Sérgio da Costa Ramos: “Será preciso criar a cultura da ciclovia”

O texto abaixo é de autoria de Sérgio da Costa Ramos e foi publicado na edição impressa do periódico Diário Catarinense de 23 de fevereiro de 2012 (pág. 37). Você pode vê-lo no site do DC aqui ou em PDF aqui. Uma questão, entretanto, merece ser ponderada: novos aterros e pontes não têm embasamento técnico-científico de que contribuam para melhorar a mobilidade urbana com a lacuna que temos hoje de pesquisas atuais sobre a origem e o destino da população metropolitana da Grande Florianópolis. Em Seul, na Coréia do Sul, pontes que trasladavam rodas por sobre o rio foram desmontadas, dando lugar a uma área de lazer, ocasionando, num aparente contrassenso, melhorias na mobilidade urbana e na saúde de sua população. Ademais, o aumento de área para uso exclusivo de veículos particulares faz com que as zonas urbanas da cidade tenham 1/3 de seu território coberto por asfalto, para o deslocamento, o transitório, o meio, em vez das moradias, parques, escolas e hospitais, o seu viver, a sua razão de existir, o seu fim.

Reinventar a roda

Falta pouco.Talvez uns dois anos de boas vendas das 23 montadoras de veículos existentes no país para que alcancemos o verdadeiro labirinto urbano.

Fôssemos uma cidade com planejamento e a tal da “vontade política” – com administrações capazes nos três níveis de poder federativo –, teríamos um rodoanel para retirar o trânsito “expresso” das vias de acesso citadino. E corredores urbanos para o BRT, o ônibus rápido, um serviço de transporte marítimo de massa e pelo menos mais duas pontes e uns três túneis. Um ligando o Centro à universidade, “tatuzando” o Morro do Antão. Outro “furando” o Morro do Padre Doutor e ligando o Itacorubi à Lagoa da Conceição. E um terceiro, submarino, ao lado das pontes, como os túneis que ligam Kowloon a Hong Kong e Nova York a Nova Jersey.

Todo mundo quer mais mobilidade. Eu também quero. Quanto mais ciclovias, melhor. Mas para os ciclistas não serem “tragados” pelo trânsito perverso do bicho-automóvel, esta praga tem que ser domesticada. Com alternativas do transporte coletivo de qualidade e a “alternância” para vias privativas das “duas rodas”.

Será preciso criar a cultura da ciclovia, zelar pelo direito dos ciclistas e dar-lhes, nas novas pistas, um lugar seguro – nada a ver com essas “tachinhas” espalhadas em ruas apertadas, improvisadas ciclovias em meio à lei da selva de um trânsito pesado e desvairado.

Se ainda precisamos conviver com os automóveis, necessitamos de duas coisas: limites e ordenamento na ocupação do solo.

– Com o inchamento da zona continental e a caotização da Ilha – diagnosticou o falecido arquiteto Luiz Felipe da Gama D’Eça –, criou-se um grande desequilíbrio, que estimula os conflitos de uso e a desordem, ampliando o atrito urbano, hoje responsável pela deterioração do sistema viário.

Ao invés da regulação de um plano diretor, o que vimos nos últimos anos foi uma “força-tarefa” na Câmara Municipal modificando zoneamentos e ampliando gabaritos de edifícios. Ou seja: chocando o verdadeiro “ovo da serpente” – que já se traduz num caos anunciado para muito breve.

E o que é que chega (e se multiplica) com a construção de um grande edifício em bairros já mais do que saturados? “Ele”, claro, o automóvel…

Esse “bicho” pode não ser um animal domesticável. Mas existe. Move-se e reage a estímulos externos, governados por este Homo transitus, que nada tem de cordial.

Com uma mão, os governos dos estados têm disputado o “privilégio” de conceder incentivos fiscais a montadoras de veículos. Com a outra, entregam ao automóvel o trânsito já caótico das cidades de pequeno e médio porte – já que as megalópoles há muito se transformaram na Babel da Bíblia.

Florianópolis parece estar vivendo o momento da grande encruzilhada. A hora de enfrentar o automóvel. Para isso, terá que planejar o transporte urbano de massa, construir túneis e vias expressas – fundados num plano diretor com força de lei.

É chegada a hora de “reinventar a roda”. Os engarrafamentos já chegaram à porta das garagens e não há espaço para mais rodas nas ruas.

Floripa, sendo uma ilha, precisa voltar seus olhos para o Mare Nostrum (saúde, Salim Miguel!), se é que deseja continuar exercendo o seu direito legal de ir e vir.

Veja também:

Sérgio da Costa Ramos: “Eu também quero ciclovias”

Sérgio da Costa Ramos: “Eu também quero ciclovias”

O texto abaixo é de autoria de Sérgio da Costa Ramos e foi publicado na edição impressa do periódico Diário Catarinense de 24 de novembro de 2011 (pág. 53). Você pode vê-lo no site do DC aqui ou em PDF aqui. Uma correção deve ser feita: o número de automóvel/habitante de Florinópolis é, aproximadamente, 0,6. Em 2009, a cidade possuía 1 veículo para cada 1,7 cidadão.

Rodas Quadradas

Pode até não ser ecologicamente correto, mas o automóvel em Floripa já está dando em árvore.

A cidade exibe, proporcionalmente, o segundo maior índice da relação automóvel/habitante do Brasil: 1,2. Falta pouco. Talvez uns dois anos de boas vendas das 22 montadoras de veículos existentes no país para que alcancemos o verdadeiro labirinto urbano.

Fôssemos uma cidade com planejamento e a tal da “vontade política” – com administrações capazes nos três níveis de poder federativo –, teríamos um rodoanel para retirar o trânsito “expresso” das vias de acesso citadino. E corredores urbanos para o BRT, transporte marítimo de massa e pelo menos mais umas duas pontes e uns três túneis. Um ligando o Centro à universidade, “tatuzando” o Morro do Antão. Outro “furando” o Morro do Padre Doutor e ligando o Itacorubi à Lagoa da Conceição. E um terceiro, submarino, ao lado das pontes, como os túneis que ligam Kowloon a Hong Kong e Nova York a Nova Jersey.

Interessante: todo mundo quer ciclovias. Perfeito. Eu também quero. Quanto mais ciclovias, melhor. Mas para os ciclistas não serem “tragados” pelo trânsito perverso do bicho-automóvel, esta praga tem que ser domesticada. Mas com alternativas do transporte coletivo de qualidade e a “alternância” para vias privativas das “duas rodas”.

Se ainda precisamos conviver com os automóveis, que já dão em árvore, necessitamos de duas coisas. Limites. E ordenamento na ocupação do solo. “Com o inchamento da zona continental e a caotização da Ilha – diagnosticou o recentemente falecido arquiteto Luiz Felipe da Gama D’Eça –, criou-se um grande desequilíbrio, que estimula os conflitos de uso e a desordem, ampliando o atrito urbano, hoje responsável pela deterioração do sistema viário”.

Ao invés da regulação de um plano diretor, o que vimos nos últimos anos foi uma “força-tarefa” na Câmara Municipal modificando zoneamentos e ampliando gabaritos de edifícios. Ou seja: chocando o verdadeiro “ovo da serpente” – que já se traduz num caos anunciado para muito breve. O que é que chega com a construção de um grande edifício em bairros já saturados? “Ele”, claro, o automóvel…

Esse “bicho” pode não ser um animal domesticável. Mas existe. Come, metaboliza, excreta, respira, move-se e reage a estímulos externos, governados por este homo transitus, que nada tem de cordial.

O cientista-extravagante, Carl Sagan, que investigava a vida no Cosmos, assim registrou a incômoda, mas inexorável, presença do automóvel sobre a face da Terra:

– A julgar pelo imenso número de automóveis rodando sobre nosso planeta, e pelo modo como nossas cidades foram planejadas, sempre em benefício das rodas, poderíamos concluir que o automóvel não só é um “ser vivo”, como é a forma de vida predominante sobre a Terra.

Florianópolis parece estar vivendo o momento de uma grande encruzilhada. A hora de enfrentar o automóvel. Para isso, terá que planejar o transporte urbano de massa, túneis, vias expressas – e um plano urbano com força de lei.

Há os que desejam uma cidade disposta a enfrentar o automóvel e o comodismo. Há, também, aqueles agentes políticos que “não estão nem aí” – e que preferem tratar de outros interesses, aumentando os andares dos prédios.

Há, ainda, os loucos, que querem deixar tudo como está, acreditando, como Tiririca, “que pior do que está não fica”.

Fica. Será muito tarde quando o dono de um automóvel zero descobrir que não pode retirá-lo da garagem, porque não há um metro de rodovia a ser rodado.

Os engarrafamentos já chegaram à porta das garagens, mudando a história da roda.

Em Floripa, as rodas já estão nascendo quadradas.

Vilão rodante

A inédita pesquisa RBS/Mapa, lançando uma tomografia urbana sobre as 10 maiores cidades de Santa Catarina, aponta, com clareza, a cruel combinação de falência da infraestrutura com o absurdo império do automóvel como o duplo gargalo da imobilidade citadina.

Concedendo incentivos fiscais às montadoras, que produzem mais do que 3 milhões de veículos/ano, o grande responsável pelo nó górdio da “imobilidade” é o Estado brasileiro e seus entes federativos, muitos deles empenhados numa guerra fiscal entre estados sempre que uma montadora estrangeira se dispõe a fabricar seus veículos no mais cortejado dos mercados depois da China: o do Brasil.

Aí, não tem jeito: o Estado “contrata” o caos e sequer conserva as estradas existentes. O primeiro passo para uma reversão é uma “reforma tributária automotiva”. Chega de incentivar quatro rodas para uma só pessoa.

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