No Dia Nacional do Ciclista, usuários de Santa Catarina ainda têm pouco a comemorar


Dia Nacional do Ciclista

Neste último ano, muita coisa se falou sobre bicicleta em Santa Catarina. As ações que começaram em período eleitoral deram origem a compromissos com os ciclistas, assumidos em Joinville e em Florianópolis.

Mas em termos estaduais, muito pouca coisa avançou de fato.

A ciclovia na SC-405, no Rio Tavares, já passou dos prazos legais concedidos pela justiça para ficar pronta, mas o Deinfra informou que o projeto será modificado sem sequer consultar os moradores e os ciclistas da Comissão Pró-Segurança da SC-405. Sim, o projeto precisa de melhorias, mas as principais não serão feitas pelo órgão. As pesquisas indicam que o lado em que há maior fluxo de ciclistas, incluindo crianças, é o de sentido centro->bairro, mas o novo projeto certamente manterá a ciclovia bidirecional e passeio, que juntos somam 3 metros de largura, no sentido contrário. Ainda assim, a obra com as modificações deve demorar a sair, contrariando decisão de ação civil pública.

Mas não é apenas isso. Apenas em Florianópolis, os ciclistas, incluindo da Pró-Bici, comissão que serve para auxiliar a implantação do sistema cicloviário municipal, sequer foi consultada sobre os projetos da Transavaiana e da SC-403. É um tiro no escuro para os ciclistas o que as obras vão realmente proporcionar em termos de mobilidade urbana por bicicleta. As primeiras imagens dos projetos mostram problemas gravíssimos nas intersecções no que tange ao tráfego de ciclistas e de pedestres. Como se não bastasse a falta de diálogo, ainda ciclistas tem sido sistematicamente barrados para conversas com o Deinfra e com a Secretaria de Estado de Infraestrutura.

Embora devesse ter ciclovia desde 1991, uma estrutura decente passou sempre longe da SC-401. Uma semana depois de inaugurado um trecho duplicado em que seu acostamento foi dividido para dar lugar a uma ciclofaixa (sim, a uma ciclofaixa) com largura média de 1,5m, um ciclista faleceu. Na ciclofaixa. E não foi o único. Ao longo de pouco mais de um ano e meio, cinco ciclistas perderam a vida na SC-401, com três bicicletas-fantasmas (ou ghost bikes) erguidas. O último, ontem (18/08). Certamente, todos teriam sobrevivido se não houvesse tamanha omissão estatal.  A ciclovia não feita ceifou vidas. Vidas que nunca retornarão.

Nem mesmo após a morte do estudante de Medicina Emílio Delfino Carvalho de Souza as autoridades se moveram. Nem mesmo com a morte de Mário Augusto Fernandes, num dos piores trechos para ciclistas, a subida para Cacupé, as autoridades se mexeram. Mas elas se mexeram para fazer vias laterais e acostamentos mais largos e correção de declive de pistas para os automóveis. Pistas laterais foram feitas, sem a menor previsão de consequência para a mobilidade por bicicleta. A Curva da Morte, como chamada uma virada na região do bairro João Paulo, não tirou da SC-401 a alcunha de Rodovia da Morte para os ciclistas. E talvez o pior: não há nenhuma movimentação para que ela deixe de ter essa alcunha.

A pergunta já foi lançada há muito tempo, mas sempre é bom de ser levantada: quantos ciclistas mais terão que perder a vida para que o poder público comece a se movimentar? Quantas ghost bikes mais devem ser erguidas? 

Essa reiterada omissão estatal certamente não vale uma, duas, três… vidas.

Fabiano Faga Pacheco

Saiba mais:

Um ano e nada mudou  – um balanço sobre as promessas feitas logo após o acidente e a realidade um ano depois.
Mais de duzentas pessoas comparecem à homenagem a ciclista morto na SC-401, neste sábado – Cobertura do Bicicleta na Rua sobre a bicicleta-fantasma na SC-401 em homenagem a Emílio Delfino Carvalho de Souza.
SC-401, a Rodovia da Morte para ciclistas – Reportagem do Jornal Notícias do Dia revela a preocupação com a circulação de bicicleta na rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina.
SC-401 oferece ainda mais riscos aos ciclistas neste verão – A liberação consentida da Polícia Militar Rodoviária para automóveis usarem o acostamento coloca em risco a vida de ciclistas.
A rodovia das mortes – Quando ciclistas são assassinados – Conteúdo do Bicicleta na Rua já previa, em 2009, que mais acidentes na SC-401 aconteceriam se não houvesse um redirecionamento dos investimentos e das prioridades.

Veja também:

Charge – Pedalando com segurança na SC-401

Sobre bicicletanarua
Ciclista urbano paulistano residente em Florianópolis.

2 Responses to No Dia Nacional do Ciclista, usuários de Santa Catarina ainda têm pouco a comemorar

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