(Vídeo) Projeto do Plano Diretor “incha” por causa de emendas

O vereador Lino Fernando Bragança Peres (PT) comenta as alterações que surgiram no Plano Diretor não-Participativo de Florianópolis nas últimas semanas.

A quantidade absurdamente grande de emendas, advindas do Executivo e do Legislativo, é mais uma prova do fracasso do modelo que a prefeitura resolveu adotar para gerir o Plano Diretor, com pouca reunião comunitária, ausência de votação distrital e destituição no Núcleo Gestor. O processo, que deveria ser votado pelos cidadãos de Florianópolis, vem sofrendo alterações obscuras e reiteradas na Câmara de Vereadores.

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Profissionais lançam carta aberta contra processo do Plano Diretor de Florianópolis

Comunidades rejeitam Plano Diretor PseudoParticipativo

Artigo: Integração ciclística entre Balneário Camboriú e Camboriú

As cidades de Camboriú e Balneário Camboriú são marcadas pelo fenômeno da conurbação, entendido como a fusão de duas ou mais áreas urbanas, ou seja, onde os limites político-administrativos entre as cidades não são bem definidos, constituindo uma única mancha urbana.

A conurbação potencializa outro fenômeno urbano, conhecido como “cidade dormitório” – quando uma parte considerável da população residente em uma cidade realiza suas atividades cotidianas, principalmente o trabalho, em outra cidade. No processo de urbanização do Brasil, esse fenômeno foi reforçado pela especulação imobiliária, realidade esta que caracteriza Balneário Camboriú e que reflete diretamente na cidade vizinha.

Quando estes fenômenos ocorrem, cabe aos municípios membros constituírem políticas públicas que solucionem problemas comuns, como é o caso da mobilidade. A mobilidade urbana é um importante atributo da cidade, é o resultado da relação entre o movimento das pessoas e de bens e a facilidade de acesso à cidade. Ela deve assegurar as necessidades e os desejos das pessoas, quer de forma individual ou coletiva, quer de forma motorizada ou não-motorizada. Dessa forma, entendemos que no âmbito do planejamento urbano ambas as cidades devem ser tratadas como uma, na perspectiva de construir uma planejamento integrado.

O deslocamento da população das cidades de Camboriú e Balneário Camboriú dá-se tanto de forma motorizada quanto de forma não motorizada, sendo que esta última carece de atenção por parte do agente público. Devido à proximidade entre as cidades em questão, o uso da bicicleta como forma de deslocamento é comum, porém a infraestrutura existente é bastante precária. Um indicador desta deficiência é, segundo a ACBC, a pequena extensão das vias destinadas exclusivamente aos ciclistas. Balneário Camboriú possui 16.770 m (15,51 cm/habitante) e Camboriú menos ainda, apenas 2.410 m (3,87 cm/habitante). No que toca à questão da conurbação, é mais relevante ainda constatar que não existe uma ligação cicloviária contínua entre as duas cidades, tornando o deslocamento entre uma e outra uma ação perigosa.

Os benefícios do uso da bicicleta como meio transporte são inúmeros, tanto no âmbito coletivo quanto individual, sendo possível citar dentre eles: diminuição da poluição do ar; redução dos gastos públicos com construção e manutenção do sistema viário; redução dos congestionamentos e da perda de tempo no trânsito; ampliação do acesso aos espaços públicos; diminuição da quantidade de acidentes; promoção da saúde; favorecimento da autonomia individual de deslocamento; contribuição para a economia da renda familiar.

Além da bicicleta ser utilizada como meio de transporte, ela também é um recurso e uma prática de turismo. Em 2009 foi implantado nos municípios da foz do Rio Itajaí o Circuito de Cicloturismo Costa Verde & Mar. Passando pelo território de 11 cidades, inclusive Camboriú e Balneário Camboriú, é uma iniciativa do Citmar – Consórcio Intermunicipal de Turismo Costa Verde e Mar e da Amfri – Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, sendo atualmente administrado pela ACBC – Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú.

O cicloturismo é uma prática turística que usa a bicicleta não somente como um meio de transporte, mas como uma companheira de viagem e que permite o acesso a lugares que não são acessíveis aos demais meios de transporte. Está associada ao convívio ao ar livre, ao respeito ambiental e às paisagens naturais. Uma das condições para o êxito do cicloturismo é a segurança para seus usuários, o que só pode ser garantido com políticas públicas que ofereçam infraestrutura adequada, programas de educação para o trânsito e interferência fiscalizatória por parte dos agentes de trânsito.

A bicicleta também faz interface com o turismo de modo indireto, pela constatação de que grande parte dos trabalhadores de Camboriú e de Balneário Camboriú estão envolvidos com este ramo de atividade. Não obstante a importância do turismo para a economia local, a sua mão de obra em geral é precarizada, sazonal e com condições contratuais inseguras – em suma, a economia da renda familiar é uma questão importante para as famílias que trabalham com o turismo, ressaltando a importância da bicicleta, veículo amplamente reconhecido de baixo custo de aquisição, operação e manutenção.

Apesar de que uma das principais diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, Lei Federal 12.587/2012, seja priorizar os modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado, não é essa a realidade que se observa no tratamento das gestões públicas.

Sabemos que leis desacompanhadas de programas locais são insuficientes para mudar um modelo de cidade construído historicamente. Para mudar o paradigma de mobilidade urbana é preciso que as gestões públicas assumam medidas permanentes de incentivo ao uso da bicicleta nas cidades. Nesse sentido, o Seminário Intermunicipal Camboriú e Balneário Camboriú de Mobilidade Ciclística apresenta-se como um instrumento fundamental para a construção de políticas públicas voltadas a mobilidade ciclística, ao fomentar o debate entre os três importantes setores da sociedade: poder público, sociedade civil organizada e a academia.

Por Roberta Raquele André Geraldo Soares**

* Roberta Raquel é professora de Geografia e coordenadora de Extensão do Instituto Federal Catarinense – Campus Camboriú
** André Geraldo Soares é coordenador de Mobilidade da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú – ACBC.

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Seminário de Mobilidade Ciclística agitará Camboriú e Balneário

Programação do Seminário de Mobilidade Ciclística de Camboriú e Balneário

Livro “Brasil Não Motorizado” será lançado em Santa Catarina

Artigo: Pensar, enquanto tempo há

O texto abaixo foi publicado na edição impressa do Jornal Notícias do Dia, edição de Florianópolis, em 11 de abril de 2013. Você também pode ler a matéria no site do ND aqui.

Notícias do Dia - logo v2

Artigo

Planejarás a tua urbe, enquanto é tempo

Silvio LuzardoAdministrar a cidade no nosso intrincado enredo urbanístico apresenta ao prefeito Cesar Souza Júnior, de Florianópolis, um nó que exige flexibilidade, coragem e decisão atemporal. Difere em envergadura do engenheiro Carlos Sampaio, prefeito do Distrito Federal no Rio de Janeiro, em 1920. O presidente Epitácio Pessoa determinou que preparasse a cidade para os festejos do primeiro centenário de independência do Brasil. E Sampaio enfrentou uma pressão do tamanho do que resolveu atacar: a demolição do morro Castelo! Alegava que o morro, apesar de “histórico” (onde Mem de Sá instalou o governo, em 1567), atrapalhava a ventilação da cidade, a circulação e a implantação de sistema de saneamento. A obra possibilitou inúmeros avanços posteriores e foi um marco na modernização da Cidade Maravilhosa.

Ao suspender os alvarás, o prefeito mexeu em vespeiro da dimensão do morro Castelo. Florianópolis é a jóia da coroa na construção civil. Empreendedores têm pressa e alegam que sustentam parte da economia de mão-de-obra não só do município como da região metropolitana. Entretanto, o administrador público deve ter um olhar precavido e não condescendente. Deve administrar com a vista alongada, por no mínimo 30 anos. Eis a diferença onde residem os enormes conflitos de interesses. Por isso, a prefeitura deve agir rápido para sanar as irregularidades e disciplinar, de uma vez por todas, um Plano Diretor Integrado. Se isso não ocorrer, Florianópolis pode se transformar de Ilha da Magia em Presídio Urbano.

Entretanto, não é só a iniciativa privada que se vale das “lacunas” da legislação ultrapassada. Obras públicas mal planejadas, com uma visão estreita e oportunista, ilustram a cidade, de um lado. No outro, a absoluta falta de controle e fiscalização sobre moradias em nossos morros. Há imperiosa necessidade de um planejamento prospectivo e estratégico, que antecipe o futuro e amarre o controle. As obras devem ocorrer estruturadas nessa cosmovisão urbana: qual o cenário provável para 2025?

Tão logo inaugurado o túnel Antonieta de Barros, fui conhecê-lo. Impossível atravessá-lo. Só existem corredores estreitos destinados à segurança (eventual evacuação). O projeto não considerou a mobilidade de pedestres e ciclistas (embora acredite que se possa reverter essa situação). Mais recente, o elevado do Itacorubi poderia também ter acesso aos pedestres e ciclistas. Havia espaço para isso, até porque o elevado começa em duas vias e, pasmem, termina numa só, numa curva! E a “solução” da SC-405, no Rio Tavares? O problema foi resolvido num trecho e “arrebentou” mais adiante. Será que uma rótula improvisada não resolveria o caso, até que se faça um entroncamento – um elevado – com a rodovia Dr. Antonio Gonzaga. Mas persevera minha preocupação: será também um elevado só para veículos automotores?

Por Silvio Luzardo*

* Silvio Luzardo é professor

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Fernanda Lago: Florianópolis tem que deixar de ser “carro-dependente”

O deslocamento das pessoas

A mobilidade na Ilha

A mobilidade e as cidades

(Mobilidade nas Cidades) Vídeos sobre o Fórum Internacional

Diversas matérias em redes de televisão foram gravadas durante a realização do Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, que aconteceu nos dias 3 e 4 de abril em Florianópolis. Assista abaixo a algumas delas:

Entrevista com o organizador Hamilton Lyra Adriano. Conteúdo exibido originalmente no programa SC no Ar, da RIC Record SC,  em 2 de abril de 2013. Assista aqui à reportagem no site.

Entrevista com Halan Moreira, presidente da Associação Brasileira de Monotrilhos. Conteúdo exibido originalmente no Bom Dia Santa Catarina, da RBS TV SC,  em 3 de abril de 2013. Assista aqui à reportagem no site.

Ton Daggers fala sobre a necessidade segurança viária aos ciclistas, com a construção de ciclovias e medidas de acalmia de tráfego, bem como apóia a implantação do Floribike. Conteúdo exibido originalmente no Jornal do Almoço, da RBS TV SC,  em 3 de abril de 2013. Assista aqui à reportagem no site.

Entrevista com Guillermo Peñalosa, citando exemplos de Nova York, Copenhagen, Melbourne e Bogotá. Conteúdo exibido originalmente no RBS Notícias, da RBS TV SC,  em 3 de abril de 2013. Assista aqui à reportagem no site.

Seminário “Expansão Urbana em Santa Catarina”

O seminário “Expansão Urbana em Santa Catarina”, acontecerá no dia 26 de março (terça-feira), às 18h30, no auditório do Centro Sócio-Econômico (CSE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). As palestras serão apresentadas pelo professor de Planejamento Urbano do curso de Geografia da UFSC, Elson Manoel Pereira, e pela membro do Necat e doutoranda no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Beatriz Tamaso Mioto.

Nos últimos anos ocorreu uma grande expansão da produção e da valorização de preços dos imóveis, industriais, comerciais e residenciais, cuja trajetória se deu em função das políticas de crédito e dos programas habitacionais criados pelo Governo Federal, como o “Minha Casa Minha Vida”.

Florianopolis 2013-03-26 Expansao Urbana em SC

A fim de impulsionar a dinâmica imobiliária em diversas regiões de Santa Catarina, como resultado, ocasionou maior expansão de cidades ocupando áreas rurais e valorizando terrenos e bairros. Além disso, a ocupação irregular de muitos locais, deixa a população vulnerável à catástrofes naturais, como vem acontecendo, frequentemente, devido ao excesso de chuvas.

A ideia central do seminário é abordar as influências desta expansão na integração e diferenciação espacial com o aumento das desigualdades territoriais dentro das peculiaridades regionais de Santa Catarina, e particularmente na capital Florianópolis.

Serviço:

O quê: Seminário: Expansão Urbana em Santa Catarina
Quando: 26 de março (terça-feira), às 18h30
Onde: Auditório do CSE/UFSC
Mais informações: Necat / (48) 3721-6679

Fonte: UFSC, 26 de março de 2013, às 11h.

Veja também:

Seminário da Cidade de Florianópolis – Planejamento e Desenvolvimento Urbano

Seminário da Cidade de Florianópolis – Planejamento e Desenvolvimento Urbano

IPUF promove I Seminário da Cidade de Florianópolis

O Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), órgão da Prefeitura Municipal, realiza nos próximos dias 25 e 26 de março o I Seminário da Cidade de Florianópolis. Uma intensa programação reunirá especialistas e autoridades do Brasil e exterior no intuito de debater os principais desafios urbanos para as cidades brasileiras, além das políticas específicas para o planejamento urbano e de meio ambiente em Florianópolis.

O evento transcorrerá no Auditório Garapuvu, no Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina. A abertura oficial será às 14 horas do dia 25, com pronunciamento do prefeito Cesar Souza.

“Este Seminário busca um novo patamar técnico e comunitário para a retomada das propostas e discussões do Plano Diretor Participativo de Florianópolis, tão aguardado pela sociedade e tão necessário para a cidade. Com essa iniciativa, teremos muito mais subsídios técnicos para encaminhar os estudos finais para votação da matéria na Câmara de Vereadores”, afirma o superintendente do IPUF, Dalmo Vieira Filho, também titular da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano.

A organização é do IPUF, Instituto de Arquitetos do Brasil – Seccional SC e AsBEA (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura) – SC, com apoio institucional da UFSC, UDESC, Ministério Público de Santa Catarina, CAU- Conselho de Arquitetura e Urbanismo-SC e CREA- Conselho Regional de Engenharia e Agronomia -SC. As inscrições para o Seminário são gratuitas e poderão ser feitas no próprio local.   

Confira a programação completa abaixo.

Seminario Cidade de Florianopolis 2013-03-25.26
(Veja em PDF)

Fonte: Prefeitura Municipal de Florianópolis, em 21 de março de 201.

A mobilidade e as cidades

O texto abaixo foi publicado na edição impressa do periódico Diário Catarinense de 08 de setembro de 2011 (pág. 12). Você pode vê-lo no site do DC aqui ou em pdf aqui.

Artigo

Carros e cidades

O problema do trânsito nas grandes cidades é um tema que cada vez mais frequente. Muitos são os motivos apontados para o caos, que parece não ter mais solução. Mas o que alguns ainda não atentaram é que os setores da construção e arquitetura também influenciam o crescimento das cidades e também a quantidade de carros que circulam nelas. Há espaço para toda a frota de veículos? Buscando atender a esta demanda, escritórios de arquitetura e construtoras têm projetado prédios que contemplam um número maior de vagas, por exigência da legislação, agravando ainda mais a já complicadíssima situação do trânsito.

Órgãos governamentais solicitam, quase sempre, a construção de garagens com um número maior de vagas. Para diversos empreendimentos, a justificativa usada é a de que grande parte das pessoas virá trabalhar usando automóvel. Isto nos remete a outro problema. São Paulo, por exemplo, tem menos de 20% de seu território verticalizado. Com um mercado imobiliário altamente inflacionado, tanto em novas unidades quanto usadas, as pessoas são obrigadas a sair da região central da metrópole, em função dos altos preços praticados, e a procurar alternativas fora de São Paulo. Elas vêm à capital somente para trabalhar, fazer compras, cumprir compromissos… Isso causa um aumento da circulação de carros e, consequentemente, maiores congestionamentos, mais poluição do ar e uma significativa diminuição da qualidade de vida.

Bons exemplos estão mais próximos de nós do que imaginamos. Saindo do lugar comum que toma como referência grandes metrópoles como Paris, Londres ou Nova York, que são de países desenvolvidos, podemos citar a Cidade do México. A capital possui um sistema de metrô com mais de 200 quilômetros de trilhos, que atende a 5 milhões de pessoas diariamente e a passagem custa menos do que R$ 0,40. Já a malha do metrô paulistano tem modestos 70,5 quilômetros. Com um transporte público bem estruturado e com incentivo ao uso regular de bicicletas por meio de ciclovias, a Cidade do México conseguiu tirar milhares de carros das ruas e, assim, sair da lista das 10 cidades mais poluídas do mundo.

Por Itamar Berezin*

* Itamar Berezin é arquiteto e urbanista

Blumenau: cidadania e qualidade de vida

O artigo abaixo foi originalmente reproduzido no Jornal de Santa Catarina, na edição de 20 de julho de 2009. Foi, também, publicado resumido na Folha de Blumenau do dia 22 de julho.

Jornal de Santa Catarina - logo

ARTIGO

Motoristas, ciclistas e outros cidadãos

Somos conservadores! Sempre que se tenta transformar alguma estrutura predominante da cidade, levantam-se vozes a protestar, seguidas de outras a defender tais mudanças. Isso é da democracia e é bem-vindo, mas temos que superar essa característica de defender apenas os interesses próprios. Essas manifestações em causa própria ignoram os interesses do “outro” e até os da cidade e da cidadania.

A recente implantação de mais um trecho de ciclofaixa em Blumenau, iniciativa correta do poder público, desperta uma discussão importante: a questão da mobilidade urbana. Já sofremos sérios problemas devido à quantidade de carros circulando, à falta de planejamento urbano, ao descaso das empresas de ônibus e à inexistência de soluções alternativas. O transporte não pode ser tratado como uma conversa cotidiana entre leigos, deve estar embasada em informações e conhecimentos técnicos. A mobilidade deve ser tratada de forma integral, considerando todos os aspectos urbanos: paisagem, poluição ambiental, qualidade de vida, desenvolvimento econômico e a felicidade de todos.

É um erro tratar o trânsito de forma isolada, apenas com cálculos e planilhas. Suas causas e consequências são mais complexas e amplas, incidindo sobre todos os espaços e cidadãos, travando o desenvolvimento econômico e social de uma cidade. A solução passa por decisões estruturais e temos que tomá-las rápido: da prioridade absoluta para o transporte coletivo e o deslocamento não-motorizado às alternativas combinadas e complementares.

Não se trata de punir o usuário do carro, mas o fato é que estes precisam ceder espaço para outras formas de transporte mais eficientes, menos poluentes, mais agradáveis e baratas. As bicicletas são um componente fundamental para qualquer sistema de transporte urbano eficiente. Elas são complementares e cumprem um papel específico. Muitos gostariam, por exemplo, de sair de casa pedalando 10 minutos até o terminal de ônibus mais próximo, deixar a bicicleta lá, pegar um ônibus até o trabalho e caminhar mais cinco minutos. Por que não implantamos o sistema de bicicletas públicas?

Outro argumento utilizado é a topografia de Blumenau. O bom senso permite defender sua utilização prioritariamente nas diversas áreas planas da cidade e isso deve ser considerado pelos planejadores. Em relação à perda de vagas de estacionamento nos corredores de serviço, sugiro que utilizemos vários exemplos no mundo, onde o aumento de pedestres e ciclistas, a médio prazo, aumentou as vendas do comércio nestes pontos.

Temos que avançar e preparar a cidade para o futuro, não apenas com discursos ou verbas mal aplicadas e obras pouco planejadas. Sem planejamento urbano adequado e a vontade coletiva da sociedade, continuaremos sendo apenas uma cidade bonitinha, mas sem vocação para se tornar uma cidade influente e atraente no Século 21, cujo principal fator é a alta qualidade de vida urbana.

Por Christian Krambeck*

* Christian Krambeck é arquiteto, urbanista e professor universitário

Saiba mais :

Blumenau implanta mais ciclovias – reportagem do Jornal de Santa Catarina mostra as novas obras cicloviárias de Blumenau.
Antes que o mundo pare – artigo de Fabrício Cardoso fala do excesso de automóveis em Blumenau e estimula o debate sobre as novas ciclofaixas da cidade.
A polêmica sobre as ciclofaixas de Blumenau – artigo de Willian Cruz mostra sua opinião e relaciona os fatos que acontecem em Blumenau com o passado de San Francisco, EUA.
Blumenau: resposta do presidente da UCB – carta de Antonio Carlos de Mattos Miranda, presidente da União de Ciclistas do Brasil, sobre a polêmica acerca das ciclofaixas em Blumenau.
Cartas-resposta em favor das ciclofaixas em Blumenau – respostas de cicloativistas e sociedade civil a colunista que ironizou as novas ciclofaixas na cidade.
Comerciantes criticam áreas para ciclistas – reportagem no Jornal de Santa Catarina faz o contraponto com as queixas dos comerciantes.

Florianópolis congestionada

A reportagem abaixo foi publicada no jornal universitário Zero em abril de 2009. Você pode conferir a matéria em .pdf aqui ou aqui (página 6). Veja também a chamada na capa aqui ou aqui.

Zero abr09 - logo

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Tráfego excede capacidade das vias

Caso nenhuma alteração eficaz seja feita, outras 12 ruas da capital ultrapassarão seu limite em dois anos

Mais de 38 vias na capital trabalham com pontos de fluxo de veículos próximos ou acima da capacidade nas horas de pico. Muitas são essenciais como a avenida Professor Pedro Henrique de Silva Fontes, que recebe o fluxo dos campi da Universidade Federal e Estadual, a rodovia Ademar Gonzaga, que liga o centro à Lagoa da Conceição e o trevo da Seta, que dá acesso ao aeroporto e região do Campeche. Caso nenhuma alteração seja feita, mais 12 vias alcançarão o limite de sua capacidade em diversos pontos nos próximos dois anos. O estudo foi realizado a partir de um convênio firmado entre a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF).

Os dados foram coletados através da contagem de veículos que trafegam nas ruas e de simulações que estimaram os fluxos futuros. Nas simulações foram considerados o aumento populacional e locais onde há maior demanda, como shoppings e parques. “Mesmo incluindo todas as alterações estruturais sugeridas pelo IPUF, como a ampliação de avenidas ou construção de túneis, muitos pontos críticos não foram solucionados”, alerta a coordenadora da pesquisa Estudo dos impactos no sistema viário devido ao adensamento urbano da cidade de Florianópolis, Lenise Goldner. “A solução para este problema só pode ser alcançada por uma mudança no modelo do transporte urbano em Florianópolis”, complementa.

Dados do Departamento de Trânsito de Santa Catarina - DETRAN - indicam que Florianópolis possui cerca de 280 carros para cada ônibus em circulação

Segundo dados do Detran/SC, a frota da capital em 2005 era de 143 mil carros, 23 mil motos e 514 ônibus. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitca (IBGE) Florianópolis possui 402 mil habitantes, o que gera uma relação de um carro para cada 2,8 pessoas. “O modelo do carro possibilitou uma grande expansão das cidades, num processo de pulverização, porém isso tem um limite, e estamos próximo dele aqui em Florianópolis”, alerta Arnoldo Debatin Neto, doutor em engenharia de produção e especialista em planejamento e projeto do espaço urbano.

Propostas

Uma das alternativas para que o transporte urbano em Florianópolis opere de forma eficiente é a substituição deste modelo. “O transporte deve ser pensado priorizando o trinômio pedestre, ciclista e, por fim, transporte público”, afirma Francisco Ferreira, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano. Esta mudança deve se refletir no espaço cedido a cada uma destas formas de transporte. “Reduzindo a largura da faixa destinada aos automóveis, pode-se criar espaço suficiente para a construção de uma ciclovia”, indica Ferreira. Para o professor, estas alterações não trazem prejuízo para o trânsito já que a maioria das ruas da capital pode ter suas pistas reduzidas.

Vantagens e desvantagens dos transportes públicos e privados.Fonte: Política de Planejamento de Transportes e Desenvolvimento Urbano: Arnoldo Debatin Neto.

Faixas exclusivas de ônibus estão sendo testadas pela prefeitura. Algumas já estão demarcadas permanentemente. “Conseguimos diminuir o tempo de viagem de algumas linhas de ônibus em até 30 minutos”, afirma Wálter Tamagusko, diretor de planejamento da secretaria de transportes de Florianópolis. Outras mudanças em estudo são a demarcação de faixas exclusivas na avenida Beiramar norte e sul, na Ivo Silveira e na rodovia SC-405, além da alteração das ruas de acesso à região da UFSC. “A administração pública deve ser pró-ativa e hoje é visível que ela está apenas atrás de uma demanda, tentando resolver os problemas pontualmente”, critica o professor Debatin. “Você tem que trabalhar uma visão para a cidade, compreendendo o modelo econômico que vigora e qual será a proporção de privilégio dado ao empreendedor e ao usuário. Hoje eu vejo um apoio exagerado aos empresários.”

Mesmos problemas

A Contrans, uma comissão com o objetivo de dar consultoria ao planejamento urbano composta por representantes do Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Urbano, Secretaria de Transportes Urbanos, UFSC, associações empresariais e entidades comunitárias, apresentou sugestões para solucionar problemas do trânsito. “As medidas apresentadas são pequenas comparadas ao tamanho do problema, falta instrumentos técnicos e verbas para fazer um estudo mais aprofundado”, ressalta Werner Kraus Junior, membro da comissão e especialista em controle de transporte urbano.

A tarifa mais barata é indispensável para que o ônibus se torne uma opção atraente. Um estudo feito em 2007 por Edgar Conrado, bacharel em ciências econômicas pela UFSC, demonstra que o custo de um carro com dois ocupantes é vantajoso em diversos casos. No trajeto de 12,2 quilômetros, a economia chega a 47% .

Locais onde o trânsito ficará crítico

Projeção do sistema viário em Florianópolis em 2 anos, sem alterações na malha viária atual. Em destaque as ruas que atingirão de 80 a 100% de sua capacidade.Fonte: Estudo dos impactos no sistema viário devido ao adensamento urbano da cidade de Florianópolis. Arte: Gregório Lameira

Por Diego Kerber

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