Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamentos e o caso de Jurerê

Ontem, segunda-feira, 17 de novembro, fui, finalmente, no Deinfra/SC, na Rua Tenente Silveira 162, região central de Florianópolis. O assunto que me motivou a ir para lá era algo bem específico: como conseguir autorização para fazer ou para que seja feita sinalização nas rodovias estaduais. Essa sinalização seria uma demarcação horizontal a ser pintada nos acostamentos ou locais que, pela legislação, seriam aqueles por onde o ciclista deve trafegar nas rodovias. Elas teriam o mesmo objetivo destas daqui: sinalizar que por lá passam ciclistas, contribuir para a educação no trânsito e para que o ciclista seja respeitado e acidentes como este e este não mais ocorram.

Pois bem, fui lá no chamado Edifício das Diretorias e fui encaminhado para falar com o gerente de Operações, engenheiro Ditinho. Comecei falando sobre o desejo de que houvesse a demarcação, nas vias, dos locais por onde passam ciclistas e dei o exemplo de Jurerê, onde há um bom acostamento, mas que não existem calçadas para pedestres e nem locais exclusivos para a circulação de bicicletas e, por isso, pedestres e ciclistas só poderiam transitar pelo acostamento.

Logo depois, tomei um banho de água fria. Ele me falou que aquilo seria irregular, que não era permitido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e que, inclusive, a bicicleta-fantasma que fora lá afixada era irregular e que deveria ser retirada dali (leia mais sobre as bicicletas-fantasmas na Grande Florianópolis).

Isso me causou espanto, mas não me deixou abater. Falei que elas não eram irregulares e que o CTB não impedia que uma bicicleta fosse pintada na via. O engenheiro mostrou-me uma versão do Código (e, provavelmente, de regulamentações complementares) que mostrava as sinalizações verticais (como placas) e horizontais (como faixas de pedestres e bicicletas no asfalto) que poderiam ser feitas, inclusive com as dimensões que deveriam ter cada uma. Falou-me também que lá na SC-401 não era lugar de o pessoal treinar e correr e disputar racha de bicicleta, alegando que era para esse pessoal treinar em ginásios e locais apropriados (onde há um velódromo aqui em Florianópolis?). Apesar de discordar disso, reiterei que não falava do pessoal que treina por lá, mas sim do ciclista urbano que tem que se locomover na região e, para isso, passar pela rodovia. Concordamos que o local de o ciclista andar nessas estradas era no acostamento, quando este existisse e não houvesse ciclovia, ciclofaixa ou lugar mais apropriado.

Ele me mostrou o livro e, após ser indagado, falou que não havia sinalização para bicicletas. Parece que havia saído uma regulamentação nova para padronizar as ciclovias e as ciclofaixas, que agora têm que ser pintadas de vermelho, destacando-se no asfalto cinzento. Mas, no livro que ele me mostrou não havia nada específico para essa demarcação. Ou seja, não é proibido fazê-las, entretanto elas não estão devidamente regulamentadas, mas isso não impede que elas sejam feitas de modo oficial pelo governo do Estado.

Apenas para finalizar a discussão, ele, de início, pensou que eu queria que lá fosse feita uma ciclovia no acostamento (se bem que não seria uma má idéia!). Chegou a dizer que o acostamento não serve para o pessoal treinar ou andar de bicicleta, mas, inteligentemente, voltou atrás, pois o CTB diz que é lá que a bicicleta deve andar quando não dispõe de local mais adequado. Falara-me que o acostamento era para o caso de um carro que tivesse algum defeito ter que ir para lá e que o acostamento não era local exclusivo para bicicletas. Mas creio que depois ele me entendeu que não pretendia que aquele acostamento fosse uma ciclofaixa exclusiva para os atletas treinarem, mas que era uma sinalização interessante para avisar aos motoristas que por ali também passavam ciclistas.

Fui orientado a fazer uma autorização ao presidente estadual do Deinfra, engenheiro Romualdo Theofanes França Junior, solicitando a inclusão dessa sinalização horizontal nas rodovias estaduais. Eu pretendo colocar as medidas do molde oficial da prefeitura de Florianópolis, disponibilizadas pelo Ipuf. Se bem que acho que vou verificar se há uma sinalização da prefeitura para calçada compartilhada, por onde transitam ciclistas e pedestres. Afinal, é pelo acostamento que tanto um como outro são obrigados a utilizar em várias das rodovias estaduais que não têm calçada e, muito menos, ciclovias.

Bicicleta no Parque de Coqueiros. Prefeitura de Florianópolis já regulamentou a sinalização. Falta ainda o governo no Estado de Santa Catarina contribuir para a educação no trânsito e promoção de hábitos saudáveis. Foto: Ciclista Fabiano.

Sobre a bicicleta-fantasma, seria bastante útil a realização de vários abaixo-assinados para pedir que ela permaneça ali. Aliás, melhor ainda, que elas sejam regulamentadas para que nenhum outro ciclista morto por veículos motorizados deixe de ter a sua justa homenagem embelezando, serenamente, a paisagem, provocando as mais diversas sensações e, acima de tudo, reflexões.

Bicicleta no Parque de Coqueiros.

Bicicleta-fantasma afixada em Jurerê em frenta às mais de 300 pessoas que participaram da "Passeata pela Vida". O governo do Estado pretende retirá-la de lá. Foto: Sharom.

Surpresa nas ruas de Floripa

Este domingo, eu estava a pedalar pelas ruas de Floripa, seguindo em direção à Ponta das Canas, a fim de participar do evento “Um Dia de Saúde e Alegria”, quando me deparei com uma bicicleta pintada na geral do Pantanal (R. Dep. Antônio Edu Vieira). Era de um dos modelos que são encontrados no disco virtual do Apocalipse Motorizado, pintada ao lado direito da rua para quem vem do Sul em direção ao Norte da Ilha, no mesmo sentido de circulação dos automóveis. Havia apenas duas dessas bicicletas pintadas nessa rua, sempre no mesmo sentido da via. O caminho para quem vai do Norte ao Sul da Ilha não estava demarcado. Passei direto sobre elas e acabei não parando para fotografá-las.

Quando voltei para casa, cansado após pedalar mais de 70km, fui conversar com umas pessoas que poderiam ter feito tal pintura. Fui informado que ela também havia sido feita na geral do Córrego Grande (R. João Pio Duarte Silva). Mas mesmo assim fiquei sem saber quem é que acabou por pintar essas bicicletas nas ruas.

Pedalando mais um pouco nesta terça-feira, encontrei mais algumas bicicletas na rua. Além das duas do Pantanal, vi mais uma na Trindade (R. Lauro Linhares), duas na geral do Córrego Grande e mais duas na Carvoeira (R. Cap. Romualdo de Barros).

Bicicleta pintada na R. Lauro Linhares, na Trindade.

Bicicleta pintada na R. Lauro Linhares, na Trindade.

Bicicleta pintada na R. João Pio Duarte Silva, no Córrego Grande.

Bicicleta pintada na R. João Pio Duarte Silva, no Córrego Grande.

Bicicleta pintada na R. Cap. Romualdo de Barros, na Carvoeira.

Bicicleta pintada na R. Cap. Romualdo de Barros, na Carvoeira.

Essas bicicletas pintadas no asfalto sinalizam que naquelas ruas passam muitos ciclistas. Elas indicam àqueles que não sabem que a bicicleta é um meio de transporte – por sinal bastante eficiente – e que o lugar dela é na rua. São poucos os motoristas que conhecem a legislação de trânsito referente à bicicleta, inclusive aquelas leis mais básicas, como a que o ciclista (e o pedestre também) têm prioridades em relação ao transporte motorizado.

Quanto às pinturas, todas elas se encontram em apenas um sentido da via, próxima ao bordo direito da rua, no sentido de circulação. Todas as ruas estão com essa demarcação em apenas um de seus lados e as bicicletas pintadas não estão contínuas formando uma ciclofaixa cidadã. O molde utilizado não foi o molde oficial que a prefeitura utiliza – e que já foi prometido aos ciclistas há mais de 2 meses.

Eu desisti de saber quem é que demarcou as ruas com essas pinturas de bicicleta. Mas se a pessoa quiser se manifestar terá os meus parabéns! Ela realizou uma ação muito positiva para a cidade. As bicicletas pintadas na rua trazem uma maior visibilidade ao ciclista – e, com isso, diminuem os riscos de acidentes.

Essas pinturas, tão difundida em outras cidades – apenas em São Paulo (SP) mais de 50 km de ruas e avenidas as contêm -, estavam demorando para reaparecerem em Florianópolis. Esperamos que elas se espalhem rapidamente por aí. E que, além de maior segurança aos ciclousuários, mais gente possa ver a bicicleta como alternativa para se realizar os deslocamentos urbanos.

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