Superação sobre duas rodas

A reportagem abaixo foi originalmente publicada no Jornal Notícias do Dia, versão do Vale do Rio Tijucas, em 21 de dezembro de 2009 (pág. 28). A matéria pode ser vista também em .pdf aqui.

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Gente. Claudiomir faz duas coisas com bicicleta: vende peixes e ganha troféus

Ele dá duro no pedal

O peixeiro Claudiomir Dias, 34 anos, passa o dia na estrada vendendo peixes e frutos do mar. Sua principal ferramenta de trabalho é uma bicicleta com duas caixas de isopor. Diariamente, ele pedala cerca de 40 quilômetros por estradas de chão de Tijucas, Porto Belo e Itapema. A rotina começa logo que o sol nasce, quando ele sai para buscar o peixe, fresquinho, direto dos pescadores. Quando chega em casa, por volta das 15h, almoça e descansa até o final da tarde, quando então troca a bicicleta de carga por uma de corrida.

Apaixonado por esporte, Dias trocou as academias de musculação pelos pedais. Até então, corria apenas por diversão. A primeira competição da qual participou foi em 2005, a convite de amigos. Depois da prova passou dois anos sem competir, voltando apenas em 2007. De lá para cá, não parou mais de pedalar em busca de medalhas e troféus.

Correndo na categoria speed para atletas de 30 a 34 anos, Dias conquistou o campeonato brasileiro da modalidade em 2008, disputado na cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais. Antes disso, ele tinha deixado o título escapar no ano anterior. Na prova, realizada em Rolante, no Rio Grande do Sul, Dias errou o percurso quando liderava a prova.

“Com meu equipamento, que custa R$ 500 reais, eu consigo chegar na frente”

Claudiomir Dias, peixeiro e ciclista

Para manter a forma, o atleta percorre 450 km por semana. Quando tem competição, ele treina diariamente. Fora isso, o trabalho diário com a venda de peixes ajuda no condicionamento físico, assim como as pedaladas com os amigos. “Todas essas atividades ajudam a superar as dificuldades do dia a dia”, afirma, com resignação.

Para encarar a rotina de quatro provas por mês, o peixeiro conta com pequenos patrocínios de empresas da cidade. Os valores, tímidos, ajudam apenas nas despesas com alimentação. “Eu recebo R$ 300 por mês, mas tenho que dividir com outro atleta”, explica Dias.

Magrela sem recursos

As dificuldades vão além das despesas com transporte e alimentação durante as competições. Para correr, o peixeiro utiliza uma bicicleta com poucos recursos e que está defasada em relação às utilizadas pelos outros competidores.

“Se eu tivesse uma bicicleta adequada, meus resultados seriam melhores. Mas eu não reclamo. Com meu equipamento, que custa R$ 500, eu consigo chegar na frente de pessoas que têm bicicletas de até R$ 40 mil”, avalia.

Otimismo para dar e vender

Exemplo de dedicação e amor ao esporte, o ciclista diz que corre mais pela saúde do que pelos resultados. A inspiração dele vem de Valcemar Justino da Silva, que foi campeão brasileiro de ciclismo aos 41 anos. “Eu admiro muito o trabalho dele. Se ele conseguiu, eu também posso”, projeta o ciclista peixeiro.

Em 2010, o atleta de Tijucas espera dias melhores. Ele vê a possibilidade de ser contratado por uma equipe de Joinville. “Se eu conseguir esse apoio, vou disputar o Campeonato Catarinense de igual para igual com os outros competidores da minha categoria”, avisa, confiante.

Enquanto a equipe não confirma a parceria, ele segue pedalando uma bicicleta carregada de peixes durante o dia e treinando à noite. Sem desanimar, o peixeiro sai sobre duas rodas em busca de seus sonhos e objetivos. “Eu gosto de andar de bicicleta. Com ou sem patrocínio, vou continuar participando das competições atrás de medalhas e troféus para minha coleção”, projeta o confiante vendedor de peixes.

Everton Palaoro

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