(Conexão Sul 2013) Dia 1 – Florianópolis à Cachoeira do Amâncio

O dia começou pregando peças.

Chovia forte às 6h30. Obnubliava na Grande Florianópolis, nuvens pesadas e cinzas.

A saída foi atrasada em cerca de meia hora. Encontraram-se sob a ponte Pedro Ivo 25 molhados ciclistas. A alegria, surpreendentemente, abria as emoções em cada rosto, contrariando o tempo fechado, sisudo.

Numa das mais novas praças de Florianópolis, onde antes erguia-se o condenado edifício que servira de sede à Federação Catarinense de Remo, esporte que ainda sobrevive ao lado daquele rincão, o alongamento unia cada pessoa, conhecida ou desconhecida. Estavam lá por um motivo: fazer uma das melhores viagens de suas vidas. O lugar é desconhecido, a provinciana Vidal Ramos, não muito distante dali. Apenas 200km por estradas vicinais, que poderiam ser feitos em um único dia.

Mas não era essa a intenção. O caminho, e não o destino, era o fim. Pelo caminho aproveitaríamos as interações existentes, as sombras, os rios, as subidas e as descidas. Mas, principalmente, nos aproveitaríamos. Conhecer-nos-íamos  cada vez mais, sob os olhares daqueles que conosco estavam.

O caminho era um tanto curto, mas não estávamos lá pela velocidade, para chegar antes. Desses 25, quase ninguém usava roupas de ciclista. Eu era outlier-mor. Não por não querer trajar-me com algodão, mas simplesmente pq as roupas de ciclismo são confortáveis para um dia inteiro sobre a magrela. Simplesmente porque, com ela, me sinto bem. E a maioria sentia-se bem com roupas leves, muitas de algodão, alguns até de chinelos. Bicicletas simples convivendo com camelos um tanto mais custosos. Não era isso que nos diferenciava. A simples presença da bicicleta já era, por si só, motivo suficiente para nos unir, uma união inquebrável, inrupta, incapaz de ser segregada por esses fatores materiais.

Mas estávamos lá, sob a ponte, às 9h30, aguardando a chuva parar para nos alongar. A roda incluiu pessoas diferentes e até seres vivos diferentes: as poucas árvores lá presentes, que nos serviam de choupana contra Sol e chuva e de parceira de abraços, sendo até mesmo componentes da roda.

Uma pessoa ficou: apenas nos daria a força inicial. Fúria era ele. Apelido de quem enfrentou a fúria climática divina apenas para mandar um “até logo”.

Florianópolis tem cachoeiras feitas especificamente para os ciclistas se refrescarem. Elas ficam na passarela sob a ponte e só funcionam quando está chovendo e logo depois. Ao lado delas, obras de arte marginal formam um mosaico de diferentes significados, conotações, realidades e qualificações técnicas e gráficas.

Fomos pelo Estreito, passando ao largo de onde a Velha Senhora, Ponte Hercílio Luz, aguarda os materiais ficarem prontos para montarem as estruturas que se lhe podem salvar. O canteiro de obras guarda esperanças nos corações de muitos desterrenses, que esperam ver Dama de Ferro de volta à ativa, após aposentadoria compulsória de três décadas.

Onde a Ciclofaixa de Domingo, transforma-se em trifaixa, o som de uma música demoníaca atraía-nos. Eram guitarras, instrumentos eletrônicos e um som batido e ritmo que ecoavam de um palco recém-montado. Era como se o som estivesse sendo passado. Para nossa surpresa, constituía-se na Marcha para Jesus.

Em frente, na antiga geral do Barreiros, bairro de São José, a primeira pessoa a nos fotografar. Rosana da Rosa deve compartilhar nossas fotos pelo Facebook (tomara). Perguntou se fazíamos isso com frequência. Existe todo ano, na época do EREB, o Encontro Regional dos Estudantes de Biologia da Região Sul. Ao menos tem sido assim desde 2010. Ilha do Mel e Maquiné foram os últimos destinos. Rosana, de bike, e nós, seguimos.

Pegamos a marginal da BR-101, sendo muito bem recebidos. Diversas foram as buzinadas de apoio. Era impressionante a fila indiana de 23 bicicletas a trafegarem, lotadas as cestas, alforjes, sacos de dormir, isolantes e barracas.

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Pouco antes do Centro de Biguaçu, furou um pneu mariliesco. Um momento interessante para começar uma das brincadeiras do dia. Com ela, descobrimos que “fomos na feira e compramos maçã, pêra, amendoim, limão, melancia, goiaba, morango, abacate, chocolate, jabuticaba, jenipapo, gengibre, paçoca, capuchinha, alface, hortelã, couve, pepino, cenoura, tomate, banana, ovo, uva, batata, wasabi, feijão, melão, beterraba, agrião, cebola, abacaxi, brócolis, jiló, mandioca e Spirogyra”. Ainda não sei o nome da garota com quem travo esse desafio botânico de memória (esqueçam o ‘ovo’ ao interpretar o ‘botânico’).

Ficamos um bom tempo travados no início da Estrada do Café, na parte inicial de Três Riachos. Almoçamos no Restaurante da Gorete, em promoção exclusiva para nós. Também foi lá que encontramos um grupo de cinco ciclistas que haviam se atrasado. Éramos, agora, 29 pessoas em bicicleta. A parada no mercado abasteceu e reabasteceu todos com mantimentos.

Mas também nos atrasou. Seguíamos por Sorocaba de Dentro até o desvio para a Cachoeira do Amâncio, destino de nosso acampamento. Mas aí já eram 17h. De fato, pouco aproveitou-se o potencial da cachoeira. Cumpriu-se a promessa de se nadar pelado, eles e elas. Não fiquei de fora. Poucas pessoas de fato aproveitaram o dia de hoje para olhar a cachoeira. Apenas 5. De onde estão nossas barracas, não é possível observar todo o potencial de uma cachoeira. Mas a piscina natural, com corda para se lançar à água, não deve em nada para o aproveitamento do lugar.

Causo: Senhora Cidade Alerta

Num dos desvios no distrito de Sorocaba, paramos para perguntar o caminho para uma senhora da região. Moradora há 30 anos do lugar, disse que havia muito tempo não iria para a cachoeira do Amâncio. E que, qualquer problema que acontecia na região se dava por ali. Não chegou a especificar nada de especial. Recomendou que não deixássemos nossas bikes na estrada de terra e que a levássemos conosco. Lembrou que um adolescente falecera na cachoeira no ano anterior. Enfim, tentou, de todas as maneiras, desqualificar o lugar, um ponto turístico próximo ao seu lar. Lembrou-me muito a reação da minha avó após ver o programa “Cidade Alerta”. Num período do dia, ela fica contente e alegre. Após assistir à televisão, fala só de desgraças e situações negativas, empesteando o ar com maus fluídos.

Para mim, ficou evidente: a melhor vista é da Cachoeira em si. Já o melhor local para se ficar, nos pontos mais fundos da piscina natural à nossa frente, situada numa das primeiras trilhas de acesso à cachoeira.

Esta parece estar mais vazia do que o usual. Denota que, mesmo com a chuva, já esteve recentemente com maior vazão, mas não muito mais. Vi um filete de água sair de seu caminho e umedecer a rocha semisseca na qual eu pisava, indicando um pequeno aumento em sua vazão. Ao lado dela, um pequeno descampado guarda lixo. Muitas garrafas de cerveja, refrigerante e até de aguardente denotam a atitude não sustentável de maus visitantes. Ao lado delas, dois pequenos montes de tijolos demonstram que é usual o uso do fogo próximo à água.

As rochas demonstram que o local já foi de maior envergadura. Rochas hoje nuas moldadas pela ação da água com o tempo estão expostas, complementando o paredão por onde escoem as águas. Não me recordo de nenhuma pequena usina hidroelétrica (PCH) na região para explicar o fenômeno.

Muitos insetos puderam provar de nosso sangue. Mutucas, mosquitos e, como não poderia deixar de ser em um local com água corrente, borrachudos. Muitos. Demais até. Pego a me imaginar em como é aqui no verão.

A piscina natural cujas águas ouço fluir agora, próxima à barraca, tem solo de rochas polidas, de variados tamanhos, ou ainda com partes cobertas por terra ou areia. Em comparação ao caminho aquático para se ver a cachoeira, é um alívio para os pés. Existem vários acessos à essa piscina, incluindo pelo ar, por uma corda presa a árvore. Foi dessa piscina, um poção, que pegamos água para beber, fazer sopa, esquentar comida e lavar roupas e utensílios de cozinhar.

A noite foi seguida por rodas de conversas ao lado de uma fogueira improvisada, a cerca de um metro da porta da minha barraca. As melodias de Caetano Veloso foram as mais cantadas hoje. Os sons de violão e flauta embalavam-nos harmonicamente, enquanto a sopa era aquecida. Uma canequinha para cada um. O chá de manjericão, erva baleeira e junco combina com o clima de descanso que se sucedeu. O céu, que abriu durante quase todo o dia desde que nos viu alegres sob a ponte, enche-se de nuvens agora também. A lua e a umidade não nos permitem mais ver as estrelas, mas criam um clima propício para que todos possam, serenamente, dormir.

Frase do dia: Gelol no c* do outro é refresco.

Distância percorrida: 55km.

Fabiano Faga Pacheco

Cachoeira do Amâncio, Biguaçu, 9 de novembro de 2013, às 22h47.

CONEXÃO SUL 2013

Relatos

Dia 1 – Florianópolis à Cachoeira do Amâncio
Dia 2 – Cachoeira do Amâncio a Nova Trento
Dia 3 – Nova Trento

Fotos

Camila Claudino de Oliveira

Fabiano Faga Pacheco / Bicicleta na Rua
Dia 1: Facebook       Ipernity
Dia 2: Facebook       Ipernity
Dia 3: Facebook       Ipernity

João Ricardo Lazaro

Patricia Dousseau

Pedais dominicais – 28/07

Mesmo com o frio, domingo promete agitar as pessoas que curtem pedalar ou que querem realizar alguma atividade física. Pessoas de variados gostos ciclísticos terão vez.

Em Florianópolis, teremos a inauguração da Ciclofaixa de Domingo, a partir das 8h até às 17h, em Coqueiros, na porção continental.

Às 9h30, um passeio ciclístico em homenagem aos trabalhadores da indústria sairá do Estreito. E logo após, tem início a Escola Bike Anjo para quem quer aprender a pedalar e a como se comportar no trânsito das cidades. Maiores informações aqui.

Já quem quiser algo um pouco mais puxado pode optar pelo Pedalzão de Domingo que os Amigos da Bike SC farão. Com saída às 7h45 do Alemão Bike Shop, na Avenida Elza Lucchi, na Palhoça, e ponto de encontro na loja do Kobrasol meia hora depois, os ciclistas estão convidados para um pedalada com destino a Governador Celso Ramos.

Balneário Camboriú

Mais uma vez ciclistas de Balneário Camboriú vão às ruas para pedir a implementação do plano cicloviário do município, em particular a ciclovia na Avenida Atlântica, uma das principais da cidade. Eles irão se encontrar às 10h, na Barra Sul e seguirão rumo à Barra Norte, retornando na altura da 2101.

:: Confirme sua presença pelo Facebook

Os primeiros 50 que chegarem ganharão como brinde uma plaquinha como as das fotos abaixo.

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Entendam a problemática que envolve Balneário Camboriú nas palavras do presidentes da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú (ACBCC):

logo - ACBC&CCaros ciclistas e simpatizantes da bicicleta de Balneário Camboriú e região,

Está chegando a hora para que, dentro do processo democrático deste país, possamos demonstrar toda a nossa insatisfação com relação a execução do projeto do plano cicloviário de Balneário Camboriú. Projeto este que já está no papel desde 2010 e que muito vagarosamente vem sendo executado, não levando em consideração os verdadeiros objetivos de uma ciclovia. Dentre estes objetivos está a contribuição direta para a melhora da mobilidade urbana de uma cidade. Para que isto aconteça, precisamos pedalar por ciclovias seguras, que é outro objetivo desta, e o que vemos hoje em Balneário Camboriú é a colocação de uma faixa vermelha no chão e a ela é dado o falso conceito de ”ciclovia”.

Não há uma orientação, tanto para os ciclistas como para os motoristas, de que, ao trafegarem por uma via onde existem só estas faixas pintadas de vermelho, se deve ter o máximo de atenção por uma obra inacabada. Obra esta que, ao ser liberada para o uso e estar inacabada, gera a maior insegurança para todos que trafegam por ali.

Por não estar sinalizada corretamente há uma tendência da invasão dos automóveis para cima desta. Consequentemente pode vir a atingir um ciclista que se acha seguro por estar pedalando numa falsa ciclovia. Nós da ACBC temos como objetivo fazer com que, ao executarem as obras de uma ciclovia, esta seja implementada com toda a sua infraestrutura completa, para que o verdadeiro objetivo da ciclovia seja sempre o de gerar a devida segurança aos ciclistas que por ela trafeguem, não dando margem para que os acidentes aconteçam.

Por isto convidamos a todos para que participem do ”EVENTO PRÓ-CICLOVIAS” que acontecerá no domingo dia 28/07 as 10h da manhã, com saída da Barra Sul.

Atenciosamente

Henrique S. Wendhausen
Presidente – ACBC

Lages

A cidade da serra catarinense terá a segunda edição do passeio ciclístico da Estação Bike, que conta com apoio da Bicicletada Lages. Haverá sorteio de bicicletas e a idéia da secretaria de Saúde do município é mostrar os benefícios que o pedalar pode propocionar.

Lages 2013-07-28

Comemoração dos 60

O conteúdo abaixo foi originalmente produzido pelo jornal Hora de Santa Catarina e foi publicado na edição on line do periódico Diário Catarinense em 29 de setembro de 2011 (às 17h19). Você pode ler a matéria no site do DC aqui.

Atleta percorre correndo e de bicicleta todos os municípios de Santa Catarina

Carlos Duarte terminou a aventura nesta terça-feira, em Biguaçu, na Grande Florianópolis

O maratonista Carlos Roberto Duarte, 60 anos, percorreu todos os 293 municípios de Santa Catarina correndo de bicicleta. A aventura terminou nesta terça-feira, com a chegada em Biguaçu, na Grande Florianópolis.

A jornada durou 121 dias. O atleta, que é professor de educação física, percorreu cerca de 5,6 mil quilômetros. A aventura contou com o apoio de sua esposa, Maria de Fátima da Silva Duarte, também professora de educação física, que o acompanhou de carro.

Batizada de UNA Santa Catarina, a aventura foi idealizada para comemorar os 60 anos do maratonista, completados neste dia 27 de setembro.

Em Biguaçu, Carlos foi recebido pelo vice-prefeito, Ramon Wollinger. O atleta foi homenageado com uma medalha, uma bandeira da cidade e o com o livro A Saga do Casarão Born.

— É uma satisfação muito grande chegar ao fim desse desafio aqui em Biguaçu. Nestes 121 dias, surgiram dificuldades, mas com persistência e disciplina conseguimos finalizar no dia de meu aniversário, como havia sido planejado — disse o atleta.

Carlos foi recebido pelo vice-prefeito de Biguaçu, Ramon Wollinger. Foto: Prefeitura Municipal de Biguaçu / Divulgação.

Programação da Semana da Mobilidade na Grande Florianópolis

Abaixo, seguem alguns eventos já programados para ocorrer durante os próximos dias que fazem parte do calendário da Semana da Mobilidade Sustentável e da Semana da Bicicleta.

Florianópolis, domingo, 18 de setembro

O Floripa Shopping, no bairro Saco Grande, realizará, com apoio da CicloVil, o seu segundo passeio ciclístico, que percorrerá as ruas do bairro a partir das 9h.

 

Saiba mais:

Domingo é dia de pegar a bicicleta – conteúdo publicado no periódico Diário Catarinense.

Florianópolis, quinta-feira, 22 de setembro

A já tradicional Pedalada e Caminhada pela Mobilidade Ativa e Sustentável do Campeche vai começar às 8h, no trevo entre o Campeche e o Rio Tavares. Realizado pela Escola da Fazenda e pela ViaCiclo, espera-se reunir mais de 300 pessoas, que realizarão um percurso pela Av. Pequeno Príncipe.

Haverá sorteio de prêmios e equipamentos recreativos.

O Rio Tavares está tendo a construção de uma nova pista e de acostamento em andamento, em obra que não contempla os anseios dos ciclistas que trafegam pela região.

(clique sobre a imagem para ampliá-la)

 Biguaçu, sábado, 24 de setembro

 Biguaçu vai ter Ciclovia de Sábado! Saúde e lazer a partir das 9h.

 São José, domingo, 25 de setembro

São José terá passeio ciclístico a partir das 9h, saindo da Av. Beira-Mar, na Praia Comprida, ao lado da mini pista. O percurso será circular passando pela própria Av. Beira-Mar e pela Av. Pres. Kennedy. A pedalada não será longa e é indicada, inclusive, para crianças e pessoas que querem voltar a pedalar. Ideal para famílias.

Esse passeio é uma realização das entidades abaixo relacionadas.

 

(Conexão Sul 2011) Dia 1 – Florianópolis – Porto Belo

Desculpem-me por não atualizar o site tanto quanto surgem os acontecimentos relacionados à bicicleta, O Pró-Bici, o qual hoje secretario, as atividades acadêmicas e as pesquisas para a minha monografia não me permitem atualizá-lo com tanta freqüência quanto gostaria.

Entre sábado, 18 de junho, e quarta-feira, dia 22, estará acontecendo a versão 2011 do Projeto Conexão Sul. Este projeto, não oficializado pela universidade, está sendo tocado por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos e Educação Ambiental (GEABio). Entre os objetivos, sem dúvida está a divulgação da bicicleta como meio de deslocamentos, tanto de curta quanto de longa distância.

Entre esses dias, refletindo o movimento de intenso uso da bicicleta entre os estudantes, estará acontecendo a cicloviagem entre Florianópolis e Ilha do Mel (PR), na qual, na quinta-feira, terá início o Encontro Regional de Estudantes da Biologia da Região Sul – EREB-Sul.

Minha vontade de participar desse projeto era grande, mas os desafios também eram enormes. Fora TCC e Pró-Bici, um outro problema me afetava há meses. Eu tivera um acidente feio durante o Audax Floripa 200km deste ano, realizado em 23 de março. Mesmo com dor, pedalei os demais 185km que me distanciavam da chegada. Mas a queda não ficou barata: depois de um mês, descobriu-se que ganhei, com ela, um tipo de hérnia de disco! Ao saber da cicloviagem, meu desafio pessoal estava lançado! Dá-lhe fisioterapia para minorar a dor.

Após passar grande parte das duas semanas anteriores estudando, consegui finalizar as atividades a tempo para poder participar dessa pedalada. As dores praticamente terminado nesse meio tempo também (mais de dois meses após o acidente) e obtive, às vésperas, os equipamentos de bicicleta que me deixaram confiantes em poder realizar a pedalada sem maiores preocupações. Bagageiro decente, um novo capacete (uma vez que o outro teve que ficar indisponibilizado quando protegeu-me a cuca na queda) e alforges! Sim, antes eu utilizava malas e mochilas para o traslado de minhas coisas.

Arrumei praticamente tudo na véspera, separei a roupa que esperava usar (e troquei antes de sair de casa, devido ao tempo bom), só ficando as coisas de geladeira para serem guardadas. O horário combinado de saída era às 7h30, entretanto eu teria que fazer algumas atividades no comércio, as quais só faria após às 8h. Esperava encontrá-los pouco após sair para pedalar, mas não foi isso o que aconteceu…

Fui dormir mais ou menos às 5h30, resolvendo as últimas questões de minha ausência e arrumando as coisas. Bom, demorei 20min para fazer o que faria pela manhã e algumas horas para acordar. Às 14h apenas  saí de casa e segui ao encontro da galera, que entre às 8h e 9h já haviam de partido.

Despedi-me de minhas vizinhas e saí. Bem no começo de meu caminho, ainda na Ilha de Santa Catarina, uma surpresa: Um grupo de pouco menos de 10 pessoas terminava uma prova de caminhada. Eles estavam há 8 dias dando a volta à ilha, cansados, mas preparando-se para finalizarem festejando.

No Balneário do Estreito, um guri numa bike grande para o seu tamanho puxou conversa comigo (-Maneira a sua bike!). Olhando a barraca que levava, disse-me que sempre quisera acampar, mas nunca tivera oportunidade. Minha mãe, quando criança, acampou por todo o litoral brasileiro com os pais e os irmãos, enquanto eu só fui acampar pela primeira vez aos 17 anos, embora a vontade imensa. Meu avô recentemente se desfez de vários de seus equipamentos de escotismo. Eu também, ao saber que alguém é bandeirante ou escoteiro, converso com um misto de inveja e fascinação. Acho também uma pena a pouca adesão  – relativamente – ao  contato com a natureza e às suas maravilhas.

Evitei quase todos os trechos mais perigosos, desviando por algumas das poucas ruas paralelas existentes nas cidades catarinenses. Usei a ainda não inaugurada Beira-Mar do Estreito (Avenida Poeta Zininho). Foi emocionante ver a população utilizando-se daquele espaço ainda livre de automóveis. Um parque poderia ser melhor opção do que mais 3 pistas para o tráfego supostamente fluir melhor à Ilha da falta de mobilidade.

Evitei trechos da PC3 (Av. Leoberto Leal, em São José) seguindo pela R. Heriberto Hulse, de mesmo nome do estádio do Leão do Sul, o Criciúma.

Pouco antes das 15h30 já estava no Prado, em Biguaçu, quando o Arthur Fleury (vulgo Panda) falou-me que eu estava em bom ritmo, que uma galera já havia chegado em Tijucas e que se pensava em seguir rumo a Itapema. Há dois caminhos para se alcançar Tijucas. Um é pela BR-101, com os carros agora andando a 110km/h como velocidade mínima, como de praxe no Estado vice-líder em mortes por imprudências no trânsito. O outro é pela chamada estrada do Café. Falei com o Max Levy, o mesmo que foi para o Chile em janeiro do ano passado, antes de sair de Floripa e ele me aconselhou fortemente a ir por esse caminho.

Em Biguaçu, fui por dentro de Três Riachos, e logo me deparei com paisagens mistas de pasto e vegetação. Muita pecuária e pasto inutilizado. O caminho dá cinco quilômetros mais longo, mas a sensação térmica é bem diferente. É mais frio que pelo asfalto da BR-101, mais seguro e mais agradável, embora os carros não forneçam tanto vácuo, um dos motivos que ouvi em defesa da rodovia federal. Em Três Riachos, a pista dá voltas e o asfalto e a movimentação de automóveis não deixam as ruas calmas. A vegetação e o verde dos morros chamam a atenção. Virei em direção a Sorocaba. O asfalto terminou e começou o chão batido. O sinal do celular apagou-se. Ao contrário do asfalto, a sensação térmica era amena e agradável. Desbarrancamentos podiam ser observados em alguns trechos do caminho. Muitas espécies exóticas, como Pinus e eucaliptos davam os contornos gerais da vegetação. Em um dos sítios do lugar, um casal de pavão chamou-me a atenção. Um pássaro negro e um anu branco também percebi quando de dia. Sem contar as garças, patos e gansos.

Antes de Sorocaba virei em Estiva. Mesmo chão batido, mas quase sem morros. às 17h30, mais ou menos, avistei a BR ao longe. Cheguei a ela e….. não havia como cruzá-la com uma bike pesada. Havia muretas em toda a extensão. De lá, optei por voltar à Estrada do Café em vez de seguir pela BR. Hoje acho que não foi uma boa escolha. [Obs.: agora observando pelo mapa, navegando pela internet, vejo que essa volta por Estiva, recomendado por moradores foi o meu erro, deveria ter adentrado Sorocaba].

O Sol havia se recém-posto.

Cheguei no povoado de Estiva e, já de noite, um dos caras de lá passou-me uma informação incorreta que aumentou em alguns quilômetros meu caminho e meu cansaço. Durante todo o percurso, eu mal parei, ao contrário de meus amigos, que aproveitaram para banhar-se em rio! Bebi 1,4L de água e 0,5L de gatorade antes de encontrar meus colegas, além de mais 0,8L de Powerade, água e SUUM. Alimentei-me basicamente de pãezinhos, carboidrato em gel (GU e VO2) e barras de proteína. Queria parar pouco para tentar encontrá-los. A fase noturna de minha viagem solo não permitiu isso.

Entre Estiva, Areias de Cima, Areias de Baixo, Sorocaba do Sul e Timbé, o frio, a falta de iluminação, o cansaço, as irregularidades do chão batido, as variações de relevo imperceptíveis a longa distância foram, sem dúvida, os maiores desafios e o que me ajudou a seguir mais devagar. Se de dia eu podia observar e me programar para a próxima pedalada – e fechar os olhos com a passagem de veículos que levantavam poeira -, de noite a luz dos carros e dos postes rarefeitos eram a minha chance de acelerar. Quase todas chances, por sinal, vans.

Se a noite era inimiga da velocidade, era amigo do contemplar do céu. A Lua somente apareceu bem mais tarde e permitiu que as estrelas pudessem mostrar todo o seu esplendor no céu limpo longe da civilização. Uma cena curiosa foi a sensação falsa da movimentação de um avião vista de uma subida de morro, parecendo fazer movimentos erráticos e a pousar no mato, tal qual um disco voador. Um dos morros na Estiva cansou-me bastante e tive que empurrar a bike por uns metros tanto acima quanto para baixo, pois não conseguia ter noção exata da declividade do morro. Já no plano, minha velocidade era consideravelmente maior que nas mais íngremes descidas.

Em Areias, poderia ter cortado caminho cruzando um morro em direção a Timbé, mas optei por seguir pelo plano via Sorocaba. Essa escolha pareceu-me mais acertada pelas circunstâncias. Cruzar Timbé foi um sacrifício. O chão batido é muito irregular e a falta de iluminação não permite controlar a velocidade e a direção. Minha salvação aí foi um motorista que, por alguns quilômetros ao final do trecho, iluminou-me o caminho e me permitiu fazê-lo e bom tempo.

Margeei o Rio Tijucas e cruzei a Ponte Bulcão Viana, uma construção de metal que impressiona. Tijucas pareceu-me uma cidade muito simpática, com praças, construções em estilo açoriano, neoclássico e eclético que chamam a atenção na composição da paisagem. Quase todas as ruas são de paralelepípedo ou de lajota, o que, se por um lado dificulta os automóveis de andarem muito rápido, também prejudica o deslocamento do ciclista. O retorno à civilização, às 20h30 mais ou menos, significou o retorno do sinal do celular. Panda ligou-me, avisando de que levantaram acampamento em Porto Belo.

Eu já não estava muito distante. Cruzei a R. Santa Catarina, a BR-101 por baixo e, pela rua R. Euclides Peixoto, no bairro Santa Luzia (a Estrada Geral do bairro), deparei-me com trechos com paralelepípedo, terra (muito) batida e asfalto. Às 21h48 saí de Tijucas, tranqüilo e segui por Porto Belo. numa estrada de terra e pedras. Entrei no loteamento em que meus colegas acamparam, usei o celular, mas não consegui falar com eles. Não encontrei a saída e segui rumo ao ponto de encontro, o qual vejo daqui de onde estou. Num posto, comprei uns biscoitos e tentei usar o celular. Interessante como a mudança de código de área de 48 para 47 confunde as chamadas. Peço desculpas se você que lê, por ventura, acabou recebendo telefonemas meus na alta noite.

O Max conseguiu me ligar e, poucos minutos depois, no mesmo acampamento num loteamento do Programa Minha Casa, Minha Vida em que parei para olhar as barracas estava eu. Estou agora na barraca do Max de Roberta (estudante de Geografia), onde foram colocadas as coisas da galera, aumentando o conforto nas demais barracas. As bicicletas estão do outro lado, viradas a um rio que corre a poucos metros daqui. Isso explica não ter conseguido vê-las a primeira vez que passei. Apenas o Max me viu hoje. Uma névoa marinha deixa o ar mais denso, a umidade maior e a temperatura mais baixa. As bicicletas e os demais colegas as Biologia descansam/dormem bem. Vou fazer o mesmo.

Fabiano Faga Pacheco

Porto Belo, domingo, 19 de junho de 2011, às 1h49min.

[Obs.:  para os próximos dias estão agendados os relatos dos dois dias seguintes. Os demais, só quando voltar a ter acesso à internet]

Biguaçu: uma rua para as pessoas!

Ocorrerá neste domingo, 26 de setembro, como parte das atividades da Semana da Mobilidade Sustentável, o projeto Ciclovia de Domingo, no município de Biguaçu, na Grande Florianópolis.

Durante o dia todo, a Rua Rio Branco, no Centro, será ficará fechada para atividades de saúde, esporte e lazer.

Veja a programação completa da Semana da Mobilidade Sustentável em http://www.viaciclo.org.br/portal/mob-sust-2010.

Veja também:

Joinville fechará avenida para atividades de lazer – A avenida à beira-rio de Joinville é contemplada com o Projeto Joinville em Movimento e é fechada aos domingos para atividades lúdicas.

Ciclistas mortos na Grande Florianópolis após a vigência da Lei Seca

A seleção abaixo foi feita somente com base nas informações repassadas pela imprensa e pelos nossos colaboradores. Elas não se constituem nos dados mais verídicos devido à falta de informações repassadas pelos órgãos municipais, estaduais e federais sobre o assunto.

Florianópolis, 3 de agosto de 2008

Mais mais de um mês após o início da vigência da Lei Seca,  os triatletas Rodrigo Machado Lucianetti e Marcelo Occhialini Godoy foram atingidos enquanto treinavam no acostamento da SC-402, sentido bairro->centro, em Jurerê. O automóvel, conduzido por um adolescente embriagado de 21 anos, vinha no sentido contrário e atingiu ambos após atravessar a pista pela contramão. Rodrigo morreu na hora e Marcelo teve diversas fraturas.

Uma semana depois, mais de 300 pessoas participaram da Passeata pela Vida, na qual foi instalada a primeira bicicleta-fantasma (ghost bike) de Florianópolis e pintada uma estrella negra no asfalto. A bicicleta permanece lá.

O julgamento do motorista, Thiago Luiz Stabile, ainda não aconteceu, mas já houve a primeira audiência, na qual seus advogados tentaram insinuar que os próprios ciclistas atropelaram o automóvel. A batalha ainda continua.

Saiba mais:

Para não esquecer – Primeira ghost bike de Florianópolis – reportagem do Diário Catarinense, versão impressa, sobre a Passeata pela Vida.
Começa julgamento do jovem embriagado que assassinou triatleta após Lei Seca – o Jornal Notícias do Dia alerta sobre a primeira audiência do caso em questão.
Ato pede segurança para ciclistas – vídeo do programa SC no Ar.
Passeata faz homenagem a triatleta morto ao ser atropelado por motorista bêbado – reportagem do Diário Catarinense sobre a Passeata pela Vida.
Motorista embriagado provoca morte de ciclista em Florianópolis – reportagem do Diário Catarinense sobre a tragédia dos ciclistas.
Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamento e o caso de Jurerê – conteúdo do Bicicleta na Rua mostra que se pensava em retirar as bicicletas-fantasmas dos locais onde foram instaladas.

Florianópolis, 13 de setembro de 2008

Rodrigo Wilmar da Costa foi atropelado no acostamento da SC-401, em Canasvieiras, por mais um motorista embriagado, que dirigia um carro com placas de Viamão. Ele foi liberado após pagar fiança de R$2500,00.

Rodrigo bateu a cabeça numa árvore e caiu num declive. Foi resgatado, mas faleceu pouco depois no Hospital Celso Ramos. Uma bicicleta-fantasma foi pendurada no local do acidente. Vários meses depois, foi furtada.

Esse caso é emblemático porque o veículo em questão era roubado e, ainda por cima, estava com uma placa clonada!

Saiba mais:

Bicicleta fantasma em Canasvieiras – vídeo da RBS TV Notícias mostrando a instalação da ghost bike.
Ciclista morre atropelado em Florianópolis – reportagem do Diário Catarinense on line falando sobre o acidente.

Biguaçu, 6 de outubro de 2008

Esaú Roberto de Medeiros, participante do grupo MTB Floripa, voltava para casa, no bairro Fundos de Biguaçu, pela contramão da marginal da BR-101 no km 196,5 quando foi atingido pelo uma motocicleta na saída de uma rua.

Uma bicicleta-fantasma foi instalada no cruzamento, mas foi retirada pela família pouco tempo depois.

Saiba mais:

Dois ciclistas são vítimas de atropelamento – reportagem da versão impressa do Diário Catarinense.

Florianópolis, 28 de fevereiro de 2009

O caso mais curioso até agora. Ocorreu no km 6 da SC-401, próximo a onde faleceu Rodrigo Wilmar da Costa. As primeiras informações davam conta de que o Thiago Batista, de 22 anos, estaria com uma bicicleta quando foi atropelado.

Entretanto, após texto publicado neste blogue, novas informações surgiram. Thiago estaria na garupa de uma motocicleta. O piloto desta atropelou um ciclista e, neste instante, Thiago caiu, sendo atropelado por um automóvel que seguia pouco atrás. Tanto o motociclista quanto o motorista do automóvel fugiram do local. Thiago e o ciclista de identidade desconhecida faleceram.

Saiba mais:

A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados – artigo no blogue comentando as primeiras informações divulgadas.
Ciclista morre na SC-401, depois de 111 dias sem vítimas na rodovia – notícia veiculada no Diário Catarinense on line.
Homem é encontrado morto na SC-401 na Capital – primeira notícia, mais precisa, publicada no Diário Catarinense on line.

Florianópolis, 24 de março de 2009

Mais um acidente em Canasvieiras na SC-401, desta vez no km1 da rodovia. Lelio Calandrini Pietrowski Coelho, de 48 anos, foi atingido por um caminhão  com placa de São José quando pedalava pelo acostamento.

O motorista perdera o controle de seu veículo e atingiu o ciclista antes de cair num banhado.

Saiba mais:

Ciclista morre em acidente na Capital – conteúdo do Diário Catarinense on line sobre o caso.

São José, 19 de maio de 2009

Michel Paulo Vieira tinha quase 15 anos (faria aniversário no dia seguinte), quando foi atropelado na R. Vereador Arthur Mariano, no bairro Forquilhinhas. Ele teria esbarrado no meio-fio, perdido o equilíbrio e caído na pista, onde foi atingido por um caminhão que trafegava em velocidade baixa, mas sem dar a distância de 1,5m.

Os moradores fecharam a rua em protesto, exigindo calçada e lombadas. Ainda hoje, quem caminha pela região tem que se utilizar das ruas por falta de opção.

Saiba mais:

Adolescente morre atropelado por caminhão em São José – vídeo da manifestação dos moradores exibido no Jornal do Almoço.
Adolescente morre atropelado por caminhão em São José – reportagem do Diário Catarinense on line sobre o acidente.

Garopaba, 7 de junho de 2009

Erison Altino Baldança tinha 74 anos quando foi atingido por um automóvel na R. José Antônio Lobo, no bairro Ferraz. Ele chegou a ser socorrido de helicóptero, mas não resistiu.

Esse episódio foi significativo porque a cidade havia retirado a única ciclofaixa existente na cidade quatro meses antes, mesmo após protestos dos ciclousuários.

Saiba mais:

Cinco pessoas morrem nas estradas catarinenses no final de semana – informação do Diário Catarinense on line.

Paulo Lopes, 26 de novembro de 2009

Manoel Antônio Alexandre, de 87 anos, pedalava pelo km 254 da BR-101 quando um automóvel tirou-lhe a vida.

Um dos piores trechos para se pedalar pela BR-101 no Estado de Santa Catarina estão nessa cidade. As passarelas para travessia de pedestres encontram-se, também, em locais inadequados.

Saiba mais:

Ciclista morre em acidente em Paulo Lopes – chamada do Diário Catarinense on line.

Garopaba, 24 de março de 2010

Maria Reny Junges tinha 59 anos e pedalava pelo km 7 da SC-434, em Encantada, quando um ônibus lhe derrubou e passou por cima. O motorista não havia reparado a mulher de bicicleta e só foi avisado pelo acidente através dos passageiros.

Saiba mais:

Mulher morre atropelada por ônibus em Garopaba – informação ligeiramente incorreta publicada no Diário Catarinense on line.

A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados

Estava vendo meus e-mails quando recebi a notícia: um ciclista morrera atropelado na SC-401. Mais um guerreiro sobre duas rodas tinha-se ido. Na região da Grande Florianópolis, era o segundo ciclista morto após ser atropelado apenas este ano (o outro caso ocorreu em Biguaçu). Na capital catarinense, foi o terceiro caso desde agosto do ano passado, quando Rodrigo Machado Lucianetti morreu atropelado por um garoto bêbado.

O novo acidente já apresentava sinais de que aconteceria um dia. As duas bicicletas-fantasmas instaladas em Florianópolis situam-se a poucos quilômetros dali. Em ambas fatalidades, os ciclistas haviam sido atropelados quando pedalavam pelo acostamento (e por motoristas embriagados).

Neste último sábado, foi encontrado morto à beira da rodovia SC-401, no ingrato horário de 4h da madrugada, cheio de lesões pelo corpo, o garoto Thiago Batista. Vinte e dois anos era a sua idade, praticamente a mesma que a minha. Presume-se que ele era ciclista porque uma bicicleta e um capacete foram encontrados próximo ao seu corpo. Li o absurdo de que não se tinha certeza de que ele fora atropelado. Supondo-se que a bicicleta seja dele, informação fácil de se obter com os familiares, não restam dúvidas de que ele foi assassinado por alguém que se acovardou em prestar os primeiros socorros (primeiros socorros esses que poderiam lhe ter salvo a vida). Ou pior, por alguém que nem percebeu que tirou uma vida humana. Segundo uma das matérias, foi encontrada ainda outra pessoa, cujo estado de saúde era grave.

Pois bem, esse acidente, bem como vários outros que ainda virão são, de uma certa forma, previsíveis. Os habitantes da região sabem que, mais dia ou menos dia, terão procrastinado o retorno ao lar devido a algum acidente. Na SC-401, as placas que mostram 80km/h parecem querer indicar a velocidade mínima com que dirige na via.

A rodovia não é (ou raramente é) fiscalizada. Em dezenas de quilômetros, não existe um radar, lombada eletrônica ou outro equipamento para aferir a velocidade dos veículos. Também carece, como as demais rodovias estaduais da ilha, de maior patrulhamento para inibir atentados à vida. Quem se ferra com a frouxa fiscalização e com a falta de respeito dos motoristas, aliada à precária infraestrutura, são os pedestres e os ciclistas!

Calçada ao longo da SC-401 é praticamente inexistente, mesmo nos trechos urbanos. O acostamento desaparece em vários trechos (incluindo aqueles mais críticos, como próximo à UCAD). Mesmo nos  locais onde há acostamento, por vezes ele apresenta largura que não fornece segurança ao ciclista; outras vezes, o ciclista pedala sobre areia, terra, rochas e lama que o invadem.

Nosso governador já esteve diversas vezes nas cidades européias. Alemanha, Holanda, Suíça, em todos esses países há um enorme esforço em se promover o deslocamento por bicicleta, inclusive em detrimento ao automóvel. Afinal, carro é sinônimo de crise enquanto a bicicleta é um investimento no futuro (apenas para lembrar: ela melhora a saúde, não polui o ar, é um bom exercício aeróbico e desafoga o trânsito).

Posicionar-se a favor do uso da bicicleta segue a tendência mundial de posicionar-se a favor da qualidade de vida dos cidadãos. Investimentos na estrutura cicloviária e campanhas de conscientização e respeito no trânsito (voltadas principalmente aos motoristas) são necessários para que a SC-401 não se torne uma rodovia das mortes. Para tanto, vontade política é um bom começo.

Veja mais:

Bicicletas-fantasmas em Florianópolis para o mundo saber

Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamentos e o caso de Jurerê

Localização das bicicletas-fantasmas da Grande Florianópolis

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