(Conexão Sul 2013) Dia 3 – Nova Trento

Ao contrário dos dias anteriores, a manhã acordou agradável. Não chovia e mesmo o rio Alto Braço que nos passava próximo não foi capaz de umedecer o ambiente como acontecera nos últimos dias.

O seu Valdo acordara antes de nós e fora trabalhar. “Cortar eucalipto exótico para a prefeitura”, dissera. O grupo não amanheceu ao mesmo tempo. Enquanto eu acordava de sopetão com a claridade, alguns se banhavam no rio. Eram 7h30 e eu não estava atrasado.

Desta vez, dormira bem sobre a relva fofa na qual minha barraca se apoiara. Após ver muitos rostos se erguendo e o café coletivo sonolento que se aproximava, fui também aproveitar o rio. Correnteza leve, poucas pedras lisas. Uma delícia! Não sei bem quanto tempo lá fiquei, mas sei que foram ótimos momentos. Esticar o braço e, preguiçosamente, vencer a fraca corrente d’água entre as margens, uma, duas, três, quatro vezes… é algo que não tem preço.

Naquele ponto, o visual próximo ao Alto Braço permanece conservado, ao contrário de outras margens que servem de pasto ou que serviram à construção de pequenas centrais hidroelétricas (PCH).

Assim como na noite anterior, a refeição foi farta. Inúmeras fatias de pão para cada um, queijos, goiabada, melado, geléia, doce-de-leite, banana e granola complementavam o café coado na hora. Nosso amigo da Unioeste, do Paraná, Luigi, inventou  uma porção especial e riquíssima em nutrientes: fatia de pão com doce-de-leite (ou geléia, ou melado) recoberta de granola. Uma mistura, que, no final, deu bastante certo, embora “descoberta” ao final do café-da-manhã.

A roda de alongamento foi no pomar. A pedalada do dia foi dedicada a uma ciclista que não pôde estar presente desde o primeiro dia de viagem. A Raíza Padilha fora atropelada no Saco dos Limões há algumas semanas. Estava ela se preparando para a sua primeira cicloviagem, infelizmente abortada por um motorista fujão e uma prefeitura omissa. Raíza quebrou o braço esquerdo  e poderia perder um rim quando do começo de nossa jornada. A prefeitura, assim como no acidente fatal de Lylyan Karlisnki Gomes, nada fez. Continua até hoje pregando a política do abandono ciclístico e do “salve-se quem puder”, o antiplanejamento.

Alongamentos com posições de yôga e axé, seguido por palavras de despedida. Meus colegas, 26 jovens ciclistas, subiriam a Estrada do Padre, enquanto eu retornaria para Nova Trento. Optei por ficar na cidade, conhecendo-a e fotografando-a, após meu câmbio dianteiro sofrer seu problema constante de não cambiar as marchas. Testar a subida dura da escarpa nessas condições parecia-me um desafio além da técnica, em que a ausência de um instrumento (a bicicleta) adequado poderiam deixar-me na mão, entre o nada e o lugar algum.

Nesta manhã entre os meus amigos, percebi o quanto o jovens têm preconceito sobre as opiniões dos mais velhos. Diversas pessoas chamaram-me a atenção por estar de sunga, envolto numa toalha, durante o café da manhã, que foi acompanhado pela dona Juventina. Pré-julgaram que as pessoas de maior idade de lá dos confins de Nova Trento são mais conservadoras. Mas no dia anterior mesmo, o próprio seu Valdo levou um ciclista de sunga para a varanda de sua residência, aos olhos da esposa. As pessoas de lá desses confins, ou “cus do Judas”, para usar uma expressão tipicamente lusitana, têm hábitos normais. Nessa região, os mais velhos um dia caçaram. Há poucas décadas, não havia luz elétrica. Água encanada ainda hoje vem dos rios e regatos da região. O seu Valdo, que fora vereador de Nova Trento eleito em 1992, comentara a noite anterior toda sobre dois períodos políticos distintos da cidade, cobrando modernização e melhor gestão de recursos públicos. Inclusive, falou sobre o ímpeto dos jovens em fazer coisas novas e dinamizar as ações da máquina estatal.

Causo da serpente

No café-da-manhã, foi recontada uma histórica tão incomum que só poderia ter acontecido com biólogos. No dia anterior, no grupo dianteiro, o Ismael encontrou uma cobra já morta na estrada. Faceiro, girou-a pela cauda e lançou-a na direção do Renato. Ao ser atingido, Renato viu a serpente caída, com o dorso na terra. A primeira coisa que ele disse:

– É um macho!

Eu despedi-me deles ainda no pomar, já vestido para pedalar. Espero realmente que eles curtam o dia, as paisagens, o descanso em cada sombra aproveitada da íngreme subida.

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Esperei-os sair e fui desmontar a minha barraca. Vi um grupo que ficou para trás, a menos de 100m da largada do novo dia, arrumando corrente e pneus. Vi o seu Valdo passando de carro pela sua residência minutos depois de a galera sair, com os colegas ainda desafiando o pneu.

Tão logo terminei e montei minha bike, o Valdo chegou à sua casa para a parada do almoço. Dona Juventina insistia para que eu ficasse e almoçasse com eles. Meio receoso, mas já tendo passado das 11h30, aceitei. Pode-se dizer que, neste dia, saímos tarde, mas eu acredito que meus colegas iniciaram o pedalar em um bom horário. Aproveitaram a manhã de uma forma saudável, com os benefícios – incluindo fluviais – que o lugar proporcionava. O caminho não era o meio de se chegar a algum lugar, mas sim a sua finalidade, de modo que apenas trasladá-lo sem fruí-lo destoaria do nosso objetivo ciclístico.

A refeição típica contou com cerca de 10 pessoas, a maioria funcionários da prefeitura que trabalhavam em obras pela região. A um conjunto variado de carnes, sobrava-me arroz, feijão, maionese e uma salada folhosa. Dona Juventina não se conformava no meu ovolactovegetarianismo e esquentou ovos para mim e para o Valdo.

Despedi-me da galera novatrentina. O seu Valdo agora aguarda o envio de umas mudas e sementes de plantas nativas e espera aproveitar os seus açaís, obtendo rendimentos com a polpa.

Segui no sentido contrário todo o percurso rural do dia anterior, cerca de 18km. Passei pela igreja onde, às vésperas, foi-nos dificultado abrigo. Passei por uma única placa de trânsito, indicando velocidade máxima de 40km/h, lembrando-me de que, pelo corte de eucaliptos, eram esperadas diversas carretas trafegando em altas velocidades, descendo pela Estrada do Padre, colocando em risco meus colegas. Passei pelas marcas na estrada que, na véspera, demarcaram os caminhos das bifurcações aos últimos. A “bica da capela” na estrada parecia com água menos refrescante que o dia anterior. O morro que na véspera nos fez tremer as espinhas, não parecia tão difícil desta vez. Mudando a marcha da bicicleta na mão, subi com facilidade, quase me arrependendo de não ter seguido com meus amigos pela escarpa para Vidal Ramos.

Observei os vales, os riachos, as duas PCHs da região, de São Sebastião e de São Valentim. Até um teiú, lagarto de belo porte, me foi possível apreciar. É incrível essa sensação de proximidade com o micro e com o macro que a bicicleta te proporciona. Poder facilmente parar e observar-sentir o ambiente ao seu redor, sem prejuízo ao seu dia, ao seu caminho ou ao seu objetivo. Em condições normais, nenhuma pessoa observaria a serpente do dia anterior ou notaria o lagarto à beira da estrada. Simplesmente passariam, assim como passariam também as suas vidas. Ao observar o réptil, novamente desejei uma enorme fruição aos meus amigos, para que eles não apenas passem pelo dia, subindo as montanhas, mas que também o vivam com grande intensidade.

Próximo a Lageado e seu patrimônio histórico, estradas em reformas, demonstrando os trabalhadores novatrentinos na labuta. O calçamento com lajotas começou em São Roque. Meio imperdoável, simplesmente deixamos de observar um belo oratório centenário, datado de 1896.

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Assim como São João Batista tem seus postes pintados com cores francesas, os tons margueritas (verde, branco e vermelho) são onipresentes em Nova Trento. Tudo denota a colonização italiana da cidade.

Interessante é o trânsito de Nova Trento, que, mesmo com apenas 12.179 habitantes, já tem alguns binários e ruas de mão única implementados. Infelizmente, da forma como encontrei, denota que essas mudanças no trânsito não levaram em consideração a circulação de bicicletas. E olha que o ciclismo no município está crescendo e vem sendo promovido. No dia 15 de novembro, por exemplo, estava prevista uma edição do Pedala Trento, um tour por cidades da região com parada do sítio do Elizeu, situado bem próximo de onde repousamos, na Pitanga, cerca de 20km do centro da cidade.

É importante as cidades catarinenses saberem que a implantação de binários deve, obrigatoriamente, prever a inclusão das bicicletas. Frequentemente, os binários olvidam-se da dimensão humana. Em Florianópolis, querem fazer binários circulares de 4km, sem ciclovia ou ciclofaixa. Haverá, certamente, ciclistas pedalando no contrafluxo em meio ao fluxo motorizado, que, quando não engarrafado, será mais veloz – e, portanto, potencialmente mais fatal. Antes de ir ao santuário de Madre Paulina, relaxei na praça onde pousa o busto do Coronel Henrique Carlos Boiteux. Sob a copa de uma árvore, retomei as energias. Pude observar como era a acessibilidade no local. Existem pisos podotáteis corretamente dispostos, mas ainda carecem rampas com inclinação adequada e bem posicionadas. Algumas esquinas contam com meio fio bastante elevado e, onde poderiam haver rampas para usufruto das praças, simplesmente existe um canto. É um aspecto que pode melhorar ainda muito em Nova Trento, município que já oferece algumas faixas de pedestres elevadas. Uma forma de demonstrar o respeito aos pedestres no mar de lajota e paralelepípedos das ruas.

Na praça, olhei-me os pés. Meus tênis estavam em um estado lastimável. Sola descolando, proteção nula contra chuvas ou poças d’água. Aproveitei a cicloviagem para utilizá-los pela última vez numa aventura digna. Agora, estavam naquele estado, em seus últimos quilômetros.

Interessante também é o uso da praça pelos cidadãos. Apesar de bem cuidada, mesmo sem água na fonte esculturalmente ornamentada, os moradores não parece aproveitar tanto a praça quanto o fazem os moradores da vizinha São João Batista. Em meu período de descanso, interrompi apenas um casal de namorados (ou ficantes, sabe-se lá), que queriam o escurinho de uma sombra para consagrar a paixão.

Passei por algumas casas antigas, onde funcionam residências, mercados e lotéricas e, cruzando a praça onde a Igreja Matriz São Vigílio se ergue, rumei à rodoviária. Eram 16h30 e o último ônibus do dia para Florianópolis seria às 17h50.

Apressei-me para percorrer os 5km de ida até o Santuário em Vígolo. No percurso, diversas capelas, oratórios, centro de encontros e congregações chamam a atenção. São mais de 30 locais religiosos em toda a cidade, com destaques aos santuários de Santa Paulina e Nossa Senhora do Bom Socorro. Além do turismo religioso, destaca-se o enoturismo. As belíssimas partes rurais ainda não são adequadamente aproveitadas e podem criar um belo conjunto de roteiros cicloturísticos com variados graus de dificuldade.

Um local de descanso, com mirante para rio no meio da cidade, deve servir de repouso para os peregrinos que, em épocas sacras, inudam a cidade. No caminho ao santuário, existe uma pérgola muito bem cuidada, faltando, entretanto, rampas para pessoas com deficiência.

A rodovia SC-411, que leva ao distrito de Vígolo, permite altas velocidades, mas não tem acostamento. Num dia de semana, foi tranquilo pedalar por ali. Lombadas garantem uma velocidade reduzida em alguns trechos, mas, em outros, os temidos tachões fazem com que motoristas expremam os ciclistas numa beirada que não existe. Quase fui expremido junto a esses tachões. A paciência do povo de lá, que me esperou e ultrapassou educadamente, certaria não encontra correspondência na vida corrida da capital.

Vários símbolos da religiosidade fazem-se presentes em Vígolo. A história de Santa Paulina é contada com afrescos, painéis e imagens diversas. Sua casa paterna virou um símbolo bem agradável de mirar.

Às segundas-feiras, o teleférico que leva peregrinos ao alto da basílica não funciona. O parque da Colina Madre Paulina também se encontra fechado. Mas visitantes podem deixar suas fitas, oferendas e mensagens pelas graças alcançadas em diversos pequenos altares, árvores ou em grandes painéis.

A basílica é linda. Vi que pode ser acessada de bondinho, por uma escadaria ou ainda por uma rampa só para pedestres. Fiquei curioso para subir essa rampa de bicicleta. É possível que um outro caminho até a basílica, mais ao sul, possa ser feito pedalando ou de carro. Já estava saindo quando o vi e não pude checar.

Nesse santuário, uma imagem singela chamou-me tanta atenção quanto à enorme basílica de tetos côncavos, lembrando as vestes que recobrem as faces e pescoços de uma freira – ainda estão fortes em mim as cenas do filme francês “A Religiosa”. A Súplica da Árvore rogava: “Sou o ramo da beleza e a flor da bondade. Se me amas como mereço, defendas-me contra os insensatos”. Uma oração ecologista, levada muito a sério mesmo pelos biólogos menos crentes.

Cheguei adiantado na rodoviária. Com o calor q sentia nos últimos dias, experimentei um sorvete diet de chá de maçã com canela, fabricado pela Superfrut, empresa de Lages. Queria experimentar algo que fosse mais refrescante, mais frutoso, mais aguado. Não dei muita sorte. Infelizmente, o produto não tem nada de maçã, exceto o aroma, sendo bastante artificial. É triste ver isso – e a idéia de um sorvete de chá de maçã ou camomila ou erva cidreira é interessantíssima – quando pesquisas da UFSC buscam aproveitar frutos nativos e que precisam de proteção agroflorestal para a produção de sorvetes. O butiá, do geograficamente restrito Butia catarinensis, é um deles. Como diriam os tuiteiros: #ficaadica.

Paguei R$17,34 de passagem para Florianópolis pela Reunidas. E mais R$8,00 de excesso de bagagem para levarem a minha bicicleta, mal acomodada num dos bagageiros. Felizmente não houve nada com ela, mas não deixa de ser estranho o alto valor extra cobrado (mais de 50% da passagem) para a magrela ser levada de forma tão ruim.

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Se não fosse o último ônibus e se minha bicicleta não tivesse ficado cada vez pior ao longo do dia, a ponto de perder também a marcha dianteira mais pesada, eu pensaria em retornar pedalando para Florianópolis. O caminho não é tão longo assim, e os mais aventureiros podem tranquilamente ir da capital a Nova Trento em um dia e retornar. São apenas 65km. Mas a cidade também pode se qualificar melhor para o turismo por bicicleta. Não vi paraciclos adequados, apenas entorta-aros, no comércio da cidade. Os binários também pode ser repensados. Vale a pena implantar ciclofaixa no contrafluxo em algunas ruas, como na rua que leva ao acesso da SC-411, sentido Vígolo.

Cheguei em Florianópolis próximo a Morfeu, o deus grego do sonho, mas bem. Coxas torneadas, bicicleta podre, mas inteiro e esperando pela próxima. Não me lamento por não ter ido a Vidal Ramos. Muito embora aguardo, ansioso, notícias de lá do cume das escarpas.

E, claro, notícias de Piracicaba, onde a Raíza deve estar hoje e para quem este dia de pedaladas foi inteiramente dedicado.

Frase do Dia: A cobra tem língua bífida. Logo, as fêmeas devem ser muito felizes.

Distância percorrida no dia: 32,5km
Total acumulado: ~155km

Percurso pedalado: veja mapa

Fabiano Faga Pacheco

Joinville, 16 de novembro de 2013, às 1h24.

CONEXÃO SUL 2013

Relatos

Dia 1 – Florianópolis à Cachoeira do Amâncio
Dia 2 – Cachoeira do Amâncio a Nova Trento
Dia 3 – Nova Trento

Fotos

Camila Claudino de Oliveira

Fabiano Faga Pacheco / Bicicleta na Rua
Dia 1: Facebook      Ipernity
Dia 2: Facebook     Ipernity
Dia 3: Facebook     Ipernity

João Ricardo Lazaro

Patricia Dousseau

(Conexão Sul 2013) Dia 1 – Florianópolis à Cachoeira do Amâncio

O dia começou pregando peças.

Chovia forte às 6h30. Obnubliava na Grande Florianópolis, nuvens pesadas e cinzas.

A saída foi atrasada em cerca de meia hora. Encontraram-se sob a ponte Pedro Ivo 25 molhados ciclistas. A alegria, surpreendentemente, abria as emoções em cada rosto, contrariando o tempo fechado, sisudo.

Numa das mais novas praças de Florianópolis, onde antes erguia-se o condenado edifício que servira de sede à Federação Catarinense de Remo, esporte que ainda sobrevive ao lado daquele rincão, o alongamento unia cada pessoa, conhecida ou desconhecida. Estavam lá por um motivo: fazer uma das melhores viagens de suas vidas. O lugar é desconhecido, a provinciana Vidal Ramos, não muito distante dali. Apenas 200km por estradas vicinais, que poderiam ser feitos em um único dia.

Mas não era essa a intenção. O caminho, e não o destino, era o fim. Pelo caminho aproveitaríamos as interações existentes, as sombras, os rios, as subidas e as descidas. Mas, principalmente, nos aproveitaríamos. Conhecer-nos-íamos  cada vez mais, sob os olhares daqueles que conosco estavam.

O caminho era um tanto curto, mas não estávamos lá pela velocidade, para chegar antes. Desses 25, quase ninguém usava roupas de ciclista. Eu era outlier-mor. Não por não querer trajar-me com algodão, mas simplesmente pq as roupas de ciclismo são confortáveis para um dia inteiro sobre a magrela. Simplesmente porque, com ela, me sinto bem. E a maioria sentia-se bem com roupas leves, muitas de algodão, alguns até de chinelos. Bicicletas simples convivendo com camelos um tanto mais custosos. Não era isso que nos diferenciava. A simples presença da bicicleta já era, por si só, motivo suficiente para nos unir, uma união inquebrável, inrupta, incapaz de ser segregada por esses fatores materiais.

Mas estávamos lá, sob a ponte, às 9h30, aguardando a chuva parar para nos alongar. A roda incluiu pessoas diferentes e até seres vivos diferentes: as poucas árvores lá presentes, que nos serviam de choupana contra Sol e chuva e de parceira de abraços, sendo até mesmo componentes da roda.

Uma pessoa ficou: apenas nos daria a força inicial. Fúria era ele. Apelido de quem enfrentou a fúria climática divina apenas para mandar um “até logo”.

Florianópolis tem cachoeiras feitas especificamente para os ciclistas se refrescarem. Elas ficam na passarela sob a ponte e só funcionam quando está chovendo e logo depois. Ao lado delas, obras de arte marginal formam um mosaico de diferentes significados, conotações, realidades e qualificações técnicas e gráficas.

Fomos pelo Estreito, passando ao largo de onde a Velha Senhora, Ponte Hercílio Luz, aguarda os materiais ficarem prontos para montarem as estruturas que se lhe podem salvar. O canteiro de obras guarda esperanças nos corações de muitos desterrenses, que esperam ver Dama de Ferro de volta à ativa, após aposentadoria compulsória de três décadas.

Onde a Ciclofaixa de Domingo, transforma-se em trifaixa, o som de uma música demoníaca atraía-nos. Eram guitarras, instrumentos eletrônicos e um som batido e ritmo que ecoavam de um palco recém-montado. Era como se o som estivesse sendo passado. Para nossa surpresa, constituía-se na Marcha para Jesus.

Em frente, na antiga geral do Barreiros, bairro de São José, a primeira pessoa a nos fotografar. Rosana da Rosa deve compartilhar nossas fotos pelo Facebook (tomara). Perguntou se fazíamos isso com frequência. Existe todo ano, na época do EREB, o Encontro Regional dos Estudantes de Biologia da Região Sul. Ao menos tem sido assim desde 2010. Ilha do Mel e Maquiné foram os últimos destinos. Rosana, de bike, e nós, seguimos.

Pegamos a marginal da BR-101, sendo muito bem recebidos. Diversas foram as buzinadas de apoio. Era impressionante a fila indiana de 23 bicicletas a trafegarem, lotadas as cestas, alforjes, sacos de dormir, isolantes e barracas.

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Pouco antes do Centro de Biguaçu, furou um pneu mariliesco. Um momento interessante para começar uma das brincadeiras do dia. Com ela, descobrimos que “fomos na feira e compramos maçã, pêra, amendoim, limão, melancia, goiaba, morango, abacate, chocolate, jabuticaba, jenipapo, gengibre, paçoca, capuchinha, alface, hortelã, couve, pepino, cenoura, tomate, banana, ovo, uva, batata, wasabi, feijão, melão, beterraba, agrião, cebola, abacaxi, brócolis, jiló, mandioca e Spirogyra”. Ainda não sei o nome da garota com quem travo esse desafio botânico de memória (esqueçam o ‘ovo’ ao interpretar o ‘botânico’).

Ficamos um bom tempo travados no início da Estrada do Café, na parte inicial de Três Riachos. Almoçamos no Restaurante da Gorete, em promoção exclusiva para nós. Também foi lá que encontramos um grupo de cinco ciclistas que haviam se atrasado. Éramos, agora, 29 pessoas em bicicleta. A parada no mercado abasteceu e reabasteceu todos com mantimentos.

Mas também nos atrasou. Seguíamos por Sorocaba de Dentro até o desvio para a Cachoeira do Amâncio, destino de nosso acampamento. Mas aí já eram 17h. De fato, pouco aproveitou-se o potencial da cachoeira. Cumpriu-se a promessa de se nadar pelado, eles e elas. Não fiquei de fora. Poucas pessoas de fato aproveitaram o dia de hoje para olhar a cachoeira. Apenas 5. De onde estão nossas barracas, não é possível observar todo o potencial de uma cachoeira. Mas a piscina natural, com corda para se lançar à água, não deve em nada para o aproveitamento do lugar.

Causo: Senhora Cidade Alerta

Num dos desvios no distrito de Sorocaba, paramos para perguntar o caminho para uma senhora da região. Moradora há 30 anos do lugar, disse que havia muito tempo não iria para a cachoeira do Amâncio. E que, qualquer problema que acontecia na região se dava por ali. Não chegou a especificar nada de especial. Recomendou que não deixássemos nossas bikes na estrada de terra e que a levássemos conosco. Lembrou que um adolescente falecera na cachoeira no ano anterior. Enfim, tentou, de todas as maneiras, desqualificar o lugar, um ponto turístico próximo ao seu lar. Lembrou-me muito a reação da minha avó após ver o programa “Cidade Alerta”. Num período do dia, ela fica contente e alegre. Após assistir à televisão, fala só de desgraças e situações negativas, empesteando o ar com maus fluídos.

Para mim, ficou evidente: a melhor vista é da Cachoeira em si. Já o melhor local para se ficar, nos pontos mais fundos da piscina natural à nossa frente, situada numa das primeiras trilhas de acesso à cachoeira.

Esta parece estar mais vazia do que o usual. Denota que, mesmo com a chuva, já esteve recentemente com maior vazão, mas não muito mais. Vi um filete de água sair de seu caminho e umedecer a rocha semisseca na qual eu pisava, indicando um pequeno aumento em sua vazão. Ao lado dela, um pequeno descampado guarda lixo. Muitas garrafas de cerveja, refrigerante e até de aguardente denotam a atitude não sustentável de maus visitantes. Ao lado delas, dois pequenos montes de tijolos demonstram que é usual o uso do fogo próximo à água.

As rochas demonstram que o local já foi de maior envergadura. Rochas hoje nuas moldadas pela ação da água com o tempo estão expostas, complementando o paredão por onde escoem as águas. Não me recordo de nenhuma pequena usina hidroelétrica (PCH) na região para explicar o fenômeno.

Muitos insetos puderam provar de nosso sangue. Mutucas, mosquitos e, como não poderia deixar de ser em um local com água corrente, borrachudos. Muitos. Demais até. Pego a me imaginar em como é aqui no verão.

A piscina natural cujas águas ouço fluir agora, próxima à barraca, tem solo de rochas polidas, de variados tamanhos, ou ainda com partes cobertas por terra ou areia. Em comparação ao caminho aquático para se ver a cachoeira, é um alívio para os pés. Existem vários acessos à essa piscina, incluindo pelo ar, por uma corda presa a árvore. Foi dessa piscina, um poção, que pegamos água para beber, fazer sopa, esquentar comida e lavar roupas e utensílios de cozinhar.

A noite foi seguida por rodas de conversas ao lado de uma fogueira improvisada, a cerca de um metro da porta da minha barraca. As melodias de Caetano Veloso foram as mais cantadas hoje. Os sons de violão e flauta embalavam-nos harmonicamente, enquanto a sopa era aquecida. Uma canequinha para cada um. O chá de manjericão, erva baleeira e junco combina com o clima de descanso que se sucedeu. O céu, que abriu durante quase todo o dia desde que nos viu alegres sob a ponte, enche-se de nuvens agora também. A lua e a umidade não nos permitem mais ver as estrelas, mas criam um clima propício para que todos possam, serenamente, dormir.

Frase do dia: Gelol no c* do outro é refresco.

Distância percorrida: 55km.

Fabiano Faga Pacheco

Cachoeira do Amâncio, Biguaçu, 9 de novembro de 2013, às 22h47.

CONEXÃO SUL 2013

Relatos

Dia 1 – Florianópolis à Cachoeira do Amâncio
Dia 2 – Cachoeira do Amâncio a Nova Trento
Dia 3 – Nova Trento

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Camila Claudino de Oliveira

Fabiano Faga Pacheco / Bicicleta na Rua
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João Ricardo Lazaro

Patricia Dousseau

(Conexão Sul 2011) Dia 4 – São Francisco do Sul – Itapoá

Durmimos bem dentro do casarão do avô do Diogo. Lá fora, as roupas não secaram. Minha toalha, que eu não chegara a lavar, parecia ter passado a noite toda em banho-maria, tão úmida estava desde a ducha fria de Balneário Piçarras.

O café da manhã envolveu pães, queijo, granola, geléia, doce de leite, uma fruta cítrica colhida na colina verde por detrás do casarão cujo nome ainda não me recordo, além de suco, leite e café. Foi uma refeição básica, mas suficiente. Retiramos as bikes, que durmiram todas na garagem. Fizemos uma roda para alongamento e a Júlia Silveira puxou a saudação ao Sol. Saímos tarde, pouco depois das 10h.

Roda de alongamento em São Francisco do Sul.

 Percorremos o caminho contrário até o final do perímetro urbano do município. A ciclofaixa unidirecional, como escrevi ontem, mostrou-se estreita e mal  sinalizada. A maioria dos ciclistas foi por ela, barrando quem vinha no fluxo correto. Eu me aventurei a andar na via pelo lado certo, dividindo emoções com os automóveis. Considero importante melhorar a sinalização da ciclovia e aumentar a largura dela nas subidas. Viramos à direita numa estrada de terra e depois à direita novamente para pegar a balsa que leva ao bairro Vila da Glória. Nesse caminho, um grupo de crianças gritava: “Vai ganhar! Vai ganhar!” para quem passava. Quando eu passei uniformizado e gritei: Quem vai ganhar é o Brasil”, pude ouvir, já distante algumas poucas dezenas de metros elas mudarem o coro para: “Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!”.

Mais um dia começa! Ciclistas pedalam pela ciclofaixa em São Francisco do Sul.

Ciclofaixa em São Francisco do Sul gera conflitos entre ciclistas no trânsito.

Estrada de terra leva à balsa à Vila da Glória.

A balsa custa RS 3,20 para as bicicletas. Pouco após a saída pudemos observar um golfinho na Baía da Babitonga. Alimentamo-nos mais um pouco. Juntamo-nos para aquecer-nos. Pintamo-nos com urucum. Eu fiz tentei fazer uma bicicleta numa panturrilha e um símbolo da Biologia na outra. Vários desenhos ficaram bem massa!

Vista da Baía da Babitonga.

Pintura: os dedos moldam o urucum em nossos corpos.

A estrada geral do bairro Vila da Glória tinha trechos de rochas, terra, cascalho e areia. Foi nela em que meu alforge “só caiu”! Foi a segunda vez que isso aconteceu em cinco dias. Os percursos de areia mostraram que o treinamento do dia anterior surtira efeito, embora isso não tenha impedido ninguém de deixar de se atolar na areia. Repetindo: “menos força, mais freqüência”.

A paisagem da estrada geral da Vila da Glória combina com o cicloturismo.

Paramos no centrinho de Vila da Glória para mais uma parada, desta vez numa padaria. Comprei achocolatado, enfim, e um suco, além de pães e queijo. Também usei o cartão para obter dinheiro nas mãos, já que estava praticamente duro. A escultura “A Árvore da Vida” relembrou rituais druidas antigos e fascinou a Júlia Silveira. Como que por mágica, quem nós encontramos por lá? Dois colegas nossos da Biologia: o Japa, hoje botânico que conheci no ENEB-2006em Porto Alegre, creio, e a Anelise Nuremberg, que muito já havia me falado sobre as belezas quase naturais recém-devastadas de Itapoá.

Igreja em Vila da Glória.

Estátua da Árvore da Vida relembra rituais druidas.

Vila da Glória parece um lugar bem calmo, em que vários barcos apoiados sobre a areia transmitiam-me uma tranqüilidade enorme. Após essa parada, começamos a enfrentar de vez a areia contínua. Entre tantas paradas obrigatórias a nós infligidas, foi bom podermos parar e reagrupar todo o grupo. Optou-se por pegar o asfalto ainda em implantação na estrada que liga ao complexo portuário.

Os desafios em se pedalar na areia não impediram os ciclistas de prosseguir viagem.

Entre brita, pedras soltas e asfalto acudi por socorro. Suspeitava-se que o meu pneu havia furado. Meu pneu é 1.5 e liso, o pior de todos os daqui para piso cheio de obstáculos. O Guimo rapidamente virou a minha bike e começamos a retirar a roda traseira. Após tirada a câmara, fui enchê-la e não constatei nenhum furo. Provavelmente devia estar murcha, mas terei que verificar isso certinho nos próximos dias. Em 10 minutos, minha roda traseira estava com câmara nova. Pode-se dizer que essa foi a troca do pneu não furado!

Rodovia em construção em Itapoá aumentou a especulação imobiliária e rasgou a Mata Atlântica, inclusive trechos com vegetação primária.

A troca do pneu não furado.

Não se constatou maiores problemas mecânicos do que este ao longo de todo o dia. Também não choveu na região de Joinville. Demos muita sorte duplamente!

Passamos por Jaguaruna rapidamente e não tenho nada de especial para poder relatar de lá.

O Porto de Itapoá parece que será enorme mesmo e vários guindastes muito grandes cruzaram a nossa vista. Exceto por um trecho curto de terra, as estradas que Itapoá pelas quais seguimos eram todas ou asfaltadas ou de paralelepípedo. As estradas novas não têm, de maneira geral, bons acostamentos. Prevejo, a médio prazo, que elas se tornem perigosíssimas ao ciclismo mantendo-se as atuais condições. O acostamento, no mínimo é necessário, quando não uma ciclovia, se considerarmos que, das cidades que percorremos até agora, ficou-me clara a sensação de que é em Itapoá onde, relativamente, vi mais ciclistas. As lojas de bicicletas são abundantes. As magrelas podem ser vistas tranqüilamente em cada quarteirão da cidade! A beira-mar não me parece estar respeitando a distância mínima da praia. Ainda assim, os equipamentos de ginástica e exercícios estão bem dispostos, há trechos com iluminação, uma restinga é mantida e ainda outros equipamentos de lazer, como quadras de grama e pista de skate, estão lá. Há espaço para uma ciclovia entre a calçada e a pista de rolamento. As calçadas do outro lado da rua precisam ser melhoradas e unificadas.

Futuramente, pode se acreditar que os ciclistas terão que fazer malabarismos para pedalarem pela estrada sem acostamento.

Instalação portuária de Itapoá em construção.

O perigo em se pedalar nas novas estradas pode ser facilmente solucionado. Basta a observação.

Nessa cidade cheia de bicicletas, até a propaganda de um banco trazia ciclistas como chamativo para a venda de seguro de vida!

Ficamos em Barra do Saí, bairro ao norte de Itapoá. Um ciclista de Curitiba, Marcel, que aproveitava a semana de folga para visitar a mãe, que escolheu a cidade para curtir a aposentadoria, encontrou para gente, após uma confusão de campings e Joões (era para ele ir num camping do João e foi em outro, também do João; deu tudo certo, mas ele só soube que o nosso camping não era o que ele queria nos levar depois), um lugar para se deitar, com banheiros e chuveiro quente! O camping na verdade é um gramado de futebol e quadra de vôlei de areia. O mantenedor deixou-se armar barracas lá. Além disso, há

O campo no qual acampamos.

Armei a barraca e fomos a Cecília, o Panda e eu para uma lan hause. Lá eu publiquei e agendei as postagens dos primeiros dias de viagem, baixei uma parte das fotos para o Multiply e conversei com minha mãe pelo Skype. Deixei o notebook lá carregando e fui comer num bar próximo. Muita cicloalucinação, cicloleseira (mais potente que a provocada por ervas aromáticas, disseram-me) fizeram a Cecília soltar refrigerante pelo nariz. Quantas bobagens ditas numa mesa! Parte da galera ficou jogando sinuca. X-eggs vegs depois, retornei à lan hause, pegando umas gotas isoladas de chuva e muito frio! Perdi a visita que fez ao grupo o Andrézinho, que entrou comigo na faculdade e agora trabalha com monitoramento de fauna na cidade.

Em uma lan hause, atualizando este blogue.

Fiquei lá até 23h10, saí, retornei porque esquecera o carregador da câmera fotográfica e dirigi-me ao camping. Todos já estavam deitados. Fui tomar banho, mas, não sei por quê, a água não esquentava. Fui ao outro banheiro unisex, ao lado, e nada! Ou melhor, havia uma perereca se equilibrando em meio aos fios do chuveiro!

Havia uma perereca no banheiro!

Acabei passando uma água fria no corpo, insuficiente – descobri depois – para retirar toda a tinta do urucum. O chão do banheiro está todo enlameado. Não há energia elétrica por lá para ligar a luz sequer. Iluminei-o com minha lanterna da bicicleta. Acho que dei azar.

Agora estou em minha barraca. Os cães daqui ladram forte. Latiram quando cheguei ao campo da lan hause, vindo com minha bicicleta. Amanhã a previsão é acordar cedo e dormir no Pontal de Paranapanema. Já temos combinado também de às 7h30 a padaria deixar pronta um café-da-manhã para nós. Espero que minha toalha seque desta vez.

Hoje bebi 1,9L de água, 450mL de suco, 450mL de bebida refrescante Del Valle e um pouco de café. Estou sem estoque de isotônicos. Além de pães, queijos, bolachas salgadas, bananas, e amendoins, foi só um SUUM, 1 barra de proteína, 1 de cereal light e 1,5 sachê de GU.

Pedalamos cerca de 80km no primeiro dia, 60km do segundo,70 kmno terceiro e 50km hoje. Começou imediatamente agora a chover.

Fabiano Faga Pacheco

Itapoá, quarta-feira, 22 de junho de 2011, às 2h12.

(Conexão Sul 2011) Dia 3 – Balneário Piçarras – São Francisco do Sul

No dia anterior a maior dificuldade foi, nitidamente, o vento nordeste, de fato o mais comum no litoral catarinense, que tentou, em vão, barrar-nos ao longo de todo o trecho percorrido. Neste terceiro dia de viagem, a dificuldade maior foi outra, menos convencional, mas tão ou mais difícil de se enfrentar quanto àquela.

Acordei bem mais cansado que no primeiro dia. As barracas estavam deixando o ajardinado. As roupas lavadas no dia anterior não haviam secado com a alta umidade da madrugada – e isso incluía todas as minhas roupas para o pedalar! Vesti e bermuda molhada, besuntada na toda poderosa maisena e uma pomada. A camisa fria fez-me tremer. Ajustei minhas outras roupas no bagageiro para poder secá-las enquanto pedalasse.

O café-da-manhã comunal, a preparação das bikes, a pintura dos rostos com o vermelho urucum, as primeiras pedaladas pouco após às 9h. A tudo isso sucedeu a nossa despedida de Piçarras.

Entramos cedo em Barra Velha. Os transeuntes de Piçarras de Barra Velha foram muito calorosos com a gente. Muitos “bons dias” foram distribuídos e retribuídos e muitas buzinas de apoio nos acompanharam.

A via de entrada de Barra Velha foi uma continuação de Piçarras, o acostamento áspero fazia-nos freqüentemente seguir pela pista, quase vazia das ruas da cidade. As águas revoltas da praia nos acompanharam. Em pouco tempo, adentramos uma ciclofaixa, na verdade, mais um acostamento que virou pista para uso da bicicleta. A sinalização não nos permitiu perceber se ela era bidirecional ou não, embora tenha largura para tal. Areia era comum em vários trechos e vários ciclistas voltavam pelo outro lado da pista, no mesmo sentido do fluxo automotor. Pegamos a marginal da BR-101 antes de seguir pela praia rumo ao centro da cidade. Além do mar bravio, constantemente enfrentado pelos pescadores, uma calçada ampla era seguida por 3 faixas para veículos e uma calçada irregular. Jerivás davam um aspecto tropical à praia e permitiam-nos sentir mais calmos em meio às águas agitadas.

Uma interação com os pescadores ocorreu no centro da cidade, que registrou o maior congestionamento de sua história, segundo fontes “fidedignas”: cinco veículos. Após pedalarmos por uma rua fechada aos automóveis, paramos num sacolão/loja de frutas e verduras, onde nos abastecemos com bananas, bergamotas (como o pessoal daqui costuma chamar tanto uma variedade de mexerica quanto a todas as tangerinas do mercado), achocolatados, bebidas refrescantes. Uma futura bióloga campeã no judô aparecia na contracapa de um dos jornais. Que ela valorize bastante a minha futura profissão!

Do nada, sentíamos que estávamos próximos à novaiorquina Ilha de Manhattan com a aproximação da Estátua da Liberdade de uma loja de departamentos. Mas o Guimo tratou de mostrar-nos a realidade brasileira sendo rebocado por um trator, enquanto flores eram surrupiadas.

Voltamos à BR-101, onde fomos parados por policiais rodoviários por alguns de nós estarmos andando em fila dupla no acostamento. Recomendou-nos seguir apenas em fila indiana nas BRs e a tomarmos bastante cuidado. Numa ponte próxima, ajudou-nos com uma eficiente escolta. Por sinal, todas as demais pontes pelas quais passamos não haviam espaço destinado à circulação de ciclistas e pedestres. Lamentável para um Estado que se considera desenvolvido. Passamos sem problemas pelo pedágio. Descansamos – bem – pouco depois das 12h30, no Sinuelo, onde se encontra um Memorial do Descobrimento, com réplica de naus, galiformes, entre os quais um belo exemplar de macho de faisão dourado. Garrafas d’água enchidas, futebol com fruta jogado, embaixadinhas tentadas, era hora de prosseguir. Mal sabíamos que começava ali a pior parte. A estradinha de terra não dava sinais de imediato do que ela se tornaria: um areial!

Não foram poucas as bicicletas barradas no primeiro trecho de areia fina, que mais era um treinamento para o que viria mais tarde. Uma estrada recém-asfaltada e com pesado tráfego de caminhões, emoldurada por cultivo de Pinus deu-nos agilidade até o próximo trecho. Areia, terra, areia, lama, areia, rochas, areia…. Todos, em algum momento, tiveram seus deslocamentos interrompidos pelos caprichos da natureza. No começo, pasto, banhados e muitas espécies exóticas acompanhavam-nos, sendo, após vários e vários quilômetros, sendo substituídos por exemplares nativos da restinga, manguezal e mata atlântica catarinense, além de insumos alimentares. Recomenda-se fortemente esse caminho a quem quer treinar técnica de pedalada para esse tipo de terreno, que consistiu basicamente em aumentar a freqüência da pedalada e reduzir a força aplicada/relação entre as marchas. Isso permitiu um maior giro para lidar com as adversidades presentes a cada metro rodado.

Os animais bem no meio da estradinha foram um show à parte, como o cavalo branco a nos encarar ou a portentosa vaca Mansinha e fitar-nos descaradamente! Próximo ao final da estradinha, uma figueira gigante dava mostras do que deveria ser a floresta antes da devastação certamente promovida.

Dentre os causos, o Max e a Bruna pararam para conversar com um morador da região e seu cachorrinho, que até ofereceu comida e hospedagem naquela terra distante de tudo muita coisa.

Por incrível que pareça, mesmo com o teste de fogo imposto aos componentes da bike, não foi registrado um só pneu furado sequer! A Júlia Locatelli teve o parafuso no bagageiro dianteiro caído ainda antes do Sinuelo. A Maiana, já no final da areia teve a cestinha dianteira pendida com a soltura de uma porca. Entre ambos, o Marcelo, da Oceanografia, que pedalava de chinelos, teve a ajuda de uma chave allen para regular a magrela e evitar algo pior.

No encontro como o paralelepípedo, o reencontro de todos! Chuva de squezzee, roda de capoeira, a alimentação e a tomada de rumo.

Passamos por Araquari rapidamente.

A BR-280 continua ruim para o tráfego de ciclistas. Os acostamentos são, em média, ruins, com declividade, pouca manutenção, pontes que se estreitam, fluxo veloz e pesado. De bom, o trem, a ponte, os corpos d´água, os jerivás, as bananas, as flores em pleno outono.

Na última parada para reagrupar um carro para e dele saem duas pessoas em direção a nós. O vereador de São Francisco do Sul Vilson Coruja (PPS) foi um dos vários que notaram nossa presença na estrada e parou para gravar uma notinha para a TVBE (Televisão Brasil Esperança).

O perímetro urbano de São Chico reservou-nos também uma ciclofaixa. por (muitas) vezes estreita, por outras de bom tamanho. Ela é apenas unidirecional, seguida por um faixa de rolamento para cada sentido e um espaço para estacionamento de automóveis. Ela abrangia também um trecho de subida. Aí, ela precisa ser reformulada e alargada, devido aos movimentos de corpo que o ciclista faz comumente em aclives. Lombadas também cortam a ciclofaixa, tanto na descida quanto na subida (!). Há ciclistas que pedalam na ciclofaixa no contrafluxo e outros que usam a faixa de rolamento de veículos para seguir no sentido oposto ao da ciclofaixa.

No decorrer do dia, foram apenas um GU e uma barra de proteína ingeridos, refletindo a maior ingestão de bananas e bergamotas, além de 1,35mL de bebida refrescante Del Valle, 1L de água, 0,5L de água com SUUM e 0,5L de suco.

Hoje estamos hospedados na imensa casa do avô do Diogo e do Tomaz, uma construção antiga alemã que me lembra um chalé eclético (com a palavra, os arquitetos). No alto do terreno de 1ha, uma goiabeira fez a festa de quem queria descansar ou fazer as suas macaquices após o longo pedal. O descanso na relva, as brigas entre homens e mulheres (elas venceram!), a abertura da casa, o banho quente – o primeiro da viagem -, a janta feita na hora (macarrão com molho branco, berinjela, salada, ovo, lentilha), a sobremesa (creme de abacate) no chão da sala-cafofo, devorada em minutos por 21 colheres, a massagem em conjunto, a música provinda do violão, as vozes acompanhando-a, cicloleseira. A galera já está cansada e hoje espero não ser o último novamente a dormir.

Fabiano Faga Pacheco

São Francisco do Sul, terça-feira, 21 de junho de 2011, às 0h14min.

(Conexão Sul 2011) Dia 2 – Porto Belo – Balneário Piçarras

Ao abrir minha barraca imediatamente após escrever sobre o dia de ontem, percebi que a névoa espairecera, sinalizando o dia bom que recém-iniciava. Eu dormira na barraca do Max da Roberta (estudante de Geografia), que, solitária, virara depósito de bugigangas da galera.

Acordei com alguém me chamando para poder pegar algo que deixara lá dentro. Rumores de que eu havia chegado surgiam. Saí da barraca e veio a primeira descoberta do dia: o rio ao lado do qual acampáramos era uma lagoa! A Ana Carol e o André Costa, da loja/site/blogue Pedarilhos, também estavam lá. A Ana, em 2009, venceu o Desafio Intermodal de Florianópolis, conduzindo a sua bicicleta feminina com cestinha, e seu trabalho de conclusão de curso em Moda envolveu a “Adequação do vestuário para o ciclista urbano”. Eles aproveitaram o sábado livre para passearem com o grupo.

O café comunal envolvia café esquentado na hora num fogareiro, pão, queijo e tomate. Eu, em especial, fui tomar um misto de café pingado com cafés curtos no mesmo posto do dia anterior. Utilizei-me também do banheiro para passar um creme-protetor-suavizante-hidratante-redutor-de-atrito nas partes baixas. O mercado principal do Trevo do Perequê somente abria às 9h. Retornei ao acampamento, onde me aprontei para a saída. Vesti meu uniforme brasileiro recém-ganho de meus pais. Para a minha surpresa, pude perceber que eu seria o único na viagem a vestir as camisetas de ciclistas. O grupo anda mais de boa quanto à roupa e até mesmo os bagageiros são, de certa forma, improvisados. O Marcelo, colega da Oceanografia para quem já cheguei inclusive a dar monitoria há alguns anos, passou o dia a pedalar de chinelos! E ainda tirava sarro da gente, pobres escravos dos tênis!

O grupo total era composto por 23 pessoas. Além do casal Ana e André, e do Marcelo, havia ainda mais um rapaz e duas garotas da Geografia e o restante, da Biologia. Eram 10 guris e 13 garotas compartilhando a experiência única dessa aventura.

No posto, enchemos os pneus da bike e despedimo-nos do casal. Eu ainda passei no mercado para assegurar parte do lanche antes de sair. Pouco depois das 9h, dirigiamo-nos para Itapema.

            Se no dia anterior ninguém chegou a ter problemas com a bike, hoje foi um pouco diferente. O pneu da Júlia Silveira (Conchinha) foi murchando aos poucos durante a noite. Não muito longe do Trevo do Perequê, foi a vez da futura geógrafa Bruna ver sua bicicleta avariada. Grande parte do grupo parou para acudi-la, mas quem seguia muito à frente não chegou a saber a tempo do ocorrido. Nessa parada, tivemos o primeiro trio de flautistas do dia, com o Max, Guilherme (Guimo, da Geografia) e Tomaz sendo acompanhados pelo Panda, tocando sua…. bomba de encher pneus! O urucum que vários passaram no corpo e no rosto pela manhã dava um tom mais ritualístico às perguntas e respostas toadas em meio a cantigas nacionais.

Como ocorreu em boa parte do caminho, atravessamos uma ponte e lá começava outra cidade, agora Itapema. Observamos a Meia Praia, e o Max, a Conchinha e o Diogo não hesitaram em mergulhar.

Na principal rua do município, havia uma ciclofaixa. Interessante notar como as cidades priorizam seus cidadãos de maneiras diferentes. Sabiamente, a ciclofaixa situa-se entre a calçada e as vagas de estacionamento do comércio, impedindo o avanço dos automóveis sobre a ciclofaixa, mesmo para simples traslados. Vários cruzamentos são sinalizados indicando claramente a preferência do ciclista. As vagas permitem tanto a parada de automóveis quanto de motos e veículos de serviço (como ambulâncias), tudo bem demarcado. Em alguns trechos da praia também há passeio compartilhado com pedestres e automóveis (estes mais raros). A cidade parece estar evoluindo nas questões de mobilidade, mas pode ainda melhorar mais. O pavimento da ciclofaixa está bem mais deteriorado do que o das faixas para automóveis, com desníveis importantes. Outra coisa legal de Itapema é a presença de ciclofaixas bidirecionais em trechos de fluxo automotor único e chega a ser, também, curiosa a presença de um cruzamento com semáforos para ciclistas e, em outro tempo, uma sinaleira para pedestres. É interessante também o final da ciclofaixa, sendo o tráfego do ciclista misturado ao automotor quase que naturalmente.

Os bicicletários que vi em Meia Praia não são bons, embora seu design dê uma sensação de terem estilo. Esses modelos foram atualmente rejeitados numa das reuniões do Pró-Bici, com bons argumentos contrários. De lá, pegamos uma estrada em direção a Balneário Camboriú. Passamos por umas praias cheias de surfistas, ainda em Itapema e eu ainda agora custo a acreditar que, para eles, naquela condição, o mar não estava revolto. Vários morrinhos tiveram que ser vencidos antes da entrada do Balneário mais movimentado do Estado. Passamos de bike por um túnel (algo que, por sinal, a Ecovias não deixa fazer) e evitamos a Interpraias, fugindo do acesso à Praia das Laranjeiras (mais um morrinho….). O interessante nessa parte do caminho foram as placas, com publicidades de uma cueca comestível sabor chocolate para matar o desejo delas, além de um restaurante tirolês que jurava servir um autêntico café da manhã alemão (ok, Tirol é um estado alemão austríaco). Uma parada para reagrupar e melhorar o ânimo fez-se necessária antes de adentrar a Avenida Atlântica, a beira-mar do balneário. Antes, a idéia era fazer uma parada maior na cidade e a tática acabou mudando (ao meu ver equivocadamente) para tentar se chegar o mais longe e depois comer bem. Simplesmente passamos pelo charmoso balneário, mal prestando atenção em sua praia, sua gente. A brisa marinha retirou uma parte do cansaço e fez todos seguirem mais animados. Mas… apenas com o café-da-manhã! Isso já havia feito uma diferença na entrada de Balneário Camboriú e, com o mais severo morro do dia, a fadiga e a fome começaram a se agravar. A subida desse morro gerou uma rápida descida que culminou numa estrada em obras, com muita poeira sendo soerguida o tempo todo. Em Itajaí, foi gostoso pedalar à beira do Rio Itajaí-Açu, junto a muitos parques e áreas verdes. Foi também a realização do singelo sonho da Cândice, que sempre quis conhecer o porto da cidade, por sinal um dos mais movimentados de Santa Catarina.

No centro de Itajaí, ocorriam provas de bike cross e a idéia de comer no Mercado Público da cidade naufragou com o cedo fechamento deste no domingo. Pagamos R$ 1,30 para cruzar o rio no ferry-boat. Após o traslado estávamos em plena ciclofaixa no município de  Navegantes. O perfil dessa ciclofaixa é parecido com vários trechos de Itapema, sem, entretanto, conseguir ser tão bom quanto o daquela cidade. A ciclofaixa é grudada na calçada, entre esta e um espaço de estacionamentos. Toda a extensão da rua que liga o ferry-boat ao mar tem mão única. Entretanto, a ciclofaixa, bidirecional, não apresenta as medidas mínimas para 1 (uma) bicicleta. Nem mesmo o bom senso a consideraria de tal maneira. É muito estreita! Essa disposição costuma refletir hierarquização e desigualdade na cidade, em que o ciclista, em grande número, é simplesmente retirado da rua e jogado à estreita ciclofaixa, enquanto as três pistas para automóveis ficam subutilizadas.  A chamada de atenção por policiais na cidade, embora por vezes necessária, aumentou-me essa percepção. Muitos ciclistas usam a rua na contramão para se dirigirem ao ferry-boat. Pode não ser o mais seguro, mas, na cabeça deles, é o que faz mais sentido.

Pode-se dizer que almoçamos aí. Numa padaria, deliciamo-nos com os mais diversos gostos e sabores. Eu aproveitei para encher as minhas garrafas de água. O ritmo da pedalada melhorou muito depois da alimentação.

A restinga da praia de Navegantes parece bem cuidada. Uma estrada reta, plana e contínua fez-nos seguir ao norte. Vários carros buzinaram para gente, dando-nos apoio e estima para ir em frente. Como nota triste, um deles quase fez um grupo que ficou à frente – por sinal, onde eu estava – de pinos de boliche, ultrapassando sem a menor consciência dois veículos. A estrada tem apenas duas pistas e nenhum acostamento, de tal modo que somos obrigados a enfrentar o ainda árduo compartilhamento de vias. Algumas pessoas trilham seu próprio caminho em meio ao mato cerrado ao redor. Chegando no bairro de Gravatá, um acostamento de lajotas não nos foi acolhedor. Paramos para reunir o pessoal próximo a um posto de guarda-vidas, onde o Tomaz resolveu subir de maneira pouco conveniente. Mas a “inconveniência” atingiu limiares muito mais baixos, como na foto abaixo (DSC07975, a ser colocada ainda, aguardem). A praia imprópria parecia espelhar a ocupação próxima de alguns hotéis e/ou residências, ajudando-nos a refletir por que Santa Catarina têm níveis de saneamento básico tão inexpressivos quando levamos em conta a sua qualidade de vida. Interessante foi também uma placa oficial constando o nome do município (NaveGATES). Nessa parada, foram hilárias as cenas de alongamento dos ciclistas! A água, revolta, não estava convidativa.

Chegamos a Penha, todo pedalando bem próximos. Em vários trechos há ciclofaixa, uma linha demarcada meio avermelhada no asfalto. Às vezes, ela vira acostamento ou estacionamento de lojas antes de voltar oficialmente a ser ciclofaixa. Muito buraco, desníveis, bueiros dão o tom. A temperatura do cair da tarde e do ambiente com mais árvores próximas fica amena, ao contrário do tensionante mormaço das rodovias do Sol à pino. Passamos pelo parque temático Beto Carrero World. Mesmo sendo um referencial arquitetônico em meio à monotonia semiurbana, teve gente que não reparou em sua existência. A ciclofaixa continua a incomodar e toda hora temos que sair dela para nos desviar dos obstáculos da pavimentação. O tratamento próximo aos pontos de ônibus, em que uma ciclovia passa por trás da cabine, foi adequada, embora um poste – e bem atrás de um ponto de ônibus – tenha dado as caras, quase nos causando um acidente.

Um escultura estranha deu-nos o adeus da cidade, a poucos metros de onde uma ponte se encarregaria de transportar-nos até Balneário Piçarras. Andamos um pouco e, às 16h30 exatamente, estávamos defronte à casa do Fábio, um amigo de alguns dos viajantes que cedeu o terreno da casa para armarmos as barracas e as duchas para nos banharmos.

Enquanto uma parte já montava a barraca e tomava banho coletivo na ducha externa de águas frias, 14 deles foram à praia, distante duas quadras (ou uma quadra e uma restinga), eu incluso. Entrei na água gelada e logo começou a bater cãibra. Alonguei-me um pouco antes de retornar. A praia dissipativa, de tombo, estava bravia, possibilitando inúmeros jacarés num turbilhão de marolas. De tão fria a água do mar nem me foi tão difícil banhar-me na ducha.

Todos limpos, fizemos uma roda de massagens, tendo os participantes recebidos dezenas de dedos, apalpos, pegadas, pressões, numa relaxante terapia grupal que rendeu diversas risadas.

Pedimos 6 pizzas grandes (e ganhamos mais uma doce), totalizando mais de 7 pedaços para cada um, engolidos por todos com certa dificuldade, ao custo de 10 reais por cabeça. O Panda, a namorada e a Cândice optaram por preparar o jantar, com um saboroso miojo regado de salada.

Recarreguei o notebook, a bateria da câmera fotográfica e o celular. O que mais faz falta por aqui onde estamos é um banheiro. Imediatamente antes de escrever este texto, baixei e ajustei minhas fotos de ontem e de hoje, e com o Max e a Bruna fiquei conversando fitando o mar.

Ao longo do dia, além dos 200mL de café no posto, bebi cerca de 2,5L de água, além de um gatorade, 450mL de caldo de cana e uns 300mL de suco de uva, ambos últimos em Navegantes, hidratando-me mais que no dia anterior. Comi, além das pizzas, quatro pães com queijo, uma barra de cereal, duas de proteína e dois géis de carboidrato (GU) e um SUUM junto com água. Espero amanhã conseguir me alimentar melhor, com frutas e saladas. Por enquanto, meu organismo está dando conta, mas estamos apenas no começo da viagem e prevenir é realmente melhor do que remediar.

Agora já todos dormem, a despeito de barulhos estranhos vindos de uma ou outra barraca, enquanto eu aqui, ao relento, tremo de frio. Já passou um pouquinho de meu horário de recarregar as energias.

Fabiano Faga Pacheco

Balneário Piçarras, segunda-feira, 20 de junho de 2011, às 1h57min.

(Conexão Sul 2011) Dia 1 – Florianópolis – Porto Belo

Desculpem-me por não atualizar o site tanto quanto surgem os acontecimentos relacionados à bicicleta, O Pró-Bici, o qual hoje secretario, as atividades acadêmicas e as pesquisas para a minha monografia não me permitem atualizá-lo com tanta freqüência quanto gostaria.

Entre sábado, 18 de junho, e quarta-feira, dia 22, estará acontecendo a versão 2011 do Projeto Conexão Sul. Este projeto, não oficializado pela universidade, está sendo tocado por estudantes de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos e Educação Ambiental (GEABio). Entre os objetivos, sem dúvida está a divulgação da bicicleta como meio de deslocamentos, tanto de curta quanto de longa distância.

Entre esses dias, refletindo o movimento de intenso uso da bicicleta entre os estudantes, estará acontecendo a cicloviagem entre Florianópolis e Ilha do Mel (PR), na qual, na quinta-feira, terá início o Encontro Regional de Estudantes da Biologia da Região Sul – EREB-Sul.

Minha vontade de participar desse projeto era grande, mas os desafios também eram enormes. Fora TCC e Pró-Bici, um outro problema me afetava há meses. Eu tivera um acidente feio durante o Audax Floripa 200km deste ano, realizado em 23 de março. Mesmo com dor, pedalei os demais 185km que me distanciavam da chegada. Mas a queda não ficou barata: depois de um mês, descobriu-se que ganhei, com ela, um tipo de hérnia de disco! Ao saber da cicloviagem, meu desafio pessoal estava lançado! Dá-lhe fisioterapia para minorar a dor.

Após passar grande parte das duas semanas anteriores estudando, consegui finalizar as atividades a tempo para poder participar dessa pedalada. As dores praticamente terminado nesse meio tempo também (mais de dois meses após o acidente) e obtive, às vésperas, os equipamentos de bicicleta que me deixaram confiantes em poder realizar a pedalada sem maiores preocupações. Bagageiro decente, um novo capacete (uma vez que o outro teve que ficar indisponibilizado quando protegeu-me a cuca na queda) e alforges! Sim, antes eu utilizava malas e mochilas para o traslado de minhas coisas.

Arrumei praticamente tudo na véspera, separei a roupa que esperava usar (e troquei antes de sair de casa, devido ao tempo bom), só ficando as coisas de geladeira para serem guardadas. O horário combinado de saída era às 7h30, entretanto eu teria que fazer algumas atividades no comércio, as quais só faria após às 8h. Esperava encontrá-los pouco após sair para pedalar, mas não foi isso o que aconteceu…

Fui dormir mais ou menos às 5h30, resolvendo as últimas questões de minha ausência e arrumando as coisas. Bom, demorei 20min para fazer o que faria pela manhã e algumas horas para acordar. Às 14h apenas  saí de casa e segui ao encontro da galera, que entre às 8h e 9h já haviam de partido.

Despedi-me de minhas vizinhas e saí. Bem no começo de meu caminho, ainda na Ilha de Santa Catarina, uma surpresa: Um grupo de pouco menos de 10 pessoas terminava uma prova de caminhada. Eles estavam há 8 dias dando a volta à ilha, cansados, mas preparando-se para finalizarem festejando.

No Balneário do Estreito, um guri numa bike grande para o seu tamanho puxou conversa comigo (-Maneira a sua bike!). Olhando a barraca que levava, disse-me que sempre quisera acampar, mas nunca tivera oportunidade. Minha mãe, quando criança, acampou por todo o litoral brasileiro com os pais e os irmãos, enquanto eu só fui acampar pela primeira vez aos 17 anos, embora a vontade imensa. Meu avô recentemente se desfez de vários de seus equipamentos de escotismo. Eu também, ao saber que alguém é bandeirante ou escoteiro, converso com um misto de inveja e fascinação. Acho também uma pena a pouca adesão  – relativamente – ao  contato com a natureza e às suas maravilhas.

Evitei quase todos os trechos mais perigosos, desviando por algumas das poucas ruas paralelas existentes nas cidades catarinenses. Usei a ainda não inaugurada Beira-Mar do Estreito (Avenida Poeta Zininho). Foi emocionante ver a população utilizando-se daquele espaço ainda livre de automóveis. Um parque poderia ser melhor opção do que mais 3 pistas para o tráfego supostamente fluir melhor à Ilha da falta de mobilidade.

Evitei trechos da PC3 (Av. Leoberto Leal, em São José) seguindo pela R. Heriberto Hulse, de mesmo nome do estádio do Leão do Sul, o Criciúma.

Pouco antes das 15h30 já estava no Prado, em Biguaçu, quando o Arthur Fleury (vulgo Panda) falou-me que eu estava em bom ritmo, que uma galera já havia chegado em Tijucas e que se pensava em seguir rumo a Itapema. Há dois caminhos para se alcançar Tijucas. Um é pela BR-101, com os carros agora andando a 110km/h como velocidade mínima, como de praxe no Estado vice-líder em mortes por imprudências no trânsito. O outro é pela chamada estrada do Café. Falei com o Max Levy, o mesmo que foi para o Chile em janeiro do ano passado, antes de sair de Floripa e ele me aconselhou fortemente a ir por esse caminho.

Em Biguaçu, fui por dentro de Três Riachos, e logo me deparei com paisagens mistas de pasto e vegetação. Muita pecuária e pasto inutilizado. O caminho dá cinco quilômetros mais longo, mas a sensação térmica é bem diferente. É mais frio que pelo asfalto da BR-101, mais seguro e mais agradável, embora os carros não forneçam tanto vácuo, um dos motivos que ouvi em defesa da rodovia federal. Em Três Riachos, a pista dá voltas e o asfalto e a movimentação de automóveis não deixam as ruas calmas. A vegetação e o verde dos morros chamam a atenção. Virei em direção a Sorocaba. O asfalto terminou e começou o chão batido. O sinal do celular apagou-se. Ao contrário do asfalto, a sensação térmica era amena e agradável. Desbarrancamentos podiam ser observados em alguns trechos do caminho. Muitas espécies exóticas, como Pinus e eucaliptos davam os contornos gerais da vegetação. Em um dos sítios do lugar, um casal de pavão chamou-me a atenção. Um pássaro negro e um anu branco também percebi quando de dia. Sem contar as garças, patos e gansos.

Antes de Sorocaba virei em Estiva. Mesmo chão batido, mas quase sem morros. às 17h30, mais ou menos, avistei a BR ao longe. Cheguei a ela e….. não havia como cruzá-la com uma bike pesada. Havia muretas em toda a extensão. De lá, optei por voltar à Estrada do Café em vez de seguir pela BR. Hoje acho que não foi uma boa escolha. [Obs.: agora observando pelo mapa, navegando pela internet, vejo que essa volta por Estiva, recomendado por moradores foi o meu erro, deveria ter adentrado Sorocaba].

O Sol havia se recém-posto.

Cheguei no povoado de Estiva e, já de noite, um dos caras de lá passou-me uma informação incorreta que aumentou em alguns quilômetros meu caminho e meu cansaço. Durante todo o percurso, eu mal parei, ao contrário de meus amigos, que aproveitaram para banhar-se em rio! Bebi 1,4L de água e 0,5L de gatorade antes de encontrar meus colegas, além de mais 0,8L de Powerade, água e SUUM. Alimentei-me basicamente de pãezinhos, carboidrato em gel (GU e VO2) e barras de proteína. Queria parar pouco para tentar encontrá-los. A fase noturna de minha viagem solo não permitiu isso.

Entre Estiva, Areias de Cima, Areias de Baixo, Sorocaba do Sul e Timbé, o frio, a falta de iluminação, o cansaço, as irregularidades do chão batido, as variações de relevo imperceptíveis a longa distância foram, sem dúvida, os maiores desafios e o que me ajudou a seguir mais devagar. Se de dia eu podia observar e me programar para a próxima pedalada – e fechar os olhos com a passagem de veículos que levantavam poeira -, de noite a luz dos carros e dos postes rarefeitos eram a minha chance de acelerar. Quase todas chances, por sinal, vans.

Se a noite era inimiga da velocidade, era amigo do contemplar do céu. A Lua somente apareceu bem mais tarde e permitiu que as estrelas pudessem mostrar todo o seu esplendor no céu limpo longe da civilização. Uma cena curiosa foi a sensação falsa da movimentação de um avião vista de uma subida de morro, parecendo fazer movimentos erráticos e a pousar no mato, tal qual um disco voador. Um dos morros na Estiva cansou-me bastante e tive que empurrar a bike por uns metros tanto acima quanto para baixo, pois não conseguia ter noção exata da declividade do morro. Já no plano, minha velocidade era consideravelmente maior que nas mais íngremes descidas.

Em Areias, poderia ter cortado caminho cruzando um morro em direção a Timbé, mas optei por seguir pelo plano via Sorocaba. Essa escolha pareceu-me mais acertada pelas circunstâncias. Cruzar Timbé foi um sacrifício. O chão batido é muito irregular e a falta de iluminação não permite controlar a velocidade e a direção. Minha salvação aí foi um motorista que, por alguns quilômetros ao final do trecho, iluminou-me o caminho e me permitiu fazê-lo e bom tempo.

Margeei o Rio Tijucas e cruzei a Ponte Bulcão Viana, uma construção de metal que impressiona. Tijucas pareceu-me uma cidade muito simpática, com praças, construções em estilo açoriano, neoclássico e eclético que chamam a atenção na composição da paisagem. Quase todas as ruas são de paralelepípedo ou de lajota, o que, se por um lado dificulta os automóveis de andarem muito rápido, também prejudica o deslocamento do ciclista. O retorno à civilização, às 20h30 mais ou menos, significou o retorno do sinal do celular. Panda ligou-me, avisando de que levantaram acampamento em Porto Belo.

Eu já não estava muito distante. Cruzei a R. Santa Catarina, a BR-101 por baixo e, pela rua R. Euclides Peixoto, no bairro Santa Luzia (a Estrada Geral do bairro), deparei-me com trechos com paralelepípedo, terra (muito) batida e asfalto. Às 21h48 saí de Tijucas, tranqüilo e segui por Porto Belo. numa estrada de terra e pedras. Entrei no loteamento em que meus colegas acamparam, usei o celular, mas não consegui falar com eles. Não encontrei a saída e segui rumo ao ponto de encontro, o qual vejo daqui de onde estou. Num posto, comprei uns biscoitos e tentei usar o celular. Interessante como a mudança de código de área de 48 para 47 confunde as chamadas. Peço desculpas se você que lê, por ventura, acabou recebendo telefonemas meus na alta noite.

O Max conseguiu me ligar e, poucos minutos depois, no mesmo acampamento num loteamento do Programa Minha Casa, Minha Vida em que parei para olhar as barracas estava eu. Estou agora na barraca do Max de Roberta (estudante de Geografia), onde foram colocadas as coisas da galera, aumentando o conforto nas demais barracas. As bicicletas estão do outro lado, viradas a um rio que corre a poucos metros daqui. Isso explica não ter conseguido vê-las a primeira vez que passei. Apenas o Max me viu hoje. Uma névoa marinha deixa o ar mais denso, a umidade maior e a temperatura mais baixa. As bicicletas e os demais colegas as Biologia descansam/dormem bem. Vou fazer o mesmo.

Fabiano Faga Pacheco

Porto Belo, domingo, 19 de junho de 2011, às 1h49min.

[Obs.:  para os próximos dias estão agendados os relatos dos dois dias seguintes. Os demais, só quando voltar a ter acesso à internet]

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