Artigo: Prefeitura de São Paulo e a relação do poder público com os ciclistas

Como foi citado em uma troca de mensagem a relação da Prefeitura de São Paulo com os ciclistas é importante fazer um esclarecimento sobre a história dos ciclistas em São Paulo:

A bicicleta é oficializada pela Prefeitura do Município de São Paulo pela primeira vez em um órgão específico no administração, a pedido de Werner Zulauf, Secretário de Verde e Meio Ambiente, que designa Gunter Bantel como coordenador do “Projeto Ciclista”.

Trabalhavam com ele Luís Fernando Calandriello e Ana Maria Hoffmann, e outras pessoas que, me perdoem, não me lembro quem. Ouvia-se que Maluf não se preocupava (?!?) com bicicleta. O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno. As portas da SVMA sempre estiveram abertas. fizeram alguma pouca coisa e não andou mais por que a CET e Secretaria dos Transportes não permitiram.

Prefeitura com Celso Pitta: igual ao tempo Maluf: O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno. As portas da SVMA sempre estiveram abertas. Foi realizado muito pouco, a bicicleta continuou na mídia, mas não andou mais por que a CET e Secretaria dos Transportes não permitiram.

Prefeitura com Martha Suplicy (e Tatto Secretário): A pauta foi outra e praticamente nada se fez pela bicicleta. Quase esquecem da bicicleta no Plano Diretor, mesmo com Sérgio Luís Bianco, PT de carteirinha no bolso e uma das assinaturas do Programa de Governo de Marta, tentando abrir portas. O número de ativistas pró bicicleta era muito pequeno.

Prefeitura com José Serra: Já nos primeiros dias é instituído o grupo interinstitucional para trabalhar o projeto conhecido como GEF / Banco Mundial, que pretendia colocar projetos piloto de bicicleta como modo de transporte e instrumento ambiental em locais de demanda já existente e população de baixa renda. Foi a primeira vez na história que várias secretarias, órgãos e sociedade civil sentavam a mesa para trabalhar pela bicicleta. SVMA, Secretaria de Transportes, Secretaria de Obras, Gabinete da Prefeitura de São Paulo, SP Trans, CET, CPTM, Metrô; mais ANTP, ONG Bike Brasil, ITDP, Escola de Bicicleta, Sérgio Luís Bianco, e quem mais quisesse participar das reuniões. Casa aberta. Foi um maravilhoso trabalho que não teve bom termino por conta de problemas burocráticos daqui, Brasil. Tivemos apresentações de consultores internacionais e outros eventos. Fora isto devesse reconhecer o trabalho de Walter Feldman e Eduardo Jorge, (além da Stela Goldenstein, gabinete), que empurram o que puderam a bicicleta. Não andou por conta da CET, ainda restritiva às bicicletas e aos problemas dos pedestres. Faço questão de dizer que dentro da CET a bicicleta teve muitos inimigos, mais ainda os desconfiados, e “amigos” que não foram assim tão amigos da bicicleta; e funcionários que não estavam ligados diretamente a questão da bicicleta, que por razões internas não puderam mostrar a cara (e ainda não podem) e foram realmente amigos da bicicleta. Outro ponto: A CET é quem tem a responsabilidade legal sobre o trânsito e é de lá que deve sair a assinatura de responsabilidade técnica sobre qualquer projeto (lei federal).

O número de ciclistas atuantes nesta época cresceu, mas ainda era muito pequeno.

Prefeitura com Kassab: enquanto o Secretariado (dois anos) foi o do Serra, que havia sido eleito Governador, a coisa foi relativamente bem. Quando o Kassab realmente assumiu a questão da bicicleta acabou restrita a Ciclo Faixa de Domingo. CET continuou emperrada.

Surge a Bicicletada** e começa aparecer uma garotada nova nas reuniões, mas a recepção na prefeitura de Kassab não é a mesma. Ele só mantém a bicicleta na pauta por que o marketing político assim diz.

A Secretaria de Transportes Metropolitanos (secretário Portella), do Governo do Estado, Serra, começou a fazer os bicicletários da CPTM, uns poucos do Metrô, e as ciclovias da Radial Leste e do rio Pinheiros.

Prefeitura atual, Haddad: os grupos de ciclistas estão muito maiores, organizados e maduros, o que facilita muito. A questão da bicicleta está muito mais encaminhada do que antes dentro das secretarias da própria Prefeitura. A CET, como um todo, aceita com mais facilidade a questão da bicicleta. A sociedade está mais preparada para a bicicleta. Tem muito mais ciclista circulando nas ruas em dias de semana. Enfim, a coisa está muito mais fácil de acontecer.

E o diálogo, em tempos de eleição, sempre é regado a cafezinho passado na hora. Lembrando que o Estado de São Paulo é bem interessante – eleitoralmente. Vamos ver depois.

São muito poucos os que realmente gostam da bicicleta. A maioria sabe que a bicicleta está na moda e que vale uma aposta política nela. Tem gente que a pouquíssimo tempo disse NÃO para os ciclistas e agora está pedalando. Tem gente que historicamente sacaneou com pedestres, pessoas com deficiência, ciclistas e outros alternativos,… e agora vai pedalar, diz que gosta de ciclista, bicicleta? OPS?!
Minha preocupação está no ser inocente útil. Muitos de vocês vão de boa fé e entusiasmo, sem levar em consideração o passado. Posso dizer que o passado não mente. O tempo diz tudo a todos.

Arturo Alcorta*

* Arturo Alcorta é ex-presidente da União de Ciclistas do Brasil e mantém o site Escola de Bicicleta

** N.E.: A Bicicletada surgiu em São Paulo em 2002. No artigo, o autor se refere à participação de ciclistas da Massa Crítica nas reuniões com o poder público.

Setembro, mês da mobilidade

Setembro é tido no Brasil como o mês da mobilidade sustentável. Nos últimos anos, têm sido freqüentes os eventos e debates que reforçam essa idéia. Diversas cidades do país, por exemplo, envolvem-se politicamente na promoção de atividades durante o Dia Mundial Sem Carros, que ocorre em 22 de setembro. Há anos, grandes pedaladas ocorrem nesse dia em cidades como São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro. Com o trânsito cada vez mais caótico que tem assombrado até as médias cidades, fica premente que o planejamento urbano deve levar em conta alternativas aos meios de transporte que contemplem não apenas o automóvel.

Até a cidade estadunidense de Boston, conhecida por não ser amigável ao pedalar, está revendo seus conceitos e apostando em novas formas de deslocamento para seus cidadãos. Disponibilizou 600 bicicletas coletivas, investindo US$ 5,7 milhões para mudar sua imagem.

Outras cidades que, tradicionalmente, investiam preferencialmente na construção de novas pontes e rodovias estão se rendendo a mudar sua forma de pensar. Los Angeles, por exemplo, começa agora, tardiamente, a investir na requalificação de seu espaço urbano, incluindo a revitalização de passeios e a implantação de ainda tímidas ciclovias.

E já não era sem tempo! Os constantes engarrafamentos fizeram até que uma empresa de avião operasse vôos de um lado a outro da cidade por apenas US$ 4,00! O paradigma da rapidez dos veículos motorizados na cidade foi posto em cheque em julho deste ano. Numa espécie de Desafio Intermodal local, seis ciclistas desafiaram o avião e… chegaram com uma hora de antecedência!!!

Ainda assim, Los Angeles continua uma cidade dúbia! Mesmo com o fechamento para obras da principal rodovia americana, que passa pelo município, tendo ocasionado uma redução dos congestionamentos, os investimentos em sua ampliação superam em muito aqueles fornecidos à mobilidade por bicicleta e aos pedestres.

Enquanto algumas cidades ainda temem em enxergar em problemas as suas soluções, São Paulo, no último ano, tem trilhado um caminho mais próspero! Depois de a bicicleta ter chegado até à frente do helicóptero, no Desafio Intermodal realizado em 2009, vislumbram os ciclistas paulistanos um futuro melhor, embora ainda marcado de incertezas. A Ciclofaixa São Paulo, opção de lazer aos domingos, foi consideravelmente ampliada e, certeiramente, novos parques urbanos serão implantados no município ao longo de sua extensão. Pipocam projetos de  infraestrutura  cicloviária e, ao contrário de uma década atrás, quando planos cicloviários regionais foram criados e não saíram do papel, hoje São Paulo conta com forte pressão de associações de ciclistas para a implementação das melhorias.

A posição de Florianópolis também é dúbia. Enquanto são estudados novos locais para bicicletários, novas malhas cicloviárias e até mesmo um sistema de aluguel de bicicletas, vemos algumas obras fundamentais serem realizadas de maneira que não melhoram o trânsito e ainda colocam em risco a vida dos usuários da bicicleta. Exemplo mais gritante disso são as novas obras de nova pista na SC-405, no Rio Tavares. O aumento da velocidade dos automóveis nos trechos iniciais somados a uma diminuição de seu espaço de circulação põe em risco a vida dos ciclistas que trafegam pela região. Mesmo os planos do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) prevendo as novas obras, que incluem nova pista e acostamento, previam eles também passeios e ciclovia. O Ministério Público exigiu a construção de ciclovia em um ano no local, bem como a Comissão Municipal de Mobilidade Urbana por Bicicleta (Pró-Bici) também se manifestou favorável aos ciclistas.

Outros exemplos da cidade refletem melhor o tom dúbio do discurso. Oficialmente inauguradas entre um e dois anos atrás, as ciclofaixas feitas ao final do próprio Rio Tavares e na Cachoeira do Bom Jesus ainda hoje não foram finalizadas. Postes são um obstáculo constante e perigoso em ambos os trechos. Ao mesmo tempo, no Ribeirão da Ilha, a tão sonhada ciclovia que consta no projeto executivo transmutou-se em passeio compartilhado que sofre, assim como a ciclofaixa da Rua Bocaiúva, constantes invasões por automóveis.

Dessa maneira, a mobilidade na cidade, tanto para quem anda de automóvel quanto para quem usa a bicicleta anseiam, ainda, medidas mais eficazes para rapidez e segurança dos usuários.

Os ciclistas depositam suas esperanças na integração intersetorial que o Pró-Bici trouxe consigo. A população em geral aguarda ainda a corajosa aposta no BRT (Bus Rapid Transit), apontado como uma plausível solução por especialistas estrangeiros e locais durante o Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana. Para quem hoje consegue ver soluções de longo prazo em suas próprias cidades, fica claro que novas pontes não são o caminho para melhorar a mobilidade urbana e que apenas investimentos no binômio transporte ativo + transporte coletivo estão na resposta que equaciona as soluções de trânsito das cidades do futuro.

Chegamos agora no melhor período para se pensar a mobilidade de forma integrada e holística. Sem preconceitos. Sem medo de inovar. Setembro já chegou!

Fabiano Faga Pacheco 

(Vídeo) Enrique Peñalosa – Investimentos em calçadas, ciclovias e transporte público melhoraram a mobilidade em Bogotá

Reportagem da Renata Falzoni, pela ESPN, sobre a visita do político colombiano à ciclofaixa de lazer de São Paulo em dezembro de 2009.

O tema, entretanto, continua atual para todas as cidades brasileiras. Não será construindo mais pontes, viadutos e túneis ou duplicando pistas que a mobilidade urbana será melhorada, seja em Florianópolis, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Brasília, Recife ou em cidades de menor porte, como Guarapuava (PR), Jundiaí (SP), Caxias (RS) ou Pelotas (RS), para citas exemplos de locais que ainda podem fazer muito mais para o real transitar de seus cidadãos.

São Paulo amplia sua ciclofaixa de lazer

De 5km, a CicloFaixa São Paulo ganhará mais 10km  de pistas exclusivas para as bicicletas. A partir deste domingo, dia 23 de janeiro, a ciclofaixa da capital paulista ligará os Parques Ibirapuera, das Bicicletas e do Povo ao Parque Villa-Lobos. O horário de funcionamento está mantido e será apenas aos domingos e feriados, das 7h às 14h. O novo trecho cruza o rio Pinheiros em dois pontos, um pela Ponte Cidade Jardim e outro pela Ponte Cidade Universitária.

Veja também:

Campinas inaugurará ciclofaixa de lazer para os domingos e feriados

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