Pedala Curitiba já percorreu o equivalente a mais de 13 voltas em torno da Terra

Desde que foi criado, em 2008, o Pedala Curitiba, evento criado pela prefeitura da cidade para proporcionar atividade física e de lazer já percorreram mais de 554.000 km sobre bicicleta, o que seria equivalente a dar 13,83 voltas em torno do Planeta Terra. Pelo menos essas são as estatíticas apresentadas por Marcelo Luis Miranda e Eduardo Galeb Junior, funcionários da Secretaria Municipal do Esporte, Lazer e Juventude de Curitiba. Os dados foram passados durante palestra na manhã desta quinta-feira, 13 de fevereiro, no Fórum Mundial da Bicicleta, cuja sede da terceira edição acontece na capital paranaense.

Confira abaixo a apresentação da palestra na íntegra:

APRESENTACAO PEDALA CURITIBA NO FORUM MUNDIAL DA BICICLETA 02.2014

Para quem pedala eventualmente, fotos de diversas pedaladas podem ser vistas pelo site Cicloativismo.Com

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Crônica natalina – Fernanda Lago

O texto abaixo foi originalmente publicado no periódico Diário Catarinense, versão impressa, na quinta-feira, 12 de dezembro de 2013, na página 3 do caderno Variedades. Pode ser lida também neste link.

cronica - Fernanda Lago DC 2013-12-12 Ops, e Natal

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Alvo emudecimento – Crônica

A crônica abaixo, de autoria de Marco Vasques, foi originalmente publicada no periódico Notícias do Dia, versão impressa, edição de Florianópolis, na segunda-feira, 18 de junho de 2012, na página 3 do caderno Plural. Pode ser lida também neste link.

Crônica - Marco Vasques ND 2012-06-18 SC-401, SC-402 e o silêncio branco

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SC-401, SC-402 e o silêncio branco

 Voz e o corpo, mudos, pronúncia do silêncio. A morte é mesmo um emudecimento que fala. Um desenho preto sobre outro desenho preto. Algo se perde e se aloca em algum espaço, sobre outra camada: multiplicação da epiderme. As mortes se acumulam assim: escuro que é clarão, clareira. Quase fogueira. Início de dor e memória, ausência, medo e autorretrato. A vida? Vela em permanente luz até que o silêncio nos toque.

Quem, quando criança, não atirou uma pedra certeira num pássaro? Era a ave cair ao chão e o silêncio alcançava os ouvidos. Ficávamos mudos de cantos. Em que lugar andarão os cantos e as vozes de nossos mortos? Sabemos de pais que morderam a escuridão de seus filhos. Plantaram canto e voz à beira do asfalto. Um atropelamento, um monte de ferro agride a carne. Depois a ausência, a fratura. E os mil silêncios se acumulam: um lugar a menos na mesa, um sorriso perdido no porta-retratos, cama e guarda-roupas inertes e um timbre a menos nos dias.

Arte: César Nogueira.

Quem nunca viu umas cruzes solitárias à beira do asfalto? Certo dia, vimos cinco cruzes cravadas numa curva. Três minúsculas e duas maiores. A solidão e o silêncio da cena gritavam: somos túmulos vivos. Há um silêncio branco que liga a SC-401 à SC-402. No início da primeira, uma bicicleta branca, de criança, desenha lágrimas nas nuvens; na segunda, outra bicicleta, de adulto, igualmente pintada de cor branca, abriga uma garça e sua exuberância triste.

Esses silêncios brancos das bicicletas, sem suas pedaladas, sem seus movimentos, sem colorido, sem um rosto apanhado pelo vento, emolduradas pelo azul-céu dos dias de verão, são aterradores e imponentes.  O percurso por essas rodovias faz lembrar os versos do W. H. Auden – “Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado./ Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado./ Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas./ Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.”

E o que resta na ossatura daquelas paisagens? O grito-silêncio que a imagem provoca, o silêncio vermelho, o branco sobreposto ao branco e a difícil arte de carregar as vozes na memória da pele. As bicicletas? Continuam ali, na SC- 401 e na SC-402, com a sua brancura voando, estática, ao longo do asfalto. Estão vivas céu afora arranhando todas as estações do ano e espalhando sua ferrugem nos olhares. As bicicletas brancas, que foram utilizadas em manifestações pacifistas e ecológicas na Europa, estão ali e são túmulos sangrando o asfalto negro de nossas rodovias. São partituras dos sonoros silêncios brancos.

Sérgio da Costa Ramos: “Será preciso criar a cultura da ciclovia”

O texto abaixo é de autoria de Sérgio da Costa Ramos e foi publicado na edição impressa do periódico Diário Catarinense de 23 de fevereiro de 2012 (pág. 37). Você pode vê-lo no site do DC aqui ou em PDF aqui. Uma questão, entretanto, merece ser ponderada: novos aterros e pontes não têm embasamento técnico-científico de que contribuam para melhorar a mobilidade urbana com a lacuna que temos hoje de pesquisas atuais sobre a origem e o destino da população metropolitana da Grande Florianópolis. Em Seul, na Coréia do Sul, pontes que trasladavam rodas por sobre o rio foram desmontadas, dando lugar a uma área de lazer, ocasionando, num aparente contrassenso, melhorias na mobilidade urbana e na saúde de sua população. Ademais, o aumento de área para uso exclusivo de veículos particulares faz com que as zonas urbanas da cidade tenham 1/3 de seu território coberto por asfalto, para o deslocamento, o transitório, o meio, em vez das moradias, parques, escolas e hospitais, o seu viver, a sua razão de existir, o seu fim.

Reinventar a roda

Falta pouco.Talvez uns dois anos de boas vendas das 23 montadoras de veículos existentes no país para que alcancemos o verdadeiro labirinto urbano.

Fôssemos uma cidade com planejamento e a tal da “vontade política” – com administrações capazes nos três níveis de poder federativo –, teríamos um rodoanel para retirar o trânsito “expresso” das vias de acesso citadino. E corredores urbanos para o BRT, o ônibus rápido, um serviço de transporte marítimo de massa e pelo menos mais duas pontes e uns três túneis. Um ligando o Centro à universidade, “tatuzando” o Morro do Antão. Outro “furando” o Morro do Padre Doutor e ligando o Itacorubi à Lagoa da Conceição. E um terceiro, submarino, ao lado das pontes, como os túneis que ligam Kowloon a Hong Kong e Nova York a Nova Jersey.

Todo mundo quer mais mobilidade. Eu também quero. Quanto mais ciclovias, melhor. Mas para os ciclistas não serem “tragados” pelo trânsito perverso do bicho-automóvel, esta praga tem que ser domesticada. Com alternativas do transporte coletivo de qualidade e a “alternância” para vias privativas das “duas rodas”.

Será preciso criar a cultura da ciclovia, zelar pelo direito dos ciclistas e dar-lhes, nas novas pistas, um lugar seguro – nada a ver com essas “tachinhas” espalhadas em ruas apertadas, improvisadas ciclovias em meio à lei da selva de um trânsito pesado e desvairado.

Se ainda precisamos conviver com os automóveis, necessitamos de duas coisas: limites e ordenamento na ocupação do solo.

– Com o inchamento da zona continental e a caotização da Ilha – diagnosticou o falecido arquiteto Luiz Felipe da Gama D’Eça –, criou-se um grande desequilíbrio, que estimula os conflitos de uso e a desordem, ampliando o atrito urbano, hoje responsável pela deterioração do sistema viário.

Ao invés da regulação de um plano diretor, o que vimos nos últimos anos foi uma “força-tarefa” na Câmara Municipal modificando zoneamentos e ampliando gabaritos de edifícios. Ou seja: chocando o verdadeiro “ovo da serpente” – que já se traduz num caos anunciado para muito breve.

E o que é que chega (e se multiplica) com a construção de um grande edifício em bairros já mais do que saturados? “Ele”, claro, o automóvel…

Esse “bicho” pode não ser um animal domesticável. Mas existe. Move-se e reage a estímulos externos, governados por este Homo transitus, que nada tem de cordial.

Com uma mão, os governos dos estados têm disputado o “privilégio” de conceder incentivos fiscais a montadoras de veículos. Com a outra, entregam ao automóvel o trânsito já caótico das cidades de pequeno e médio porte – já que as megalópoles há muito se transformaram na Babel da Bíblia.

Florianópolis parece estar vivendo o momento da grande encruzilhada. A hora de enfrentar o automóvel. Para isso, terá que planejar o transporte urbano de massa, construir túneis e vias expressas – fundados num plano diretor com força de lei.

É chegada a hora de “reinventar a roda”. Os engarrafamentos já chegaram à porta das garagens e não há espaço para mais rodas nas ruas.

Floripa, sendo uma ilha, precisa voltar seus olhos para o Mare Nostrum (saúde, Salim Miguel!), se é que deseja continuar exercendo o seu direito legal de ir e vir.

Veja também:

Sérgio da Costa Ramos: “Eu também quero ciclovias”

Uma crônica acessível

A crônica abaixo é de autoria do jornalista Chiko Kuneski, portador de necessidades especiais, e pode ser encontrada no livro “D’vagar si não Aleija” (Insular, 2001).

A pequena autoridade

Ao querer estacionar em local reservado ao portador de deficiência física, num shopping center de Florianópolis, fui interrompido por um agudo apito.

– Não pode parar aí não! – esbravejou um dos guardas do shopping, do alto do pedestal de sua “pequena autoridade”.

– Desculpe, mas não estou entendendo – reagi.

– Não tem o que entender. Só não pode estacionar aí. Não tá vendo que tem um monte de vagas?

– Mas a placa… – iniciei, tentando explicar que estava justamente parando na vaga para portadores de deficiência física.

– É! Justo pela placa – cortou seco.

– Pois a placa…

– A placa indica que aqui não pode parar carro não. Não sabe de trânsito? – disse, quase gritando.

– Mas…

– Sem mas! – cortou o guarda, num grito. – Tira logo o carro! Não vê o desenho da placa? Aqui é lugar de parar só as bicicletas…

Saiba mais:

Bicicletada Floripa – Acessibilidade – campanha “Esta vaga não é sua nem por um minuto”, para conscientizar o motoristas a não estacionarem em vagas reservadas a portadores de necessidades especiais.

Veja também:  

Crônica – Dia de Sol – veja a crônica “Dia de Sol”, de Celso Leal.
Selva de aço – Crônica – leia a íntegra da crônica “Selvaço”, de Vinícius Leyser da Rosa.
Conto para o Dia dos Pais – leia aqui o conto “Não chore, papai”, de Sérgio Faraco.

Crônica – Dia de Sol

A crônica abaixo é de autoria de Celso Leal e foi publicada no Jornal Notícias do Dia, versão do Vale do Rio Tijucas, em 7 de janeiro de 2010 (veja em .png).

Dia de Sol

Calor intenso. O rio descia ao mar. A capivara pastava no local de costume. Inacreditável a mansidão dela na margem contrária. As gaivotas voavam e pousavam no barco ancorado. A cidade se movimentava e o povo trabalhava. Poucos se importavam com as belezas naturais do lugar. Um homem se aproximou do cais. Desceu da bicicleta. Não havia ninguém. Ele fitou o rio. Muito quente. Nenhum vento. O homem passou a gesticular. Parecia dar de dedo no rio. Apontava e conversava. Eu nada ouvia. Apenas via o corpo fazendo trejeitos direcionados ao rio. Em certo momento ele batia no peito e agia como se lançasse algo no rio. Não sei se beijos ou o coração. Repentinamente a bicicleta caiu. Com fúria ele passou a chutar a magrela. Insatisfeito jogava0se com o peso do corpo sobre o veículo. Ato de fúria ou insanidade! Tudo muito rápido.

Ele pegou a bicicleta e a jogou no rio. Ela afundou e ele prosseguiu gesticulando e falando com o rio. Os carros passavam, o sol ardia, o homem fazia teatro e eu acompanhava. Fato real. Qual a intenção dele? Uma pessoa que deveria saber o que estava fazendo. Caso contrário teria se atirado ao rio. Perdera a bicicleta. Talvez pelo fato de ter ela interrompido a conveersa inicial entre ele e o rio. Ou dele com os peixes? Quem sabe a bicicleta tenha sido entregue como oferenda ao senhor das águas? Ou emprestada para os peixes transitarem sob as águas barrentas do rio poluído?

A capivara entrou na água. Mansamente. Eu decidi ir ao encontro do homem. Desci e encontrei quem havia chegado para falar comigo. Atendi e ao sair na rua não avistei o homem. Fui ao local em que ele deveria estar e nenhum sinal. Procurei ao redor. Olhei ao longe e nada de encontrá-lo. Tentei visualizar a bicicleta. Fiquei a pensar. Estaria eu enganado? Seria insolação? Quando mirei para a ponte reconheci quem estava no meio dela. Era ele! As cores da camisa e da calça não deixavam dúvidas. Pensei em segui-lo. De nada adiantaria. Ele continuou o caminho. Venceu a ponte, passou frente à entrada do Pernambuco e seguiu para Morretes. A vida contínua prossegue graças aos mistérios do cotidiano. Ainda bem…

Veja também:

Selva de aço – Crônica – leia a íntegra da crônica “Selvaço”, de Vinícius Leyser da Rosa.
Conto para o Dia dos Pais – leia aqui o conto “Não chore, papai”, de Sérgio Faraco.

Selva de aço – Crônica

Selvaço

Um dia prometeram mudar a forma de se ver o mundo. Uma gaiola protege contra o vento e a chuva, uma série de alavancas garante o controle, um motor ligado às rodas impulsionam o conjunto. Com um pouco de trabalho, qualquer que fosse, todos poderiam juntar dinheiro o suficiente para ter condições de comprar aquela carroça sem cavalos, de 100 cavalos. Poderia se ir mais longe, mais rápido, com mais conforto, com menos esforço. Era uma idéia tentadora, digna do desejo de trabalhadores que precisavam carregar quilos e quilos de materiais por longas distâncias todos os dias, cansando exaustivamente a si próprios e a seus animais. Digna também, porém, da futilidade do sedentarismo antinatural que tomou conta da civilização. Não se cansa mais, não se sua mais, não existe mais esforço senão aquele cujo único objetivo é justamente não mais se esforçar.

Era uma manhã como outra qualquer, acordei cedo. Peguei meu veículo e logo parei para abastecer numa padaria que serve um ótimo combustível. De tanque cheio, tomei meu rumo. Nessa hora, as ruas parecem currais de rinocerontes, búfalos, hipopótamos, elefantes e até dinossauros. São todos grandes, brutos, pesados, fedidos e esfomeados.  Comportam-se como seres irracionais que são, apesar de adestrados por seres teoricamente racionais. Ineficiência temperada a aço e óleo que um dia acabarão. Nas mais variadas formas e tamanhos, essas bestas preenchem cada centímetro dos vastos labirintos que uma vez foram criados para os animais humanos, estes que agora mais parecem presentes troianos. Nessa realidade animalesca, sinto-me um leopardo: leve, esguio, rápido, prático. Eficiência abastecida a arroz e feijão, renovados a cada estação. E um pouco mais racional.

Observava os outros animais de perto, não havia espaço para se ter uma visão de longe. Por entre um e outro, enquanto se moviam lentamente, quase parando, abria meu caminho. A fila de gigantes de aço aumentava, um atrás do outro, como se estivessem esperando a sua vez de poder exibir toda sua força, algo que nunca iria acontecer ou, se acontecesse, por alguns poucos segundos. Frustrados, quase castrados, encouraçam-se aos montes em meio a nuvens de fumaça e poças de sangue terrestre, dejetos do conforto. Imponentes com toda sua potência, impotentes diante de tanta imponência, é um desastre causado por si próprio. A propaganda dizia “Mais liberdade, mais mobilidade, mais velocidade, mais eficiência”. Mais liberdade, mais mobilidade, mais velocidade, mais eficiência. Mais liberdade, mais mobilidade, mais velocidade, mais eficiência. Mais… fila. Já não sei mais de quem estão falando. O ritmo das pedaladas funcionava como um mantra, até que algo interrompeu a concentração:

– Sai daí ô! Fica atrapalhando o trânsito! – disse-me um dos domadores de bestas. Parei, respirei fundo, respondi com calma.

– Quem atrapalha é você. Sua gaiola pesa uma tonelada, ocupa a rua toda e ainda fica parada a maior parte do tempo. Tá vendo eu trancar o caminho de alguém por acaso?

– O meu!

– Não. O seu caminho tá trancado pelo seu colega da frente. Eu vou passar pelo lado e continuar pedalando.

– Então eu vou passar por cima de você e desse seu brinquedo!

– Isso não vai arranhar a pintura e amassar a lataria?

– Ah! Seu %$@#%#…

– Boa sorte, tente me alcançar.

Um dia prometeram mudar a forma de se ver o mundo. Num passado pouco distante, viam-se paisagens, montanhas, árvores, nuvens. Hoje se vê o carro da frente, o carro de trás, o carro de um lado e o prédio do outro. Talvez o plano tenha dado certo demais. Segui meu caminho, vaiado por uma multidão de rosnados artificiais. Nem para reclamar esforça-se mais, está tudo ao alcance de um botão. Uma população inteira investe seu tempo para ter exclusividade, e não se dá conta de que tanta exclusividade só pode resultar numa coisa: exclusão. Exclusão da vida, exclusão da natureza, exclusão do corpo e da vontade que nos é própria, exclusão da sabedoria. Trabalhar para não ter trabalho, trabalhar para ostentar o luxo insustentável e autodestruidor, usar a vida para assegurar a morte – esta sim que deve ser tranqüila -, não me parece fazer sentido. Prefiro suar e não incomodar ninguém.

Por Vinícius Leyser da Rosa

Veja também:

Conto para o Dia dos Pais – leia aqui o conto “Não chore, papai”, de Sérgio Faraco.

Conto para o Dia dos Pais

Dançar tango em Porto AlegreO conto abaixo é de autoria do escritor gaúcho Sérgio Faraco e pode ser encontrado no livro “Dançar tango em Porto Alegre e outros contos” (L&PM Pocket, 1998).

Dica obtida no blogue da Ana Mariano.

Não chore, papai

Embora você proibisse, tínhamos combinado: depois da sesta iríamos ao rio e a bicicleta já estava no corredor que ia dar na rua. Era uma Birmingham que Tia Gioconda comprara em São Paulo e enlouquecia os piás da vizinhança, que a pediam para andar na praça e depois, agradecidos, me presenteavam com estampas do Sabonete Eucalol.

Na hora da sesta nossa rua era como as ruas de uma cidade morta. Os raros automóveis pareciam sestear também, à sombra dos cinamomos, e nenhum vivente se expunha ao fogo das calçadas. Às vezes passava chiando uma carroça e então alguém, querendo, podia pensar: como é triste a vida de cavalo.

Em casa a sesta era completa, o cachorro sesteava, o gato, sesteavam as galinhas nos cantos sombrios do galinheiro. Mariozinho e eu, você mandava, sesteávamos também, mas naquela tarde a obediência era fingida.

Longe, longíssimo era o rio, para alcançá-lo era preciso atravessar a cidade, o subúrbio e um descampado de perigosa solidão. Mas o que e a quem temeríamos, se tínhamos a Birmingham? Era a melhor bicicleta do mundo, macia de pedalar coxilha acima e como dava gosto de ouvir, nos lançantes, o delicado sussurro da catraca!

Tínhamos a Birmingham, mas era a primeira vez que, no rio, não tínhamos você, por isso redobrei os cuidados com o mano. Fiz com que sentasse na areia para juntar seixos e conchinhas e enquanto isso, eu, que era maior e tinha pernas compridas, entrava n’água até o peito e me segurava no pilar da ponte ferroviária.

Estava nu e ali mesmo me deixei ficar, a fruir cada minuto, cada segundo daquela mansa liberdade, vendo o rio como jamais o vira, tão amável e bonito como teriam sido, quem sabe, os rios do Paraíso. E era muito bom saber que ele ia dar num grande rio e este num maior ainda, e que as mesmas águas, dando no mar, iam banhar terras distantes, tão distantes que nem a Tia Gioconda conhecia.

Eu viajava nessas águas e cada porto era uma estampa do cheiroso sabonete.

Senhores passageiros, este é o Taj Mahal, na Índia, e vejam a Catedral de Notre Dame na capital da França, a Esfinge do Egito, o Partenon da Grécia e esta, senhores passageiros, é a Grande Muralha da China – isso sem falar nas antigas maravilhas, entre elas a que eu mais admirava, os Jardins Suspensos que Nabucodonosor mandara fazer para sua amada, a filha de Ciáxares, que desafeita ao pó da Babilônia vivia nostálgica das verduras da Média.

E me prometia viajar de verdade, um dia, quando crescesse, e levar meu irmãozinho para que não se tornasse, ai que pena, mais um cavalo nas ruas da cidade morta, e então vi no alto do barranco você e seu Austin.

Comecei a voltar e perdi o pé e nadei tão furiosamente que, adiante, já braceava no raso e não sabia. Levantei-me, exausto, você estava à minha frente, rubro e com as mãos crispadas.

Mariozinho foi com você no Austin, eu pedalando atrás e adivinhando o outro lado da ventura: aquele rio que parecia vir do Paraíso ia desembocar no Inferno.
Você estacionou o carro e mandou o mano entrar. Pôs-se a amaldiçoar Tia Gioconda e, agarrando a bicicleta, ergueu-a sobre a cabeça e a jogou no chão. Minha Birmingham, gritei. Corri para levantá-la, mas você se interpôs, desapertou o cinto e apontou para a garagem, medonho lugar dos meus corretivos.

Sentado no chão, entre cabeceiras de velhas camas e caixotes de ferragem caseira, esperei que você viesse. Esperei sem medo, nenhum castigo seria mais doloroso do que aquele que você já dera. Mas você não veio. Quem veio foi mamãe, com um copo de leite e um pires de bolachinha-maria. Pediu que comesse e fosse lhe pedir perdão. E passava a mão na minha cabeça, compassiva e triste.

Entrei no quarto. Você estava sentado na cama, com o rosto entre as mãos. “Papai”, e você me olhou como se não me conhecesse ou eu não estivesse ali. “Perdão”, pedi. Você fez que sim com a cabeça e no mesmo instante dei meia-volta, fui recolher minha pobre bicicleta, dizendo a mim mesmo, jurando até, que você podia perdoar quantas vezes quisesse, mas que eu jamais o perdoaria.

Mas não chore, papai.

Quem, em menino, desafeito ao pó de sua cidade, sonhou com os Jardins da Babilônia e outras estampas do Sabonete Eucalol não acha em seu coração lugar para o rancor. Eu jurei em falso. Eu perdoei você.

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