Alvo emudecimento – Crônica

A crônica abaixo, de autoria de Marco Vasques, foi originalmente publicada no periódico Notícias do Dia, versão impressa, edição de Florianópolis, na segunda-feira, 18 de junho de 2012, na página 3 do caderno Plural. Pode ser lida também neste link.

Crônica - Marco Vasques ND 2012-06-18 SC-401, SC-402 e o silêncio branco

(Veja em PDF)

SC-401, SC-402 e o silêncio branco

 Voz e o corpo, mudos, pronúncia do silêncio. A morte é mesmo um emudecimento que fala. Um desenho preto sobre outro desenho preto. Algo se perde e se aloca em algum espaço, sobre outra camada: multiplicação da epiderme. As mortes se acumulam assim: escuro que é clarão, clareira. Quase fogueira. Início de dor e memória, ausência, medo e autorretrato. A vida? Vela em permanente luz até que o silêncio nos toque.

Quem, quando criança, não atirou uma pedra certeira num pássaro? Era a ave cair ao chão e o silêncio alcançava os ouvidos. Ficávamos mudos de cantos. Em que lugar andarão os cantos e as vozes de nossos mortos? Sabemos de pais que morderam a escuridão de seus filhos. Plantaram canto e voz à beira do asfalto. Um atropelamento, um monte de ferro agride a carne. Depois a ausência, a fratura. E os mil silêncios se acumulam: um lugar a menos na mesa, um sorriso perdido no porta-retratos, cama e guarda-roupas inertes e um timbre a menos nos dias.

Arte: César Nogueira.

Quem nunca viu umas cruzes solitárias à beira do asfalto? Certo dia, vimos cinco cruzes cravadas numa curva. Três minúsculas e duas maiores. A solidão e o silêncio da cena gritavam: somos túmulos vivos. Há um silêncio branco que liga a SC-401 à SC-402. No início da primeira, uma bicicleta branca, de criança, desenha lágrimas nas nuvens; na segunda, outra bicicleta, de adulto, igualmente pintada de cor branca, abriga uma garça e sua exuberância triste.

Esses silêncios brancos das bicicletas, sem suas pedaladas, sem seus movimentos, sem colorido, sem um rosto apanhado pelo vento, emolduradas pelo azul-céu dos dias de verão, são aterradores e imponentes.  O percurso por essas rodovias faz lembrar os versos do W. H. Auden – “Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado./ Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado./ Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas./ Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.”

E o que resta na ossatura daquelas paisagens? O grito-silêncio que a imagem provoca, o silêncio vermelho, o branco sobreposto ao branco e a difícil arte de carregar as vozes na memória da pele. As bicicletas? Continuam ali, na SC- 401 e na SC-402, com a sua brancura voando, estática, ao longo do asfalto. Estão vivas céu afora arranhando todas as estações do ano e espalhando sua ferrugem nos olhares. As bicicletas brancas, que foram utilizadas em manifestações pacifistas e ecológicas na Europa, estão ali e são túmulos sangrando o asfalto negro de nossas rodovias. São partituras dos sonoros silêncios brancos.

Bicicleta-fantasma de Jurerê também chegou a ser furtada e recuperada

“Ontem me encontrei com Marcelo Godoy, triatleta atropelado na SC-402, em Jurerê, junto com seu amigo e colega de treinos, Rodrigo Lucianetti, em 2008. Falávamos sobre o ocorrido com a ghost bike da Madre Benvenuta, em homenagem ao José Lentz, e ele me contou que há pouco tempo, cerca de um mês, a ghost em homenagem ao Rodrigo foi levada do local onde está fixada. Um homem retirou a bicicleta (que está bem no alto!) da estaca mas, ainda no mesmo trecho da rodovia, foi abordado por um policial fora de expediente, que conhecia a homenagem e a recolocou no lugar.

Mais tarde, conversando com o Fabiano, discutimos sobre este fato ter passado despercebido por nós e pelas associações de ciclistas da cidade – que, em geral, moram e transitam mais entre o João Paulo e o Campeche. Se não fosse meu encontro com o Marcelo, em função do meu trabalho de conclusão de curso sobre as bicicletas-fantasmas, quando saberíamos do ocorrido? Então fica aqui o pedido para o pessoal que puder, que nos mantenham informados sobre os acontecimentos do norte da Ilha e, assim, garantirmos que as lembranças de nossos companheiros ciclistas sigam nas suas funções.”

Marina Empinotti
Graduanda em Jornalismo
Universidade Federal de Santa Catarina

Saiba mais:

Notas sobre a reunião pelo fim da impunidade no trânsito – Sociedade civil, mobilizada, divulga novas informações sobre o acidente.
Motorista embriagado que matou ciclista no Jurerê vai a júri popular – Moacir Pereira divulga o andamento do processo do triatleta Rodrigo Machado Lucianetti.
Para não esquecer – Primeira ghost bike de Florianópolis – Reportagem do Diário Catarinense, versão impressa, sobre a Passeata pela Vida.
Começa julgamento do jovem embriagado que assassinou triatleta após Lei Seca – O Jornal Notícias do Dia alerta sobre a primeira audiência do caso em questão.
Ato pede segurança para ciclistas – Vídeo do programa SC no Ar.
Passeata faz homenagem a triatleta morto ao ser atropelado por motorista bêbado – Reportagem do Diário Catarinense sobre a Passeata pela Vida.
Motorista embriagado provoca morte de ciclista em Florianópolis – Reportagem do Diário Catarinense sobre a tragédia dos ciclistas.
Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamento e o caso de Jurerê – Conteúdo do Bicicleta na Rua mostra que se pensava em retirar as bicicletas-fantasmas dos locais onde foram instaladas.

Sentimento extravasado

Nesta sexta-feira, em meio à Bicicletada Floripa, deparamo-nos com o Roberto Lemos, da IronMind, equipe da qual já cheguei a participar e pela qual estavam treinando os triatletas Rodrigo Lucianetti Machado e Marcelo Occhialini Godoy, quando um guri praticamente da minha idade, embrigado, atingiu-os no acostamento na pista contrária, causando a morte de Rodrigo e graves sequelas ao Marcelo.

Semana passada, o caso foi à frente. Abordei um ciclista com a camisa da IronMind na ciclovia da Av. Beira-Mar Norte no mesmo momento em que acontecia uma audiência sobre o caso. Alguns minutos depois, alguém me passa um celular mostrando a mensagem abaixo.


De fato, os ânimos exaltados não deixam de expressar uma sensação de alívio e, quiçá, o fim da impunidade para os crimes de trânsito que tanto fazem temer aqueles que fazem da bicicleta seu meio de vida, de lazer e/ou de locomoção.

Saiba mais:

Motorista embriagado que matou ciclista no Jurerê vai a júri popular – Moacir Pereira divulga o andamento do processo.
Para não esquecer – Primeira ghost bike de Florianópolis – reportagem do Diário Catarinense, versão impressa, sobre a Passeata pela Vida.
Começa julgamento do jovem embriagado que assassinou triatleta após Lei Seca – o Jornal Notícias do Dia alerta sobre a primeira audiência do caso em questão.
Ato pede segurança para ciclistas – vídeo do programa SC no Ar.
Passeata faz homenagem a triatleta morto ao ser atropelado por motorista bêbado – reportagem do Diário Catarinense sobre a Passeata pela Vida.
Motorista embriagado provoca morte de ciclista em Florianópolis – reportagem do Diário Catarinense sobre a tragédia dos ciclistas.
Papo no Deinfra: sobre bicicletas em acostamento e o caso de Jurerê – conteúdo do Bicicleta na Rua mostra que se pensava em retirar as bicicletas-fantasmas dos locais onde foram instaladas.

Veja também:

Ciclistas mortos na Grande Florianópolis após a vigência da Lei Seca – relação, infelizmente já desatualizada, dos ciclistas que morreram atropelados na região. O caso em questão inaugura a lista. O último falecimento ocorreu neste mês em ciclofaixa recém-inaugurada.

Motorista embriagado que matou ciclista no Jurerê vai a júri popular

Notícia publicada no blogue do Moacir Pereira em 19 de janeiro de 2012, às 16h41, que pode ser vista também neste link.

A sentença de pronúncia proferida em Ação Penal Pública ajuizada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) contra Thiago Luiz Stabile, por homicídio consumado e por tentativa de homicídio, foi mantida pela 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça. A sentença de pronúncia determina o julgamento do réu perante o Tribunal do Júri. Thiago é acusado de, sob efeito de álcool, atropelar dois ciclistas, tendo causado a morte de um dele. A denúncia apresentada pela 36ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital narra que, em agosto de 2008, Thiago conduzia seu automóvel em alta velocidade na Rodovia SC-402, no sentido Centro-Jurerê, quando, nas proximidades do clube “El Divino”, passou para a pista contrária, atropelou e matou Rodrigo Machado Lucianetti e causou lesões corporais graves em Marcelo Occhialini Godoy.

Consta na denúncia do Ministério Público que o acusado tentou fugir do local, mas não conseguiu em função dos danos sofridos em seu automóvel. No momento em que foi abordado pela Polícia Militar, o teste de alcoolemia de Thiago revelou a concentração de 0,73 mg/l de álcool por litro de ar expelido nos pulmões.

A defesa apelou para tentar reverter a pronúncia, ao argumento de que não houve apreciação de suas teses, entre elas a de abuso de poder dos policiais que algemaram o réu, além do fato de o juiz sentenciante não ser o mesmo que presidiu a instrução dos autos. Requereu, ainda, a absolvição sumária ou, em último caso, a desclassificação dos crimes para homicídio não intencional. Todos os itens foram rechaçados pela câmara.

“A existência de indícios consistentes, apontando o acusado como autor do delito, é suficiente para autorizar o envio do feito à sessão plenária do júri”, disse o desembargador Carlos Alberto Civinski, relator do recurso. Para ele, “é incabível a absolvição sumária, fundada na alegação de [ausência] de embriaguez, uma vez que há indícios de autoria diante dos depoimentos colhidos dos policiais militares que realizaram o flagrante e de testemunhas que presenciaram a abordagem policial, além do teste de alcoolemia realizado logo após os fatos”. Cabe recurso da decisão.

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