendo não vir a se extinguirem, pois envolvem aspectos primordiais que continuarão existindo – a direita e a esquerda. Já direita e esquerda parecem não ter entendido a possibilidade de diferentes visões que não caiam na dicotomia que elas próprias sustentam. Para entender melhor as críticas que coloquei e colocarei aos pós-modernos, sugiro o livro “Depois da Teoria: Um olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo”, que é de um professor de Teoria Cultural.

8 – Relação entre esquerda e pós-modernos: O país passa sim por tentativas de golpe de estado, principalmente por parte da direita mais conservadora, embora a natureza do que virá não precise necessariamente ser de posição de direita. Ao mesmo tempo, a esquerda percebe isso e busca focar os movimentos apenas através do transporte, o que se torna impossível dada a indignação massificada e relacionada aos mais diversos setores (e suas políticas de administração) do país, falta a ela a visão mais diversificadora dos pós-críticos, em uma sociedade que não se resume a uma dicotomia direita-esquerda e com a ascensão da internet como uma das principais mídias que informam a população e que é consideravelmente desmassificada. Já aos pós-críticos, falta o senso realista de contar com a importância de mídias de massa, como a televisão, que ainda possui relativa predominância, e de considerar que existem pistas que podem sim indicar um golpe de estado, através de poderes que são bastante materiais e muito importantes, como leis, ações governamentais e medidas econômicas. Mudanças culturais benéficas para toda a população podem não ser o suficiente para evitar um golpe se não houver ação por parte da população em vários setores, além das manifestações e internet. As manifestações devem clamar por ações e, a partir disso, lutas por medidas de mudança devem ser feitas pelas pessoas,

Indo além das manifestações, que podem ser revigoradas pelo sucesso de algumas causas, um aspecto alimentando o outro em retroalimentação positiva. As pautas porém precisam tratar tanto causas urgentes e de retorno de pequeno prazo quanto medidas que proporcionem mudanças estruturais profundas nas instituições do país, que tragam retorno de médio a longo prazo.

9 – A conclusão irônica: Todos estão na realidade querendo maior participação nas decisões políticas, através de democracia direta, e as manifestações organizadas demonstram isso, menos os setores conservadores que estão querendo desvirtuar o movimento e estão conseguindo com sucesso. O irônico é que, apesar de cada visão colocar como primordial uma causa para esse fenômeno das manifestações, essa explosão que ocorreu é fruto tanto do acaso quanto da indignação da direita moderna com as repressões, da realidade tecnológica propiciada pela internet e Facebook e das lutas organizadas por melhores condições da esquerda moderna. Por fim o aspecto exponencial das manifestações, com possibilidade de grandes mudanças, que aqui coloco, foi incitado por dois agentes diametralmente opostos em seu objetivo: a direita conservadora e agentes internacionais de libertação e atualização. A direita conservadora tem levado e pode levar ainda mais a respostas que a beneficiam, apesar da maioria das visões atuais serem contra repressões e atualmente abominar a possibilidade de uma ditadura. Já os agentes internacionais são as exigências por reestruturações institucionais que estão colocadas para todos os países da atualidade, inspirações internacionais por transformação, vindos de grupos internacionais que atuam pela internet, como o Anonymous e Zeitgeist (entre muitos outros), grandes acontecimentos de libertação que tem ocorrido no mundo com ajuda da internet, como a independência do Egito, além de diversos autores bem intencionados de diferentes países que têm tentado realizar leituras abrangentes da realidade envolvendo diferentes teorias; esses agentes clamam por (e instrumentalizam para) novas formas de se fazer política nos países e mudanças em todas as instituições e outros aspectos da sociedade. Não podemos dizer que sabemos que as mudanças devem ocorrer, mas não sabemos como fazer. Devemos utilizar a criatividade e se utilizar de todos os instrumentos já disponíveis, eles são mais que o suficiente para se criar mudanças. Para isso a comunicação com diversas pessoas e a harmonização de conflitos intelectuais precisa ocorrer e se tornar hábito.

10 – A inspiração que pode vir de fora: Movimentos globais que são principalmente conhecidos pela internet, como o Anonymous e Zeitgeist, buscam libertação dos mais diversos países do sistema opressor e arcaico atual, instigando as pessoas a participarem das manifestações e até conduzindo uma parcela da população do Brasil no momento. O movimento Anonymous, que se inspira no filme “V de vingança” e no personagem criado, com sua agora tão conhecida máscara, acredita na transformação radical da sociedade através da destruição das velhas instituições. O aspecto internacional do movimento é importante, pois trata como iguais todos os habitantes humanos do planeta (também considerando a importância do ambiente e dos outros seres vivos). Os ideais propostos podem ser de grande importância para o momento do Brasil atual. Poderia-se discutir se é necessário uma destruição radical das instituições como são hoje ou se podemos realizar reformas que conservem o nome e a função primordial dessas, mas transformando a forma como elas funcionam, o que me parece mais razoável.

11 – O dilema do estrangeiro altruísta ou a farsa da direita conservadora: O movimento Anonymous brasileiro, apesar de seus ideais bastante nobres (próximos aos do Zeitgeist), elencou 5 causas que seriam as mais importantes no momento para se focar nas manifestações, para que não sejam manifestações caóticas que não poderão atingir objetivo algum em razão do número muito grande de objetivos. Essas causas porém apenas trazem reformas simplórias para momento atual, ou são reivindicações muito genéricas, que não podem necessariamente trazer mudanças mais concretas por não haver objetivo definido palpável. Eles ainda consideraram que essas causas seriam de desejo de todos que querem mudanças, porém desconsiderou as decisões da esquerda a respeito das manifestações. O movimento ainda tem dado importância ao nacionalismo brasileiro e o apartidarismo, como forma de valorizar o país, o que pode ser perigoso dadas as situações atuais, vindo a fortalecer a possibilidade do golpe de estado, com considerável aprovação da população. Podemos presumir que o movimento funciona como um agente externo de inspiração, mas que não possui conhecimento profundo do contexto histórico brasileiro nem das necessidades específicas do país. Isso poderia ainda ser justificado pela possibilidade do movimento brasileiro ter sido cooptado pela direita conservadora, trazendo pautas que estão descaracterizando as manifestações.

12 – Crítica à rigidez da esquerda e sua teoria crítica: A esquerda, ao considerar importante que as manifestações foquem em sua causa primeira, a tarifa de ônibus, perdem de utilizar o potencial exponencial das manifestações atuais para reivindicarem por reformas políticas de maior escala, que seriam de grande valia tanto para a esquerda, quanto para a direita mais liberal e os pós-modernos. Talvez ela cogite essa possibilidade, mas sua rigidez ideológica em querer uma sociedade com uma forma radicalmente diferente de economia e política a impede muitas vezes de pensar em mudanças de médio prazo (ainda bem radicais) que não fossem completamente condizentes com seu modelo teórico, mas que poderiam trazer mudanças congruentes com suas ideologias em longo prazo. Com isso, a esquerda está contribuindo com a possibilidade que tanto abomina; uma ditadura da direita, pois quer diminuir a explosão do movimento para ser capaz de controlá-lo, provocando assim sucessivas evoluções, quando justamente é o momento propício para uma revolução no país (porém esta não seria igual à idealizada por muitos grupos de esquerda, por exemplo através da ditadura do proletariado, revoltas violentas que acabariam por subjugar os outros a suas ideologias). Mas a esquerda deveria lembrar que seu desejo em comum é (ou deveria ser) a qualidade de vida mais ampla e justa para todos os seres humanos do planeta (e já é momento de pensar nisso para todos os outros seres vivos também).

13 – A crítica à direita moderna e seu contentamento com as visões clássicas modernas: A direita moderna, da mesma forma lida com a mesma dificuldade; muitas vezes desconhece as possibilidades de democracia direta e tem medo de que as exigências sociais e ambientais colocadas pela população atravanquem o desenvolvimento do país, colocando barreiras para o livre-mercado. Porém, o livre-mercado é a principal ideologia da qual a direita precisará se desfazer (nesse sentido, o livro “23 coisas que o capitalismo não contou para você” de um economista capitalista, e “Governação inteligente para o século XXI: a via intermediária entre Ocidente e Oriente” de um investidor e filantropo alemão e norte-americano são livros que mostram como o capitalismo na verdade tem tido graves problemas e crises em razão do livre-mercado). Assim, da mesma forma, a direita moderna tem contribuído para a possibilidade de engessamento do desenvolvimento do país (mesmo que em vez de um golpe de estado apenas sejam trocados todos os políticos e algumas leis sejam feitas, o país ainda não terá condições de lidar com seus problemas e os vindouros). – livros citados estão nas referências.

14 – Necessidades e possibilidades para o Brasil – Um Novo Brasil Plural e Internacionalista: O que o país precisa (aliás, todos os países estão precisando atualmente e alguns já estão o fazendo) é de reformas em suas instituições, começando pela política: como funciona o executivo, o legislativo e o judiciário. As eleições representativas não são as melhores formas de criar governos para os habitantes desse país (nem para o povo, nem para os grandes empresários, talvez apenas para as superelites que não pensam além de seu umbigo, incluindo a maior parte dos políticos atuais). As decisões atualmente são tão complexas e envolvem tantos aspectos que os antigos governantes não são mais aptos para tomarem as principais decisões, na realidade, o número de governantes deve ser aumentado e sua estrutura de relações diferenciada. Deve haver maior relacionamento com a população, principalmente com os grupos mais atingidos por tal decisão. Essas novas formas de se fazer política podem ser realizadas através da criação de representantes desses grupos, eleitos pelos participantes desse, cuja formação principal precisam ser de uma variedade de especialistas no tema, ativistas de grupos relacionados a esse e de atingidos pelo tema em questão. Esses representantes devem trazer as pautas e posições de cada grupo para a resolução das principais questões que envolvam diferentes grupos. Essa forma de democracia direta é apenas um bom exemplo de como poderia ser feito, e ela poderia se articular com a democracia indireta como a conhecemos desde que essa perdesse ainda assim boa parte de seu poder atual. Essas novas formas de democracia podem se articular com novas ferramentas que podem ser feitas para envolver a população através da internet, por votações online, por exemplo, que poderiam auxiliar na escolha dos participantes de cada grupo temático. Essas mudanças deveriam passar por todos os poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, mas me parece que no Legislativo seria o mais essencial e urgente no momento. As nações no futuro poderão se extinguir, pois a tendência é que ocorra maior regionalização, com independências de regiões e estados e formação de nações próprias, até o ponto das separações políticas como as conhecemos atualmente sejam dissolvidas, com novas denominações e delimitações sendo priorizadas. (nesse sentido, o livro “A Terceira Onda”, além dos dois citados no trecho 13, trazem conclusões semelhantes). As regiões se articularão com macrorregiões através das novas formas de democracia, da mesma forma as macrorregiões poderão se articular entre si buscando soluções globais para problemas do planeta. Representantes indiretos poderão apenas realizar o que foi decidido democraticamente de forma mais direta por um grupo maior de pessoas, que por sua vez tenham sido elegidos por terem forte envolvimento com o tema. Assim, questões locais poderão ser resolvidas por parcelas diretamente representativas da população, enquanto problemas de ordem macrorregional ou global serão discutidos por instituições regulamentadoras maiores, mas que ainda dependerão das menores intensamente.

15 – O ideal é utópico, mas as mudanças que o tornem mais próximo são possíveis, porém nunca se adequarão perfeitamente ao ideal pré-estabelecido; flexibilidade como essencial para a sobrevivência da esquerda: Enquanto a direita terá de abrir mão do livre-mercado, a esquerda, por sua vez terá que abrir mão de visões mais utópicas de socialismo, como o comunismo, a ditadura do proletariado e o fim da propriedade privada (embora haja muitas possibilidades de coletivização parcial de meios de produção, através de grandes cooperativas), mas deverá perceber a possibilidade de transformar o capitalismo tradicional em híbridos entre capitalismo e socialismo libertário (como as vertentes de anarquismo social e marxismo libertário). Esses híbridos podem trazer modelos inteiramente novos de política e economia, cada um desses com aplicações diferentes que podem funcionar em um local e em outro não; dadas as diferenças ambientais, culturais e de relações com outros locais. Nesse sentido, o movimento autônomo, ou autonomismo, deve vir a influenciar as diferentes vertentes de esquerda.

16 – Aliando teorias pós-críticas às críticas (da esquerda) para verdadeiras mudanças: Os pós-modernos possuem facilidade em se adaptar às novidades híbridas que poderão (ou deveriam) ocorrer em todas as instituições e formas de política. O que falta em boa parte deles é relacionar o que pode vir de novo com o que já está colocado; não se pode fazer mudanças a partir do nada e mesmo novas possibilidades precisarão ser testadas e ajustadas. A negação da dicotomia direita-esquerda pode ser benéfica mas também maléfica, pois no jogo de relações da sociedade atual ainda possui essa dicotomia de forma predominante, principalmente na área da política. Além disso, o foco deles tem sido geralmente em áreas diferentes da política e relações de poder duros, pensando sempre nas formas sutis (conhecimento, cultura, sexualidade, entre outros), mas não nas relações estruturais mais materiais. A visão pós-moderna pode ter muito a contribuir para a atualidade, mas assim como as outras possui o perigo dos excessos e de se considerar mais importante que as outras visões, quem a segue deve seguir o princípio por ela própria estipulado de que teorias são apenas visões da realidade e não podem constituir a realidade inteira e as visões estão sempre se construindo, mudando, recriando. Outro problema está no enfoque das diversas partes, onde se toma uma atitude celebratória da diversidade, mas sem muitas vezes relacionar as partes, levando a uma fragmentação extrema, quando só uma visão mais sistêmica pode trazer soluções para muitos dos problemas mais amplos atuais, nesse sentido, é necessário a todos adquirir maior consciência ecológica e sistêmica (uma das lições que devemos aprender com o Oriente, enquanto eles aprendem, ou já aprenderam, com a análise e categorização). – novamente os três livros já citados se complementam para trazer essa crítica aos pós-modernos

17 – A verdadeira luta: é por um Brasil que seja mais atualizado e adquira a capacidade de se auto-atualizar no mundo de hoje, que possa se desenvolver melhor tanto em termos econômicos, políticos e tecnológicos, quanto em termos sociais, culturais e ambientais, podendo trazer maior distribuição de renda, direitos de minorias respeitados e maior qualidade de vida da população em geral, sabendo ainda se posicionar perante outros países, criando relações de verdadeira cooperação, em vez de apenas relações mercantis, assim como realizando protecionismos na medida do necessário, contribuindo assim para uma sociedade global mais harmônica e ecológica. De um lado da luta podemos colocar a esquerda moderna, a direita liberal, os pós-modernos e os agentes internacionais de mudança e libertação. Do outro lado estão os conservadores de direita (ou de esquerda, talvez mesmo de centro) e por trás dos planos de repressão estão as superelites nacionais e internacionais que buscam manter seu poder supremo. Essa luta é um ponto de inflexão no país, precisamos passar por esse processo de avanço drástico que nos está proporcionado, num processo de expansão de consciência, adotando nesse sentido o paradigma sistêmico, sem deixar de analisar as coisas, mas pensando em diferentes fatores e pontos de vista e relacionando-os, conseguindo assim soluções que envolvem todos eles e sejam mais amplas e efetivas. Se não fizermos isso, poderemos ser subjugados em uma ditadura no país, processo que pode vir a ocorrer em outros países, pois uma vez a decepção extravasada para outros países poderia vir a estimular retrocessos ao redor de todo mundo. Convoco a todos, das mais diferentes visões a lutar por um Novo Brasil Plural e Internacionalista!

18 – Referências: Minha visão atual veio através de uma maneira muito variada e esquisita de relacionar conhecimentos (assim como é a forma de se adquirir visões de cada pessoa dentro desse contexto atual das manifestações).

Considero como referências: as leituras de opiniões divergentes no facebook, conversas com pessoas de opiniões divergentes, notícias as mais variadas possíveis e por fim, o mais respeitável, mas não necessariamente mais importante; livros que tentam compreender o espírito de nosso tempo:
– “A Terceira Onda” de Alvin Toffler
– “O futuro do poder” de Joseph Ney
– “23 coisas que não contaram pra você sobre o capitalismo” de Ha-Joon Chang
– “Governação inteligente para o Século XXI: uma via intermediária entre Ocidente e Oriente” de Nicolas Berggruen
– “Depois da teoria: Um olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo” de Terry Eagleton

Por A.M.B.*

* A.M.B. é bacharelando pela Universidade Federal de Santa Catarina e também estudante de Relações Internacionais.

Leia mais sobre o Brasil nas Ruas

Artigo: Pensar, enquanto tempo há

O texto abaixo foi publicado na edição impressa do Jornal Notícias do Dia, edição de Florianópolis, em 11 de abril de 2013. Você também pode ler a matéria no site do ND aqui.

Notícias do Dia - logo v2

Artigo

Planejarás a tua urbe, enquanto é tempo

Silvio LuzardoAdministrar a cidade no nosso intrincado enredo urbanístico apresenta ao prefeito Cesar Souza Júnior, de Florianópolis, um nó que exige flexibilidade, coragem e decisão atemporal. Difere em envergadura do engenheiro Carlos Sampaio, prefeito do Distrito Federal no Rio de Janeiro, em 1920. O presidente Epitácio Pessoa determinou que preparasse a cidade para os festejos do primeiro centenário de independência do Brasil. E Sampaio enfrentou uma pressão do tamanho do que resolveu atacar: a demolição do morro Castelo! Alegava que o morro, apesar de “histórico” (onde Mem de Sá instalou o governo, em 1567), atrapalhava a ventilação da cidade, a circulação e a implantação de sistema de saneamento. A obra possibilitou inúmeros avanços posteriores e foi um marco na modernização da Cidade Maravilhosa.

Ao suspender os alvarás, o prefeito mexeu em vespeiro da dimensão do morro Castelo. Florianópolis é a jóia da coroa na construção civil. Empreendedores têm pressa e alegam que sustentam parte da economia de mão-de-obra não só do município como da região metropolitana. Entretanto, o administrador público deve ter um olhar precavido e não condescendente. Deve administrar com a vista alongada, por no mínimo 30 anos. Eis a diferença onde residem os enormes conflitos de interesses. Por isso, a prefeitura deve agir rápido para sanar as irregularidades e disciplinar, de uma vez por todas, um Plano Diretor Integrado. Se isso não ocorrer, Florianópolis pode se transformar de Ilha da Magia em Presídio Urbano.

Entretanto, não é só a iniciativa privada que se vale das “lacunas” da legislação ultrapassada. Obras públicas mal planejadas, com uma visão estreita e oportunista, ilustram a cidade, de um lado. No outro, a absoluta falta de controle e fiscalização sobre moradias em nossos morros. Há imperiosa necessidade de um planejamento prospectivo e estratégico, que antecipe o futuro e amarre o controle. As obras devem ocorrer estruturadas nessa cosmovisão urbana: qual o cenário provável para 2025?

Tão logo inaugurado o túnel Antonieta de Barros, fui conhecê-lo. Impossível atravessá-lo. Só existem corredores estreitos destinados à segurança (eventual evacuação). O projeto não considerou a mobilidade de pedestres e ciclistas (embora acredite que se possa reverter essa situação). Mais recente, o elevado do Itacorubi poderia também ter acesso aos pedestres e ciclistas. Havia espaço para isso, até porque o elevado começa em duas vias e, pasmem, termina numa só, numa curva! E a “solução” da SC-405, no Rio Tavares? O problema foi resolvido num trecho e “arrebentou” mais adiante. Será que uma rótula improvisada não resolveria o caso, até que se faça um entroncamento – um elevado – com a rodovia Dr. Antonio Gonzaga. Mas persevera minha preocupação: será também um elevado só para veículos automotores?

Por Silvio Luzardo*

* Silvio Luzardo é professor

Veja também:

Fernanda Lago: Florianópolis tem que deixar de ser “carro-dependente”

O deslocamento das pessoas

A mobilidade na Ilha

A mobilidade e as cidades

Artigo: uma reflexão crítica sobre as ciclofaixas de lazer de Florianópolis

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Diretrizes para o sucesso de vias temporárias visando à sua implantação futura de modo permanente

Recentemente, o periódico Diário Catarinense publicou interessante matéria sobre o aumento da quantidade de infraestrutura cicloviária em Florianópolis mediante a implantação de ciclofaixas de lazer, a exemplo da Ciclofaixa São Paulo e do Circuito Ciclofaixa, de Curitiba.

Pela reportagem, em um ano o tamanho da infraestrutura cicloviária da cidade aumentaria 70%, com a inclusão de 30km de ciclofaixas que funcionariam apenas aos domingos.

Origem das Ciclofaixas de Lazer

A idéia de se criar ciclofaixas provisórias é tipicamente brasileira. Surgiu em agosto de 2009, na cidade de São Paulo, então firmemente pressionada pela morte de ciclistas e por estudo de André Pasqualini que demonstrou que a cidade não possuía nenhum quilômetro de ciclovia utilizável na cidade. Numa cidade tomada por congestionamentos diários e cujo secretário de transportes solenemente ignorava a presença de ciclistas, em vez de construir uma ciclovia permanente, optaram por uma solução mais simples: fechar ruas ao tráfego automotor por uma manhã de domingo, quando o fluxo de veículos é menor. Encampada pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, a ciclofaixa paulistana de lazer ligava parques em meio a uma região aplainada.

Foi, de fato, um sucesso! A demanda reprimida por ciclovias era tão grande que houve mais de 9.000 ciclistas circulando em seu primeiro domingo de funcionamento, superando em 4.000 as expectativas.

As ciclofaixas de domingo foram copiadas por outras cidades. Além de Curitiba, Campinas e Ribeirão Preto também aderiram à iniciativa.

Problemas surgidos

Sobre Curitiba, temos um artigo exclusivo sobre sua polêmica. A iniciativa foi do Secretário Municipal de Esporte, Lazer e Juventide, Marcello Richa, filho do então governador do Paraná. De forma tímida, sem consulta a entidades de ciclistas ou mesmo grupos de pesquisadores cicloviários, pintou do lado esquerdo das vias 4km de ciclofaixas que funcionariam apenas um domingo por mês.

O intervalo entre cada Circuito Ciclofaixa, o fato de se localizar num lado da via onde normalmente não ocorre tráfego de ciclistas, a exígua extensão e o não cumprimento dos acordos de sua ampliação tornaram o Circuito Ciclofaixa extremamente vexatório.

Em Campinas, a ciclofaixa de lazer deixou de operar, muito embora reuniões estejam sendo feitas na nova administração para que ela possa voltar a ser operada.

Assim como São Paulo, a cidade de Ribeirão Preto conta com o apoio de um banco privado que possibilita uma série de atratividades aos usuários. Além de fiscais da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) realizarem um bom trabalho de redimensionamento de trânsito, agentes coletam dados e realizam entrevistas (eu mesmo já participei de uma), fotos dos ciclistas são orgulhosamente exibidas em site próprio, oficinas realizam ajustes nas bicicletas dos participantes e mesmo parques que há muito estavam no papel foram inaugurados já sendo contemplados com as novas ciclofaixas. Enfim, os ciclistas têm a seu dispôr um caminho seguro e atrativos em seus destinos.

Falácia de números

Hoje, a coordenação da Ciclofaixa São Paulo é da Secretaria de Transportes. Mas do percurso original nenhum deles foi efetivado e mesmo a integração com a única ciclovia próxima inaugurada desde 2009 – a ciclovia da Marginal Pinheiros – continua pobre, com poucos avanços.

Entretanto, o município de São Paulo contabiliza as ciclofaixas de lazer em seus números “oficiais”. Nenhum urbanista sério diria hoje que São Paulo tem 230km de pistas cicláveis ao se referir à mobilidade urbana por bicicleta. Os números são bem menores, de em torno de 50km. Ao contrário do que diz a reportagem – e fontes falsas da Prefeitura de São Paulo -, 230km é a meta da cidade para 2016. Mas quase todo o cronograma envolve ciclovias em parques – além das ciclofaixas de lazer. Para o ciclista urbano que pedala em seu cotidiano, poucos avanços seriam percebidos e mesmo poucos dos novos trechos estão devidademente interconectados.

São Paulo coloca em sua conta as ciclorrotas (pinturas no asfalto, indicando a presença de ciclista, uma outra solução de fácil implantação), as vias dentro de parques e as ciclofaixas de lazer em dobro. Mesmo ida e volta sendo lado a lado no canteiro central, a prefeitura conta ambos os lados de forma separada.

Por isso, em nenhum estudo acadêmico os dados da prefeitura são contabilizados quando se trata de mobilidade urbana.

Esse artifício, de que Porto Alegre e Campinas também se utilizaram, não deve ser repetido em Florianópolis. Ciclofaixa de lazer não é de deslocamento, via de regra. Inclusive, pode ser prejudicial a quem se utiliza da bicicleta no dia a dia. A pintura no asfalto na faixa da esquerda faz com que muitos motoristas, nos demais dias da semana, lancem seus veículos contra os ciclistas que trafegam corretamente à direita, dizendo ser ali espaço dele, do motorista. Diversos casos assim foram relatados em São Paulo.

Ciclorrecreovias

A opção da ciclofaixa de domingo de Florianópolis deve levar em conta os atrativos para o uso da bicicleta e a possibilidade de efetivação diária do trecho. Nesse sentido vale a pena recordar os exemplos de Bogotá. Ambas as situações ocorreram e a bicicleta virou febre. Pistas para caminhada, corrida e pedalada, seguido por incentivos, como aulas de ginásticas ao ar livre, atendimentos de saúde básicos, como medição de pressão, programas de acompanhamento de saúde, a exemplo de pessoas que queriam perder massa, piqueniques nas áreas adjacentes: tudo isso contribuiu para o sucesso do programa da cidade. Diversas cidades adotaram o mesmo modelo, com destaque atualmente para Santiago, no Chile, e seu programa CicloRecreoVías.

No Brasil, as iniciativas ainda são tímidas. Destaques nacionais são o fechamento do Eixão, em Brasília, e de parte da Beira-Rio, em Porto Alegre. Em Santa Catarina, Joinville chegou a fechar a Av. Hermann August Lepper em 2009 e Florianópolis e Biguaçu contaram com Ciclovias de Domingo. Este último projeto, encabeçado pela Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis (ViaCiclo), que também está contribuindo atualmente, mantém pouca semelhança com as novas ciclofaixas de lazer de Florianópolis, pré-denominadas Ciclofaixa de Domingo. Veja aqui um levantamento de iniciativas semelhantes no Brasil.

As ciclofaixas de lazer de Florianópolis estão começando de forma parcialmente correta. Há um pensamento importante nos atrativos. Pensa-se desde já em incluir um roteiro histórico-cultural pelo centro do município, em ligar parques, como o de Coqueiros, da Luz e do Córrego Grande, em propiciar condições para a realização de atividades ao ar livre e de saúde, focando na prevenção de doenças, bem como em feiras de artesanato e/ou similares, aproveitando também espaços como campos de futebol, praças e pistas de skate. Isso sem contar na música, simbolizada em rodas de samba e em projetos como a Sounds in da City, além das oficinas dos Bike Anjos para quem quiser dicas ou aprender a pedalar em meio ao trânsito.

Com isso, mesmo que as praias da região central e continental de Florianópolis permaneçam impróprias para banho, incentivos não devem faltar para quem quiser se aproveitar das ciclofaixas de lazer. Fora o trabalho árduo em coordenar essas diversas atividades, faltam ainda, entretanto, duas questões importantes: estacionamentos de bicicleta e ciclovias “de verdade”.

Do lazer ao cotidiano

São Paulo pecou em não efetivar parte de sua Ciclofaixa de Lazer para os demais dias da semana. Após mais de três anos, mais de 100.000 pessoas percorrem as ciclofaixas das zonas sul e oeste todo domingo. O estímulo ao uso da bicicleta foi-lhes dado. Mas a passagem de se pedalar por lazer para o trabalho encontra seus obstáculos.

Após uma queda em 2011, o número de acidentes fatais com ciclistas subiu em São Paulo. Também não era para menos: em cerca de 10 anos, aumentou 300% o número de pessoas que se locomovem de bicicleta em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas a infraestrutura paulistana permaneceu praticamente inalterada, apenas maquiada, enquanto o Rio investiu fortemente em infraestrutura, pesquisa e educação no trânsito.

Faz-se necessário, assim, que Florianópolis pense sua ciclofaixa de lazer de modo a que vários de seus trechos sejam transformados, de fato, em ciclovias para o ano inteiro. Aproveitar trechos de projetos que já existam, como é o caso de Coqueiros e da Av. Madre Benvenuta, e interligá-los à malha cicloviária já existente é imperial.

É fundamental também a pesquisa de coleta de dados. Ela deve ser fundamental para embasar tanto a efetivação das futuras pistas cicláveis quanto para que sejam feitas correções de traçado ou de atrativos. Como disse Guillhermo Peñalosa, no Fórum Internacional de Mobilidade nas Cidades, realizado em Florianópolis em 2011, precisamos pegar números que mostrem o antes e o depois, verificar a eficácia da ciclofaixa de lazer para o aumento do número de ciclistas e aí sim tomar a decisão de implementar de vez uma ciclovia ou ciclofaixa permanente.

Fundo Municipal de Trânsito

Parte das promessas do prefeito eleito Cesar Souza Júnior, a destinação de 20% do futuro Fundo Municipal de Trânsito para a construção de ciclovias não poderá ser usada para as ciclofaixas de lazer se não forem seguidas estas recomendações.

A criação de um fundo para gerir a mobilidade faz parte da Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal 12.587/2012). A destinação desses 20%, hoje estimados em cerca de R$8 milhões por ano, para a implantação de pistas cicláveis voltadas exclusivamente ao lazer não se insere dentro da lei federal.

Entretanto, se for parte de um processo para a consolidação da infraestrutura cicloviária urbana, envolvendo desde o início pesquisas de contagem volumétrica e entrevistas com usuário de bicicleta, esse recurso poderá ser parcialmente utilizado para essa destinação.

Os 74% dos habitantes que compõem a demanda reprimida no que tange ao uso da bicicleta apenas esperam que, ao contrário de São Paulo, essa efetivação não demore mais que 3 anos.

Fabiano Faga Pacheco

Fernanda Lago: Florianópolis tem que deixar de ser “carro-dependente”

O texto abaixo foi originalmente publicado no periódico Diário Catarinense, versão impressa, na quinta-feira, 06 de dezembro de 2012, na página 3 do caderno Variedades. Pode ser lida também neste link.

Cronica - Fernanda Lago DC 2012-12-06 Dependentes

(Veja em PDF)

Contexto

Dependentes

Fernanda Lago

Cada vez mais as cidades do mundo, falo das urbanizadas, obviamente, restringem o acesso dos carros nas suas áreas centrais. Várias metrópoles optam por privilegiar o trânsito de pedestres e veículos pequenos, mais individualizados, como a bicicleta, o skate, o patinete, o patins e até as motinhos, vespas e afins, feitas para, no máximo, duas pessoas ocuparem. E em contrapartida, estão a impedir que os tentáculos do trânsito mais pesado espalhem-se sobre os espaços públicos como se fossem os únicos, ou os mais importantes componentes de uma cidade. Assim, torna-se mais comum pensar, planejar e implantar meios de transportes alternativos e de veículos coletivos e públicos, tão fundamentais para o fluxo das coisas.

Queiram ou não, os carros, os tais veículos de passeio, hoje são objetos obsoletos. Projetados idealmente para o uso comum de quatro a seis passageiros, mas a grande maioria carrega apenas um, o próprio motorista.

Duvida? Faça um passeio mais atento por sua cidade, seu bairro e conte, num curto espaço, pode ser apenas cinco minutos, ou alguns metros, quantos veículos, feitos para mais ocupantes, passam com apenas uma pessoa nele. Fiz isto, a título de pesquisa não científica, na segunda-feira, às sete e meia da noite, na rua geral do Córrego Grande e fiquei impressionada, pois numa sequência de apenas um minuto, os 15 carros que passaram no sentido contrário, tinham somente o condutor como ocupante. Haja desperdício!

Arte: Felipe Parucci.

O jornalista Gilberto Dimenstein utiliza uma expressão muito boa para definir o apego e o uso excessivo dos carros nos espaços urbanos. Segundo ele, vivemos em cidades “carro-dependentes”. Título justo e merecido, já que é bem mais comum do que possa supor qualquer filosofia ver o cidadão fazer uso do seu carro para se deslocar até a academia de ginástica mais próxima, a fim correr na esteira, ou para ir até a padaria da esquina, a locadora e por aí afora. Somos uma sociedade de viciados em carros, ao ponto de crer que a vida será melhor, mais feliz, com mais amigos e namoradas, dependendo do modelo que o nosso dinheiro possa bancar, ou não. Chegamos ao estágio de confundir veículo motorizado com ego.

Mas agora, que vivemos a insustentabilidade, o que realmente importa é saber como vamos sair dela. Alguns locais mais civilizados passaram a adotar a proibição de carros e outros veículos, em detrimento do pedestre e dos ciclistas. Exemplos como Nova York, que em cinco anos criou 450 quilômetros de ciclovias e fechou várias praças aos carros, entre elas a famosa Times Square e, apesar das críticas fervorosas, o comércio cresceu e a cidade toda comemora, inclusive os turistas brasileiros ávidos pelas andanças atrás dos melhores preços e produtos à venda. Lá, o transporte público também melhorou com a ampliação dos corredores de ônibus.

Mais perto, aqui na América do Sul, a Colômbia chegou na frente. Bogotá, antes conhecida como a capital mundial do narcotráfico, hoje é exemplo em desenvolvimento social e mobilidade urbana. O caminho foi longo, mas a cidade melhorou quando priorizou os espaços públicos com a ampliação de calçadas, ciclovias e parques. As áreas de estacionamentos da cidade foram reduzidas, apesar das reclamações dos donos dos carros.

Em Florianópolis, assistimos, principalmente pelas redes sociais, uma briga séria e feia, a dos “com carros” contra os “com bicicletas” e vice-versa, enquanto algumas áreas de estacionamento estão se tornando ciclofaixas, para felicidade de alguns e ódio de outros. Pena que a mobilidade não se restrinja apenas a isto. Aliás, vou gostar ainda mais de morar aqui quando as ciclovias tiverem começo, meio e fim, o transporte público for eficiente, o centro da cidade priorizar o pedestre e quando deixarmos de ser “carro-dependentes”.

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