“Não há forma mais eficiente de melhorar o mundo do que pedalar”

Uma interessante matéria publicada pela Ciencia Seminal, em 24 de junho de 2013, mostra como a bicicleta pode ajudar no desenvolvimento de uma cidade.

De acordo com a secretária de transporte, obras públicas e água de Amsterdã, Tineke Huizinga-Heringa, foi a cultura da bicicleta que levou os Países Baixos serem exemplos em questão econômica, política e social.

– Está claro que as bicicletas melhoraram nosso nível de vida. Desde que construímos as pistas cicláveis, percebemos um crescimento substancial do país. Cada um desses 400km foram uma garantia de avanço para a civilização – diz.

De acordo com a secretária, não apenas os níveis de poluentes e contaminantes são menores, como também os seus habitantes se tornaram mais sofisticados, educados, com maior moral e inteligência desde que passaram a utilizar a bicicleta.

Tineke Huizinga-Heringa. Foto: ANP.

Tineke Huizinga-Heringa. Foto: ANP.

O impacto do uso da bicicleta, afirma ela, é indiscutível.

– Temos demonstrado que nossas bicicletas nos tem levado a ser um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Ainda conforme Huizinga-Heringa, que em 2009 elaborou um relatório sobre o uso da bicicleta nos Países Baixos, não há melhor forma de mudar o mundo do que usando a bicicleta.

– O que nos mudou não foi o nível acadêmico, nem a economia saneada, os parlamentares, ou nosso avançado sentido moral, tampouco a legitimação de direitos individuais. Tudo isso veio após as bicicletas. Inclusive, a população em geral se tornou mais bela e sexualmente ativa após pedalar mais horas ao dia.

Veja também:

(Mobilidade nas Cidades) Íntegra da palestra de Gil Peñalosa

(Mobilidade nas Cidades) “Precisamos parar de falar e começar a agir”, diz Gil Peñalosa

Entrevista com Roelof Wittink

(Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum

O artigo abaixo foram originalmente publicadas na edição impressa do periódico Diário Catarinense, em 29 de abril de 2011 (pág. 3 do caderno Variedades). Você pode lê-lo no site do DC aqui.

Diário Catarinense

CONTEXTO

Escutai os gringos

Escrevo e envio este texto na terça-feira à noite, depois do primeiro dia do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Na quarta, haveria outra rodada de palestras, encerrando o evento.

Alguns dos maiores pesquisadores mundiais do assunto estavam no Teatro Pedro Ivo, expondo suas ideias cosmopolitas para uma plateia de pouco mais de cem pessoas sem “nenhum vereador ou prefeito da Grande Florianópolis”, como notou, no Jornal do Almoço, o repórter Rafael Faraco.

As falas foram inspiradoras. Não pretendo resumir um conteúdo tão complexo. Quero apenas lembrar alguns pontos para arrancar disso uma reflexão.

O inglês Rodney Tolley dirige o projeto Walk21. Sua defesa do ato de caminhar, longe de ser ingênua, é uma lufada de bom senso. Andar, lembra, não se trata apenas da ida de “a” para “b”, mas da exploração do que há pelo caminho. Ignorada no último século, a caminhada como séria opção de mobilidade urbana vive um renascimento, merecendo conferências pelo planeta e programas especiais em cidades como Londres, Nova York, Copenhague, Barcelona. Não é o caso de criar andarilhos, mas de incentivar caminhadas em distâncias razoáveis para colocar mais pessoas nas ruas, gerando ambientes gregários, saudáveis e seguros. As cidades engajadas fazem um grande levantamento de informações úteis para os pedestres, proíbem os carros em algumas vias aos domingos e assim por diante.

O holandês Ton Daggers falou das famosamente bem-sucedidas experiências do seu país com as bicicletas – inclusive as elétricas, cada vez mais difundidas por lá e aliás já disponíveis por aqui. Na Holanda, terra de 18 milhões de bikes para 16 milhões de habitantes, há cada vez mais cyclo routes, as rodovias para as bicicletas, muitas vezes paralelas às autoestradas. Há dois anos dirigi rapidamente por Amsterdã e, diante de estacionamentos de R$ 350/dia e olhares nativos de desprezo, percebi o que é o carro para eles. A hierarquia se inverte: pedestres e ciclistas, felizmente, mandam no território.

O alemão Niklas Sieber explorou a questão dos transportes coletivos – custos, novidades, prós e contras, ótimas e péssimas experiências de mobilidade em cidades diversas. Um dos termos do momento sobre o assunto é “ transporte multimodal”, a articulação entre diversos meios de locomoção. Pela manhã, na palestra de abertura do Fórum o colombiano Gil Peñalosa deixou um frase ecoando pelo ambiente: “Cada cidade encontra uma razão para dizer que não vai mudar”. Alheio a desculpas assim, ele e seu irmão Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, revolucionaram o transporte por aquelas bandas.

Nisso voltamos aos nossos políticos. Pois é, eles não estavam no evento. Devem considerar as ideias dos estudiosos muito ripongas para a nossa realidade. Lamento que pensem assim, mas compreendo por que isso acontece. Que estímulo tem um prefeito para ser arrojado em termos de mobilidade urbana e por exemplo taxar a circulação de automóveis pelo centro, se o apedrejaríamos por isso? A cultura local não ajuda. No Brasil, o ônibus é visto como um veículo para estudantes e semifracassados em geral. Ignora-se que na Europa um chefe de grande empresa vá trabalhar de metrô ou bicicleta pública.

Fui ao Fórum de ônibus, mas até hoje deixei bem menos o carro na garagem do que podia. Sou um egoísta idiota – e aposto que, nesse quesito, a maioria dos leitores desse texto também é. Fica então o convite para admitirmos que hábitos de vida inteira possam ser justamente os mais errados. Vamos lá: www.walk21.com.

Thiago Momm

Saiba mais:

(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012

%d blogueiros gostam disto: