Ciclistas de Florianópolis, Itapema e Porto Alegre inconformados

O último mês tem sido extremamente difícil para os ciclistas das cidades catarinenses de Itapema e Florianópolis e da capital gaúcha Porto Alegre. Seguidos acontecimentos na política e nos tribunais contribuíram muito para essa situação.

Florianópolis, SC

Os ciclistas de Florianópolis permanecem indignados. Além de perderem ciclovias durante o ano, vêm obras anunciadas em acabamento sofrível para se pedalar. A ciclovia do Rod. Baldicero Filomeno, no Ribeirão da Ilha, está sendo feita sem respeitar o projeto executivo, com claro prejuízo aos ciclistas. A ciclofaixa da Cachoeira do Bom Jesus foi retirada devido a obras de recapeamento e implantação de dutos de saneamento básico e não será reimplementada até o final do ano. Além disso, a ciclovia da Rod. Admar Gonzaga, no Itacorubi, que está sendo feita pela CELESC e deveria ter ficado pronta em janeiro de 2010, está sofrível a ponto de metade dos ciclistas pedalarem nas ruas. No Campeche, a Polícia Militar Rodoviária Estadual manda os carros estacionarem da ciclofaixa da Av. Pequeno Príncipe e hostiliza os ciclistas que passam pelo trecho nesse período, chegando a gritar “atropela mesmo” aos veículos automotores, sem fornecer opção ao deslocamento por bicicleta, conforme denúncias que chegaram a este blogue.

Como se não bastasse tudo isso, o governo do Estado não está implantando ciclovia na SC-405, no Rio Tavares, mesmo com determinação judicial para isso e, na SC-401, entre Canasvieiras e Ingleses, o acostamento foi dividido para dar lugar a uma ciclofaixa, em total contrasenso e inobediência ao projeto executivo e às normas internacionais. Nessa via, a velocidade máxima, de 80km/h, não é respeitada por 93% dos motoristas, que comumente trafegam a mais de 100km/h, com a anuência da fiscalização da própria Polícia Militar Rodoviária Estadual que põe ciclistas em risco também no sul da Ilha.

Esse é o clima pesado com que se iniarão as comemorações da Bicicletada Floripa de Natal, cuja concentração será na praça de skate em frente ao Shopping Iguatemi, a partir das 18h, com saída prevista para às 19h em ritmo tranqüilo e destino definido na hora pelos participantes. Festeje essa pedalada com sua família, seus amigos e aqueles que você quer que estejam sempre ao seu lado!

As leis de trânsito são respeitadas e, em caso de chuva, a Bicicletada está automaticamente CONFIRMADA.

Itapema, SC

Itapema já foi citada aqui como cidade amiga da bicicleta, justamente pela ciclofaixa da Avenida Nereu Ramos. Pois bem, a ciclofaixa de parte dessta rua foi retirada num projeto urbanístico que não se pode chamar de pífio, mas que certamente contém equívocos importantes que, a médio prazo, prejudicarão o trânsito da cidade e não vai resolver o problema de mobilidade dela, como já se poderá observar nesta temporada de verão. A ciclofaixa foi retirada para abertura de nova pista de automóveis, mantendo-se vagas de estacionamento e criando-se um corredor para ônibus, táxis, veículos de emergência e motocicletas. Os ciclistas podem utilizar-se, nesse trecho, de ciclofaixa do Parque Calçadão, à beira-mar.

Em outras palavras, Itapema, sem dúvida, deu um passo na contramão da história. Rebaixou a bicicleta de veículo de deslocamento para brinquedo de lazer, dificultando e tornando perigoso o trânsito de bicicletas em plena área comercial e de serviços da cidade. Deve-se salientar, também, que a audiência pública que definiu essas alterações não contou com presença participativa de ciclistas e que a decisão da prefeitura não se baseia em sólido estudo técnico, uma vez que são desconhecidos os números de veículos automotores e de transporte ativo que transitam na cidade nesse trecho e nem se conhecem os impactos que essas alterações trarão às vias adjacentes.

Se bem fiscalizadas, essas alterações ainda deixarão Itapema à frente da maioria das cidades catarinenses em termos de mobilidade, mas ainda assim se constitui num retrocesso em termos de política pública. O ideal era que a implantação da pista exclusiva para ônibus e veículos oficiais e coletivos ocorrer no leito carroçável, utilizando-se, para isto, uma das pistas utilizadas pelos veículos automotores.

Saiba mais:

População de Itapema decide mudanças na Avenida Nereu Ramos

Porto Alegre, RS

Parece piada, mas não é! Mais uma dessas pérolas surgiuvinda direta do caso do bancário Ricardo José Neis, que atropelou e feriu ao menos 16 ciclistas durante a Bicicletada de Porto Alegre, num ato que provocou manifestaçõesem prol das vítimas em vários países.

O promotor de justiça Fábio Roque Sbardellotto, do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, enviou o seguinte ofício abaixo em que escreveu:

Senhor Comandante:
Com a honra de cumprimentá-lo, e com o escopo de instruir o Inquérito Civil supra, instaurado para “investigar potencial infração a ordem urbanística em razão de irregularidades nos eventos organizados pelo grupo de ciclistas Massa Crítica, nesta Capital”, solicito que informe, no prazo de 30 dias, o nome de todos os componentes do grupo e do representante, se houver, bem como indique de que maneira o grupo atua e comprove, conforme preceitua o artigo 5º, inciso XVI, da Constituição Federal, a prévia comunicação às autoridades competentes antes da realização dos encontros, com a indicação de trajetos, para possibilitar a organização do trânsito local.”

Oras, para bom entendido, o desconhecimento de causa do promotor chega a provocar risos. A começar pelo fato de que não existe um grupo de ciclistas chamado Massa Crítica, que é uma coincidência rizomática. Não existe necessidade de comunicação às autoridades, ao contrário do que afirma o juiz, e nem representantes e nem componentes de grupo, até pelo fato de não haver grupo.

Os motoristas saindo de seus trabalhos ou residências, inúmeros ao mesmo tempo, por uma coincidência da organização econômica e social vigente não precisam avisar às autoridades que ajudarão a provocar congestionamentos no trânsito. As “autoridades competentes” já sabem disso! Quando vizinhos vão a uma mesma festa, ou os torcedores saem dos estádios de futebol, não comunicam sua saída. Simplesmente o fazem. Que sentido faria, então, os ciclistas comunicarem que vão se deslocar pelas ruas da cidade, por ventura com outros ciclistas? Nenhum!

Enquanto isso, Ricardo Neis segue livre em sua casa. O seu processo deve acabar em júri popular.

Os ciclistas, como não poderia deixar de ser, aproveitaram-se das palavras do promotor para inspirarem-se no tema da Bicicletada de dezembro, que deve ocorrer nesta sexta-feira.

A concentração ocorrerá no Largo Zumbi dos Palmares, a partir das 18h30. A saída será às 19h, aproximadamente, em destino que qualquer um pode escolher na hora.

Saiba mais:

AI-5 de novo? MP investiga a Massa Crítica de Porto Alegre

(Conexão Sul 2011) Dia 2 – Porto Belo – Balneário Piçarras

Ao abrir minha barraca imediatamente após escrever sobre o dia de ontem, percebi que a névoa espairecera, sinalizando o dia bom que recém-iniciava. Eu dormira na barraca do Max da Roberta (estudante de Geografia), que, solitária, virara depósito de bugigangas da galera.

Acordei com alguém me chamando para poder pegar algo que deixara lá dentro. Rumores de que eu havia chegado surgiam. Saí da barraca e veio a primeira descoberta do dia: o rio ao lado do qual acampáramos era uma lagoa! A Ana Carol e o André Costa, da loja/site/blogue Pedarilhos, também estavam lá. A Ana, em 2009, venceu o Desafio Intermodal de Florianópolis, conduzindo a sua bicicleta feminina com cestinha, e seu trabalho de conclusão de curso em Moda envolveu a “Adequação do vestuário para o ciclista urbano”. Eles aproveitaram o sábado livre para passearem com o grupo.

O café comunal envolvia café esquentado na hora num fogareiro, pão, queijo e tomate. Eu, em especial, fui tomar um misto de café pingado com cafés curtos no mesmo posto do dia anterior. Utilizei-me também do banheiro para passar um creme-protetor-suavizante-hidratante-redutor-de-atrito nas partes baixas. O mercado principal do Trevo do Perequê somente abria às 9h. Retornei ao acampamento, onde me aprontei para a saída. Vesti meu uniforme brasileiro recém-ganho de meus pais. Para a minha surpresa, pude perceber que eu seria o único na viagem a vestir as camisetas de ciclistas. O grupo anda mais de boa quanto à roupa e até mesmo os bagageiros são, de certa forma, improvisados. O Marcelo, colega da Oceanografia para quem já cheguei inclusive a dar monitoria há alguns anos, passou o dia a pedalar de chinelos! E ainda tirava sarro da gente, pobres escravos dos tênis!

O grupo total era composto por 23 pessoas. Além do casal Ana e André, e do Marcelo, havia ainda mais um rapaz e duas garotas da Geografia e o restante, da Biologia. Eram 10 guris e 13 garotas compartilhando a experiência única dessa aventura.

No posto, enchemos os pneus da bike e despedimo-nos do casal. Eu ainda passei no mercado para assegurar parte do lanche antes de sair. Pouco depois das 9h, dirigiamo-nos para Itapema.

            Se no dia anterior ninguém chegou a ter problemas com a bike, hoje foi um pouco diferente. O pneu da Júlia Silveira (Conchinha) foi murchando aos poucos durante a noite. Não muito longe do Trevo do Perequê, foi a vez da futura geógrafa Bruna ver sua bicicleta avariada. Grande parte do grupo parou para acudi-la, mas quem seguia muito à frente não chegou a saber a tempo do ocorrido. Nessa parada, tivemos o primeiro trio de flautistas do dia, com o Max, Guilherme (Guimo, da Geografia) e Tomaz sendo acompanhados pelo Panda, tocando sua…. bomba de encher pneus! O urucum que vários passaram no corpo e no rosto pela manhã dava um tom mais ritualístico às perguntas e respostas toadas em meio a cantigas nacionais.

Como ocorreu em boa parte do caminho, atravessamos uma ponte e lá começava outra cidade, agora Itapema. Observamos a Meia Praia, e o Max, a Conchinha e o Diogo não hesitaram em mergulhar.

Na principal rua do município, havia uma ciclofaixa. Interessante notar como as cidades priorizam seus cidadãos de maneiras diferentes. Sabiamente, a ciclofaixa situa-se entre a calçada e as vagas de estacionamento do comércio, impedindo o avanço dos automóveis sobre a ciclofaixa, mesmo para simples traslados. Vários cruzamentos são sinalizados indicando claramente a preferência do ciclista. As vagas permitem tanto a parada de automóveis quanto de motos e veículos de serviço (como ambulâncias), tudo bem demarcado. Em alguns trechos da praia também há passeio compartilhado com pedestres e automóveis (estes mais raros). A cidade parece estar evoluindo nas questões de mobilidade, mas pode ainda melhorar mais. O pavimento da ciclofaixa está bem mais deteriorado do que o das faixas para automóveis, com desníveis importantes. Outra coisa legal de Itapema é a presença de ciclofaixas bidirecionais em trechos de fluxo automotor único e chega a ser, também, curiosa a presença de um cruzamento com semáforos para ciclistas e, em outro tempo, uma sinaleira para pedestres. É interessante também o final da ciclofaixa, sendo o tráfego do ciclista misturado ao automotor quase que naturalmente.

Os bicicletários que vi em Meia Praia não são bons, embora seu design dê uma sensação de terem estilo. Esses modelos foram atualmente rejeitados numa das reuniões do Pró-Bici, com bons argumentos contrários. De lá, pegamos uma estrada em direção a Balneário Camboriú. Passamos por umas praias cheias de surfistas, ainda em Itapema e eu ainda agora custo a acreditar que, para eles, naquela condição, o mar não estava revolto. Vários morrinhos tiveram que ser vencidos antes da entrada do Balneário mais movimentado do Estado. Passamos de bike por um túnel (algo que, por sinal, a Ecovias não deixa fazer) e evitamos a Interpraias, fugindo do acesso à Praia das Laranjeiras (mais um morrinho….). O interessante nessa parte do caminho foram as placas, com publicidades de uma cueca comestível sabor chocolate para matar o desejo delas, além de um restaurante tirolês que jurava servir um autêntico café da manhã alemão (ok, Tirol é um estado alemão austríaco). Uma parada para reagrupar e melhorar o ânimo fez-se necessária antes de adentrar a Avenida Atlântica, a beira-mar do balneário. Antes, a idéia era fazer uma parada maior na cidade e a tática acabou mudando (ao meu ver equivocadamente) para tentar se chegar o mais longe e depois comer bem. Simplesmente passamos pelo charmoso balneário, mal prestando atenção em sua praia, sua gente. A brisa marinha retirou uma parte do cansaço e fez todos seguirem mais animados. Mas… apenas com o café-da-manhã! Isso já havia feito uma diferença na entrada de Balneário Camboriú e, com o mais severo morro do dia, a fadiga e a fome começaram a se agravar. A subida desse morro gerou uma rápida descida que culminou numa estrada em obras, com muita poeira sendo soerguida o tempo todo. Em Itajaí, foi gostoso pedalar à beira do Rio Itajaí-Açu, junto a muitos parques e áreas verdes. Foi também a realização do singelo sonho da Cândice, que sempre quis conhecer o porto da cidade, por sinal um dos mais movimentados de Santa Catarina.

No centro de Itajaí, ocorriam provas de bike cross e a idéia de comer no Mercado Público da cidade naufragou com o cedo fechamento deste no domingo. Pagamos R$ 1,30 para cruzar o rio no ferry-boat. Após o traslado estávamos em plena ciclofaixa no município de  Navegantes. O perfil dessa ciclofaixa é parecido com vários trechos de Itapema, sem, entretanto, conseguir ser tão bom quanto o daquela cidade. A ciclofaixa é grudada na calçada, entre esta e um espaço de estacionamentos. Toda a extensão da rua que liga o ferry-boat ao mar tem mão única. Entretanto, a ciclofaixa, bidirecional, não apresenta as medidas mínimas para 1 (uma) bicicleta. Nem mesmo o bom senso a consideraria de tal maneira. É muito estreita! Essa disposição costuma refletir hierarquização e desigualdade na cidade, em que o ciclista, em grande número, é simplesmente retirado da rua e jogado à estreita ciclofaixa, enquanto as três pistas para automóveis ficam subutilizadas.  A chamada de atenção por policiais na cidade, embora por vezes necessária, aumentou-me essa percepção. Muitos ciclistas usam a rua na contramão para se dirigirem ao ferry-boat. Pode não ser o mais seguro, mas, na cabeça deles, é o que faz mais sentido.

Pode-se dizer que almoçamos aí. Numa padaria, deliciamo-nos com os mais diversos gostos e sabores. Eu aproveitei para encher as minhas garrafas de água. O ritmo da pedalada melhorou muito depois da alimentação.

A restinga da praia de Navegantes parece bem cuidada. Uma estrada reta, plana e contínua fez-nos seguir ao norte. Vários carros buzinaram para gente, dando-nos apoio e estima para ir em frente. Como nota triste, um deles quase fez um grupo que ficou à frente – por sinal, onde eu estava – de pinos de boliche, ultrapassando sem a menor consciência dois veículos. A estrada tem apenas duas pistas e nenhum acostamento, de tal modo que somos obrigados a enfrentar o ainda árduo compartilhamento de vias. Algumas pessoas trilham seu próprio caminho em meio ao mato cerrado ao redor. Chegando no bairro de Gravatá, um acostamento de lajotas não nos foi acolhedor. Paramos para reunir o pessoal próximo a um posto de guarda-vidas, onde o Tomaz resolveu subir de maneira pouco conveniente. Mas a “inconveniência” atingiu limiares muito mais baixos, como na foto abaixo (DSC07975, a ser colocada ainda, aguardem). A praia imprópria parecia espelhar a ocupação próxima de alguns hotéis e/ou residências, ajudando-nos a refletir por que Santa Catarina têm níveis de saneamento básico tão inexpressivos quando levamos em conta a sua qualidade de vida. Interessante foi também uma placa oficial constando o nome do município (NaveGATES). Nessa parada, foram hilárias as cenas de alongamento dos ciclistas! A água, revolta, não estava convidativa.

Chegamos a Penha, todo pedalando bem próximos. Em vários trechos há ciclofaixa, uma linha demarcada meio avermelhada no asfalto. Às vezes, ela vira acostamento ou estacionamento de lojas antes de voltar oficialmente a ser ciclofaixa. Muito buraco, desníveis, bueiros dão o tom. A temperatura do cair da tarde e do ambiente com mais árvores próximas fica amena, ao contrário do tensionante mormaço das rodovias do Sol à pino. Passamos pelo parque temático Beto Carrero World. Mesmo sendo um referencial arquitetônico em meio à monotonia semiurbana, teve gente que não reparou em sua existência. A ciclofaixa continua a incomodar e toda hora temos que sair dela para nos desviar dos obstáculos da pavimentação. O tratamento próximo aos pontos de ônibus, em que uma ciclovia passa por trás da cabine, foi adequada, embora um poste – e bem atrás de um ponto de ônibus – tenha dado as caras, quase nos causando um acidente.

Um escultura estranha deu-nos o adeus da cidade, a poucos metros de onde uma ponte se encarregaria de transportar-nos até Balneário Piçarras. Andamos um pouco e, às 16h30 exatamente, estávamos defronte à casa do Fábio, um amigo de alguns dos viajantes que cedeu o terreno da casa para armarmos as barracas e as duchas para nos banharmos.

Enquanto uma parte já montava a barraca e tomava banho coletivo na ducha externa de águas frias, 14 deles foram à praia, distante duas quadras (ou uma quadra e uma restinga), eu incluso. Entrei na água gelada e logo começou a bater cãibra. Alonguei-me um pouco antes de retornar. A praia dissipativa, de tombo, estava bravia, possibilitando inúmeros jacarés num turbilhão de marolas. De tão fria a água do mar nem me foi tão difícil banhar-me na ducha.

Todos limpos, fizemos uma roda de massagens, tendo os participantes recebidos dezenas de dedos, apalpos, pegadas, pressões, numa relaxante terapia grupal que rendeu diversas risadas.

Pedimos 6 pizzas grandes (e ganhamos mais uma doce), totalizando mais de 7 pedaços para cada um, engolidos por todos com certa dificuldade, ao custo de 10 reais por cabeça. O Panda, a namorada e a Cândice optaram por preparar o jantar, com um saboroso miojo regado de salada.

Recarreguei o notebook, a bateria da câmera fotográfica e o celular. O que mais faz falta por aqui onde estamos é um banheiro. Imediatamente antes de escrever este texto, baixei e ajustei minhas fotos de ontem e de hoje, e com o Max e a Bruna fiquei conversando fitando o mar.

Ao longo do dia, além dos 200mL de café no posto, bebi cerca de 2,5L de água, além de um gatorade, 450mL de caldo de cana e uns 300mL de suco de uva, ambos últimos em Navegantes, hidratando-me mais que no dia anterior. Comi, além das pizzas, quatro pães com queijo, uma barra de cereal, duas de proteína e dois géis de carboidrato (GU) e um SUUM junto com água. Espero amanhã conseguir me alimentar melhor, com frutas e saladas. Por enquanto, meu organismo está dando conta, mas estamos apenas no começo da viagem e prevenir é realmente melhor do que remediar.

Agora já todos dormem, a despeito de barulhos estranhos vindos de uma ou outra barraca, enquanto eu aqui, ao relento, tremo de frio. Já passou um pouquinho de meu horário de recarregar as energias.

Fabiano Faga Pacheco

Balneário Piçarras, segunda-feira, 20 de junho de 2011, às 1h57min.

Superação sobre duas rodas

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no Jornal Notícias do Dia, versão do Vale do Rio Tijucas, em 21 de dezembro de 2009 (pág. 28). A matéria pode ser vista também em .pdf aqui.

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Gente. Claudiomir faz duas coisas com bicicleta: vende peixes e ganha troféus

Ele dá duro no pedal

O peixeiro Claudiomir Dias, 34 anos, passa o dia na estrada vendendo peixes e frutos do mar. Sua principal ferramenta de trabalho é uma bicicleta com duas caixas de isopor. Diariamente, ele pedala cerca de 40 quilômetros por estradas de chão de Tijucas, Porto Belo e Itapema. A rotina começa logo que o sol nasce, quando ele sai para buscar o peixe, fresquinho, direto dos pescadores. Quando chega em casa, por volta das 15h, almoça e descansa até o final da tarde, quando então troca a bicicleta de carga por uma de corrida.

Apaixonado por esporte, Dias trocou as academias de musculação pelos pedais. Até então, corria apenas por diversão. A primeira competição da qual participou foi em 2005, a convite de amigos. Depois da prova passou dois anos sem competir, voltando apenas em 2007. De lá para cá, não parou mais de pedalar em busca de medalhas e troféus.

Correndo na categoria speed para atletas de 30 a 34 anos, Dias conquistou o campeonato brasileiro da modalidade em 2008, disputado na cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais. Antes disso, ele tinha deixado o título escapar no ano anterior. Na prova, realizada em Rolante, no Rio Grande do Sul, Dias errou o percurso quando liderava a prova.

“Com meu equipamento, que custa R$ 500 reais, eu consigo chegar na frente”

Claudiomir Dias, peixeiro e ciclista

Para manter a forma, o atleta percorre 450 km por semana. Quando tem competição, ele treina diariamente. Fora isso, o trabalho diário com a venda de peixes ajuda no condicionamento físico, assim como as pedaladas com os amigos. “Todas essas atividades ajudam a superar as dificuldades do dia a dia”, afirma, com resignação.

Para encarar a rotina de quatro provas por mês, o peixeiro conta com pequenos patrocínios de empresas da cidade. Os valores, tímidos, ajudam apenas nas despesas com alimentação. “Eu recebo R$ 300 por mês, mas tenho que dividir com outro atleta”, explica Dias.

Magrela sem recursos

As dificuldades vão além das despesas com transporte e alimentação durante as competições. Para correr, o peixeiro utiliza uma bicicleta com poucos recursos e que está defasada em relação às utilizadas pelos outros competidores.

“Se eu tivesse uma bicicleta adequada, meus resultados seriam melhores. Mas eu não reclamo. Com meu equipamento, que custa R$ 500, eu consigo chegar na frente de pessoas que têm bicicletas de até R$ 40 mil”, avalia.

Otimismo para dar e vender

Exemplo de dedicação e amor ao esporte, o ciclista diz que corre mais pela saúde do que pelos resultados. A inspiração dele vem de Valcemar Justino da Silva, que foi campeão brasileiro de ciclismo aos 41 anos. “Eu admiro muito o trabalho dele. Se ele conseguiu, eu também posso”, projeta o ciclista peixeiro.

Em 2010, o atleta de Tijucas espera dias melhores. Ele vê a possibilidade de ser contratado por uma equipe de Joinville. “Se eu conseguir esse apoio, vou disputar o Campeonato Catarinense de igual para igual com os outros competidores da minha categoria”, avisa, confiante.

Enquanto a equipe não confirma a parceria, ele segue pedalando uma bicicleta carregada de peixes durante o dia e treinando à noite. Sem desanimar, o peixeiro sai sobre duas rodas em busca de seus sonhos e objetivos. “Eu gosto de andar de bicicleta. Com ou sem patrocínio, vou continuar participando das competições atrás de medalhas e troféus para minha coleção”, projeta o confiante vendedor de peixes.

Everton Palaoro

Veja também:

Uma perna e duas rodas – conheça a história de Alarico Alves de Moura, que, apesar de ter a perna esquerda amputada, tornou-se octacampeão de provas de ciclismo.

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