(Conexão Sul 2011) Dia 2 – Porto Belo – Balneário Piçarras

Ao abrir minha barraca imediatamente após escrever sobre o dia de ontem, percebi que a névoa espairecera, sinalizando o dia bom que recém-iniciava. Eu dormira na barraca do Max da Roberta (estudante de Geografia), que, solitária, virara depósito de bugigangas da galera.

Acordei com alguém me chamando para poder pegar algo que deixara lá dentro. Rumores de que eu havia chegado surgiam. Saí da barraca e veio a primeira descoberta do dia: o rio ao lado do qual acampáramos era uma lagoa! A Ana Carol e o André Costa, da loja/site/blogue Pedarilhos, também estavam lá. A Ana, em 2009, venceu o Desafio Intermodal de Florianópolis, conduzindo a sua bicicleta feminina com cestinha, e seu trabalho de conclusão de curso em Moda envolveu a “Adequação do vestuário para o ciclista urbano”. Eles aproveitaram o sábado livre para passearem com o grupo.

O café comunal envolvia café esquentado na hora num fogareiro, pão, queijo e tomate. Eu, em especial, fui tomar um misto de café pingado com cafés curtos no mesmo posto do dia anterior. Utilizei-me também do banheiro para passar um creme-protetor-suavizante-hidratante-redutor-de-atrito nas partes baixas. O mercado principal do Trevo do Perequê somente abria às 9h. Retornei ao acampamento, onde me aprontei para a saída. Vesti meu uniforme brasileiro recém-ganho de meus pais. Para a minha surpresa, pude perceber que eu seria o único na viagem a vestir as camisetas de ciclistas. O grupo anda mais de boa quanto à roupa e até mesmo os bagageiros são, de certa forma, improvisados. O Marcelo, colega da Oceanografia para quem já cheguei inclusive a dar monitoria há alguns anos, passou o dia a pedalar de chinelos! E ainda tirava sarro da gente, pobres escravos dos tênis!

O grupo total era composto por 23 pessoas. Além do casal Ana e André, e do Marcelo, havia ainda mais um rapaz e duas garotas da Geografia e o restante, da Biologia. Eram 10 guris e 13 garotas compartilhando a experiência única dessa aventura.

No posto, enchemos os pneus da bike e despedimo-nos do casal. Eu ainda passei no mercado para assegurar parte do lanche antes de sair. Pouco depois das 9h, dirigiamo-nos para Itapema.

            Se no dia anterior ninguém chegou a ter problemas com a bike, hoje foi um pouco diferente. O pneu da Júlia Silveira (Conchinha) foi murchando aos poucos durante a noite. Não muito longe do Trevo do Perequê, foi a vez da futura geógrafa Bruna ver sua bicicleta avariada. Grande parte do grupo parou para acudi-la, mas quem seguia muito à frente não chegou a saber a tempo do ocorrido. Nessa parada, tivemos o primeiro trio de flautistas do dia, com o Max, Guilherme (Guimo, da Geografia) e Tomaz sendo acompanhados pelo Panda, tocando sua…. bomba de encher pneus! O urucum que vários passaram no corpo e no rosto pela manhã dava um tom mais ritualístico às perguntas e respostas toadas em meio a cantigas nacionais.

Como ocorreu em boa parte do caminho, atravessamos uma ponte e lá começava outra cidade, agora Itapema. Observamos a Meia Praia, e o Max, a Conchinha e o Diogo não hesitaram em mergulhar.

Na principal rua do município, havia uma ciclofaixa. Interessante notar como as cidades priorizam seus cidadãos de maneiras diferentes. Sabiamente, a ciclofaixa situa-se entre a calçada e as vagas de estacionamento do comércio, impedindo o avanço dos automóveis sobre a ciclofaixa, mesmo para simples traslados. Vários cruzamentos são sinalizados indicando claramente a preferência do ciclista. As vagas permitem tanto a parada de automóveis quanto de motos e veículos de serviço (como ambulâncias), tudo bem demarcado. Em alguns trechos da praia também há passeio compartilhado com pedestres e automóveis (estes mais raros). A cidade parece estar evoluindo nas questões de mobilidade, mas pode ainda melhorar mais. O pavimento da ciclofaixa está bem mais deteriorado do que o das faixas para automóveis, com desníveis importantes. Outra coisa legal de Itapema é a presença de ciclofaixas bidirecionais em trechos de fluxo automotor único e chega a ser, também, curiosa a presença de um cruzamento com semáforos para ciclistas e, em outro tempo, uma sinaleira para pedestres. É interessante também o final da ciclofaixa, sendo o tráfego do ciclista misturado ao automotor quase que naturalmente.

Os bicicletários que vi em Meia Praia não são bons, embora seu design dê uma sensação de terem estilo. Esses modelos foram atualmente rejeitados numa das reuniões do Pró-Bici, com bons argumentos contrários. De lá, pegamos uma estrada em direção a Balneário Camboriú. Passamos por umas praias cheias de surfistas, ainda em Itapema e eu ainda agora custo a acreditar que, para eles, naquela condição, o mar não estava revolto. Vários morrinhos tiveram que ser vencidos antes da entrada do Balneário mais movimentado do Estado. Passamos de bike por um túnel (algo que, por sinal, a Ecovias não deixa fazer) e evitamos a Interpraias, fugindo do acesso à Praia das Laranjeiras (mais um morrinho….). O interessante nessa parte do caminho foram as placas, com publicidades de uma cueca comestível sabor chocolate para matar o desejo delas, além de um restaurante tirolês que jurava servir um autêntico café da manhã alemão (ok, Tirol é um estado alemão austríaco). Uma parada para reagrupar e melhorar o ânimo fez-se necessária antes de adentrar a Avenida Atlântica, a beira-mar do balneário. Antes, a idéia era fazer uma parada maior na cidade e a tática acabou mudando (ao meu ver equivocadamente) para tentar se chegar o mais longe e depois comer bem. Simplesmente passamos pelo charmoso balneário, mal prestando atenção em sua praia, sua gente. A brisa marinha retirou uma parte do cansaço e fez todos seguirem mais animados. Mas… apenas com o café-da-manhã! Isso já havia feito uma diferença na entrada de Balneário Camboriú e, com o mais severo morro do dia, a fadiga e a fome começaram a se agravar. A subida desse morro gerou uma rápida descida que culminou numa estrada em obras, com muita poeira sendo soerguida o tempo todo. Em Itajaí, foi gostoso pedalar à beira do Rio Itajaí-Açu, junto a muitos parques e áreas verdes. Foi também a realização do singelo sonho da Cândice, que sempre quis conhecer o porto da cidade, por sinal um dos mais movimentados de Santa Catarina.

No centro de Itajaí, ocorriam provas de bike cross e a idéia de comer no Mercado Público da cidade naufragou com o cedo fechamento deste no domingo. Pagamos R$ 1,30 para cruzar o rio no ferry-boat. Após o traslado estávamos em plena ciclofaixa no município de  Navegantes. O perfil dessa ciclofaixa é parecido com vários trechos de Itapema, sem, entretanto, conseguir ser tão bom quanto o daquela cidade. A ciclofaixa é grudada na calçada, entre esta e um espaço de estacionamentos. Toda a extensão da rua que liga o ferry-boat ao mar tem mão única. Entretanto, a ciclofaixa, bidirecional, não apresenta as medidas mínimas para 1 (uma) bicicleta. Nem mesmo o bom senso a consideraria de tal maneira. É muito estreita! Essa disposição costuma refletir hierarquização e desigualdade na cidade, em que o ciclista, em grande número, é simplesmente retirado da rua e jogado à estreita ciclofaixa, enquanto as três pistas para automóveis ficam subutilizadas.  A chamada de atenção por policiais na cidade, embora por vezes necessária, aumentou-me essa percepção. Muitos ciclistas usam a rua na contramão para se dirigirem ao ferry-boat. Pode não ser o mais seguro, mas, na cabeça deles, é o que faz mais sentido.

Pode-se dizer que almoçamos aí. Numa padaria, deliciamo-nos com os mais diversos gostos e sabores. Eu aproveitei para encher as minhas garrafas de água. O ritmo da pedalada melhorou muito depois da alimentação.

A restinga da praia de Navegantes parece bem cuidada. Uma estrada reta, plana e contínua fez-nos seguir ao norte. Vários carros buzinaram para gente, dando-nos apoio e estima para ir em frente. Como nota triste, um deles quase fez um grupo que ficou à frente – por sinal, onde eu estava – de pinos de boliche, ultrapassando sem a menor consciência dois veículos. A estrada tem apenas duas pistas e nenhum acostamento, de tal modo que somos obrigados a enfrentar o ainda árduo compartilhamento de vias. Algumas pessoas trilham seu próprio caminho em meio ao mato cerrado ao redor. Chegando no bairro de Gravatá, um acostamento de lajotas não nos foi acolhedor. Paramos para reunir o pessoal próximo a um posto de guarda-vidas, onde o Tomaz resolveu subir de maneira pouco conveniente. Mas a “inconveniência” atingiu limiares muito mais baixos, como na foto abaixo (DSC07975, a ser colocada ainda, aguardem). A praia imprópria parecia espelhar a ocupação próxima de alguns hotéis e/ou residências, ajudando-nos a refletir por que Santa Catarina têm níveis de saneamento básico tão inexpressivos quando levamos em conta a sua qualidade de vida. Interessante foi também uma placa oficial constando o nome do município (NaveGATES). Nessa parada, foram hilárias as cenas de alongamento dos ciclistas! A água, revolta, não estava convidativa.

Chegamos a Penha, todo pedalando bem próximos. Em vários trechos há ciclofaixa, uma linha demarcada meio avermelhada no asfalto. Às vezes, ela vira acostamento ou estacionamento de lojas antes de voltar oficialmente a ser ciclofaixa. Muito buraco, desníveis, bueiros dão o tom. A temperatura do cair da tarde e do ambiente com mais árvores próximas fica amena, ao contrário do tensionante mormaço das rodovias do Sol à pino. Passamos pelo parque temático Beto Carrero World. Mesmo sendo um referencial arquitetônico em meio à monotonia semiurbana, teve gente que não reparou em sua existência. A ciclofaixa continua a incomodar e toda hora temos que sair dela para nos desviar dos obstáculos da pavimentação. O tratamento próximo aos pontos de ônibus, em que uma ciclovia passa por trás da cabine, foi adequada, embora um poste – e bem atrás de um ponto de ônibus – tenha dado as caras, quase nos causando um acidente.

Um escultura estranha deu-nos o adeus da cidade, a poucos metros de onde uma ponte se encarregaria de transportar-nos até Balneário Piçarras. Andamos um pouco e, às 16h30 exatamente, estávamos defronte à casa do Fábio, um amigo de alguns dos viajantes que cedeu o terreno da casa para armarmos as barracas e as duchas para nos banharmos.

Enquanto uma parte já montava a barraca e tomava banho coletivo na ducha externa de águas frias, 14 deles foram à praia, distante duas quadras (ou uma quadra e uma restinga), eu incluso. Entrei na água gelada e logo começou a bater cãibra. Alonguei-me um pouco antes de retornar. A praia dissipativa, de tombo, estava bravia, possibilitando inúmeros jacarés num turbilhão de marolas. De tão fria a água do mar nem me foi tão difícil banhar-me na ducha.

Todos limpos, fizemos uma roda de massagens, tendo os participantes recebidos dezenas de dedos, apalpos, pegadas, pressões, numa relaxante terapia grupal que rendeu diversas risadas.

Pedimos 6 pizzas grandes (e ganhamos mais uma doce), totalizando mais de 7 pedaços para cada um, engolidos por todos com certa dificuldade, ao custo de 10 reais por cabeça. O Panda, a namorada e a Cândice optaram por preparar o jantar, com um saboroso miojo regado de salada.

Recarreguei o notebook, a bateria da câmera fotográfica e o celular. O que mais faz falta por aqui onde estamos é um banheiro. Imediatamente antes de escrever este texto, baixei e ajustei minhas fotos de ontem e de hoje, e com o Max e a Bruna fiquei conversando fitando o mar.

Ao longo do dia, além dos 200mL de café no posto, bebi cerca de 2,5L de água, além de um gatorade, 450mL de caldo de cana e uns 300mL de suco de uva, ambos últimos em Navegantes, hidratando-me mais que no dia anterior. Comi, além das pizzas, quatro pães com queijo, uma barra de cereal, duas de proteína e dois géis de carboidrato (GU) e um SUUM junto com água. Espero amanhã conseguir me alimentar melhor, com frutas e saladas. Por enquanto, meu organismo está dando conta, mas estamos apenas no começo da viagem e prevenir é realmente melhor do que remediar.

Agora já todos dormem, a despeito de barulhos estranhos vindos de uma ou outra barraca, enquanto eu aqui, ao relento, tremo de frio. Já passou um pouquinho de meu horário de recarregar as energias.

Fabiano Faga Pacheco

Balneário Piçarras, segunda-feira, 20 de junho de 2011, às 1h57min.

(Conexão Sul 2011) Dia 1 – Florianópolis – Porto Belo

Desculpem-me por não atualizar o site tanto quanto surgem os acontecimentos relacionados à bicicleta, O Pró-Bici, o qual hoje secretario, as atividades acadêmicas e as pesquisas para a minha monografia não me permitem atualizá-lo com tanta freqüência quanto gostaria.

Entre sábado, 18 de junho, e quarta-feira, dia 22, estará acontecendo a versão 2011 do Projeto Conexão Sul. Este projeto, não oficializado pela universidade, está sendo tocado por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos e Educação Ambiental (GEABio). Entre os objetivos, sem dúvida está a divulgação da bicicleta como meio de deslocamentos, tanto de curta quanto de longa distância.

Entre esses dias, refletindo o movimento de intenso uso da bicicleta entre os estudantes, estará acontecendo a cicloviagem entre Florianópolis e Ilha do Mel (PR), na qual, na quinta-feira, terá início o Encontro Regional de Estudantes da Biologia da Região Sul – EREB-Sul.

Minha vontade de participar desse projeto era grande, mas os desafios também eram enormes. Fora TCC e Pró-Bici, um outro problema me afetava há meses. Eu tivera um acidente feio durante o Audax Floripa 200km deste ano, realizado em 23 de março. Mesmo com dor, pedalei os demais 185km que me distanciavam da chegada. Mas a queda não ficou barata: depois de um mês, descobriu-se que ganhei, com ela, um tipo de hérnia de disco! Ao saber da cicloviagem, meu desafio pessoal estava lançado! Dá-lhe fisioterapia para minorar a dor.

Após passar grande parte das duas semanas anteriores estudando, consegui finalizar as atividades a tempo para poder participar dessa pedalada. As dores praticamente terminado nesse meio tempo também (mais de dois meses após o acidente) e obtive, às vésperas, os equipamentos de bicicleta que me deixaram confiantes em poder realizar a pedalada sem maiores preocupações. Bagageiro decente, um novo capacete (uma vez que o outro teve que ficar indisponibilizado quando protegeu-me a cuca na queda) e alforges! Sim, antes eu utilizava malas e mochilas para o traslado de minhas coisas.

Arrumei praticamente tudo na véspera, separei a roupa que esperava usar (e troquei antes de sair de casa, devido ao tempo bom), só ficando as coisas de geladeira para serem guardadas. O horário combinado de saída era às 7h30, entretanto eu teria que fazer algumas atividades no comércio, as quais só faria após às 8h. Esperava encontrá-los pouco após sair para pedalar, mas não foi isso o que aconteceu…

Fui dormir mais ou menos às 5h30, resolvendo as últimas questões de minha ausência e arrumando as coisas. Bom, demorei 20min para fazer o que faria pela manhã e algumas horas para acordar. Às 14h apenas  saí de casa e segui ao encontro da galera, que entre às 8h e 9h já haviam de partido.

Despedi-me de minhas vizinhas e saí. Bem no começo de meu caminho, ainda na Ilha de Santa Catarina, uma surpresa: Um grupo de pouco menos de 10 pessoas terminava uma prova de caminhada. Eles estavam há 8 dias dando a volta à ilha, cansados, mas preparando-se para finalizarem festejando.

No Balneário do Estreito, um guri numa bike grande para o seu tamanho puxou conversa comigo (-Maneira a sua bike!). Olhando a barraca que levava, disse-me que sempre quisera acampar, mas nunca tivera oportunidade. Minha mãe, quando criança, acampou por todo o litoral brasileiro com os pais e os irmãos, enquanto eu só fui acampar pela primeira vez aos 17 anos, embora a vontade imensa. Meu avô recentemente se desfez de vários de seus equipamentos de escotismo. Eu também, ao saber que alguém é bandeirante ou escoteiro, converso com um misto de inveja e fascinação. Acho também uma pena a pouca adesão  – relativamente – ao  contato com a natureza e às suas maravilhas.

Evitei quase todos os trechos mais perigosos, desviando por algumas das poucas ruas paralelas existentes nas cidades catarinenses. Usei a ainda não inaugurada Beira-Mar do Estreito (Avenida Poeta Zininho). Foi emocionante ver a população utilizando-se daquele espaço ainda livre de automóveis. Um parque poderia ser melhor opção do que mais 3 pistas para o tráfego supostamente fluir melhor à Ilha da falta de mobilidade.

Evitei trechos da PC3 (Av. Leoberto Leal, em São José) seguindo pela R. Heriberto Hulse, de mesmo nome do estádio do Leão do Sul, o Criciúma.

Pouco antes das 15h30 já estava no Prado, em Biguaçu, quando o Arthur Fleury (vulgo Panda) falou-me que eu estava em bom ritmo, que uma galera já havia chegado em Tijucas e que se pensava em seguir rumo a Itapema. Há dois caminhos para se alcançar Tijucas. Um é pela BR-101, com os carros agora andando a 110km/h como velocidade mínima, como de praxe no Estado vice-líder em mortes por imprudências no trânsito. O outro é pela chamada estrada do Café. Falei com o Max Levy, o mesmo que foi para o Chile em janeiro do ano passado, antes de sair de Floripa e ele me aconselhou fortemente a ir por esse caminho.

Em Biguaçu, fui por dentro de Três Riachos, e logo me deparei com paisagens mistas de pasto e vegetação. Muita pecuária e pasto inutilizado. O caminho dá cinco quilômetros mais longo, mas a sensação térmica é bem diferente. É mais frio que pelo asfalto da BR-101, mais seguro e mais agradável, embora os carros não forneçam tanto vácuo, um dos motivos que ouvi em defesa da rodovia federal. Em Três Riachos, a pista dá voltas e o asfalto e a movimentação de automóveis não deixam as ruas calmas. A vegetação e o verde dos morros chamam a atenção. Virei em direção a Sorocaba. O asfalto terminou e começou o chão batido. O sinal do celular apagou-se. Ao contrário do asfalto, a sensação térmica era amena e agradável. Desbarrancamentos podiam ser observados em alguns trechos do caminho. Muitas espécies exóticas, como Pinus e eucaliptos davam os contornos gerais da vegetação. Em um dos sítios do lugar, um casal de pavão chamou-me a atenção. Um pássaro negro e um anu branco também percebi quando de dia. Sem contar as garças, patos e gansos.

Antes de Sorocaba virei em Estiva. Mesmo chão batido, mas quase sem morros. às 17h30, mais ou menos, avistei a BR ao longe. Cheguei a ela e….. não havia como cruzá-la com uma bike pesada. Havia muretas em toda a extensão. De lá, optei por voltar à Estrada do Café em vez de seguir pela BR. Hoje acho que não foi uma boa escolha. [Obs.: agora observando pelo mapa, navegando pela internet, vejo que essa volta por Estiva, recomendado por moradores foi o meu erro, deveria ter adentrado Sorocaba].

O Sol havia se recém-posto.

Cheguei no povoado de Estiva e, já de noite, um dos caras de lá passou-me uma informação incorreta que aumentou em alguns quilômetros meu caminho e meu cansaço. Durante todo o percurso, eu mal parei, ao contrário de meus amigos, que aproveitaram para banhar-se em rio! Bebi 1,4L de água e 0,5L de gatorade antes de encontrar meus colegas, além de mais 0,8L de Powerade, água e SUUM. Alimentei-me basicamente de pãezinhos, carboidrato em gel (GU e VO2) e barras de proteína. Queria parar pouco para tentar encontrá-los. A fase noturna de minha viagem solo não permitiu isso.

Entre Estiva, Areias de Cima, Areias de Baixo, Sorocaba do Sul e Timbé, o frio, a falta de iluminação, o cansaço, as irregularidades do chão batido, as variações de relevo imperceptíveis a longa distância foram, sem dúvida, os maiores desafios e o que me ajudou a seguir mais devagar. Se de dia eu podia observar e me programar para a próxima pedalada – e fechar os olhos com a passagem de veículos que levantavam poeira -, de noite a luz dos carros e dos postes rarefeitos eram a minha chance de acelerar. Quase todas chances, por sinal, vans.

Se a noite era inimiga da velocidade, era amigo do contemplar do céu. A Lua somente apareceu bem mais tarde e permitiu que as estrelas pudessem mostrar todo o seu esplendor no céu limpo longe da civilização. Uma cena curiosa foi a sensação falsa da movimentação de um avião vista de uma subida de morro, parecendo fazer movimentos erráticos e a pousar no mato, tal qual um disco voador. Um dos morros na Estiva cansou-me bastante e tive que empurrar a bike por uns metros tanto acima quanto para baixo, pois não conseguia ter noção exata da declividade do morro. Já no plano, minha velocidade era consideravelmente maior que nas mais íngremes descidas.

Em Areias, poderia ter cortado caminho cruzando um morro em direção a Timbé, mas optei por seguir pelo plano via Sorocaba. Essa escolha pareceu-me mais acertada pelas circunstâncias. Cruzar Timbé foi um sacrifício. O chão batido é muito irregular e a falta de iluminação não permite controlar a velocidade e a direção. Minha salvação aí foi um motorista que, por alguns quilômetros ao final do trecho, iluminou-me o caminho e me permitiu fazê-lo e bom tempo.

Margeei o Rio Tijucas e cruzei a Ponte Bulcão Viana, uma construção de metal que impressiona. Tijucas pareceu-me uma cidade muito simpática, com praças, construções em estilo açoriano, neoclássico e eclético que chamam a atenção na composição da paisagem. Quase todas as ruas são de paralelepípedo ou de lajota, o que, se por um lado dificulta os automóveis de andarem muito rápido, também prejudica o deslocamento do ciclista. O retorno à civilização, às 20h30 mais ou menos, significou o retorno do sinal do celular. Panda ligou-me, avisando de que levantaram acampamento em Porto Belo.

Eu já não estava muito distante. Cruzei a R. Santa Catarina, a BR-101 por baixo e, pela rua R. Euclides Peixoto, no bairro Santa Luzia (a Estrada Geral do bairro), deparei-me com trechos com paralelepípedo, terra (muito) batida e asfalto. Às 21h48 saí de Tijucas, tranqüilo e segui por Porto Belo. numa estrada de terra e pedras. Entrei no loteamento em que meus colegas acamparam, usei o celular, mas não consegui falar com eles. Não encontrei a saída e segui rumo ao ponto de encontro, o qual vejo daqui de onde estou. Num posto, comprei uns biscoitos e tentei usar o celular. Interessante como a mudança de código de área de 48 para 47 confunde as chamadas. Peço desculpas se você que lê, por ventura, acabou recebendo telefonemas meus na alta noite.

O Max conseguiu me ligar e, poucos minutos depois, no mesmo acampamento num loteamento do Programa Minha Casa, Minha Vida em que parei para olhar as barracas estava eu. Estou agora na barraca do Max de Roberta (estudante de Geografia), onde foram colocadas as coisas da galera, aumentando o conforto nas demais barracas. As bicicletas estão do outro lado, viradas a um rio que corre a poucos metros daqui. Isso explica não ter conseguido vê-las a primeira vez que passei. Apenas o Max me viu hoje. Uma névoa marinha deixa o ar mais denso, a umidade maior e a temperatura mais baixa. As bicicletas e os demais colegas as Biologia descansam/dormem bem. Vou fazer o mesmo.

Fabiano Faga Pacheco

Porto Belo, domingo, 19 de junho de 2011, às 1h49min.

[Obs.:  para os próximos dias estão agendados os relatos dos dois dias seguintes. Os demais, só quando voltar a ter acesso à internet]

Superação sobre duas rodas

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no Jornal Notícias do Dia, versão do Vale do Rio Tijucas, em 21 de dezembro de 2009 (pág. 28). A matéria pode ser vista também em .pdf aqui.

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Gente. Claudiomir faz duas coisas com bicicleta: vende peixes e ganha troféus

Ele dá duro no pedal

O peixeiro Claudiomir Dias, 34 anos, passa o dia na estrada vendendo peixes e frutos do mar. Sua principal ferramenta de trabalho é uma bicicleta com duas caixas de isopor. Diariamente, ele pedala cerca de 40 quilômetros por estradas de chão de Tijucas, Porto Belo e Itapema. A rotina começa logo que o sol nasce, quando ele sai para buscar o peixe, fresquinho, direto dos pescadores. Quando chega em casa, por volta das 15h, almoça e descansa até o final da tarde, quando então troca a bicicleta de carga por uma de corrida.

Apaixonado por esporte, Dias trocou as academias de musculação pelos pedais. Até então, corria apenas por diversão. A primeira competição da qual participou foi em 2005, a convite de amigos. Depois da prova passou dois anos sem competir, voltando apenas em 2007. De lá para cá, não parou mais de pedalar em busca de medalhas e troféus.

Correndo na categoria speed para atletas de 30 a 34 anos, Dias conquistou o campeonato brasileiro da modalidade em 2008, disputado na cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais. Antes disso, ele tinha deixado o título escapar no ano anterior. Na prova, realizada em Rolante, no Rio Grande do Sul, Dias errou o percurso quando liderava a prova.

“Com meu equipamento, que custa R$ 500 reais, eu consigo chegar na frente”

Claudiomir Dias, peixeiro e ciclista

Para manter a forma, o atleta percorre 450 km por semana. Quando tem competição, ele treina diariamente. Fora isso, o trabalho diário com a venda de peixes ajuda no condicionamento físico, assim como as pedaladas com os amigos. “Todas essas atividades ajudam a superar as dificuldades do dia a dia”, afirma, com resignação.

Para encarar a rotina de quatro provas por mês, o peixeiro conta com pequenos patrocínios de empresas da cidade. Os valores, tímidos, ajudam apenas nas despesas com alimentação. “Eu recebo R$ 300 por mês, mas tenho que dividir com outro atleta”, explica Dias.

Magrela sem recursos

As dificuldades vão além das despesas com transporte e alimentação durante as competições. Para correr, o peixeiro utiliza uma bicicleta com poucos recursos e que está defasada em relação às utilizadas pelos outros competidores.

“Se eu tivesse uma bicicleta adequada, meus resultados seriam melhores. Mas eu não reclamo. Com meu equipamento, que custa R$ 500, eu consigo chegar na frente de pessoas que têm bicicletas de até R$ 40 mil”, avalia.

Otimismo para dar e vender

Exemplo de dedicação e amor ao esporte, o ciclista diz que corre mais pela saúde do que pelos resultados. A inspiração dele vem de Valcemar Justino da Silva, que foi campeão brasileiro de ciclismo aos 41 anos. “Eu admiro muito o trabalho dele. Se ele conseguiu, eu também posso”, projeta o ciclista peixeiro.

Em 2010, o atleta de Tijucas espera dias melhores. Ele vê a possibilidade de ser contratado por uma equipe de Joinville. “Se eu conseguir esse apoio, vou disputar o Campeonato Catarinense de igual para igual com os outros competidores da minha categoria”, avisa, confiante.

Enquanto a equipe não confirma a parceria, ele segue pedalando uma bicicleta carregada de peixes durante o dia e treinando à noite. Sem desanimar, o peixeiro sai sobre duas rodas em busca de seus sonhos e objetivos. “Eu gosto de andar de bicicleta. Com ou sem patrocínio, vou continuar participando das competições atrás de medalhas e troféus para minha coleção”, projeta o confiante vendedor de peixes.

Everton Palaoro

Veja também:

Uma perna e duas rodas – conheça a história de Alarico Alves de Moura, que, apesar de ter a perna esquerda amputada, tornou-se octacampeão de provas de ciclismo.

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