Palestra em Blumenau: “Pedalando pelo Brasil”

Pedro Wilson Bertelli já pedalou por quase todas as regiões do país. De norte a Sul, pelo litoral, serra, centro e extremo oeste, cruzou o Brasil de bicicleta. Nesta palestra, a ser realizada no Auditório da Biblioteca da FURB na quinta-feira, 22 de abril, o biólogo e professor universitário vai contar um pouco sobre suas impressões adquiridas sobre duas rodas.

Abaixo, reportagem publicada no jornal Folha de Blumenau, em 15 de dezembro de 2009, sobre a última viagem de Pedro Wilson Bertelli. Você pode ler a matéria no site do periódico aqui.

Professor atravessa o País de bicicleta

O biólogo e professor da Furb, Pedro Wilson Bertelli, começou nesta segunda-feira (14) a aventura que planejou durante os últimos quatro meses: viajar de bicicleta do Acre até Blumenau. A travessia foi iniciada em Assis Brasil, no Norte do País. Durante 41 dias, o professor vai passar por Amazonas, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, retornando no dia 25 de janeiro.

Professor terá de pedalar mais de 4,5 mil quilômetros para cruzar o País.

No total, o aventureiro vai percorrer mais de 4,5 mil quilômetros. Com 53 anos, o professor carrega na bagagem cerca de 40 quilos, sendo 10 deles de roupas, além de itens pessoais como máquina fotográfica, comida e água. Por dia, o professor deve consumir 15 litros da bebida, que representa o maior gasto da viagem. O peso da bicicleta é de 19 quilos.

Esta é a quarta jornada que o professor faz a bordo da bicicleta, sempre no final do ano. Entre 2004 e 2005, cruzou o País pelo litoral, de Blumenau a Natal, no Rio Grande do Norte. No ano seguinte, veio de Natal, passando por Brasília até a cidade da Oktoberfest. A última viagem foi feita de Belém até Blumenau. “Já desci o Brasil pelo litoral, médio-leste e centro-oeste. Só falta o oeste, o mais desconhecido”, explica.

Rotina

Até janeiro, o professor vai pedalar em média 120 quilômetros por dia em velocidade média de 15 quilômetros por hora. “Não posso pedalar muito rápido de manhã, preciso manter o controle. O dia seguinte deve ser melhor que o anterior para que possa aproveitar a viagem”, revela Bertelli.

Sobre as viagens anteriores, o professor conta que se surpreendeu com a pobreza das cidades do Norte e com o número de crianças às margens das rodovias pedindo comida. Em contrapartida, diz que viu muita carne sendo vendida a preços baixos para a população local por não atender às exigências de exportações.

Roteiro

Veja por onde o ciclista de Blumenau vai passar na viagem:

• Assis Brasil (AC)
• Rio Branco (AC)
• Porto Velho (RO)
• Humaitá (AM)
• Presidente Médici (RO)
• Pontes e Lacerda (MT)
• Rondonópolis (MT)
• Coxim (MS)
• Campo Grande (MS)
• Dourados (MS)
• Cascavel (PR)
• Joaçaba (SC)
• Blumenau (SC)

Blumenau: cidadania e qualidade de vida

O artigo abaixo foi originalmente reproduzido no Jornal de Santa Catarina, na edição de 20 de julho de 2009. Foi, também, publicado resumido na Folha de Blumenau do dia 22 de julho.

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ARTIGO

Motoristas, ciclistas e outros cidadãos

Somos conservadores! Sempre que se tenta transformar alguma estrutura predominante da cidade, levantam-se vozes a protestar, seguidas de outras a defender tais mudanças. Isso é da democracia e é bem-vindo, mas temos que superar essa característica de defender apenas os interesses próprios. Essas manifestações em causa própria ignoram os interesses do “outro” e até os da cidade e da cidadania.

A recente implantação de mais um trecho de ciclofaixa em Blumenau, iniciativa correta do poder público, desperta uma discussão importante: a questão da mobilidade urbana. Já sofremos sérios problemas devido à quantidade de carros circulando, à falta de planejamento urbano, ao descaso das empresas de ônibus e à inexistência de soluções alternativas. O transporte não pode ser tratado como uma conversa cotidiana entre leigos, deve estar embasada em informações e conhecimentos técnicos. A mobilidade deve ser tratada de forma integral, considerando todos os aspectos urbanos: paisagem, poluição ambiental, qualidade de vida, desenvolvimento econômico e a felicidade de todos.

É um erro tratar o trânsito de forma isolada, apenas com cálculos e planilhas. Suas causas e consequências são mais complexas e amplas, incidindo sobre todos os espaços e cidadãos, travando o desenvolvimento econômico e social de uma cidade. A solução passa por decisões estruturais e temos que tomá-las rápido: da prioridade absoluta para o transporte coletivo e o deslocamento não-motorizado às alternativas combinadas e complementares.

Não se trata de punir o usuário do carro, mas o fato é que estes precisam ceder espaço para outras formas de transporte mais eficientes, menos poluentes, mais agradáveis e baratas. As bicicletas são um componente fundamental para qualquer sistema de transporte urbano eficiente. Elas são complementares e cumprem um papel específico. Muitos gostariam, por exemplo, de sair de casa pedalando 10 minutos até o terminal de ônibus mais próximo, deixar a bicicleta lá, pegar um ônibus até o trabalho e caminhar mais cinco minutos. Por que não implantamos o sistema de bicicletas públicas?

Outro argumento utilizado é a topografia de Blumenau. O bom senso permite defender sua utilização prioritariamente nas diversas áreas planas da cidade e isso deve ser considerado pelos planejadores. Em relação à perda de vagas de estacionamento nos corredores de serviço, sugiro que utilizemos vários exemplos no mundo, onde o aumento de pedestres e ciclistas, a médio prazo, aumentou as vendas do comércio nestes pontos.

Temos que avançar e preparar a cidade para o futuro, não apenas com discursos ou verbas mal aplicadas e obras pouco planejadas. Sem planejamento urbano adequado e a vontade coletiva da sociedade, continuaremos sendo apenas uma cidade bonitinha, mas sem vocação para se tornar uma cidade influente e atraente no Século 21, cujo principal fator é a alta qualidade de vida urbana.

Por Christian Krambeck*

* Christian Krambeck é arquiteto, urbanista e professor universitário

Saiba mais :

Blumenau implanta mais ciclovias – reportagem do Jornal de Santa Catarina mostra as novas obras cicloviárias de Blumenau.
Antes que o mundo pare – artigo de Fabrício Cardoso fala do excesso de automóveis em Blumenau e estimula o debate sobre as novas ciclofaixas da cidade.
A polêmica sobre as ciclofaixas de Blumenau – artigo de Willian Cruz mostra sua opinião e relaciona os fatos que acontecem em Blumenau com o passado de San Francisco, EUA.
Blumenau: resposta do presidente da UCB – carta de Antonio Carlos de Mattos Miranda, presidente da União de Ciclistas do Brasil, sobre a polêmica acerca das ciclofaixas em Blumenau.
Cartas-resposta em favor das ciclofaixas em Blumenau – respostas de cicloativistas e sociedade civil a colunista que ironizou as novas ciclofaixas na cidade.
Comerciantes criticam áreas para ciclistas – reportagem no Jornal de Santa Catarina faz o contraponto com as queixas dos comerciantes.

Blumenau: resposta do presidente da UCB

Resposta do presidente da UCB – União de Ciclistas do Brasil à esta coluna publicada no jornal Folha de Blumenau. Leia mais respostas aqui. Mensagem retirada do fórum da Bicicletada Curitiba.

Ao Senhor Carlos Tonet – Jornal Folha de Blumenau,

De forma alguma quero responder a imbecilidades com mais imbecilidades ou patadas deletérias. Carlos Tonet acha que é o único que sabe fazer uso do vernáculo para atacar o que bem entender. Ledo engano. Tem muita gente que sabe escrever e convencer.

O que Carlos Tonet chama de aberração urbana e faz menoscabo é, em verdade, a redenção da mobilidade humana nas cidades. Se hoje existem poucos usuários nessas ciclofaixas e nas poucas ciclovias de Blumenau é porque a rede cicloviária ainda não tem conectividade. É comum que pessoas como Carlos, aparentemente usuário convicto de meios motorizados, reclamem da perda de espaços viários para a implantação de infraestruturas para as bicicletas.

Carlos Tonet não sabe que o mundo europeu, onde estão as moedas mais fortes do planeta, e onde a economia efetivamente gira, movendo boa parte do planeta, a bicicleta está sendo re-editada, re-inserida e assumindo importante papel na mobilidade urbana. Somente a Alemanha tem mais de 200 mil km de ciclovias junto às rodovias. Isto é somente 80 vezes mais tudo que temos nas áreas urbanas de todos os 5.562 municípios do Brasil. Hamburgo é a cidade do mundo com a maior extensão de rede cicloviária no mundo, com mais de 1.800 km de ciclovias e ciclofaixas.

Mas tudo isto é bobagem para Carlos Tonet, que tem seus minutos de glória e de respostas agora, e para quem não responderei mais. Deverei doravante solicitar espaço direto à direção do jornal para publicar artigos pessoais ou para prestar esclarecimentos sobre o ciclismo. Assim, poderei dizer aos blumenauenses e a outros cidadãos do Vale Europeu sobre a importância em investir no ciclismo e no ato saudável de pedalar uma bicicleta.

É importante que Carlos Tonet saiba que estudo feito na Alemanha mostrou que Berlim tinha mais de duas vezes o tamanho da frota de automóveis de Bangkok. Berlim também tem duas vezes menos a população da cidade asiática, hoje com 6,5 milhões de hab. No entanto, os orientais usam quase três vezes mais o automóvel do que os berlinenses. Os alemães da capital fazem uso intenso da bicicleta para seus deslocamentos, atingindo pouco mais de 18% nos seus deslocamentos diários com este modal. E veja que estou falando da Alemanha e não da Holanda, Dinamarca e mesmo da Suíça, cujos números são muito maiores.

Qual conclusão tirar dos dados? O que dizer a Carlos Tonet? Simples, os berlinenses são muito mais ricos do que os tailandeses sim. Mas também que quem gosta da motorização e a usa de forma exacerbada são os pobres, acomodando suas bundas gordas nos bancos dos automóveis, mesmo que para isto tenham de ficar engarrafados, se irritarem uns com os outros, se xingarem, e por vezes se matarem. Como já disse a grande jornalista Jane Jacobs, depois laureada como urbanista tal a sua importância na história do urbanismo mundial “a bicicleta aproxima as pessoas, o automóvel afasta.”

Portanto, se hoje Carlos Tonet se irrita com a perda de espaço para um fluxo que ainda está longe de ser percebido, ou que ainda está tímido para aparecer aos olhos de muitos carlos tonets, é porque o ser humano é cego e egoísta social para com as ações que ferem os seus interesses na apropriação privada do que é de domínio público. Como se houvesse direito adquirido sobre o espaço público apenas porque os gestores são complacentes. Há muito os automóveis e seus proprietários se apropriaram da via pública como se ela fosse o quintal da sua casa, da sua loja, como se fizesse parte do seu “negócio”. Para tal procedimento devemos dar um basta.

Realmente num País onde o desmando e a desfaçatez dos políticos são ações banalizadas e contra as quais não atingem os dedos da justiça e as barras da prisão, todos dão um jeitinho para tentar abocanhar uma fatia do bem público. A começar pelos motoristas na apropriação do viário para estacionar seus veículos.

Passar bem, jornalista.

Antonio Carlos de Mattos Miranda
Presidente da União de Ciclistas do Brasil – UCB
Consultor em planejamento e projetos cicloviários – CREA 1286/D

Saiba mais:

Blumenau implanta mais ciclovias
Dresden, uma cidade boa para se pedalar

Cartas-resposta em favor das ciclofaixas em Blumenau

As respostas abaixo referem-se a esta coluna de Carlos Tonet publicada nesta quinta-feira, 16 de julho, no jornal Folha de Blumenau. Nela, o colunista faz críticas não construtivas sobre as novas ciclovias e ciclofaixas de Blumenau.

Infeliz coluna

Foi com uma grande infelicidade que acabei por descobrir que o colunista desconhece os princípios de convivência em sociedade, uma pesquisa decente sobre aquecimento global e que, infelizmente, não costuma observar, dentro do conforto do seu automóvel parado no trânsito cada vez pior de Blumenau, a existência de ciclistas nas ruas e ciclofaixas de Blumenau.

Acho incrível que o colunista não tenha reparado também que ele é responsável pelo congestionamento que cada vez mais se apodera das ruas de Blumenau. Congestionamento esse causado pelos carros, como o do colunista.

Não vai adiantar construir mais ruas. Se todos os blumenauenses forem como o colunista, independente de ônibus ou ciclistas, os carros vão ficar parados em monstruosos congestionamentos. E isso não tardará a chegar – a considerar que todos os blumenauenses sejam como o colunista.

O mais engraçado é que, sendo contra a ciclovia, o colunista é contra a própria liberdade de locomoção em tempos futuros. A implementação de ciclofaixas na cidade é inevitável. O colunista poderá, no máximo, conseguir retardar esse processo – o que eu acho difícil. Seria ótimo se Blumenau se espelhasse nas cidades alemãs coirmãs. Nelas, há bastante infraestrutura para quem quiser usar a bicicleta. Não há dúvidas de que a vida lá é bem melhor – e as bicicletas certamente contribuem para isso.

O comentário do colunista, como bem já escrevi, é um tiro no próprio pé, quer dizer, será algumas horas a mais para ele ficar preso no trânsito no suposto conforto de seu carro nos próximos anos. Ele desestimula as pessoas a usarem a bicicleta e estimula a utilizarem o automóvel. Com mais automóveis na rua, mais tempo levará o colunista a chegar ao seu destino em seus deslocamentos. Fico a pensar se é isso mesmo o que ele quer.

Quero lembrar também que o colunista corre o risco de dormir atrás das grades caso resolva fazer o que promete no último parágrafo. Aliás, se alguém o fizer, corre o risco de lá dormir por incentivar prática contra a lei e contra a sociedade. É melhor o colunista torcer para que as ciclofaixas continuem intactas.

Por fim, esta epístola digital estará disponível na internet para que não tenhas problemas em encontrá-la se algum dia o colunista quiser refletir.

Com atenção – e decepção pela leitura de vossa coluna-,
Fabiano Faga Pacheco

Resposta da ViaCiclo:

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ViaCiclo – Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis

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Repudiamos o ataque à civilidade ciclística

Sr. Editor da Folha de Blumenau,

Através desta manifestamos nosso veemente repúdio às declarações do Sr. Carlos Tonet acerca da mobilidade ciclística.

Comunicamos que vamos dar conhecimento de tal artigo a toda nossa rede de relacionamentos no Brasil, uma vez que ele auxilia a compreensão dos motivos que fazem o Brasil ser um país atrasado em termos de mobilidade urbana.

A metade das mortes anuais no trânsito, em todo o mundo (1,2 milhão), são de pedestres e ciclistas, o que significa que trata-se de pessoas excluídas da sociedade do automóvel devido às suas condições financeiras, que são incapacitadas de dirigir ou que, podendo ter um carro, não desejam ser cúmplices de um modelo de transporte insustentável (devido aos danos causados à urbanidade e à natureza) e injusto (porque é absolutamente impossível que todas as famílias possuam um carro).

Desta forma, além de completo desconhecimento político e técnico, as opiniões do Sr. Tonet revelam a opção em favor das elites sociais, escárnio contra as vítimas do trânsito e um ataque ao bom senso que poucas vezes tem sido encontrados na imprensa brasileira.

Felizmente Blumenau possui um excelente contraponto à mentalidade do Sr. Tonet. A cidade sedia uma das mais respeitadas organizações ciclísticas do Brasil, a Associação Blumenauense Pró-Ciclovias – ABC, entidade que, conosco e com diversas outras organizações brasileiras que se dedicam à mobilidade sustentável, compõem a União de Ciclistas do Brasil – UCB, a qual também instalará, por decisão de sua última Assembléia Geral, sua sede em Blumenau.

Percebemos que a escolha da nova sede da UCB foi acertada, pois uma cidade tão importante no cenário brasileiro como é Blumenau está precisando de auxílio para proteger a civilidade que seus munícipes construíram do ataque de colunistas como o Sr. Tonet.

Milton Carlos Della Giustina
Presidente
ViaCiclo – Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis

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