Regalo neerlandês

Esta é a quingentésima postagem deste blogue.

Em vez de falar de algumas novidades implementadas nas últimas semanas, de algumas que estão por vir e do apoio institucional que se recebeu, optamos por falar de uma honraria que o Bicicleta na Rua recebeu.

Nos últimos dias, aconteceu em Florianópolis a terceira edição do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Dentre os palestrantes, o holandês Ton Daggers, da rede Cities for Mobility (Cidades pela Mobilidade).

Retornando a Florianópolis, onde já esteve por diversas vezes, inclusive na segunda edição do Fórum, em 2011, e na primeira Semana Internacional da Bicicleta, em 2009, Ton Daggers abordou a mobilidade por bicicleta e por pedelec, que, segundo ele, são as verdadeiras bicicletas elétricas.

Ao final do primeiro dia de palestras, instigado por uma leitora, dedicou parte da noite para a leitura deste blogue.

No dia seguinte, fez questão de agraciar o Bicicleta na Rua, com um presente: um porta-lápis de madeira em formato de cargobike, um modelo de bicicleta elétrica cargueira, que vem sendo utilizada para o serviço de transporte de mercadorias em cidades européias. Para ele, foi com muito orgulho que presenteava este blogue pelo seu trabalho.

Cargobike presenteada por Ton Daggers para o Bicicleta na Rua pelo trabalho em prol da mobilidade ciclística. Foto: Fabiano Faga Pacheco.

Cargobike presenteada por Ton Daggers para o Bicicleta na Rua pelo trabalho em prol da mobilidade ciclística. Foto: Fabiano Faga Pacheco.

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Devido à conexão inconstante com a internet durante o evento, as matérias sobre esse incrível Fórum não puderam ser repassadas com o mesmo vigor que as palestras tiveram. Apenas pelo Youtube os conteúdos foram atualizados com certa agilidade. Mas isso não foi de todo ruim. Uma outra leitora deste blogue e que também esteve presente nas palestras sobre determinados assuntos, encontrou importantes incoerências entre o apresentado e a realidade, notadamente numa das frases de maior impacto proferidas no Fórum. Se não fosse pela ajuda dessa leitora, certamente essa confrontação não teria ocorrido. Até segunda-feira, quase toda a cobertura do Fórum deverá estar disponível aqui no WordPress.com.

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A pequena homenagem de Ton Daggers a este blogue foi recebida com uma visível emoção. Afinal, não são só quase 5 anos, 500 textos e mais de 200.000 visitas de um veículo de comunicação de uma das menos populosas capitais brasileiras. É todo um conjunto de pensamentos, ações, práticas e referenciais que compõem o conceito deste site.

Ton certamente conhecia a situação de Florianópolis antes de 2008 e a tem visto mudar ao longo de suas visitas durante os anos. Tem visto, também, as diversas manifestações de ativistas pela bicicleta surgirem e ganharem fôlego com o tempo. Novas caras e velhos rostos unidos, mesclados por um mesmo ideal de mobilidade que alie o transporte ativo ao coletivo no planejamento do uso do solo. Mescaldos, afinal por um mesmo ideal de cidade, voltada para a convivência e o encontro: um lugar para se estar, não simplesmente para se passar.

Diante dessa consideração, o Bicicleta na Rua só tem a dizer:

– Valeu, Ton!

[- ¿Y puedo darte un abrazo?]

(Mobilidade nas Cidades) As lições do Fórum

O artigo abaixo foram originalmente publicadas na edição impressa do periódico Diário Catarinense, em 29 de abril de 2011 (pág. 3 do caderno Variedades). Você pode lê-lo no site do DC aqui.

Diário Catarinense

CONTEXTO

Escutai os gringos

Escrevo e envio este texto na terça-feira à noite, depois do primeiro dia do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Na quarta, haveria outra rodada de palestras, encerrando o evento.

Alguns dos maiores pesquisadores mundiais do assunto estavam no Teatro Pedro Ivo, expondo suas ideias cosmopolitas para uma plateia de pouco mais de cem pessoas sem “nenhum vereador ou prefeito da Grande Florianópolis”, como notou, no Jornal do Almoço, o repórter Rafael Faraco.

As falas foram inspiradoras. Não pretendo resumir um conteúdo tão complexo. Quero apenas lembrar alguns pontos para arrancar disso uma reflexão.

O inglês Rodney Tolley dirige o projeto Walk21. Sua defesa do ato de caminhar, longe de ser ingênua, é uma lufada de bom senso. Andar, lembra, não se trata apenas da ida de “a” para “b”, mas da exploração do que há pelo caminho. Ignorada no último século, a caminhada como séria opção de mobilidade urbana vive um renascimento, merecendo conferências pelo planeta e programas especiais em cidades como Londres, Nova York, Copenhague, Barcelona. Não é o caso de criar andarilhos, mas de incentivar caminhadas em distâncias razoáveis para colocar mais pessoas nas ruas, gerando ambientes gregários, saudáveis e seguros. As cidades engajadas fazem um grande levantamento de informações úteis para os pedestres, proíbem os carros em algumas vias aos domingos e assim por diante.

O holandês Ton Daggers falou das famosamente bem-sucedidas experiências do seu país com as bicicletas – inclusive as elétricas, cada vez mais difundidas por lá e aliás já disponíveis por aqui. Na Holanda, terra de 18 milhões de bikes para 16 milhões de habitantes, há cada vez mais cyclo routes, as rodovias para as bicicletas, muitas vezes paralelas às autoestradas. Há dois anos dirigi rapidamente por Amsterdã e, diante de estacionamentos de R$ 350/dia e olhares nativos de desprezo, percebi o que é o carro para eles. A hierarquia se inverte: pedestres e ciclistas, felizmente, mandam no território.

O alemão Niklas Sieber explorou a questão dos transportes coletivos – custos, novidades, prós e contras, ótimas e péssimas experiências de mobilidade em cidades diversas. Um dos termos do momento sobre o assunto é “ transporte multimodal”, a articulação entre diversos meios de locomoção. Pela manhã, na palestra de abertura do Fórum o colombiano Gil Peñalosa deixou um frase ecoando pelo ambiente: “Cada cidade encontra uma razão para dizer que não vai mudar”. Alheio a desculpas assim, ele e seu irmão Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, revolucionaram o transporte por aquelas bandas.

Nisso voltamos aos nossos políticos. Pois é, eles não estavam no evento. Devem considerar as ideias dos estudiosos muito ripongas para a nossa realidade. Lamento que pensem assim, mas compreendo por que isso acontece. Que estímulo tem um prefeito para ser arrojado em termos de mobilidade urbana e por exemplo taxar a circulação de automóveis pelo centro, se o apedrejaríamos por isso? A cultura local não ajuda. No Brasil, o ônibus é visto como um veículo para estudantes e semifracassados em geral. Ignora-se que na Europa um chefe de grande empresa vá trabalhar de metrô ou bicicleta pública.

Fui ao Fórum de ônibus, mas até hoje deixei bem menos o carro na garagem do que podia. Sou um egoísta idiota – e aposto que, nesse quesito, a maioria dos leitores desse texto também é. Fica então o convite para admitirmos que hábitos de vida inteira possam ser justamente os mais errados. Vamos lá: www.walk21.com.

Thiago Momm

Saiba mais:

(Mobilidade nas Cidades) Cities-for-Mobility opina e dá sugestões de como melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis

(Mobilidade nas Cidades) Para melhorar a cidade

Florianópolis espera contar com bicicletas públicas em 2012

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