Porto Alegre e as bicicletas

Um dos painéis do Fórum Mundial da Bicicleta, realizado em 24 de fevereiro, na capital gaúcha, abordou “Porto Alegre e as Bicicletas – Problemas e Soluções”, contando com a presença de Régulo Ferrari, técnico da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Na platéia, o diretor-presidente da EPTC e também secretário municipal de Mobilidade Urbana, Vanderlei Luis Cappellari. Com uma certa infelicidade, o que os participantes puderam observar é que há mais problemas do que soluções a caminho.

As discussões do primeiro Plano Diretor Cicloviário (PDC) de Porto Alegre datam de 1981. Consultores afirmaram, entretanto, que um PDC era desnecessário, alegando haver legislação federal e municipal (neste caso, o próprio Plano Diretor Municipal) suficiente. Reforçavam, entretanto, que seria interessante um instrumento, tal qual o PDC, para ocasionar pressão política para a implementação de ciclovias.

A estratégia utilizada para as primeiras ciclovias do município acabou sendo a de iniciar por locais onde houvesse menor interferência no deslocamento dos modais motorizados.

Desencontros

A ciclovia da Av. Beira-Rio não saiu pela falta de conexão entre diferentes órgãos. A EPTC fez o calçadão, largo, com mais de 10m. A ciclovia, ao lado, seria feita por uma empresa de saneamento básico. Ao final do prazo, a empresa buscou a EPTC, tentando ver se haveria algum projeto para eles executarem. Desconhecendo o fato, afirmou que não. A realidade hoje não conta com essa ciclovia permanente. E projetos continuam desconhecidos.

O ar que tu respiras

Porto Alegre é a segunda capital do país, apenas após São Paulo (SP), em pior qualidade do ar. Como o município não conta com indústrias importantes no que tange ao lançamento de poluentes no ar, visto que sua economia é movida principalmente por serviços e comércios, grande parte dessa poluição vem do escapamento de automóveis.

Pesquisas para o futuro e realidade do presente

Em 2003, foi realizada em Porto Alegre uma ampla pesquisa da Origem-Destino (OD). Quatro anos depois, foram divulgados os dados de contagens e entrevistas, inclusive com ciclistas, sobre mobilidade na cidade. Entretanto, isso não foi suficiente para a implementação de novas ciclovias. E parece que nem o recente atropelamento coletivo de ciclistas da Massa Crítica fez-se alterar substancialmente a situação. Em média, pouco mais de 100m de ciclovias são implantados por ano em Porto Alegre. Número pífio que coloca a cidade em situação ridícula quando se trata de mobilidade sustentável.

Atualmente, a capital gaúcha conta com menos de 8km de ciclovias ditas permanentes e cerca de 15km voltadas para o lazer de domingo, sendo que parte destas últimas também foi desativada devido à falta de material humano para conter os estacionamentos irregulares de moradores sobre a pista ciclável. Moradores estes que, diga-se de passagem, não foram consultados sobre a implantação da ciclofaixa para o lazer.

São estas as ciclovias ditas permanentes:

2,0 km –> Diário de Notícias
1,2 km –> Ipanema
4,6 km –> Restinga

Total: enxutos 7,8 km.

Para completar, Régulo afirmou que “a metologia rodoviarista não deve ser aplicada à cidade”. Esse método funciona sob demanda e não serve para zonas urbanas onde a carência de ciclistas pode indicar, acima de tudo, uma demanda fortemten reprimida de potenciais usuários da bicicleta.

Fabiano Faga Pacheco
(Colaborou Juliana Diehl)

Saiba mais:

Saiba mais sobre o Plano Cicloviário de Porto Alegre – 25/2/2008

Holandeses pretendem dar a volta ao mundo em bicicleta

O segundo dia do Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre, em 24 de fevereiro, contou com a presença do casal holandês (ou melhor, neerlandês) Hilde de Leeuw e Tos Alles.

Há nove meses na estrada, eles estão fazendo uma viagem sem gastar uma gota de gasolina. Depois de passar por França, Portugal e Espanha, o casal conseguiu ajuda para cruzar o Atlântico de uma maneira inusitada: num veleiro. Em Las Palmas, nas Ilhas Canárias, conheceram um brasileiro que seguiria para Recife (PE) a bordo da pequena embarcação e atravessaram o oceano. Se, para Tos, a viagem serviu para descobrir os enjôos trazidos pelo ondular do barco, Hilde lá viu no azul do Atlântico um de seus locais inesquecíveis.

Desembarcando na costa brasileira, seguiram rumo ao sul, passando por Alagoas, Bahia, Minas Geras, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, antes de chegarem a Porto Alegre, onde sua estadia já se prolongava por mais de duas semanas. Na capital gaúcha, estiveram na instalação da bicicleta-fantasma (ghost bike) do menino Gustavo Luiz da Rosa Silva, de apenas 6 anos.

No Brasil, os locais que Hilde descreve como fantásticos são a cachoeira do Garapiá, em Maquiné (RS), e a região de Taperoá (BA).

De acordo com o casal, viajar permitiu-lhes maior autocrítica sobre a questão da sustentabilidade. De fato, nas próximas paradas, no Uruguai e na Argentina, pretendem ficar na rede de fazendas sustentáveis WWOOF (World Wide Oppotunities on Organic Farms), onde almejam trabalhar e adquirir conhecimentos sobre agricultura orgânica e agroecologia.

Apesar do dinheiro curto – se dependessem apenas dele para se manter na estrada, viajariam por apenas mais 3 meses -, eles ainda querem conhecer o mundo de bicicleta. E iniciativas como o WWOOF e redes de colaboradores ajudam-nos a irem cada vez mais longe.

Como fato histórico, contaram que as crises do petróleo tiveram conseqüências especialmente danosas na economia dos Países Baixos, com seguidos racionamentos de combustível, obrigando o governo a propiciar estímulos a outras formas de deslocamento, dentre as quais o pedalar.

Para acompanhar a viagem de Tos & Hilde, basta ficar por dentro do site www.filosofietsen.nl (em neerlandês).

Fórum Mundial da Bicicleta: soluções inteligentes passam longe de Porto Alegre

O texto abaixo foi publicado na edição impressa do periódico Zero Hora, em 24 de fevereiro de 2012 (pág. 13).

É o 1º Fórum Mundial da Bicicleta!

Realiza-se desde ontem, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, o 1º Fórum Mundial da Bicicleta. A ideia partiu de um grupo de cidadãos e cidadãs de Porto Alegre que utilizam a bicicleta no dia a dia como meio de transporte.

A data escolhida não é ocasional: amanhã, dia 25 de fevereiro, um ano se completa do atropelamento coletivo ocorrido na Rua José do Patrocínio. Mas, além de marcar essa data, o Fórum Mundial da Bicicleta se pretende propositivo na busca de ideias e soluções para tornar as cidades mais humanas.

Durante os painéis, passeios, oficinas, shows, a bicicleta estará contemplada em suas mais variadas dimensões: mobilidade urbana, educação para a paz no trânsito, democracia direta, sustentabilidade, cooperação, solidariedade, cycle chic, mecânica básica, a bicicleta na economia, esporte, cicloturismo e por aí vai.

Mas há algo igualmente relevante e transformador que marcou toda a organização deste encontro internacional: a horizontalidade e a ausência de “donos” do evento. Com efeito, as assembleias nas quais a organização do evento ocorreu foram realizadas todas as segundas-feiras, abertas para quem quisesse participar. Só não soube das reuniões quem não acompanha o mundo da bicicleta de Porto Alegre. Quem participava, e de alguma forma se dispusesse a ajudar, se tornava um organizador.

Naturalmente, como o grupo sempre foi muito numeroso, o fórum conta com o trabalho voluntário de designers, programadores, assessores de imprensa e muitos outros profissionais que colaboraram para colocar de pé um evento tão singular e importante.

Singular também foi a forma como os recursos foram arrecadados: através de um vídeo coletivo postado no site catarse.me foi possível, através da colaboração financeira de muitos internautas e algumas entidades, pagar passagens aéreass e outros custos necessários ao evento. A meta de R$3,5 mil foi rapidamente alcançada e superada.

Mas um evento desta importância só ocorre quando se legitima socialmente. Neste caso, muito provavelmente a legitimação desta iniciativa é a perda da qualidade de vida nas grande cidades, e com Porto Alegre não é diferente. Além da poluição, a quantidade de horas perdidas dentro dos automóveis em razão dos congestionamentos – o automóvel é uma espécie de “caixa” que isola o motorista do contato real com a cidade e com as outras pessoas.

Desde o atropelamento coletivo na Cidade Baixa, notícia que alcançou os quatro cantos do planeta, incrivelmente a quantidade de ciclistas se locomovendo pelas ruas de Porto Alegre aumentou. E nem isso foi capaz de sensibilizar os gestores municipais.

A política implementada pela atual gestão municipal revela a cultura carrocêntrica doa atuais ocupantes do paço municipal. Com efeito, a ciclovia da Ipirangaestá sendo construída sobre o canteiro para não “atrapalhar o trânsito”. Poucas pessoas sabem que os ciclistas precisarão mudar cinco vezes de lado até chegar à PUC, o que fere um dos princípios básicos de toda ciclovia: a directibilidade. Mais que uma ciclovia que corre o risco de servir apenas para lazer.

Pior: o Plano Diretor Cicloviário Integrado – Lei Complementar Municipal 626/2009 – que prevê a destinação de 20% das multas de trânsito para a construção de ciclovias nunca foi cumprido. Enquanto isso, o prefeito vibra com os estacionamentos subterrâneos que serão construídos – o que aumentará o fluxo de veículos no centro da cidade – e acredita que duplicar algumas ruas vai resolver o problema da mobilidade urbana. Definitivamente, estamos na contramão da História e das soluções inteligentes para melhorar a vida das pessoas nas grandes cidades e torná-las mais humanas.

Por Marcelo Sgarbossa*

* Marcelo Sgarbossa é advogado e ciclista urbano, diretor do Laboratório de Políticas Públicas e Sociais – Lappus, um dos organizadores do 1º Fórum Mundial da Bicicleta

Ouça a música do Plá em memória ao atropelamento coletivo de Porto Alegre

O músico e compositor Ademir Antunes, mais conhecido como Plá, radicado em Curitiba, compôs uma canção que faz alusão ao atropelamento coletivo de ciclistas durante a Massa Crítica de Porto Alegre em 25 de fevereiro de 20111. Ouça abaixo a música e acompanhe a sua transcrição.

Bestafera

Cuidado, minha gente
Que pedala em POA.
Aqui tem um “Bestafera”
Que pode nos atropelar.

Com uma cara insana
E uma arma em suas mãos,
Atropela os ciclistas
Com a pior das intenção.

E ele estudou Leis.
Até tirou CNH.
O Ricardo Neis
tem licença pra matar. [bis]

Aqui em Porto Alegre
Ou em qualquer lugar,
Quando a vida vale menos
Que a pressa de chegar,
A bicicleta e as pessoas
Perdem vidas e a vez
Diante de “bestas feras”
Tipo o Ricardo Neis.
Diante de “bestasferas”
Tipo o Ricardo Neis.

Ciclistas tiram a roupa em Porto Alegre em protesto contra a violência no trânsito

Manifestação marca um ano do atropelamento de 17 pessoas durante a Massa Crítica.

Centenas de ciclistas reuniram-se neste sábado, 25 de fevereiro, em Porto Alegre, para manifestarem seus sentimentos, desejos e expressões ocasionados pelo atropelamento de 17 ciclistas da Massa Crítica local, há exato um ano.

Os ciclistas sairam, em sua maioria, da Usina do Gasômetro, seguindo para o Largo Zumbi dos Palmares antes de chegarem ao local em que o motorista Ricardo Neis jogou o seu carro contra o grupo, que pedia menos violência no trânsito.

Neste local, à Rua José do Patrocínio, velas foram acesas e, mesmo sob forte chuva, os ciclistas ficaram reunidos para ouvir canções tais como “Bestafera“, “Moral” e “Invasão das bicicletas”, do músico de Curitiba Ademir Antunes, mais conhecido como Plá.

Num momento de comoção, várias pessoas foram ao microfone para falar de seus sentimentos acerca do ocorrido. Um dos jovens atingidos contou que até hoje tem que lidar com os efeitos psicológicos advindos do atropelamento. Reinou a indignação com a demora no andamento do processo. A prefeitura municipal de Porto Alegre também foi alvo de críticas por não ter realizado estudos para a implantação de um sistema cicloviário integrado na cidade. Apesar de largas avenidas, Porto Alegre possui hoje menos de 8km de faixas para os ciclistas.

Pelados na chuva

A chuva de hoje fez alguns se recordarem da chuva que caiu há um ano, lavando do asfalto o sangue derramado dos inocentes. A mesma chuva que lava a alma e permite que purificados sigamos em frente.

Depois de uma hora no local do incidente, 126 ciclistas fizeram a primeira Pedalada Pelada de Porto Alegre. De cueca, sutiã, bermuda de ciclismo ou mesmo vestidos, os lemas “as bare as you dare” (tão nu quanto você ousar) e “nus, é assim que nos sentimos no trânsito” ditaram o clima, com a expressão da insegurança estampada nos corpos de cerca de 80% dos ciclistas.

Entre gritos de “Você aí parado! Vem pedalar pelado!” e “Mais bicicletas, menos roupas”, os ciclistas ocuparam as ruas do centro, ocasionando perplexidade entre os motoristas, pedestres e usuários de ônibus, que viam a inusitada manifestação com ares de curiosidade e ludicidade.

Não houve escolta da Empresa Pública da Transporte e Circulação (EPTC) e, a duas quadras do final da pedalada, no Largo Zumbi dos Palmares, a Brigada Militar tomou conhecimento, mobilizando rapidamente outras 3 viaturas e algumas motos.

Não se teve registro de incidentes maiores.

Saiba mais:

De alma lavada

Com recorde de participantes, Massa Crítica leva mais de mil ciclistas às ruas de Porto Alegre

Passava das 19h. Um mar de ciclistas tomou conta do Largo Zumbi dos Palmares. Quem passava de carro por lá não pôde deixar de notar a aglomeração, que a cada minuto que passava se tornava ainda maior. Alguns poucos fantasiados, vários com uma placa vermelha na bicicleta com os dizeres “Bicicletas! Use em caso de mudanças climáticas”, pessoas de todas as idades e bicicletas estavam lá para a maior manifestação do cicloativismo portoalegrense até o presente momento.

A Massa Crítica POA, como a Bicicletada (Critical Mass) é chamada na cidade, mobilizou a população da cidade. Mesmo contando com pessoas de outros países, como Venezuela, Países Baixos e Estados Unidos, e de dezenas de cidades do Brasil, a população porto-alegrense constituía a maioria dos participantes da pedalada que agitou a capital gaúcha na noite desta sexta-feira, 24 de fevereiro.

Apenas na saída, 883 pessoas, tanto de bicicleta quanto de skate e patins, foram contadas, número que superou os 1200 na metade do percurso, quando mais pessoas foram aderindo. A cada quarteirão, novas bicicletas juntavam-se ao grupo.

Na Rua José do Patrocínio, onde 17 ciclistas foram atropelados por um motorista há quase 1 ano, um flash mob: os ciclistas deitaram no asfalto, ocupando alguns quarteirões numa homenagem aos colegas.

Eram favoráveis aos ciclistas as manifestações da ampla maioria dos pedestres, nas calçadas e janelas dos apartamentos, e dos motoristas, bloqueados por fiscais de trânsito da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), que, em bicicletas, forneceram suporte e proteção aos participantes durante a pedalada.

Foi essa a condição que a cicloturista Hilde de Leeuw, dos Países Baixos, encontrou em sua primeira Massa Crítica. Natural de um país dotado da cultura da bicicleta, nunca antes pôde-se ver em uma manifestação tão grandiosa. Já americano Chris Carlsson, um dos idealizados da Critical Mass, que distribuiu as plaquinhas citadas acima, já teve outras oportunidades de ver tanta gente pedalando por uma causa em San Francisco, na Califórnia. O diretor da ONG CicloCidade, Thiago Bennichio, acostumado a algumas das maiores Bicicletadas do Brasil, também só chegou a ver situação semelhante em San Francisco e em São Paulo (SP).

Cruzando túneis, elevados e avenidas, os ciclistas seguiram em direção à Av. Voluntários da Pátria, no Floresta, onde o menino Gustavo Luiz da Silva Rosa, de apenas seis anos, morreu atropelado no último 07 de fevereiro. No local, uma bicicleta-fantasma (ghost bike) permanece instalada. A mãe de Gustavo, vendo a multidão de rodas a girar em compasso à sua frente falou, emocionada: “Que bom que vocês se lembraram da gente!”.

No final, os ciclistas voltaram para a Redenção (Parque Farroupilha), onde Chris Carlsson falou sobre sustentabilidade e mudanças de paradigmas, abordado em seu novo livro: “Nowtopia“.

Depois de tamanha repercussão entre a sociedade civil, como ficou evidente neste Fórum Mundial da Bicicleta, os cidadãos de Porto Alegre anseiam, urgentemente, melhores condições para utilizarem a bicicleta na cidade.

Bike City Tour Porto Alegre

Ao menos, 229 pessoas, de bicicleta, skate ou mesmo correndo, participaram do Bike City Tour, na noite desta quinta-feita, 23 de fevereiro, em Porto Alegre. O percurso começou na Usina do Gasômetro e percorreu diversos pontos da cidade, oferecendo um panorama histórico do desenvolvimento do município. A atual R. dos Andradas era conhecida como Rua da Praia, por ser onde a cidade se encontrava com o rio Guaíba.

Toda a regiao onde hoje estão a Av. Beira-Rio e o gasômetro é área de aterro, inclusive com um interessante valor arqueológico, visto que o lixo e o entulho que estão sob a superficie ajudam a compreender como era a vida da capital gaúcha no século XIX. O Parque Farroupilha, no centro da cidade, também conhecido como Redenção, foi onde ocorreu importante manifestação de escravos, que conseguiu, em 1884, a libertação desses na cidade. Próximo à Redenção, a Av. Independência era local alto onde a burguesia endireirada mantinha sítios.

A Cidade Baixa era próxima ao então porto da cidade, margeando o Arroio Dilúvio, que formava a Ilhota. De habitantes de classe baixa, teve no compositor Lupicínio Rodrigues o seu mais ilustre morador.

O Largo da Matriz, onde também se encontra a Assembléia Legislativa (Palácio Farroupilha) e o Palácio Piratini, é o ponto mais alto do centro de Porto Alegre. A imponente catedral era a porta de entrada da cidade para quem lá aportava. Infelizmente, a vertizalização dela fez com que essa característica fosse perdida enquanto novos arranha-céus eram erguidos.

Por fim, na volta ao Gasômetro, passamos pela misteriosa Rua do Arvoredo, onde, reza a lenda urbana, ocorreram crimes misteriosos, que envolviam a produção de lingüiça de carne humana.

Mistérios, estórias e causos de uma cidadela em formação.

Formiga promove uma introdução ao cicloturismo

Foi disputada a palestra “Introdução ao Cicloturismo”, com Adriano Andrade Formiga. Com a experiência de 16 anos pedalando por locais invisíveis a quem está num automóvel, Formiga dá as suas dicas para quem quer começar nessa fascinante modalidade.

Quadro: prefira os de cromoly (cromo-molibdênio). Alumínio não dura mais que 20 anos, no máximo, para a prática de cicloturismo. Carbono também não é recomendado.

Bagageiro: o quadro deve possuir esferas para o encaixe do bagageiro atrás e à frente. Prefira os feito com nylon, alumínio e duralumínio. Os de plástico, endurecem e quebram no frio. erro enferruja. O cicloturista tem reservas quanto ao uso de bagageiros atrelados. Entre os contratempos, diz que você o puxa em vez de carregá-lo e que são mais pneus a terem chance de serem furados. Em geral, são usados em viagens mais longas, com duração de vários meses a anos.

Freio: você praticamente não o utiliza durante uma cicloviagem. Formiga considera que freio a disco é desnecessário, citando como contratempos a sua massa e a constância de sua manutenção.

Selim: prefira bancos mais largos com molas. Mulheres devem dar preferência a selim com gel e homens, aos modelos vazados. Modelos com os quais o ciclista está mais acostumado também podem ser boas opções. “Cada um sabe a bunda que tem”, diz.

Canote: alumínio.

Guidão: aquele com o qual você se sentir mais adequado. Bar end e guidão circular ajudam a variar posições das mãos, aliviando desconfortos. Guidão de mountain bikes costumam te projetar à frente da bicicleta.

Pedivela: quanto maior, melhor o rendimento.

Sapatilha: ajuda no pedalar, mas ocasiona problemas nas outras atividades envolvidas no cicloturismo, como trilhas e simples caminhadas. Ocasiona, ainda, o problema de se ter que levar um calçado a mais. Tênis e pedaleira são boas pedidas para essa questão.

Roupa: depende da viagem. No verão, ele chega a usar apenas duas bermudas e três camisetas. No inverno, já carregou 55kg, sendo autossuficiente num deserto, situação na qual conseguiu tomar apenas 4 banhos em 32 dias.

Barraca: recomenda a marca de Curitiba Manaslu, que, para 1 a 2 pessoas, tem apenas 2kg.

Fogareiro: MSR. Teste a aprenda a usá-lo antes de viajar.

Ferramentas: além das mais conhecidas, como kit remendo, chaves allen, leve raios extras, chave de raio, pedaços de corrente e extrator de corrente. Como kit de manutenção de corrente, coroa e cassete, querosene, óleo lubrificante e pincel. Passe o querosene com pincel para limpeza, retire com água e passe uma gota de óleo por elo.

Ciclocomputador: para iniciantes é muito legal e útil.

Pneu: varia conforme o tipo de piso de sua viagem. Em geral, Formiga usa um semi-slick 2,0 com banda protetora para evitar furos.

Além disso, ele recomenda sempre usar capacete, o mais vazados possível, óculos-de-sol, que protegem contra mosquito e luvas. Existem modelos de luvas mais aderentes para o frio.

“Quem quer ser cicloturista não pode ter pressa”. Para ele, o caminho, o meio é o que torna a atividade tão agradável.

Alimentação

O cicloturista acostuma-se com a alimentação durante a viagem. Para cerca de um mês, Adriano recomenda massa de miojo, que utiliza pouca água e pouco gás. Durante o dia, capuccino com água de manhã e bolachas e granolas durante a tarde. No deserto, sendo autossuficiente, levava consigo 11L de água.

Quando foi para o Atacama, que é um deserto alto e frio, tomava apenas cerca de 1L por dia. Próximo aos Andes, além de tudo, obteve bastante água de degelo.

Dependendo do local, leva consigo um purificador portátil e clor-in.

Carboidrato em gel pode ser usado como suplemento e sempre deve ser ingerido junto com água, para evitar náuseas e vômitos.

Segundo Formiga, cãibras refletem um estado de desidratação, indicando a falta de sódio e não de potássio. Banana ajuda, mas sozinha não evita a fadiga muscular.

Adversidades

Fã de estradas de chão, que costumam ter paisagens mais bonitas e menor movimento, Formiga evita pedalar a noite, por questão tanto de segurança quanto de aproveitar o visual da paisagem, peculiar a quem viaja de bicicleta. Em caso de adversidade climática, brinca: “Chuva!? Se eu não tenho local para me abrigar, toco o barco!”.

Ele reclama da dificuldade de encontrar, no país, roupa adequada ao cicloturista. Segundo ele, é extremamente mais fácil encontrar fora do Brasil roupas feitas com gore-tex, por exemplo, que alia conforto a proteção contra chuva, por exemplo.

Energia solar na bicicleta

Luís Maccarini fez palestra, nesta quinta-feira, 23 de fevereiro, no Fórum Mundial da Bicicleta, sobre o uso da energia solar. Promete, no sábado, mostrar sua bicicleta acoplada com dispositivos que funcionam com base nessa forma de obtenção de energia.

Maccarini afirma que as casas podem produzir energia solar e ligar sua produção ao sistema operado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Uma casa que produz excesso de energia solar, por exemplo, além da economia na conta, pode repassar essa excesso ao sistema. Isso faz com que a caia a demanda de usinas hidroelétricas em determinados momentos do dia, possibilitando o fechamento de comportas, o que permite aumentar o nível dos reservatórios. Esse aumento pode ser usado em situações críticas, quando há grande demanda de energia do sistema, como é o caso do período noturno, do inverno e, principalmente, de seca e estiagem. É uma forma interessante de contribuir para evitar um colapso energético.

Uma placa fotovoltaíca de 1m² gera cerca de 10kW.h/mês. A título de comparação, 2m² podem garantir o consumo de uma geladeira econômica até o fim de sua vida útil.

No Brasil, a instalação de cada watt gerado por energia solar custa cerca de R$10,00. Num país tropical onde não há incentivos, o custo de instalação é coberto entre 15 e 18 anos.

Maccarini faz uma denúncia grave sobre o uso de gerador a diesel por grandes consumidores. No horário de pico, das 19h às 22h, quando a tarifa é diferenciada e 5,8 vezes mais cara, grandes estabelecimentos, como hospitais e shopping centers, estão queimando óleo diesel, muito mais poluente, para não terem que usar o sistema nacional. “Às 18h59 você começa a perceber que as luzes ficam mais fraquinhas, piscam e, depois, voltam ao normal”, afirma.

Além de todas essas vantagens, a energia solar, por ser repassada direto das unidades produtoras (as casas) à linha de transmissão evita a perda de 15% a 20% da energia, que é dissipada durante os processos de transformação e transmissão das hidroelétricas ao sistema.

O Dopping no Ciclismo Profissional

Marcelo Sgarbossa, ex-ciclista profissional, abordou nesta quinta-feira, 23 de fevereiro, no Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre, sobre o freqüente uso de dopping por ciclistas.

A mais comum substância usada no dopping é a EPO (Eritopoietina). Ela não aumenta a explosão muscular, mas sim a capacidade de captação de oxigênio pelos tecidos. Os tratamentos que envolviam o uso de EPO para melhorar a performance do ciclista demora cerca de um mês para dar os resultados esperados. Além de EPO, envolvia também aspirina, para dar maior fluidez ao sangue, cuja viscosidade a EPO aumenta. Além disso, o tratamento provoca sonolência. “Você chegava ao alojamento e via os atletas parecendo zumbis”, disse Sgarbossa.

O ciclista conta que, durante uma competição, é normal você perder cerca de 7L de líquido por dia, deixando, dessa forma, seu sangue mais concentrado. Essa perda de líquidos, associada ao uso de EPO, já provocou morte de ciclistas por parada cardiorrespiratória no meio de algumas provas.

Quanto à EPO, que estimula a produção de glóbulos vermelhos no nosso sangue, Sgarbossa explica que o hematócrito normal de uma pessoa varia de 40% a 50% de volume de glóbulos vermelhos em relação ao volume de sangue. Acima desse valor, é considerado dopping por uso de EPO.

Dificilmente, hoje em dia, um atleta vai bem nas competições durante o ano todo. Os tratamentos são feitos para que o ciclista esteja no auge durante dois ou três meses durante o ano, na prova de sua preferência. Um rodízio mensal é feito nas equipes de forma que durante todo o ano algum atleta esteja em condições ótimas de competir.

O hormônio do crescimento (growth hormone) também é outra substância utilizada. Provoca aumento nas extremidades do corpo: mãos, pés, nariz, orelha, dedos, braços, pernas, pênis. Possui efeito mesmo após as pessoas pararem naturalmente de crescer.”Você vê um atleta de 23 anos que num ano calçava 41 e, no seguinte, passou a 43″. O crescimento das extremidades provoca deformações no corpo, dando-o uma aparência estranha.

É mais comum na Europa. Na Itália, por exemplo, onde o ciclismo é idolatrado, é comum pais levarem os filhos adolescentes ao médico para ver se algo pode ser feito para que seu filho adquira um biótipo físico típico de um ciclista profissional.

É muito difícil você prevenir novas formas de se dopar um atleta. “Primeiro vem o dopping, depoi a cura”, diz Sgarbossa. A partir do momento em que uma substãncia que melhora o rendimento de um atleta é considerada dopping, são buscadas novas formas de camuflá-la para obter o mesmo rendimento sem que ela seja detectada nos exames, reclama.

Da rodoviária ao Gasômetro sem ser atropelado

Desembarquei pouco depois das 7h na rodoviária de Porto Alegre. Minha bicicleta veio junto, transportada num dos bagageiros da empresa Eucatur. Dirigi-me direto à Usina do Gasômetro, à beira do rio Guaíba. A idéia de ir pedalando pela movimentada Av. Mauá (e depois Av. Pres. João Goulart, vulgo Beira-Rio) foi logo abortada, devido às 4 faixas de alta velocidade. Optei por ir pelo centro da cidade, sem ser atropelado, num percurso de praticamente igual distância, com a vantagem de conhecer parte do patrimônio arquitetônico porto-alegrense.

Dividi a faixa de ônibus no contrafluxo da R. Voluntários da Pátria, divindindo com os pedestres, posteriormente, o calçadão da Praça Quinze de Novembro e da R. dos Andradas, terminando na área militar da R. Sete de Setembro antes de observar a estrutura típica do Gasômetro.

Porto Alegre conta com patrulha de bicicleta, com suas magrelas amarelas a vigiar a Praça Quinze de Novembro. Apesar disso, o uso desse veículo parece ser, de certa maneira, ignorado, com seguidas pessoas recomendando ruas pela contramão (inclusive da patrulha). As regras de trânsito relativas à bicicleta permanecem, de certa forma, ignoradas, apesar da reação da mídia ao atropelamento de ciclistas na Massa Crítica de um ano atrás.

A presença recente do Carnaval ainda se fazia sentir pelas ruas da cidade pelo leve teor ureico do centro. Apesar disso, as ruas estavam limpas, com os principais detritos sendo folhas e galhos das árvores.

Passando por meio de praças, deparei-me, em frente ao gasômetro, com uma travessia de pedestres que é uma afronta ao bom senso de caminhar. A Av. Pres. João Goulart conta com acionamento de botão para pedestres. Até aí, tudo bem, se não fosse a impossiblidade de atravessar ambas as pistas da avenida, e os parcos quase 15s que são conferidos aos pedestres para realizar meia travessia. Grades conduzem o pedestre a outro ponto do canteiro central para acionar outro botão para se ter outros quase 15s para se atravessar as outras duas faixas que a avenida comporta nesse ponto.

Seguindo por esse caminho, dá para se ficar pensando: por que não se faz um parque linear à beira do Guaíba, com calçadão e ciclovia, proporcionando mais vida àquele trecho.

Para a surpresa geral, apesar da deficiência de acesso a pedestres e ciclistas, a partir do Gasômetro, indo ao sul e ao leste, margeando o rio, rumo à sua foz, existe uma ampla área verde, ocupando àrea de transbordo natural do rio, com ampla pista de caminhada com cerca de 10m de largura (isso mesmo, 10m!), que, mesmo às 8h da manhã, encontrava-se tomada por pessoas, além de um ou outro ciclista. O treinamento matinal de militares da polícia e do Exército naquele trecho torna-o seguro, possibilitando que mais pessoas ocupem a área, trazendo vitalidade àquele trecho que, há 20 anos, era repudiado pela população local.

Estou agora no Gasômetro e o Fórum Mundial da Bicicleta começa a ser montado. Estão cá do meu lado paraciclos, trazidos pelos próprios organizadores, que serão montados para serem usados pelos participantes. Uma exposição de bicicletas também está sendo ajeitada.

Fabiano Faga Pacheco

Catarinenses vão ao Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre

Ano passado, dezesseis ciclistas da Massa Crítica de Porto Alegre foram atropelados por um motorista que passou com seu automóvel por cima da manifestação ciclística pró-vida! Para relembrar a data, ativistas da bicicleta da capital gaúcha organizaram o 1º Fórum Mundial da Bicicleta, que começa nesta quinta-feira, 23 de fevereiro.

Como costuma acontecer em eventos desse tipo, a participação de ciclistas e cicloativistas de Santa Catarina será massiva. Além de integrantes das associações de ciclistas de Blumenau (ABC Ciclovias) e Florianópolis (ViaCiclo), estão a caminho de Porto Alegre, de bicicleta mesmo, representante da empresa de cicloturismo Caminhos do Sertão, da microempresa de produtos relacionado à bicicleta Pedarilhos e do documentário sobre (i)mobilidade urbana Floriparada.

Parte da cobertura do evento, assim como aconteceu no Bicicultura, você encontrará aqui, no Bicicleta na Rua.

A programação completa – e gratuita – do evento, que terá sede na Usina do Gasômetro, você encontra clicando no folder do Fórum.

Esperemos que, além dos ciclistas, técnicos e representantes da população participem de parte das oficinas para que se possa, enfim, dizer que a situação dos ciclistas nas cidades vai melhorar. Sob este ponto de vista, pode-se especular: será este Fórum um marco na mobilidade por bicicleta ou apenas mais um evento cujas possibilidades ficarão restritas ao aprendizado de seus participantes?

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